KİP VE KİPLİK İLE İLGİLİ TEORİK YAKLAŞIMLAR
ORHON YAZITLARINDA KİPLİK İFADELERİ
1. Bilgi Kipliği (Epistemic Modality)
Os depoimentos, entrevistas e questionários são procedimentos que adoptamos para a interacção com os sujeitos da pesquisa de forma individualizada. Fizemo-lo reconhecendo o grande desafio que se coloca ao processo de produção de conhecimento em situações de diálogo, nas quais os intervenientes partilham de forma espontânea as suas reflexões, análises e críticas em relação ao objeto de estudo (CAPPELLETTI, 2010; SAUL, 2010).
Szymanski (2010), falando dos desafios da interacção humana no contexto da pesquisa chama atenção para a necessidade de manutenção de um clima de confiabilidade e credibilidade entre o pesquisador e os intervenientes, considerando que,
“Quem entrevista tem informações e procura outras, assim como aquele que é entrevistado também processa um conjunto de conhecimentos e pré- conceitos sobre o entrevistador, organizando as suas respostas para aquela situação” (SZYMANSKI, 2010: 12).
De acordo com a autora, o diálogo implica reciprocidade, trocas humanas, nas quais intervêm vários factores, dentre outros, o conhecimento que se tem do outro, o conhecimento que se tem sobre os assuntos em causa, os sentimentos, as relações de poder. No contexto da pesquisa, as relações de poder devem estabelecer-se num clima de “horizontalidade ou igualdade”, reconhecendo o valor da participação de cada um. Por um lado, o pesquisador elege a questão de estudo, escolhe os intervenientes e cria as situações de interacção e, por outro,
“O entrevistado, ao aceitar o convite para participar da pesquisa, está aceitando os interesses de quem está fazendo a pesquisa, ao mesmo tempo em que descobre ser dono de um conhecimento importante para o outro” (SZYMANSKI, 2010: 13).
No caso deste estudo, o desafio da manutenção da confiabilidade e da credibilidade foi reduzido pelo conhecimento mútuo entre mim, como pesquisadora84, e os intervenientes, e por conversas prévias de esclarecimento.
Todos os sujeitos desta pesquisa já tiveram algum contacto anterior comigo, enquanto pesquisadora, em encontros de discussão sobre o currículo do ISAP; coordenando o envio de funcionários para frequência de cursos no ISAP; interagindo no contexto de frequência do curso CPSAP; interagindo para desenhar e oferecer programas específicos de formação de funcionários de alguns sectores.
Essa convivência anterior, porque se tinha desenvolvido com atenção às relações de poder, reforçou as possibilidades de, no contexto desta pesquisa, haver um clima favorável à confiança mútua e ao diálogo, num processo reflexivo de intercâmbio de significados, crenças e valores85.
84 Fui membro da Comissão Instaladora do ISAP e, desde a sua criação em 2004, trabalho nessa
instituição.
85
Afetar e ser afetado é condição inerente às interações humanas e a situação de entrevista não escapa dessa codição (ALMEIDA e SZIYMANSKI, 2010).
Encontramos o exemplo mais interessante de expressão de confiança no sujeito D/MF/01, que no início da conversa recusa-se a ouvir a pergunta introdutória por considerar que a comunicação inicial foi suficiente para ele saber o que eu, enquanto pesquisadora, queria. Por isso, interrompe a tentativa de introdução da conversa:
Não é preciso, não é preciso, já sei o que queres dizer... Depois é que me fazes mais perguntas (D/MF/01).
A promessa de responder às perguntas no final do depoimento parece ser sinal de reconhecimento de que a sua memória pode não trazer toda a informação necessária, o que se confirma no final da intervenção e na introdução da resposta a uma das perguntas:
[...] pronto, é tudo o que eu tinha a dizer. Não me lembro de mais nada. Agora podes começar a fazer as perguntas (D/MF/01).
Esse foi um ponto que eu me esqueci [...] (D/MF/01).
Numa atitude reflexiva, nos depoimentos, nas entrevistas e nas respostas às perguntas do questionário, os sujeitos narraram as suas experiências, reconhecendo nelas o valor da sua acção e a sua responsabilidade como actores do processo contínuo de construção do currículo de formação profissional superior em administração pública, o que nos faz lembrar Ricoeur (2006), falando sobre a ipseidade86, ou seja, a consciência reflexiva de si mesmo, como implicada no processo de reconhecimento da responsabilidade e da capacidade do sujeito que age, de fazer acontecer coisas no ambiente físico e social.
Nos dados obtidos, o uso recorrente da primeira pessoa, ora no singular ora no plural, que caracteriza as narrações dos sujeitos é a principal marca dessa reflexividade.
Eu desde que iniciei o meu trabalho no governo após a independência, à semelhança do que aconteceu em todos os sectores, tive como preocupação a formação [...] um dia, dei uma entrevista e disse: “temos que criar uma formação de ensino superior em administração pública” (D/MF/01).
Aí quem jogou um papel central não fui eu, foi o Presidente Chissano87 [...] uma coisa que também me ajudou muito é que eu tinha alguém que desenvolvia apaixonadamente a ideia da formação em administração pública... Era o Óscar Monteiro (D/MF/02).
Na altura estive lá como director (D/MF/03).
86 Segundo Ricoeur (2006), a ipseidade é irredutível à mesmidade.
As nossas aulas são interactivas, por isso, privilegiamos o debate de ideias em que os estudantes trazem para aula experiências de diferentes sectores
(Q/F/CPSAP2/03).
A mensagem que nós temos passado é que cada um de nós, funcionários públicos, no seu nível e no seu local de trabalho, deve passar esta mensagem e deve fazer com que estas coisas aconteçam (Q/ND/02).
Para mim, o curso foi mais um incentivo para continuar a estudar
(Q/E/CASAP2/03-8).
Essa é a experiência que eu vivi (E/SH/03).
Esses excertos são ilustrativos de que a narração das experiências vivenciadas no processo de estabelecimento do ISAP foi um processo reflexivo de “narrar-se”, no qual, a identidade pessoal dos sujeitos se projeta como “identidade da narrativa”, assumindo as consequências dos seus actos, ao mesmo tempo em que reconhecem que a sua acção se integra num contexto mais amplo de acções colectivas que afectam a sociedade (RICOEUR, 2006).
Ao “narrar-se”, os sujeitos confirmam que é difícil delimitar as acções de várias pessoas, por serem sobrepostas. “É preciso então remeter-se à admissão do sujeito que age, tomando para si e assumindo a iniciativa na qual se efetua o poder de agir de que ele se sente capaz” (RICOEUR, 2006: 114).
Adoptamos procedimentos de recolha de dados que promovam a interacção reflexiva entre o pesquisador e os sujeitos, conscientes da complexidade que tal percurso de pesquisa implica. Foi em Ricoeur (2006) que tomamos maior consciência sobre o desafio que assumimos ao buscar a compreensão do currículo do curso CPSAP confrontando dados contidos nas narrativas dos sujeitos sobre experiências por eles vivenciadas:
“Ao mesmo tempo em que é confrontada à diversidade interna suscitada pelas intermitências do coração, a ipseidade própria da promessa também será confrontada, em razão de sua dimensão intersubjetiva, a um outro tipo de diversidade, uma diversidade exterior [...] que consiste na pluralidade humana” (RICOEUR, 2006: 135).
Os sujeitos também parecem conscientes dessa complexidade marcando as suas reflexões com expressões que demarcam a possibilidade de existirem opiniões diferentes e admitindo a “traição da memória”.
Eu acredito que sim [...] se a memória não me trai [...] (E/ND/01).
Provavelmente as pessoas novas que forem ler este meu depoimento podem pensar [que é] saudosismo [...] mas eu acho que eram pequenas coisas que
fazem diferença (E/ND/02).
Acreditamos que o reconhecimento da complexidade dos procedimentos de pesquisa que adoptamos nos ajudou a obter dados que reflectem os diferentes sentidos dos sujeitos envolvidos, não como verdades absolutas, mas como possíveis interpretações visando a compreensão do currículo do curso CPSAP e da formação profissional em administração pública em Moçambique.
A compreensão de uma realidade a partir da representação, no presente, de uma experiência vivenciada implica na rememoração do passado que é, simultaneamente, retrospectiva e prospectiva, numa situação em que “sua oposição e sua complementaridade dão uma amplitudade temporal ao reconhecimento de si, fundado ao mesmo tempo em uma história de vida e em compromisso de futuro de longa duração” (RICOEUR, 2006: 138).
A seguir, descrevemos cada um dos três procedimentos que adoptamos para a interacção com os diversos grupos dos sujeitos da pesquisa, nomeadamente, o depoimento, a entrevista e o questionário.
Depoimento
Prestaram depoimento os quatro sujeitos que integram o grupo de fundadores do ISAP, numa situação em que solicitamos que falassem livremente, em um máximo de trinta minutos, sobre as razões que ditaram a criação do ISAP.
Esse procedimento foi escolhido tomando em conta a exiguidade de trabalhos publicados que reflictam o pensamento, as certezas e incertezas, até mesmo as contradições que se geraram no processo de concepção do curso que é objeto de pesquisa.
Para desencadear o depoimento, primeiro foi explicada a finalidade da pesquisa e levantadas duas questões motivadoras:
₋ Como nasceu a ideia do ISAP e do curso CPSAP?
₋ Como foi o processo inicial de construção do ISAP e desse curso?
Como se vê, as perguntas colocadas para desencadear o depoimento orientam para a reconstrução da memória dos sujeitos sobre o ISAP e o curso CPSAP, numa
perspectiva histórica, reconhecendo que eles já não têm nenhuma influência directa no ISAP, como prova a afirmação de um dos sujeitos.
É o que posso dizer em relação às premissas que orientaram o nascimento do ISAP... Eu sei que mais tarde as coisas mudaram... Eu já não tenho muita informação acerca disso (D/MF/04).
Assim o fizemos por acreditar que a recuperação dessa informação histórica nos ajuda a uma melhor compreensão das perspectivas dos sujeitos da pesquisa sobre os resultados do curso.
Embora tivesse sido combinado o tempo máximo de duração do depoimento, na prática, não houve preocupação pelo controle do tempo e, no final de uma narração livre da experiência vivenciada pelo sujeito, como pesquisadora, coloquei questões para clarificar algumas dúvidas suscitadas pelo depoimento e ampliar algumas informações. O tempo total de gravação dos quatro depoimentos é de aproximadamente três horas. O depoimento de dois dos sujeitos durou cerca de uma hora cada, enquanto que os outros dois respeitaram os trinta minutos combinados.
Questionários e entrevistas
À excepção dos membros fundadores do ISAP, todos os outros grupos de sujeitos responderam a um questionário com perguntas diferenciadas, conforme o grupo a que pertencem. As perguntas colocadas nos questionários são essencialmente abertas.
Os três formadores do “núcleo duro” e três superiores hierárquicos, além de terem respondido às perguntas do questionário participaram numa conversa comigo, enquanto investigadora, orientada por um guião de entrevista. As entrevistas foram gravadas em suporte sonoro com uma duração total de cerca de quatro horas, correspondendo a uma média de aproximadamente 40 minutos cada entrevista.
Tal como no depoimento, a entrevista foi adoptada por ser um procedimento de pesquisa que permite maior espontaneidade e a possibilidade de, durante o diálogo, o entrevistado poder reflectir com maior profundidade. A entrevista também oferece ao pesquisador a possibilidade de reformular as perguntas dirigidas ao interveniente, mantendo o foco do diálogo aos objetivos da pesquisa (SZYMANSKI, 2010).
A seguir, apresentamos os instrumentos usados, conforme os grupos de intervenientes:
Questionário e entrevista aos formadores do “núcleo duro” do ISAP
As perguntas dirigidas aos formadores do “núcleo duro” foram organizadas em quatro partes:
₋ Identificação – nessa parte o formador do “núcleo duro” recorda o período da sua entrada ao ISAP e a sua experiência anterior de atividades e vivências em que esteve envolvido;
₋ Expectativa do formador em relação ao ISAP e ao curso CPSAP – nesse tópico, o formador do “núcleo duro” é convidado a uma reflexão sobre as motivações que o levaram a aderir ao ISAP e sobre a sua expectativa em relação ao sucesso do curso CPSAP;
₋ Articulação entre o ISAP e o sector público – dado que o ISAP forma funcionários do Estado, e sabendo que faz parte da sua estratégia de formação a permanente articulação com o sector público, o formador é convidado a reflectir sobre as oportunidades que teve, no contexto dessa articulação, e sobre os limites e os ganhos da aplicação dessa estratégia; ₋ Opinião avaliativa da experiência como formador do ISAP – O conjunto de
perguntas formuladas nesse grupo orienta para uma reflexão sobre o processo de formação, identificando os aspectos positivos e negativos nas várias fases do desenvolvimento curricular do ISAP.
O questionário dos formadores do “núcleo duro” termina com um convite para a marcação do dia, local e hora de uma entrevista.
A entrevista serviu para uma reflexão crítica, em situação de diálogo, sobre os resultados da formação oferecida pelo ISAP entre os anos de 2006 e 2009, percebidos pelos formadores do núcleo duro como favoráveis à promoção de mudanças no sector público.
Os tópicos para essa reflexão foram definidos no “Guião de Entrevista” e tinham a ver com:
₋ Avaliação geral dos resultados do curso CPSAP oferecido pelo ISAP, de 2006 a 2009;
₋ Influência dos resultados da formação no trabalho dos funcionários; ₋ Problemas de funcionamento do sector público abordados nas aulas;
₋ Aspectos que reduzem as possibilidades de produção de resultados da formação em administração pública que influenciem mudanças positivas no sector público.
Questionário aos formadores do ISAP
O questionário aos formadores do ISAP tem uma estrutura similar ao questionário aos formadores do “núcleo duro”, diferindo em dois aspectos: aos formadores não se solicitou informação sobre a sua expectativa em relação ao ISAP; e o questionário ao formador inclui perguntas que convidam à reflexão sobre os resultados da formação percebidos como favoráveis à promoção de mudanças no sector público.
Assim, as perguntas do questionário aos formadores do ISAP organizam-se em quatro partes: identificação, limites e ganhos da articulação do ISAP com o sector público, opinião sobre a experiência pessoal como formador; opinião avaliativa sobre o resultado da formação oferecida pelo ISAP no curso CPSAP, de 2006 a 2009.
Questionário aos egressos do ISAP
O questionário aos egressos organiza-se em quatro partes:
₋ Identificação – com perguntas orientadas para a recuperação da informação sobre o perfil de entrada ao curso CPSAP e sobre o processo de seleção;
₋ Opinião avaliativa da experiência como formando do curso CPSAP – nessa parte, as perguntas convidam o sujeito à reflexão sobe as matérias e os eventos que considera mais promissores para o sucesso da sua formação;
₋ Opinião sobre o sucesso ou insucesso da formação oferecida pelo ISAP no curso CPSAP – o conjunto de perguntas colocadas nessa parte convida o egresso do CPSAP a reflectir sobre os resultados da sua formação e a forma como os percebe como favorecendo ou não a promoção de mudanças no sector público.
Questionário e entrevista aos superiores hierárquicos
O grupo dos seis superiores hierárquicos foi dividido em dois subgrupos: um, constituído por três, respondeu às perguntas de avaliação dos resultados da formação em situação de entrevista, enquanto que os outros três fizeram-no no questionário.
O questionário aos superiores hierárquicos na versão (A) foi para aqueles que participaram em entrevista, e organiza-se em quatro partes:
₋ Informação estatística sobre os funcionários da instituição, procurando verificar se os superiores hierárquicos reconhecem a existência de funcionários que frequentaram cursos no ISAP, e sabem em que níveis de funcionamento da instituição se encontram a trabalhar;
₋ Motivação para o envio dos funcionários para formação no curso CPSAP, focalizando os anos 2006 a 2009;
₋ Articulação entre o ISAP e a instituição no contexto da formação dos seus funcionários.
Conforme referimos, depois do preenchimento do questionário, os três superiores hierárquicos que responderam à versão (A) do questionário participaram de uma entrevista, na qual fizeram a reflexão sobre o sucesso ou insucesso da formação oferecida pelo ISAP na promoção de mudanças no sector público.
A versão (B) do questionário aos superiores hierárquicos distingue-se da primeira por incluir as perguntas que para o grupo anterior foram colocadas em situação de entrevista. Por isso, tem cinco partes.
Questionário aos colegas de trabalho dos egressos do curso CPSAP
O questionário os colegas de trabalho dos egressos do curso CPSAP entre os anos de 2006 e 2009, organiza-se em duas partes:
₋ Identificação, para colecta de informação sobre o perfil desses colegas e a relação de trabalho que têm com os egressos;
₋ Opinião avaliativa sobre o sucesso ou insucesso da formação oferecida pelo ISAP no curso CPSAP.
No apêndice, apresentamos as perguntas de cada um dos questionários e os guiões de entrevista.