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2.5. Anlam

2.5.4. Zıt (Karşıt, Ters) Anlamlılık

2.5.4.1.5. Biçimsel (Morfolojik) Karşıtlıklar

Umas das primeiras medidas de Francisco Sales ao assumir a presidência do estado de Minas Gerais, em 1902, foi lançar luz sobre a grave crise econômica que se arrastava, regionalmente, ao menos desde 1897. Em sua primeira mensagem enviada ao Congresso Mineiro, logo na introdução, Sales ressaltava que

O interesse, que sempre desperta a reunião do Congresso, assume, no momento, excepcional importância pela multiplicidade dos assuntos que solicitam vossa esclarecida atenção, quer referentes à situação financeira do

nosso Estado, quer relativos à ordem econômica, que reclama solicitude especial dos poderes públicos. (Sales, MPEMG, 1903: 06 – grifo nosso)

É fato que a percepção de crise econômica e de atraso relativo da economia de Minas Gerais não era necessariamente algo recente ou, essencialmente, fruto da aguda avaliação do então presidente do estado. Antes, de acordo com Maxwell (1978), ainda no período colonial a ideia de perda de substância mobilizava as atenções na capitania de Minas Gerais, e mesmo no Império ela parecia sempre representar uma noção mobilizadora, de sorte que em periódico de Ouro Preto se poderia ler, em 1870, que “Minas era, na verdade, uma filha deserdada em benefício das irmãs mais felizes” (Noticiador de Minas, 26/08/1870 apud Menezes, 2005). A construção de um discurso relacionado ao atraso relativo da economia regional, sempre demarcado por uma espoliação determinada por agente externo era, portanto, um mote de longa data que, provavelmente, teve desenvolvimento especialmente a partir do processo de decadência da mineração do ouro no século XVIII e de conseqüente ruralização da região, no século XIX.

Em nenhum outro momento, contudo, este argumento foi tão bem articulado e reproduzido como na república – e não apenas em seu início, conforme se procura abordar na segunda parte deste trabalho. A ideia de uma economia decadente, em crise, sendo usurpada por agente externo, foi determinante para a consolidação de uma agenda regional, notadamente a partir do início do século XX, e cumpria um papel tanto essencialmente econômico como também determinantemente político, servindo seja para consumo interno como, inclusive, para consumo externo. Observemos, primeiramente, o plano político.

73 Francisco Sales elegeu-se em substituição a Silviano Brandão que, eleito vice- presidente da república na chapa de Rodrigues Alves, não chegou sequer a assumir, tendo falecido pouco após o pleito. Sua eleição denota tentativa de conciliar os variados interesses que orbitavam o Partido Republicano Mineiro (PRM) na virada do século XIX para o XX.

Segundo Barbosa (1990: 50), o PRM havia se consolidado como força hegemônica da política mineira em 1898, quando após quase uma década, conseguira construir um desenho em que as principais forças regionais pudessem ter poder dentro da estrutura partidária. A costura política da república em Minas foi muito delicada. Sendo o maior estado da federação que emergia do pacto republicano, contando com o maior número de deputados justamente por isso, Minas possuía força no plano federal conquanto fosse internamente completamente dividida, seguindo a mesma lógica que, ao longo do Império, promoveu inúmeras ameaças separatistas à sua estrutura político- administrativa e ao seu território.

A perda de substância econômica, nesse sentido, implicava também um enfraquecimento político efetivo, que se configurava internamente na divisão entre grupos mas que, no limite, tenderia a expor uma ruptura cuja tendência seria fragilizar definitivamente o estado no plano federal. Silviano Brandão, nesse sentido, representava um dos setores que havia se articulado no Partido Republicano Mineiro, mesmo que com muita dificuldade, representando o sul de Minas. Seus principais adversários eram aqueles que, a partir de Barbacena e arredores, apoiavam o retorno à presidência do Estado do ex-presidente Bias Fortes e aqueles vinculados ao também ex-presidente Cesário Alvim. Eram, então, os biistas versus os silvianistas ou, depois da morte de Silviano Brandão, os viuvinhas – conforme já se apresentou anteriormente neste trabalho.

É importante ressaltar, também, que a disputa política não passava ao largo das diferenças econômicas entre regiões mais ou menos ligadas ao café, à mineração ou à subsistência. Eram muitas as minas, parafraseando Guimarães Rosa, de sorte que eram também muitos e variados os interesses econômicos dentro do mosaico mineiro.

Francisco Sales, nesse sentido, depreciativamente apelidado de Chico Cebola – dada sua cultura de cebolas em sua fazenda do Capim Branco – foi hábil articulador

74 político conseguindo não apenas acalmar os ânimos como fazer um sucessor que não pertencia a uma ou outra corrente; antes, faz de João Pinheiro aquele que o sucederá.

Nesse sentido, o argumento da perda de substância, do atraso relativo enfim, ganha enorme peso político, pois configura necessidade inexorável a compelir as forças políticas litigantes então. Cumpria-se assim, por conseguinte, a necessidade de se cimentar uma união mesmo que forçada entre os elos políticos regionais, de modo que com isso se constrangessem tanto as disputas econômicas internas mais específicas como se sanassem as rupturas que engendravam, desde o Império, as tentativas separatistas. O discurso do atraso de Minas, e de sua consequente espoliação, constituía uma identidade política definitiva ao PRM que, ao emergir do acordo estabelecido por Francisco Sales, tendia a consolidar a imagem do político de Minas que, assim como o mineiro das Minas da terra (para utilizar classificação apresentada por Carvalho, 2005), era conciliador e prudente.

É desse modo, também, que ganha contornos econômicos precisos a ideia do atraso: tornava-se necessária sua suplantação de forma definitiva, dada a crise instalada e a estagnação econômica. Mostrava-se urgente, então, mobilizar as forças regionais que, unidas – e somente unidas – poderiam romper com a situação de atraso econômico e promover o progresso material da região.

O I Congresso Agrícola, Industrial e Comercial de Minas Gerais (I CAIC) só pode ser compreendido a partir dessa perspectiva que alia um problema econômico real (crise cafeeira do final do século XIX e crescimento moderado e irregular em contraste com o desenvolvimento de outras áreas, como São Paulo) com a mobilização no entorno desse problema decorrente da verticalização do discurso do atraso econômico que, não obstante pudesse ser uma realidade, era ainda mais eminente como ferramenta de mobilização e organização das classes conservadoras. Além disso, dada a sedimentação das forças políticas no edifício perremista – configurando derradeiramente um plano político que organizasse as diferenças pontuais em nome de um projeto comum – tornava-se fundamental estabelecer o plano econômico do Partido. O I CAIC foi, nesse sentido, original e primeiramente o programa econômico do PRM (sobretudo na primeira década do século XX), de sorte que João Pinheiro, em Manifesto-Programa apresentado quando de sua candidatura à presidência do estado, em 1906, concluiria que “O pensamento da reorganização econômica mineira é filho de

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um partido, legítimo pela sua origem, definido pelo seu programa e poderoso pelos seus elementos” (Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980: 191).

Tendo grande relevância no plano interno, portanto, também alcançou significativa relevância no externo. Segundo Dulci (2005:122),

O Congresso teve outro efeito político importante. Em vista da publicidade que se promoveu em torno dele – dentro e fora de Minas –, funcionou como marco de uma estratégia da cúpula política mineira para ganhar espaço no cenário nacional. Na esteira desse movimento, ela alcançaria pela primeira vez a presidência da república, com a candidatura de Afonso Pena, interrompendo doze anos de hegemonia paulista.

Realizado entre os dias 13 e 20 de maio de 1903, em Belo Horizonte, o Congresso foi considerado por Bomeny (1994) como a verdadeira inauguração de Belo Horizonte, dado seu tom festivo e, principalmente, o fato de que era, para muitos representantes de várias regiões do estado, a primeira vez que visitavam a cidade recém- inaugurada. Foi precedido por uma Comissão Fundamental54 que, durante três meses, elaborou teses acerca dos pontos abordados pelo congresso.55 Esses relatórios preparatórios eram publicados no “Minas Gerais”, órgão oficial do governo do estado, provavelmente circulando por todas as regiões de Minas e garantindo a visibilidade das propostas.

Sendo a marca definitiva do retorno de João Pinheiro à vida pública em âmbito estadual (Dulci, 2005), o I CAIC foi convocado por Francisco Sales que, ao informá-lo aos deputados mineiros afirmava que

Compreendendo a gravidade da situação econômica do nosso Estado, que não pôde subtrair-se à avassaladora crise, exaustiva dos elementos de riqueza pública e privada (...) e para que pudesse habilitar-vos com elementos seguros de informação, para tomar as medidas tendentes a preparar o nosso

remodelamento econômico, tomei a iniciativa de ouvir diretamente os

interessados, as classes que sentem as necessidades que devem ser atendidas, afim de se pronunciarem sobre as medidas, quer de iniciativa individual, quer dependentes dos poderes públicos, julgadas necessárias para amparar a

54 A Comissão Fundamental, nomeada por Francisco Sales, foi presidida por João Pinheiro e contava com

seis representantes dos setores produtivos: Carlos Pereira de Sá Fortes, pecuarista; José Joaquim Monteiro de Andrade, fazendeiro-banqueiro; João Ribeiro de Oliveira Souza, fazendeiro-banqueiro; Ignácio Burlamaqui, comerciante; Francisco Mascarenhas, industrial; George Chalmers, diretor de mineração (Faria, 1992).

55 “Como resultado dos trabalhos da Comissão Fundamental, foram produzidas teses sobre a agricultura, a pecuária, a indústria, a exploração mineral, o comércio, a legislação fiscal, o ensino agropecuário, os bancos e o comércio exterior. Essas teses foram submetidas à discussão dos congressistas entre os dias 13 e 20 de maio e suas orientações foram incorporadas aos programas do governo Francisco Sales e do governo João Pinheiro” (Machado, 2010:61).

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agricultura e a indústria existentes e fomentar novas fontes de produção. (Francisco Sales, MPEMG, 1903:06-07 – grifo nosso).

Tendo por base os pareceres elaborados pela Comissão Fundamental – e sobretudo a “Exposição da Comissão Fundamental”, documento de 15 de janeiro de 1903 que consolidou os pareceres anteriormente publicados – os comissários (divididos em doze comissões temáticas56) puderam traçar as bases do que, no futuro próximo, deveria representar a agenda de interesses e preocupações e, inclusive, o modus

operandi que se deveria obedecer para se reerguer a economia mineira. É relevante

também sublinhar a importância que se atribuía ao diagnóstico do problema econômico, uma vez que se definia, já pela Comissão fundamental, por meio de três eixos bem claros.

O conhecimento do fenômeno econômico depende, mais do que qualquer outro, da verificação dos seus antecedentes históricos, da justa apreciação dos fatores do momento, e da exata compreensão das forças imanentes

que só esperam impulso audacioso e esclarecido para transformarem uma

atualidade de penúria num futuro de opulência estável (Comissão Fundamental, 1903 apud Machado, 2010: 68 – grifo nosso).

Para a comissão fundamental, portanto, o processo de reconstrução da economia mineira que se procurava constituir por meio do I CAIC não poderia prescindir de uma bem articulada metodologia que contasse com observação do quadro em perspectiva histórica, a elaboração de um diagnóstico do cenário coevo e a delimitação ideal do prognóstico o que, conforme se abordará na segunda parte deste trabalho, também define o mais bem elaborado documento acerca do desenvolvimento econômico de Minas Gerais, o Diagnóstico da Economia Mineira, realizado sessenta e cinco anos depois, em 1968.

O ensino técnico, sobretudo voltado à educação agrícola, foi um dos destaques do evento, conquanto no tocante essencialmente ao remodelamento econômico de Minas, João Pinheiro resumisse em três pontos as conclusões do Congresso.

Prêmios pecuniários de animação para o estímulo da iniciativa particular; auxílio indireto dos poderes públicos para o estabelecimento das sociedades cooperativas de produção, crédito e circulação; e, finalmente, o protecionismo para as mercadorias nacionais produzidas. (João Pinheiro, 1903 apud Dulci, 2005:121).

56 Agricultura, café, pecuária, vinicultura/viticultura, indústria, tecidos/fiação, curtume, mineração/águas

77 Esta agenda será devidamente encampada tanto por Francisco Sales quanto por Pinheiro, que o sucederá na presidência do estado a partir de 1906.57 Tão importante quanto essa agenda, bem como a longa defesa do protecionismo industrial, das cooperativas e do ensino técnico – o que veremos na sequência, ao observarmos a gestão de Pinheiro à frente da presidência do estado – parece ser a contribuição que o I CAIC oferece para que as classes conservadoras de Minas Gerais ressignifiquem sua realidade econômica, gerando, por conseguinte, uma ideia que ultrapassava a noção, então difundida, de progresso. Passava a se falar, então, em desenvolvimento econômico.

Embora Francisco Sales fosse considerado um sujeito sem brilho, de oratória inclusive bastante prejudicada, era tido como articulador brilhante e de grande competência para a redação. Em entrevista concedida por Mendes Pimentel, em 1951, e citada por Barbosa (1990: 52 – grifo nosso), informa-se, por exemplo, que Sales “Redigia muito bem e seus escritos provinham dele e não de seus secretários. Via as

coisas do ponto alto, segundo os interesses do Estado.” Deve-se supor, portanto, que sua mensagem enviada ao Congresso Mineiro, em 1903, tenha sido de fato por ele redigida – ou por ele foi muito cuidadosamente acompanhada – e é interessante notar que, nela, ao concluir a avaliação sobre o I CAIC, Sales afirmasse que

O momento é de ação para a reconstrução; de enérgica iniciativa para os grandes empreendimentos; de esforço combinado de todos os indivíduos, de todas as classes, de todos os poderes, afim de que nos aparelhemos para a luta industrial, e consigamos a vitória econômica, que será a nossa emancipação, segurança da nossa independência, condição de gozo tranqüilo de nossa soberania. (Francisco Sales, MPEMG, 1903: 10).

E assim concluía, oferecendo “à vossa esclarecida apreciação as medidas indicadas e

julgadas necessárias ao desenvolvimento econômico do nosso Estado” (Ibidem: 09 – grifo nosso).

Para Francisco Sales, à medida que o governo federal adotava de forma sistemática medidas de proteção à indústria nacional – dentro, inclusive, da lógica protecionista que o próprio I CAIC tanto defendeu e que tinha nele próprio como em Pinheiro grandes defensores – mas também, ao implantar grandes obras públicas de nítido apoio à industrialização, tornava-se evidente que se compunha um plano voltado

57 Tanto que a lei Nº 363, de 12 de setembro de 1903, é aprovada justamente para oficializar a política

78 ao desenvolvimento econômico, de sorte que relata, na mensagem enviada ao Congresso Mineiro, já em 1904, que

Não nutro a menor dúvida a respeito da nítida compreensão que de tão momentosos assuntos tem os poderes públicos federais, que, animados dos mais patrióticos intuitos e com inquebrantável firmeza, vão executando um plano de medidas, que colimam o desenvolvimento econômico do país. (Francisco Sales, MPEMG, 1904: 85 – grifo nosso)

Cumpre ressaltar, nesse sentido, que o plano de medidas a que se refere Sales não diz respeito apenas à política protecionista; antes, trata objetivamente de obras públicas ligadas ao recobramento da economia, de forma que na sequência, o presidente de Minas concluiria que

Só me cumpre aplaudir sinceramente tão patrióticos empreendimentos, quais são as obras do porto do Rio de Janeiro, que, realizadas, constituem mais poderoso concurso prestado à ordem econômica, ao progresso industrial do Brasil; a organização do crédito agrícola; o saneamento das grandes centros comerciais, como o Rio de Janeiro; o desenvolvimento da viação férrea (...) (Ibidem).

Dois anos mais tarde, em 1906, quando toma posse em substituição a Francisco Sales, João Pinheiro concede entrevista em que, ao discorrer sobre a necessidade de industrialização do Brasil, e de política protecionista estrita que amparasse o processo conclui que

(...) proteger uma indústria não é proteger um indivíduo, é proteger tudo, desde o operário, o empregado de administração, o caixeiro-viajante, todos os que tiram diretamente dela o provento que mais dificilmente teriam se ela não existisse, como todas as atividades que se ligam indiretamente a ela, até o próprio comércio, a quem o homem empregado leva uma quantidade maior de movimento e de lucro.

O Estado tem, por sua vez, o benefício do seu desenvolvimento econômico. (João Pinheiro, 1906 IN: Barbosa, 1980:204).

Esses excertos são importantes pois permitem inferir que a natureza dos debates e das preocupações dos congressistas do I CAIC, moldados pelas preocupações políticas e econômicas específicas do princípio do século XX, mas também essencialmente influenciados por uma agenda na qual os engenheiros e a Escola de Minas buscavam delimitar e se inserir como elementos determinantes, propiciou o amadurecimento da noção de progresso econômico. Não era apenas progredir, crescer, aumentar a produção; antes, era desenvolver, romper o atraso e a espoliação, especialmente por meio daquilo que a Comissão Fundamental do I CAIC determinou como impulso audacioso e

79 desdobramentos coevos e, decisivamente, “transformar uma atualidade de penúria num

futuro de opulência estável.

Parece evidente, entretanto, que a emergência discursiva desses elementos não necessariamente garante a construção de uma agenda que, ao cabo, se possa considerar por desenvolvimentista – conquanto estabeleça um significativo ponto de partida para tal. Deve-se, contudo, observar alguns aspectos específicos relacionados à influência que esse pensamento emergente dos discursos de figuras de escol da sociedade mineira do período exerceu na prática do poder público. E, nesse sentido, infere-se que a curta gestão de João Pinheiro a frente do governo de Minas pode ser o lócus capital para essa avaliação.

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Capítulo 4 – O Governo João Pinheiro: a construção de uma atuação proto-

Benzer Belgeler