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Bey Cömert Olmalıdır

BÖLÜM 1: TÜRKLERDE DEVLET ANLAYIŞI VE DEVLET YÖNETİMİ

1.4. Beyin Sahip Olması Gereken Erdemler

1.4.2. Bey Cömert Olmalıdır

Foto 23. Vila Nova Esperança. 25 ago. 2010. Foto da autora.

O principal conflito em Vila Nova Esperança – envolvendo estratégias antagônicas no uso do lugar – trava-se entre a apropriação que os moradores desejam para o habitar e os usos pretendidos pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional (CDHU) e pelo Parque Tizo. Segundo a Associação de Moradores de Vila Nova Esperança:

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Em 2006, nossa Comunidade foi notificada pela CDHU a respeito da urbanização da área, do atendimento da nossa maior reivindicação. A instituição iniciou um processo de coleta de dados para formação do cadastro necessário para dar início à urbanização do bairro. No entanto, o momento da assinatura da ficha a respeito dos procedimentos futuros referia-se, na realidade, à tentativa de fazer com que nós ratificássemos os termos para a retirada de nossas casas. A partir daí, desdobra-se uma situação de luta para continuidade da Comunidade. A CDHU afirma que o terreno será utilizado para a implantação do ‘Parque Urbano de Conservação e Lazer Fazenda Tizo’. No entanto, o projeto inicial do Parque não abrangia a área onde está localizada a comunidade Vila Nova Esperança. Na verdade, ele previa a nossa permanência, sendo que, inclusive, fomos importantes colaboradores para o abaixo-assinado que levou à sua criação92.

Os moradores, desde o ano 2006, são ameaçados de despejo pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) que afirma, sem mostrar documentos oficiais, que tem a propriedade do terreno. Esta ameaça cessou parcialmente em julho de 2012, com um acordo que alguns dos moradores de Vila Nova Esperança fizeram com a CDHU visando suspender as ordens de despejo e garantir a permanência no lugar. Nesse acordo, defende-se que os moradores apenas sairão de suas casas se a CDHU garantir-lhes outras moradias nas proximidades.

Os moradores também foram informados sobre uma ação civil no Ministério Público três anos depois de seu início, a qual intensificou e deu visibilidade aos conflitos de luta pelo espaço em Vila Nova Esperança. Segundo Messias (2013: 155), a respeito desta ação do MPSP:

Em 2003, o Ministério Público de São Paulo moveu uma Ação Civil Pública Ambiental contra o Governo do Estado de São Paulo, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU) e a Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (CODASP), com o objetivo de impedir as intervenções “antrópicas” na área de 1.545.355,40 metros quadrados, conhecida como “Fazenda Tizo”.

A partir desta ação no Ministério Público, a CDHU passou a ameaçar de despejo os moradores. Ressaltamos que esta ação é resultado também de mobilizações para a criação do Parque, que contou com apoio de escolas públicas da região e de moradores de condomínios

92 Blog da Associação dos Moradores. Material Disponível em <http://www.associacaovilanovaesperanca.

blogspot.com/>. Ressaltamos que o blog não era mantido pelos moradores, que apresentavam desde dificuldades para retratar (nos termos do “discurso competente”) a situação em que vivem até problemas de infraestrutura, como acesso a computadores ou internet. O blog foi feito por um pesquisador cuja dissertação trata de alguns dos processos em Vila Nova Esperança (ver MESSIAS, 2013).

162 residenciais93. Para o despejo e expulsão dos habitantes e liberação de novas fronteiras aos negócios urbanos, utiliza-se da violência, tanto implícita quanto explícita, as quais revelam, por sua vez, a própria violência do processo de urbanização94 (SAMPAIO, 2011). Em Vila Nova Esperança, homens armados, por exemplo, ameaçaram os moradores após tentativa da CDHU, sem amparo legal, de derrubar as casas da favela. Além disso, também recebem ameaças verbais, estão “sujeitos a diversas decisões formais errôneas” (CORREA, 2011) e são criminalizados, com consequências que pesam sobre o cotidiano, por viverem em terreno contíguo ao Parque Tizo.

Submetidos às pressões imobiliárias, cerca de setenta famílias se mudaram, em 2011, para um Conjunto Habitacional mais distante, no Jardim Sandra, município de Cotia. Embora houvesse ordem judicial, com cópia exposta na frente de cada casa da Vila, para que nenhuma casa fosse destruída pela CDHU antes de uma audiência pública marcada para março de 2011, aproximadamente 40 casas dos moradores que mudaram para Cotia foram demolidas (fotos 24 a 27). Demonstrando bem a dinâmica da provisoriedade da periferia, essas casas logo foram ocupadas por novos moradores que chegaram ou por pessoas que ali já estavam, mas ainda construíam suas casas ou pagavam aluguel.

No Jardim Sandra, onde parte dos moradores de Vila Nova Esperança foi morar, não circulam ônibus aos finais de semana. Morando em Cotia, mas ainda trabalhando em São Paulo, alguns dos moradores precisaram, inclusive, deixar o emprego, uma vez que os gastos com transporte – por meio de ônibus intermunicipais e municipais – tornaram-se mais elevados do que quando moravam em Vila Nova Esperança.

Os moradores dos espaços periféricos tendem a estar sujeitos a uma imobilidade de escolhas e a um deslocamento espacial forçado (metropolitano), uma vez que as periferias são futuros locais de investimentos. No processo de valorização-desvalorização do espaço – com determinações e características distintas de acordo com a situação geográfica de cada fragmento da metrópole –, os moradores das periferias estão sujeitos a lutas diárias pela vida urbana, revelando necessidades e estratégias desiguais em relação aos moradores de classe média do Butantã.

93 Para um estudo detalhado sobre os conflitos em Vila Nova Esperança, ver Messias (2013).

94 Sampaio (2011) defende que o próprio processo de urbanização é, por essência, violento. A autora, para

desvelar os conteúdos da violência do processo de urbanização, destaca o papel da propriedade privada da terra, do Estado (via urbanismo e planejamento urbano) e das manifestações dessa violência ao nível da vida cotidiana.

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É muita correria, eu não sei mais o que é cuidar das minhas coisas, cuidar da minha casa... Essa hora mesmo eu não almocei. Já envelheci uns cinquenta anos (...). Eu aprendi muita coisa nessa história, é verdade, mas é muito sofrimento. Todo dia indo atrás disso, documento daquilo... Arranjando briga com os moradores daqui também para tentar fazer a coisa andar (...). A gente só quer ter o nosso canto, mas não consegue dormir em paz95.

95 Entrevista com moradora de Vila Nova Esperança realizada no dia 11 de abril de 2011.