2.4. Dil Bilimi
2.4.4. Dil Biliminin Dalları
2.4.4.10. Anlam Bilimi (Semantik)
em Minas
A consolidação de uma instituição como a Escola de Minas de Ouro Preto, na transição do período imperial para o republicano, teve como desafios não apenas justificar os elevados investimentos necessários à suas instalação e manutenção, bem como constituir espaço específico de atuação para uma categoria profissional que se originava, no caso brasileiro, naquele instante. É fato que desde ao menos a década de 1860, por meio dos egressos da Escola Central, havia uma campanha pelo reconhecimento da categoria profissional do engenheiro, notadamente em oposição à ampla aceitação do trabalho do mestre de obras, inclusive nas obras públicas (Coelho, 1999; Diniz, 2002).28 Este reconhecimento pleno da categoria, entretanto, somente foi alcançado a partir de 1933 quando, sob a égide do período varguista, institucionalizou- se a profissão, organizando-se estrutura de Conselhos Federais e Estaduais para nortear os procedimentos e inscrever os diplomados como únicos praticantes legais das ciências da engenharia (Dias, 1994) – assunto detalhado no Capítulo XII deste trabalho.
Deve-se ponderar, portanto, que o início das atividades da Escola de Minas de Ouro Preto não apenas estabelece um corte significativo no tocante ao debate sobre o recobramento econômico regional ou no que tange à própria normatização de uma política de extração e beneficiamento do minério de ferro, manganês ou demais riquezas minerais;29 antes, representa também emergência de espaço para a conformação de novo
28 Deve-se sublinhar, contudo, que essa campanha embrionária não tinha nenhuma relação com a
engenharia de minas que, por sinal, de fato não existia na formação do engenheiro brasileiro. Assim que, por exemplo, torna-se recorrente a reclamação de Gorceix de que seus alunos, ao se formarem, não encontravam espaço para atuar, o que justifica tanto a inserção da cadeira de estrada de ferro e resistência de materiais, instituída na Escola de Minas a partir de reforma curricular de 1881, como forma de minimizar a formação estrita em mineralogia e afins, bem como é digna de nota a campanha empreendida pelo professor para que um ex-aluno seu fosse admitido como professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro (Carvalho, 2002; Barbosa, 2005). Em 1884, por exemplo, escreveria ao presidente de província que “A meu ver todos os engenheiros da escola [de Minas], propriamente dita, devem ter o título de engenheiro da escola de minas de Ouro Preto. Mas, em virtude da instrução que ai recebem, devem gozar de todos os direitos e privilégios que os engenheiros civis, sejam eles de escolas nacionais ou estrangeiras” (Gorceix, FPPMG, 1884:38).
29 Conquanto não inaugurasse essa preocupação, contudo, dava a ela o derradeiro perfil técnico e
científico moldado institucionalmente. Por isso mesmo, boa parte dos principais representantes do debate sobre a política minero-metalúrgica a partir da década de 1880 se relaciona diretamente com a EMOP. A respeito ver Santos (2009).
61 grupo dentro da elite letrada (Barbosa, 1993), então e tradicionalmente essencialmente bacharelada no Direito (Carvalho, 1981). Assim que se deve destacar que enquanto a EMOP representa elemento novo no que concerne ao desenvolvimento regional (Carvalho, 2002; Dulci, 1999; Barbosa, 1993), não deixa de significar, também, elemento de diferenciação da elite mineira, municiando de conhecimentos e práticas novas determinados setores das classes conservadoras (Faria, 1992).
Ademais, em uma sociedade hierarquizada e pouco diversificada, especialmente em uma capital como Ouro Preto do final do século XIX, a tendência natural é que tanto a instituição como o professor Gorceix, e incluindo também seus alunos e ex-alunos,30 tenham levado à abertura de outras formas de diálogo, com novas preocupações e interesses, junto às classes conservadoras. Nesse sentido, Faria (1992) sugere ser bastante provável que tenham influenciado firmemente o debate político e econômico do período – inclusive por propor abordagens invulgares para questões determinantes para a região, no qual a perspectiva da modernização agrícola foi, certamente, a principal (Dulci, 2005; Machado, 2010).31
Por outro lado, parece também natural que essa influência tenha sido mútua. Ou seja, se a EMOP influenciou o debate, também foi por ele influenciada, de modo que não obstante tenha inserido as preocupações com a siderurgia e a mineralogia nas elites regionais, teve também de deparar-se com a influência crescente do movimento republicano (que inclusive entusiasmou determinantemente professores e alunos de um Gorceix assumidamente monarquista) como do próprio pensamento positivista, mesmo que avesso aos pressupostos de Gorceix (Costa, 2006).
No caso do pensamento republicano, por exemplo, é sugestivo notar que do total de assinaturas constantes da ata de fundação do Congresso Republicano Mineiro, organizado por João Pinheiro e Antonio Olinto dos Santos Pires em 1888, a maioria seja
30 Por meio de suas conferências e seus trabalhos publicados em relatórios e nos Anais da Escola de
Minas (Menezes, 2005) ou mesmo de sua representação política ou diplomática, no primeiro caso nas esferas do poder público estadual e federal e, no segundo, na representação do Brasil e de Minas Gerais nas Exposições Universais (Santos, 2009).
31 Embora não única. O longo debate estabelecido acerca da política mineral pós Constituição de 1891,
defendendo modelo específico pautado pela pertinência da exportação do minério de ferro por companhias estrangeiras (modelo que não resistiria ao período iniciado em 1915, com a Lei Calógeras), aponta nesse sentido, de sorte que Santos (2008:01) afirmará que “Nos anos finais do século XIX e na
primeira década do século XX, ocorreram intensos debates entre engenheiros, políticos e empresários sobre o desenvolvimento da mineração no Estado de Minas Gerais”.
62 de pessoas ligadas à EMOP, sendo que muitos dos republicanos que fundaram o Partido Republicano de Ouro Preto também estavam ligados à Escola de Minas (Costa, 2006).32
A percepção da presença dos ideais republicanos em Minas desde ao menos os inconfidentes em final do século XVIII, passando pela enorme influência de Teófilo Ottoni especialmente na cidade do Serro a partir do final da década de 1840, é fonte explicativa de certa historiografia no que tange a uma prematura e especial tendência mineira aos ideais republicanos e libertários. Assim que Costa (2006), por exemplo, ao abordar a formação política de João Pinheiro, determinasse a grande contribuição do pensamento republicano desde sua infância, passada no Serro em que, alguns anos antes de seu nascimento, Teófilo Ottoni33 divulgava seu republicanismo por meio do jornal “Sentinella do Serro”.34
João Pinheiro da Silva é uma figura de destaque, neste cenário que aqui se esboça, muito embora não tenha se graduado engenheiro pela EMOP; antes, formou-se bacharel em Direito em São Paulo em meados da década de 1880. A história de Pinheiro, no entanto, é bastante relevante de certo traço característico desse estrato das classes conservadoras que se procura sublinhar neste texto.
32“Com a presença de representantes de quarenta e sete municípios da província, realiza-se o Congresso Republicano em Ouro Preto. As sessões são presididas pelo professor da Escola de Minas, Leônidas Botelho Damásio, servindo como secretários João Pinheiro e Francisco Ferreira Alves. A Comissão Central Permanente do Partido ficou assim constituída: João Pinheiro, Leônidas Damásio, Domingos José da Rocha, Francisco Ferreira Alves e Antonio Olinto dos Santos Pires”. (Barbosa, 1980:16)
33 Cumpre ressaltar a importância de Otoni para a tradição republicana mineira, notadamente a partir da
reconstrução de sua participação política, procedida historiograficamente no século XX. Carvalho (2005:60-61) considera, por exemplo, que “O percurso político de Teófilo Otoni seguiu lógica impecável.
Envolveu-se nas lutas liberais da Regência. Quando da abdicação de D. Pedro I, levantou a população do Serro em ação que lembrava um towm meeting da Nova Inglaterra. A população apoiou a abdicação de D. Pedro I e a aclamação de D. Pedro II como imperador. Em 1842, pegou em armas na revolta liberal de São Paulo e Minas contra o que imaginavam ser o perigo de um monopólio do poder pelos conservadores. (...) Em 1847, criou, em parceira com um irmão e por concessão do governo mineiro, a Companhia de Navegação e Comércio do Vale do Mucuri. (...) Foi nesse sertão que, em 1852, às margens do rio de Todos os Santos, em gesto de forte simbolismo, fincou o marco de futura cidade a que deu o nome de Nova Filadélfia. O terreno lhe foi doado por dois caciques indígenas. Familiarizado com a história dos Estados Unidos, o gesto dos caciques lhe trouxe imediatamente lembranças daquele país:
“Assim começou nos Estados Unidos a ocupação da Pensilvânia. Sorriu-me a analogia, e aceitando o auspicioso fausto, tomei de posse minha Filadélfia”. A extensa citação se justifica por, além de traçar breve perfil de Otoni, permitir que se realce traço considerado peculiar tanto aos inconfidentes do século XVIII como aos republicanos do período de Otoni bem como, ao final do século XIX, do grupo de João Pinheiro: a vertical valorização da Revolução Americana e sua herança federativa.
34 Primeiro periódico do Serro, fundado por Otoni em 1830, cumpria desde sua origem forte oposição à
monarquia tendo, em sua primeira página, divisa que informava que “O fim de toda associação prática é
a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são: a liberdade, a segurança, a propriedade e a resistência à opressão” (Azevedo, 2000:178).
63 Nascido em 1860, no Serro, de pai imigrante italiano e mãe de Caeté, ambos de origem relativamente humilde, João Pinheiro teve formação católica rígida, originalmente por ser de família católica bem como por acompanhar o padre João de Santo Antonio (amigo de sua família e seu padrinho) em viagens por Minas Gerais entre 1876 e 1879 e, na sequência, por tornar-se aluno do Seminário de Mariana – instituição em que seu irmão, José, se consagrara padre naquele mesmo ano de 1879 em que João nele ingressava. Desde cedo, entretanto, por conta de sua orfandade precoce (o pai faleceu quando ele contava com três anos de idade), sofreu grande influência de seu tio, Luis Antonio Pinto, a quem atribuiu seu interesse também precoce pelos valores republicanos.35
Egresso do Seminário de Mariana, matriculou-se na Escola de Minas de Ouro Preto em 1879, sendo aluno da instituição por dois anos seguidos. Os problemas de empregabilidade relacionados à formação de engenheiro de minas (o que fizera Gorceix inclusive alterar a própria estrutura do curso), no entanto, levaram Pinheiro a desistir da formação em engenharia, ingressando no curso de Direito em São Paulo. Costa (2006) sugere que esse período inicial de Pinheiro na EMOP foi determinante por, primeiramente, travar contato direto com outros republicanos que, no futuro próximo, se tornariam determinantes para o avanço dos ideais republicanos em Minas36 e, em segundo lugar, por provavelmente travar contato, pela primeira vez, com obras de Auguste Comte.37 Este trabalho concorda que o período emopiano foi fundamental para a formação de Pinheiro, mas acrescenta que um dos fatores determinantes para isso foi sua convivência com Gorceix e, naturalmente, com tudo aquilo que representava o universo da Escola e do professor.
35Diria Pinheiro, em correspondência ao tio, que “impressão duradoura foi a que resultou para o meu espírito quando em sua fazenda, ouvi pela primeira vez a palavra da República, e outras, e desde então o trabalho lento que se começou a operar levou-me (...) até a afirmação plena de tudo que meu tio me tinha ensinado” (De Silva, João Pinheiro da. Ouro Preto-MG, para Pinto, Luís Antônio, Serro-MG. 15/11/1889, cx.2, doc 137 Apud Costa, 2006: 88). Deve-se destacar que a maior parte das informações aqui trabalhadas acerca da primeira fase da vida de Pinheiro está baseada em relevante trabalho de Costa (2006), em que se reconstrói, de forma inédita, o percurso da personagem até seu aparecimento efetivo na vida pública.
36 O caso de Antonio Olinto, também natural do Serro, nascido no mesmo 1860 que Pinheiro e seu colega
de turma na EMOP, talvez seja o mais especial.
37 Embora essa informação seja apenas uma ilação de Costa pois, como prova da afirmação, possui
apenas a informação de que, quando de sua passagem pela EMOP, já haviam duas obras de Comte no acervo da biblioteca (um acervo que, em 1879, de acordo com relatório enviado por Gorceix ao presidente de província, contava então com 2645 volumes) e que seus cadernos, não datados, contavam com pensamentos próximos ao que se julgaria um pensamento positivista.
64 Pinheiro é figura importante, aqui, por vários motivos. Em primeiro lugar, justamente por não ser engenheiro, não tendo assim concluído o curso iniciado na EMOP. Segundo sugere Costa (2006), além da questão da empregabilidade, preocupava Pinheiro sua necessidade de inserção política numa sociedade predominantemente baseada na influência do bacharel em direito (Carvalho, 1981). Formar-se bacharel parecia o melhor caminho para alguém que, desligado das conhecidas famílias governamentais de Minas,38 pretendesse algum tipo de inserção na esfera política. Nesse sentido, Pinheiro pode ser pensado como figura importante no contexto de difusão das ideias emopianas uma vez que não era engenheiro (compunha, portanto, o estrato tradicional da elite política) mas portava um importante conjunto argumentativo baseado na técnica (dada a formação intensiva e de presença obrigatória que era a marca da EMOP em detrimento do modelo de livre-frequência adotado pela Escola de Direito de São Paulo).39
Um segundo ponto que torna Pinheiro uma personagem de relevo diz respeito à relação que manteve com a Escola de Minas quando, após formado em São Paulo, regressa para Ouro Preto, onde se estabelece a partir de 1887. Seu grupo de amigos, de companheiros republicanos, de ativismo na imprensa era o mesmo grupo de ex-alunos e então professores da Escola de Minas que estava a publicar, nos Anais da Escola, as pesquisas acerca da importância do estudo do subsolo mineiro, seja para sua industrialização seja mesmo para modernizar sua agricultura.40 Sua formação original na EMOP, portanto, era reforçada pelo grupo e pelos interesses ali cultivados. Inclusive, deve-se registrar, pela amizade com Gorceix que se mantém e que se torna fecunda. Costa (2006) demonstra, por exemplo, como Gorceix influenciou Pinheiro
38 Tipificação construída por Cid Rebelo Horta (1986).
39 Há uma passagem de famosa entrevista concedida por Pinheiro ao jornal carioca O Paiz, em 19 de julho
de 1906, decorrente de sua posse na presidência do estado de Minas Gerais que ilustra bem esse ponto. Ao discorrer sobre a mineração do ouro no Brasil, ressalta que “O ouro no Brasil se apresenta, em geral, como no Transval e mesmo no México, em minas de bucho...” ao que é interpelado pelo repórter que pergunta “Que vem a ser isso de „minas de bucho‟? – não podemos deixar de inquirir com a curiosidade
natural do jornalista, que deve saber tudo”. Responde então Pinheiro que “A mina de bucho, que é a
formação comum de nossas minas, é aquela em que o veeiro é irregular, inconstante, formando uma linha interrompida de depósitos ricos, de maior ou menor porcentagem de ouro, entremeadas de rochas pobres, quase sem ouro.” Seguem-se, então, várias linhas de explicações sobre o tema, seguidas também de proposta específica para mineração do ouro dadas as especificidades apresentadas. Para as citações ver documentos publicados em Barbosa (1990: 220-221).
40 Para os colegas de militância republicana de Pinheiro, ver Costa (2006) e Machado (2010); para os
engenheiros e suas publicações sobre industrialização, modernização agrícola e pesquisa mineral ver Anaes da Escola de Minas de Ouro Preto do período, “A Escola de Minas 1876-1966” e Menezes (2005).
65 decisivamente em duas ocasiões importantes. Na primeira, enviou correspondência à Pinheiro convidando-o a assinar o manifesto de fundação da Sociedade de Geografia Econômica do Estado de Minas Gerais,41 inserindo o nome de Pinheiro como membro do Conselho Diretor. Na segunda, em correspondência a Pinheiro de 26 de janeiro de 1890, propõe que o estado de Minas Gerais, por meio da Sociedade de Geografia Econômica, lutasse pelo progresso econômico, especialmente criando para tal uma Exposição Permanente dos Produtos Mineiros. Ainda segundo Costa (2006:145-146),
O interessante é observar que, em 21 de janeiro de 1890, um dia após o envio da correspondência de Gorceix à Pinheiro, este é nomeado secretário do Estado de Minas e primeiro vice-governador. Em 11 de fevereiro, com a nomeação de Cesário Alvim, então governador do Estado, para o ministério do interior, [Pinheiro] passa a exercer o governo. Nomeado oficialmente governador em 12 de abril, pelo Decreto nº 48, do dia 28 daquele mês, cria uma exposição permanente dos produtos naturais, agrícolas e industriais do Estado.
O terceiro ponto, que torna Pinheiro personagem relevante nesse processo, diz respeito justamente a sua atuação política e àquilo que Dulci (2005:110) expõe como sendo sua característica: a capacidade de se tornar uma espécie de consciência reflexiva do processo de desenvolvimento regional originado no período em tela bem como da articulação política que unificou, sob o PRM, a esfacelada elite política regional.42 Pinheiro inspirou, enquanto vivo (seja na primeira como na segunda etapa de sua vida pública) ou, inclusive e especialmente, após sua morte, determinada elite regional a pensar o poder público e o desenvolvimento econômico como esferas essencialmente comunicáveis, sendo do Estado o dever de normatizar a sociedade e, se preciso, a esfera privada, em favor do crescimento econômico – tema, aliás, que se pretende mais bem detalhado adiante.
41 A Sociedade de Geografia Econômica do Estado de Minas Gerais foi fundada por Gorceix, em
dezembro de 1889. De acordo com a ata inaugural, possuía a finalidade de promover “o desenvolvimento
da indústria, comércio e imigração do estado de Minas Gerais” (Ata de fundação da Sociedade de Geografia Econômica do Estado de Minas Gerais apud Santos & Costa, 2005:284). Além de Pinheiro, participavam do Conselho Diretor da entidade Joaquim Cândido da Costa Sena, Modesto de Faria Bello, Levindo Ferreira Loppes, Francisco Veiga, Manoel de Lemos, Antonio Oyntho dos Santos Pires, Francisco de Paula e Barão de Saramenha – alguns deles professores da EMOP – além de participarem também da sociedade José Cesário de Faria Alvim e Augusto de Lima que, como Antonio Olyntho e João Pinheiro, chegaram ao governo de Minas na República Velha. (Ibidem).
42 A respeito do papel do Partido Republicano Mineiro (PRM) como aglutinador das diferenças políticas
regionais, e das tensões e articulações que levaram à sua consolidação, cabe consulta ao trabalho de Resende (1982). Sobre o papel de João Pinheiro e Francisco Sales no tocante à definitiva consolidação do PRM e organização das tensões regionais sob a tutela do partido a partir de 1900, ver Barbosa (1990).
66 E, derradeiramente, o quarto ponto que determina, para esta observação, a importância da figura de Pinheiro relaciona-se, justamente, ao período que menos se aborda a personagem: o abandono da vida pública na esfera estadual dado seu recolhimento à Caeté, onde fundou uma empresa de cerâmica (Cerâmica Nacional) e dedicou-se a ser empresário.43 Estranhamente esquecida pela longa bibliografia que aborda a personagem, talvez por aparentemente desmerecer seu espírito público e seu
altruísmo positivista,44 apresentados como se praticados sempre com denodo e abnegação, tal período surge apenas como decorrência da insatisfação de Pinheiro com a vida pública e com os rumos da instauração da república no Brasil. Machado (2010: 52), contudo, excepcionalmente informa que
A esse respeito, duas observações são importantes: sua retirada do cenário político operou-se gradativamente, ao mesmo tempo em que se realizavam estudos referentes à implementação de sua indústria de cerâmicas; e a instalação da indústria coincide com um momento em que grandes obras públicas estavam sendo executadas. Por exemplo, a construção de Belo Horizonte, para a qual a Cerâmica de Caeté forneceu material sanitário e de pavimentação de ruas.
Pinheiro foi um dos principais articuladores da proposta de transferência da capital do estado para uma nova cidade, moderna e racional, que encerrasse Ouro Preto em seu passado glorioso e que, de uma só vez, conseguisse imprimir a lógica republicana ao mundo do trabalho (Mello, 1996) e, notadamente, pudesse congregar os interesses regionais espalhados e descentralizados pelo mosaico mineiro (Wirth, 1982), essencialmente caracterizado pela desarticulação em relação a Minas Gerais pois voltados para centros externos de desenvolvimento. Deveria caber, à nova capital, o papel de vetor centralizador dessas regiões, fundando novo pacto entre grupos políticos e econômicos que, desde o Império, flertavam com uma espécie de agenda separatista (Bomeny, 1994; Mello, 1996) – sobretudo em momento político profundamente delicado para as elites políticas mineiras que, na primeira década republicana, dividia-se
43 De acordo com Dulci (2005:110), a vida pública de Pinheiro é dividida em duas fases, com longo hiato
entre elas. A primeira, entre 1888 e 1893, é dedicada à propaganda e organização republicanas, chegando