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IV. BULGULAR

4.5. Biçimsel (Morfolojik) Karşıtlıklara Ait Bulgular

O exercício da presidência do I Congresso Agrícola, Industrial e Comercial de Minas Gerais garantiu a João Pinheiro o ressurgimento na cena pública estadual após os anos dedicados à sua Cerâmica Nacional e, por fim, à Câmara dos Vereadores de Caeté. Embora os estudos específicos originados no âmbito da Comissão Fundamental tenham sido elaborados ao longo de meses, e assinados pelos conselheiros individualmente, pode-se perceber, entre eles, um fio condutor muito claro que, no limite, pode ser tributado a Pinheiro e à suas convicções (naturalmente, tanto por Pinheiro presidir a Comissão como, posteriormente, também o evento).

Em primeiro lugar, esse fio condutor refletia o pensamento e os interesses de uma liderança política que, conforme apontado anteriormente, havia maturado seus anseios e argumentos tanto na esfera pública quanto na privada,58 mas que, além disso, havia percebido a importância de se pactuar, com as partes interessadas, cada etapa e cada aspecto do acordo que se pretendia esboçar. Isso era claro, nos parece, em relação à questão política que, conforme se abordou, teve desdobramento competente por meio da habilidade de Francisco Sales; mas, também se mostrava nítida a necessidade de se estender o pacto político ao campo econômico. O I CAIC, que era a construção econômica perremista, era também a confirmação do pacto de interesses entre as classes conservadoras mineiras. Parecia claro para Pinheiro que o Congresso somente cumpriria seu papel a partir de então se fosse compreendida a necessidade de articulação de forças regionais e, sobretudo, se o fruto do evento fosse a agenda a ser laborada por todos, e nunca imposta unilateralmente. Assim que Pinheiro, no discurso proferido na sessão de encerramento do I CAIC, em 20 de maio de 1903, concluísse que

A visão da grandeza e riqueza da terra de Minas Gerais se fez ao mesmo tempo que a das altas qualidades morais de seus filhos, aconselhando e sendo aconselhados, ensinando e ao mesmo tempo aprendendo, governo que se quer dirigir pela opinião, opinião que deseja ser útil ao governo, tal o espetáculo novo, meus senhores, que os mais natos representantes de um povo inteiro

58 Quando de sua candidatura à presidência do estado, no Manifesto-Programa que submete aos eleitores,

em 1906, ao abordar os resultados alcançados pelo I CAIC, lembra que “A confirmação da urgência para

o estabelecimento destas medidas resultou, depois, no exame direto do problema, durante os anos de vida

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ofereceram no discutir dos seus mais graves e desencontrados interesses (...) (Pinheiro, 1903 IN: Barbosa, 1980: 153-154).59

Mas, se o Congresso implicava na reunião desses graves e desencontrados

interesses, havia chegado a um conjunto bem delimitado de conclusões que, por sinal,

respeitava aquilo que a Comissão Fundamental propusera originalmente de sorte que o fio condutor se mantivera relativamente intacto. Ele avaliava, então, que

É nossa a grande opulência natural desta Pátria, é nosso este clima para todas as produções, é nossa a exuberante terra brasileira; mas em mãos

estranhas estão a exportação das nossas riquezas, a importação do que não temos querido produzir, a regularização do nosso crédito, a exploração do alto comércio internacional, estando condenados em nome de uma liberdade comercial absurda a sermos um povo pobre no seio da mais rica das pátrias (Pinheiro, 1903 IN: Barbosa, 1980:155 – grifo nosso).

Ali estavam, no discurso de encerramento do evento, as conclusões que Pinheiro já possuía desde sua Cerâmica Nacional em Caeté: era preciso criar condições para a industrialização por meio de uma política protecionista, era determinante apoiar com crédito a economia, era fundamental manter em mãos de brasileiros a exportação da riqueza nativa. O discurso era essencialmente nacionalista tendo claro, também, que deveria desdobrar-se em ação prática efetiva. É por isso que informa que “Para reagir

contra este estado de coisas é que nos reunimos”, bem como por isso supunha que a realização do I Congresso revelava que “o primeiro passo foi dado”. Mas dado na direção do poder público, de modo que concluía que “Está a garantia da execução [da agenda aprovada pelo I CAIC] na sinceridade do Excelentíssimo Senhor Presidente do

Estado, inquirindo-nos para se certificar, certificando-se para agir (...)” (Pinheiro, 1903 IN: Barbosa, 1980:155 – grifo nosso).

Consultadas as classes produtoras, deveria caber ao poder público a ordem da ação uma vez que “A preocupação dos problemas econômicos por parte dos governos,

que desejam a prosperidade de seus países, é a razão mesma dessa prosperidade(Pinheiro, 1905 IN: Barbosa, 1980: 193). Não deixa de ser sugestivo que, dentre os congressistas – sobretudo no que tange àqueles que compuseram a Comissão Fundamental – inexistissem representantes diretos do poder público mas que, quando das conclusões finais produzidas, não tenha cabido essencialmente à iniciativa privada o

59 Três anos depois, quando de sua candidatura à presidência do estado, Pinheiro sublinharia, acerca do

evento, que cento e setenta representantes dos mais diversos setores da economia mineira se reuniram para “manifestar a sua opinião coletiva” forjando “ideas [que] tem ainda por si razões ponderosas de um caráter generalizado, procurando remediar males a todos patentes” (Ibidem, 192).

82 conjunto principal de medidas por adotar; antes, essa foi responsabilidade dedicada ao Estado.

Era essa, então, a premissa com a qual Pinheiro encerrava o evento que o relançava à vida pública em âmbito regional. Primeiramente, seu retorno ocorre na campanha para o Senado Federal para a vaga aberta pelo falecimento de Carlos Vaz de Melo. No manifesto que remete aos eleitores, em 19 de janeiro de 1905, destaca que

“Retirado, há dez anos, desse cenário brilhante e difícil no modesto recanto mineiro, onde vim estabelecer a minha tenda de trabalho, supunha encerrado para mim o período da vida pública, além das fronteiras do pobre município” (Pinheiro, 1905 IN:

Barbosa, 1980:167). Resume, então, o quadro de disputas característico do início do período republicano, destaca o crescimento das dificuldades de ordem material, sublinha as necessidades de enfrentamento do problema econômico, resenha os congressos agrícolas e industriais nos estados, e destaca enfim, tratando ainda do I CAIC que “Entre as mais notáveis reuniões de produtores, está a que se realizou, na Capital

Mineira, em maio do ano passado” (Ibidem, p. 167). Discorre, então, sobre os principais predicados do evento e acerca de suas conclusões, sublinhando definitivamente que o evento “indica e anuncia a promissora mudança da nefasta e

deprimente política de pessoas pela fecunda e nobilitante política de coisas” (Ibidem).

É, portanto, em nome de um programa específico que aceita retornar; um programa voltado a “incrementar a produção interna, que não se pode resumir, como

até aqui, no café, na borracha e no mate”.60 É em nome disso que Pinheiro se

apresenta, com o centro de sua preocupação na questão do protecionismo industrial, ressaltando que “É a este pensamento que julgo dever a honra da indicação de meu

nome, a qual aceito dentro destes precisos limites” (Ibidem). Para Pinheiro parecia claro que sua campanha, e sua eleição ao Senado Federal, o colocariam como articulador privilegiado daquela agenda que, como presidente do evento, ele consagrou.61

60 De acordo com Dulci (2005; 1999) e Machado (2010), no governo de Minas Pinheiro dedicar-se-á

essencialmente à questão da modernização agrícola e à diversificação produtiva. Deve-se sublinhar, contudo, que esta deve ser uma agenda também pactuada mas depois do I CAIC e, inclusive, depois da campanha ao Senado Federal, uma vez que são demandas determinantes de seu governo, conforme abordar-se-á na sequência mas que não aparecem com a mesma ênfase nas falas de Pinheiro até então.

61 Segundo Dulci (2005: 125), “Sua volta [de Pinheiro] ao Rio de Janeiro, como senador, ensejou a formação do grupo de jovens políticos, de Minas e de outros estados, que ficou conhecido como „Jardim

83 João Pinheiro, portanto, no período em tela, representava mais que um político importante. Por todos os seus predicados, e sobretudo pela insistência em configurar suas exigências para voltar à vida pública, Pinheiro personificava o projeto mineiro de desenvolvimento econômico, termo que, conforme anteriormente salientado neste trabalho, tanto ele como Francisco Sales haviam assimilado desde a realização do I CAIC. Por sua capacidade de fornecer identidade e coesão ao projeto, fica mesmo parecendo que ele era de Pinheiro quando, na verdade, representava elemento gestado também por ele, mas notadamente pelo grupo republicano, e especialmente emopiano, que desde o final do século XIX orbitava o poder público mineiro em postos chave de comando ou representação.

A observação atenta ao Manifesto-Programa (documento publicado por Pinheiro em sua campanha à presidência do Estado, em doze de fevereiro de 1906), às suas correspondências coevas, à entrevista concedida ao jornal carioca O Paiz (por conta de sua eleição) e às medidas adotadas em sua abreviada gestão; e o cotejamento desta documentação com o que se produziu em matéria de reflexão sobre o processo econômico mineiro e brasileiro por Henri Gorceix e por seus alunos e ex-alunos

emopianosrevela um conjunto de interpretações e projetos que, necessariamente,

dialogam de forma bastante nítida e profícua. Isso não significa que a EMOP foi, sozinha, a gestora de um processo de desenvolvimento regional, mas também não autoriza compreender Pinheiro como um elemento de vanguarda no tocante ao desenvolvimento mineiro – como ocorre, inclusive, em muitos dos trabalhos dedicados à personagem. Implica destacar, contudo, que a inserção construída forçosamente pelos engenheiros emopianos, seja no espaço de atuação do poder público seja no que tange ao lócus central das classes conservadoras, foi bem sucedida e contou com um bacharel para se efetivar no caso de Minas Gerais.

De um modo geral, a eleição de Pinheiro para a presidência do estado em substituição a Francisco Sales era tida por certa já quando de sua escolha para o Senado Federal.62 João Pinheiro encampava, como candidato, e posteriormente, como

da Infância‟. Esse grupo de ideas renovadoras começou a se reunir em torno de João Pinheiro e Carlos Peixoto, outro jovem político mineiro de prestígio. Embora fugaz, o „Jardim da Infância‟ exerceu considerável influência nos anos seguintes, constituindo um dos pilares do governo de Afonso Pena”.

62 Mendes Pimentel, por exemplo, ao felicitá-lo pela candidatura ao Senado, não hesitou em chamá-lo de

84 presidente do Estado, uma perspectiva que, de acordo com Dulci (2005), não era apenas mineira mas que, na verdade, apresentava-se e pressupunha-se nacional. Assim que, ao submeter o manifesto-programa aos eleitores mineiros, após uma longa introdução em que discorria sobre o movimento republicano, sua importância para Minas e a contribuição do estado para o movimento no país, chegava, enfim, ao seu ponto central: o fator econômico. Considerava, em seu Manifesto, que “Cuidar, pois, dos interesses

materiais da Pátria é um dever imperioso, imposto pelo instinto da própria conservação” (Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980: 180). E, por isso, não falava da crise

econômica especificamente mineira, ou de suas formas imediatas de superação; antes, ponderava que

O problema econômico brasileiro não é, conseguintemente, como muitos pensam, uma destas ideas políticas passageiras (...). Corresponde à solução de necessidades aflitivas, à ânsia de progresso, tendo sido posto, para ser resolvido, pelas próprias condições atuais da vida nacional.

Ele não depende somente, como a alguns parece, da exclusiva decretação das tarifas protecionistas. (...)

Com a decretação do protecionismo alfandegário, deve coincidir, necessariamente, a de outras medidas, visando promover e estimular, diretamente, a produção no interior do País. (Ibidem)

Pinheiro não fala apenas de Minas, mas do Brasil. E fala em um projeto nacional dedicado à recuperação econômica, que no limite, era muito mais complexo que o jogo tributário que a tarifação alfandegária permitiria. As medidas em questão, ao lado do protecionismo alfandegário, são pró-ativas; relacionam-se ao trabalho de mapear os entraves e construir as soluções ideais, por meio preferencialmente do apoio efetivo, ativo e vertical do poder público, sempre. Para Pinheiro, o programa econômico brasileiro não poderia prescindir de soluções como

O estudo do solo, os prêmios de animação, o estímulo da iniciativa particular, solicitada por todos os modos, a educação técnica, o abaixamento das tarifas ferroviárias, a emulação no trabalho, as estatísticas exatas, a criação de estabelecimentos-modelos, as exposições periódicas agrícolas e industriais – eis as medidas que devem ser decretadas como condições indispensáveis de êxito. (Ibidem)

Também é necessário destacar que, na leitura empreendida por Pinheiro do processo de recobramento econômico nacional, chama a atenção do observador à consideração acerca das contemporâneas relações internacionais, uma vez que “Os

povos modernos progridem rapidamente, alguns vertiginosamente, e a fatalidade deste progresso impele-os ao imperialismo, no qual as nações fracas serão irremediavelmente sacrificadas” (Ibidem, 179 – grifo no original). Argumento citado

85 parcimoniosamente por Pinheiro, poderia muito bem ser utilizado por analogia ao caso mineiro que, em situação de atraso relativo em relação às demais regiões, poderia sucumbir como elo mais fraco da corrente do crescimento econômico brasileiro.63

Eleito para a presidência de Minas Gerais, em 1906, Pinheiro resume sua principal preocupação em entrevista realizada quando de sua posse ressaltando que “O

meu pensamento capital, você o sabe, é a organização econômica” sublinhando,

contudo, que, no que tange ao tema, “(...) o fato principal para mim não é a questão

industrial, mas a questão agrícola, e dentro desta o desenvolvimento da pequena agricultura” (Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980: 201). Nesse sentido, a gestão de

Pinheiro pode ser sintetizada pela dedicação ao processo de modernização agrícola (por meio da valorização do incremento tecnológico na produção e, notadamente, ao papel de relevo que adquire o ensino técnico), o aparato dedicado à política de colonização de Minas Gerais e, especialmente, a uma agenda de diversificação da produção agrícola decorrente da crise da especialização cafeeira originada no final do século XIX.

De acordo com Pinheiro, esta não era uma opção ideológica mas, na verdade, uma escolha relativa ao quadro contemporâneo – a agricultura era a principal responsável pelo produto da economia mineira, única capaz então de gerar os empregos necessários e os recursos esperados para a recuperação da economia estadual. Caberia, portanto, ao poder público, intervir diretamente nesse sentido – sem contudo fazer as vezes da iniciativa privada,64 mas municiando-a quando necessário; único meio de fortalecê-la mas, também, de evitar a falência do próprio estado, de sorte que na primeira mensagem que remete aos deputados mineiros, em 1907, Pinheiro considere que, não havendo como reduzir os gastos públicos nem como aumentar impostos,

(...) o único remédio natural, pronto, definitivo, é o aumento da produção,

facilitada por todos os modos, desde o seu ensino direto, desde a

importação de instrumentos necessários e de fertilizantes, cedidos aos

63 O que, aliás, conforme se abordará nos capítulos seguintes, comporá parte importante do discurso

mobilizador das elites regionais em prol da união de interesses pelo desenvolvimento regional.

64 De acordo com Dulci (2005: 130), o projeto de diversificação produtiva conferia grande importância ao

empreendedor privado. “Implícito nessa valorização da iniciativa particular estava o ideal de um

capitalismo burguês. Todavia, as condições para atingi-lo teriam que ser geradas politicamente, de cima para baixo, em virtude da debilidade das bases vigentes da acumulação (...). Ao Estado, portanto, era reservada uma esfera de atuação muito maior do que aquela admitida pelo liberalismo canônico. Não se cogitava, por certo, da montagem de um setor produtivo estatal. A função econômica do Estado, nesse contexto, era a de coordenar os agentes privados, apoiando-os em suas atividades e dirigindo-os para os objetivos modernizantes que se tinham em vista”.

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compradores pelo preço de custo, até a assistência, por parte do Governo, para a colocação dos produtos.

Não se objete que não é essa a função normal do Estado; (...)

Desde que não há iniciativa particular, e é força acordá-la, cumpre à ação

administrativa intervir no problema, estabelecendo as condições, para isso,

indispensáveis. (Pinheiro, J. MPEMG, 1907: 23-24 – grifo nosso).

Mas seria imprudente descartar, no que concerne à gestão de Pinheiro e à sua contribuição pública, as preocupações demonstradas em outras áreas que não a agrícola. É fato que ela foi determinante na medida e proporção em que também emergiram, com ênfase, questões relativas sobretudo ao ensino técnico e à produção industrial mineira, essencialmente aquela ligada à mineração. O fato de a opção preferencial ser agrícola não diminui, nesse sentido, a relevância dos demais temas abordados, conquanto caracterize com nitidez a delimitação de um escopo de atuação do poder público no período. Nesse sentido, cabe destacar aqui o posicionamento de Pinheiro sobre a política industrial ligada à mineração e ao ensino técnico e profissionalizante que, por sinal, não se restringia à técnica agrícola.

A questão do ensino técnico e profissionalizante é presença definitiva nos argumentos de João Pinheiro, bem como o era nas falas dos representantes das classes

produtoras vinculadas aos debates do I CAIC. Assim que, por exemplo, Carlos Pereira

de Sá Fortes discorresse longamente, no que tangia ao desenvolvimento da pecuária e da indústria a ela concernente, sobre a pertinência e a urgência de se estabelecer o ensino técnico, que deveria ser organizado sob a articulação tanto da teoria como da prática. Argumentava, nesse sentido, que “Instrução e produção são os fatores da riqueza e da

grandeza física e moral de um povo”, para concluir, que “querer ou acreditar que um

povo possa progredir e engrandecer-se sem as luzes da ciência é um disparate” (Sá Fortes, 1903: 186 apud Machado, 2010: 79-80). Segundo Faria (1992), inclusive, essa valorização do ensino técnico e profissionalizante foi elemento capital em Minas Gerais no processo de modernização agrícola que, em menor ou maior proporção ao longo das décadas e dos governos mineiros da primeira metade do século XX, buscou-se encampar regionalmente – notadamente em duas fases: a primeira dedicada à preparação do trabalhador e a segunda destinada à conformação de quadros técnicos para dirigir o processo (momento em que a criação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa é parte determinante).

Para João Pinheiro, desde o I CAIC até seu governo, a preocupação com o ensino técnico foi uma constante – e não somente para o desenvolvimento agropecuário.

87 Antes, Pinheiro sublinhava sempre sua preocupação com um ensino técnico- profissionalizante que articulasse prática e teoria e que se dedicasse tanto à formação do trabalhador (engendrando uma moral pelo trabalho, na medida em que forjava uma consciência ordeira e pacata no proletariado em formação) como à dos quadros técnicos aptos a refletir sobre e implantar as transformações nascidas do processo científico. Para Pinheiro, a prática era determinante, uma vez que “nosso mal tem sido o excesso de

teoria”; para o setor agropecuário, então, deveriam existir as escolas secundárias mantidas pelo estado e, pela União, deveriam se constituir cursos técnicos superiores, ligados às Escolas de Engenharia onde “mesmo o ensino precisava revestir-se de uma

forma mais prática, como na Alemanha” (Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980: 208). Pinheiro também defendia que esse ensino técnico e profissionalizante fosse revestido de apoio àqueles que necessitassem de auxílio para o estudo. Provavelmente pesava, nessa avaliação, o legado de dificuldades cevado ao longo dos anos de orfandade – o que perfazia o traço de self made man que parte da historiografia lhe confere – concluindo que

(...) justamente por que a instrução é um fato capital, entendo que se deve a proteção à inteligência. Será um dos pontos do meu governo a educação dos rapazes pobres que revelam inteligência e aptidão, principalmente os que se destacarem nas escolas técnicas. Será isso um prêmio de seleção: e assim o distinguido na escola primária será mandado para a técnica secundária, do mesmo modo que desta poderão ir, à custa do Estado, estudar nas Faculdades superiores, na América e na Europa (Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980: 209).

Conquanto essa postura de Pinheiro possa ser relacionada à sua história de vida, não obstante represente traço absolutamente significativo pelo fato de ser sustentada por representante das classes conservadoras ao assumir o mais importante posto público do Estado naquele momento, e embora esteja plenamente de acordo com aquilo que o I CAIC e seus conselheiros haviam postulado poucos anos antes, não se pode acreditar que tal proposta ou interpretação fosse inédita em Minas Gerais. Pelo contrário, no tocante ao ensino técnico e temas correlatos, elas estavam todas presentes de forma clara e direta ao longo do último quartel do século XIX no estado. E elas provinham da Escola de Minas e, mais objetivamente, de Claude Henri Gorceix.

Gorceix foi um defensor radical da instrução prática, que aliasse tanto uma boa formação teórica com outra, permeada pela pesquisa e pelos trabalhos de campo.

Benzer Belgeler