BÖLÜM 2: BEYİN DEVLET YÖNETİMİNDEKİ GÖREVLERİ
3.6. Beyin Hizmetkârlarıyla İlişkisi ve Birbirlerine Karşı Olan Hakları
3.6.1. Beyin Hizmetçileriyle Olan İlişkisi ve Hakları
em 2012 pela PMSP). Carta adaptada pela autora a partir de material disponível em
<http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidades/2012/09/mapa-revela-coincidencia-entre-favelas- incendiadas-e-operacoes-urbanas-de-sp>.
198 4. Um processo em construção e contraditório: resistências?128
Quais os limites e as possibilidades das organizações de moradores no embate contra o processo de acumulação por despossessão e pela produção de um espaço urbano diferente do imposto pelas estratégias hegemônicas? A diferenciação e segregação socioespaciais dos lugares do Butantã estudados nesta pesquisa levam a desiguais possibilidades, práticas e facilidades de acesso à cidade.
A segregação separa e dificulta o acesso aos momentos de sociabilidade, porém também traz em seu processo resistências que a negam. As resistências podem não ser claramente em oposição à lógica da produção do espaço capitalista. Muitas delas se constituem na transgressão, a qual, segundo Ribeiro (2012) é a resistência primeira, em uma solução improvisada e ainda individual. É uma questão de sobrevivência de grande parte dos moradores e pode conduzir, ainda que com obstáculos, à resistência. A impossibilidade de acesso à propriedade tanto no Jardim Jaqueline quanto em Vila Nova Esperança se traduziu, nos termos da autora (2012), na transgressão pela ocupação.
Nesse sentido, Harvey (2012: 22) afirma que “as cidades onde nós vivemos são cada vez mais divididas, fragmentadas e conflituosas. Nossa visão de mundo e dos possíveis varia de acordo com o lado da barreira no qual nós nos encontramos e segundo o tipo de consumo ao qual nós temos acesso”. Assim, não apenas existem grupos com interesses distintos no espaço urbano (variáveis de acordo com os modos de uso e de apropriação do espaço), mas esses interesses nem sempre são claros em relação a seus objetivos e premissas. Isso foi bem claro em relação à OUBVS, quando os moradores não adotaram posturas claras, questionando-a principalmente a partir de seu “uso inadequado”, discordante daquele previsto no Estatuto da Cidade.
Como afirma Harvey, “é com frequência difícil diferenciar entre as iniciativas reformistas e as revolucionárias no contexto urbano”. Segundo o autor, “determinadas iniciativas parecem na superfície serem apenas reformistas, mas, enquanto essas iniciativas se difundem, revelam outras camadas mais profundas de visões e de ações mais radicais na escala metropolitana” (HARVEY, 2012: 91). Nesse contexto, para Ribeiro (2012), embora algumas reivindicações possam parecer conservadoras, colocam a dimensão da desigualdade
128 Para a realização deste tópico foram fundamentais as discussões realizadas no GESP (Grupo de Estudos de
Geografia Urbana Crítica Radical) e no NAPurb (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Urbanização e Mundialização).
199 produzida no país ao revelar a necessidade da luta por direitos básicos, como o direito à moradia.
Como destaca Ribeiro (2012), as resistências podem abrir caminho para aquilo que atualmente aparece como impossível, uma vez que a resistência é diferenciada de acordo com a formação histórica, social e política de cada país e tem como consequência lutas sociais e políticas distintas pelo espaço. A resistência seria ainda, para a autora, permeada por recuos e avanços, apontando para as contradições do espaço. Inicialmente, está na recusa de ser expulso dos lugares ocupados, como estudamos em relação à Vila Nova Esperança. Mas, também está nas organizações de moradores nos lugares de classe média onde houve resistência, mesmo que marcada pela preocupação com o valor de troca da propriedade, em busca de um modo de produção do espaço diferente do que está posto. “A resistência está em não ceder porção da cidade aos negócios urbanos, mesmo que esteja mergulhada em ambiguidades” (RIBEIRO, 2012: 15).
A compreensão dos processos de valorização e de segregação no espaço urbano permitiu que alguns membros das mobilizações analisadas se opusessem não somente às metas da Operação Urbana Butantã - Vila Sônia, mas à gentrification dela decorrente.
Se a gente está vendo no Butantã uma verticalização que já está trazendo um certo caos, imagine uma operação urbana que prevê mais de um milhão de metros quadrados de construção a mais do que está na lei, imagine o que isso pode trazer. Então, isso expulsa, porque você tira uma comunidade que estava no local, que deveria ser a protagonista nas mudanças, em como desenhar o local, para ela poder ficar no local. E você traz edifícios de oitocentos mil, quinhentos mil, e aquelas pessoas que antes viviam ali têm que se mudar. E esse processo de empurrar quem tem menos renda para a periferia da cidade vai se perpetuando, através de uma ferramenta urbanística que não deveria ser para isso. A Operação Urbana, ela deveria ser para cuidar de áreas devastadas, áreas de antigos portos e tal129.
Então, não é que “tudo bem” uma cidade precisa ser replanejada, ela precisa ter várias obras e tal, e que vão às vezes causar realocações. Mas, primeiro, como isso se dá? Como as desapropriações têm se dado, historicamente, na nossa cidade, até no Brasil? E o que acontece com as pessoas que são removidas em prol, muitas vezes, do interesse maior, mas, muitas vezes, não é isso? Muitas vezes, interesses menores, construtoras que bancam campanhas políticas e, por isso, têm um rol de obras que elas acabam elencando, muitas vezes obras superprojetadas, que não precisariam ser tão
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grandes ou poderiam ser planejadas de outra forma, isso vem causando esses transtornos para, vocês imaginem, 100 mil pessoas!130
A resistência é luta pelo espaço para a apropriação, privilegiando o valor de uso em relação ao valor de troca. Ela acirra os conflitos entre os agentes da produção do espaço que visam à acumulação e aqueles que o privilegiam para a realização da vida. A resistência dos moradores a algumas das intervenções da OUBVS envolveu uma recusa – permeada de contradições – da realização das estratégias espaciais capitalistas, agravando no lugar o conflito entre a ordem distante e a ordem próxima. Por um lado, eles conseguiram uma ruptura: a anulação da OUBVS ou a permanência no lugar, no caso de Vila Nova Esperança. Por outro, muitos desses processos e mobilizações que resultaram na resistência parecem, a partir de 2013, ter se direcionado à discussão do novo Plano Diretor de São Paulo, incorporando ou questionando o discurso das políticas públicas. Nesse contexto, a resistência é uma estratégia que confronta (consciente ou inconscientemente) a estratégia capitalista, mas que pode, em determinados momentos, ser incorporada por ela, havendo uma ambiguidade, como coloca Chauí (1986), entre conformismo e resistência.
A resistência não é, desse modo, livre de contradições, sendo permeada, segundo Ribeiro (2012), de discursos e ideologias. Assim, o desejo de uma “outra cidade” a partir das discussões sobre a OUBVS também foi marcado, por exemplo, pelos álibis do ambientalismo e do bem comum. A resistência “contém germe de projeto de mudança das relações sociais, mas não visa necessariamente um projeto revolucionário”, sendo reinventada “por meio das experiências e dos conflitos gestados no nível do lugar” (RIBEIRO, 2012: 154).
Nesse sentido, não é porque os moradores de Vila Nova Esperança defenderam a construção de uma “Vila Ecológica” ou também estejam preocupados com o preço pelo qual podem vender suas casas (o qual aparece mais como uma garantia na ausência de outros recursos para realizar necessidades básicas), que não resistam lutando pela permanência no lugar. A consciência das desigualdades, dada na prática e pela recusa à expulsão do lugar, deu mais mobilidade de contestação aos moradores de Vila Nova Esperança e do Jardim Jaqueline. Ressaltamos que essa luta pelo espaço ocorre no cotidiano, no qual se “percebe transparências onde há véus espessos, e espessuras onde não há mais do que uma fina aparência” (LEFEBVRE, 2006: 117).