BÖLÜM 1: TÜRKLERDE DEVLET ANLAYIŞI VE DEVLET YÖNETİMİ
1.4. Beyin Sahip Olması Gereken Erdemler
1.4.12. Bey Adil Olmalıdır
A “reprodução do espaço urbano”, nos termos de Carlos (2001), refere-se não apenas a uma produção stricto senso de objetos, mas também das relações sociais (das quais o espaço é condição, meio e produto) que envolvem a vida em todas as suas dimensões. Nesse sentido, a produção de representações é fundamental para compreender o modo pelo qual a produção e reprodução do espaço se realizam no mundo contemporâneo.
Considerando que a reprodução do espaço se realiza no espaço, na urbanização e no cotidiano (CARLOS, 2011b), é crucial para as estratégias capitalistas criar desejos, necessidades, ratificar consensos. A incorporação de parcelas de espaço aos projetos de valorização (em busca de novas fronteiras à acumulação) implica em um processo necessariamente violento. Para a legitimação dessas estratégias capitalistas, Ribeiro (2012) destaca o papel dos discursos espaciais preenchidos de diversos álibis (do crescimento, do desenvolvimento, do ambiente). Esses álibis provêm, ainda segundo a autora, dos “elementos críticos da produção do espaço capitalista” (como o ambiente, a qualidade de vida). Em nome do interesse coletivo, cristalizam as representações do espaço e realizam estratégias de classe em detrimento da apropriação dos lugares pela maior parte de seus moradores.
Por um lado, a presença de parques próximos aos lugares estudados na área da Operação Urbana aparece como elemento de valorização, cuja preservação é reivindicada pelos moradores. Nesses lugares, os discursos e o álibi do ambientalismo e da qualidade de vida são os mesmos defendidos pelos moradores, pelo Estado e pelos empreendedores. Por outro, em Vila Nova Esperança os moradores sofrem ameaça de despejo e são criminalizados, pois, por supostamente estarem dentro da área do Parque Tizo, representariam um risco para a preservação dos remanescentes da mata. Essa criminalização no geral não ocorre com os moradores de maior renda, os quais também moram em áreas protegidas ambientalmente.
A própria implantação do Parque nos mostra um exemplo de como as questões ambientais são sobrepostas às sociais:
O governador Geraldo Alckmin assinou, no dia 25/3, decreto criando o Parque Fazenda Tizo, numa área de 1,3 milhão de metros quadrados que abriga os últimos fragmentos de Mata Atlântica na zona oeste da Região Metropolitana de São Paulo. O novo parque representa uma vitória da
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sociedade civil, que se mobilizou para impedir que aquela área verde fosse transformada em conjunto habitacional102.
As tentativas de despejo para a implantação do Parque, como vimos em Vila Nova Esperança, refletem um conflito contra aqueles – no geral de menor renda – que moram em áreas próximas a áreas verdes, criminalizadas não apenas pela própria situação em que se encontram, mas por possíveis danos ambientais à região. A maneira pela qual os moradores são vistos diante do poder público e da sociedade é bem retratada por Messias (2013: 194):
O fornecimento formal de energia elétrica pela Eletropaulo não se faz ainda, apesar de todas as mobilizações da Comunidade, devido aos conflitos judiciais em relação à área. Em reunião com os moradores na tentativa de retirá-los, Luiz Eduardo Ismael Lutti, o chamado promotor do meio ambiente, disse, em tom alterado, segundo moradores: “nem que Deus desça à Terra, vocês terão energia elétrica”. Apesar disso, o movimento pela busca do serviço básico de energia elétrica não cessou e atualmente conta com advogados que buscam amparo na legislação.
O álibi ambiental – o mesmo usado pelo Estado para criminalizar, no geral, os mais pobres que moram próximos ou em parques e áreas de preservação – passa a ser incorporado pelos próprios moradores. Uma importante conquista dos moradores foi a obtenção de um laudo técnico no dia 30 de maio de 2012 mostrando que a Vila Nova Esperança não se localiza no interior do Parque Tizo. Esse laudo é fundamental para as negociações formais e defesa dos moradores, uma vez que, segundo Silva (2011), os moradores apresentavam dificuldades para negociações com as prefeituras de São Paulo e do Taboão, pois a ação no MPSP é “baseada no fato de que Vila Nova Esperança afetaria o Parque Tizo, área protegida”.
Diante das ameaças de despejo desencadeadas pela criação de um parque após a ocupação do lugar pelos moradores e pelo fato de que a Vila Nova Esperança estaria supostamente em seu perímetro, uma das moradoras do local afirma:
A gente fica se sentindo pior que bandido. A Vila Nova Esperança para a Prefeitura é pior que bandido... Onde está a Justiça? Será que não se pode ter nenhuma defesa, nenhuma justiça? Como não temos dinheiro, não temos justiça, então temos que gritar mesmo (...). A verdade é o que eu vou dizer: as fezes dos condomínios de luxo é vitamina para a mata, a nossa é veneno103.
102 Diário Oficial Poder Legislativo. 29 de março de 2006. Pg. 116 (59).
172 Entretanto, se os moradores percebem a desigualdade e o modo como a criminalização se dirige aos moradores mais pobres e não aos de maior renda, também defendem a criação de uma Vila Ecológica. Buscando “caminhos mais sustentáveis”, a Associação promoveu em 2012, junto com Instituto Triângulo de Desenvolvimento Sustentável, coleta de óleo usado em troca de pedras de sabão. Os moradores afirmam já ter ligado para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) informando quando animais saem do parque e aparecem na favela: “Eu já liguei para o IBAMA para falar que tinha um ‘guaxinim’ perdido aqui. Nós somos amigos da mata”. A responsável pela Associação de Moradores também informou à Secretaria do Verde e do Meio Ambiente que árvores no parque estavam sendo cortadas. A Associação foi então condenada a pagar 30 mil reais já que quem cortava as árvores era morador da própria favela.
O álibi do ambientalismo, por meio de um urbanismo tornado ideologia, escamoteia interesses de classes e esconde no desenho urbano a desigualdade inerente à produção do espaço capitalista. Dotado de padrões paisagísticos (figura 16), o urbanismo oculta os interesses de classe envolvidos no ambientalismo.
Figura 16. Croqui do parque Tizo. Disponível em < http://www1.folha. uol.com.br/saopaulo/1052670-implantacao-de-novo-parque-sustentavel-comeca - hoje-em-sao-paulo.shtml >
Essas estratégias mostram a necessidade de se descriminalizar que os moradores sentem face ao discurso do Estado, tendo na incorporação do álibi ambiental um meio inclusive de sobrevivência e estratégia de permanência no lugar. Como destaca Chauí (1986),
173 o discurso das classes dominantes é incorporado pelas classes populares, havendo uma “ambiguidade entre conformismo e resistência”. Nesta ambiguidade, ao mesmo tempo em que incorporam parte do ambientalismo, os moradores também se opõem a algumas das estratégias capitalistas ao recusarem, por exemplo e em sua maioria, programas habitacionais baseados no acesso ao crédito. Um morador afirma que “não quer o Minha Casa Minha Vida, já que minha casa minha vida eu já tenho”. Nessa imbricação entre espaços de representação e representações do espaço, ao mesmo tempo em que os moradores as incorporam e são por elas influenciados, também as recusam na medida em que os discursos espaciais não ocultam por completo as contradições da produção do espaço.
Os moradores da Vila Nova Esperança conseguiram, aos poucos, melhorias em suas condições básicas de vida, o que não significa, como afirma Messias (2013), uma ruptura com os processos que fundamentam a produção do espaço capitalista. Embora alguns que fazem parte da organização de moradores de Vila Nova Esperança tenham começado um processo de politização por meio da participação em movimentos sociais de moradia, continuam submetidos a estratégias segregacionistas no nível social e político. A partir de Vila Nova Esperança, concordamos com Ribeiro (2012) que, em uma sociedade de classes fundada pela desigualdade e pela diferenciação, há para uma classe a impossibilidade da existência desvinculada de uma luta constante para o acesso e manutenção da moradia.