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Bey’at veya İntisab

2. Mehmet Hilmi Efendi’nin Tasavvufi Görüşleri

2.10. Bey’at veya İntisab

Nessa categoria destacaram-se diversas ocorrências relativas a dificuldades de diálogo, tolerância e convivência entre a comunidade acadêmica. Geralmente são solicitações para solução de problemas vivenciados. Na maioria das vezes a solução solicitada é a separação entre as pessoas: mudança de turma, mudança de grupo de colegas, mudança de professor. Estimula-se a tentativa do diálogo diante dos conflitos, indicando que a solução imediata não deveria ser a separação, já que os dissabores da convivência são comuns em todos os ambientes e que o respeito e a

cordialidade devem ser mantidos. Mas, pelos relatos que surgem, às vezes fica evidente que a convivência é mesmo insustentável.

Os dados encontrados surpreendem pela ênfase em queixas recorrentes dos estudantes a respeito das relações interpessoais na comunidade acadêmica, sobretudo das relações entre professor e aluno. Essas se destacaram pela frequência e a forma como se relacionam com vivências de sofrimento psíquico.

Relacionamento com o professor

As queixas sobre professores e disciplinas infelizmente ocorreram com grande frequência e recorrentes aos mesmos professores e disciplinas. Situações graves, que surgiram em meio a muito sofrimento, de assédio moral e sexual, de atitudes não éticas, desrespeitosas com alunos e pacientes. Na maioria das vezes, o aluno não fez um registro formal por medo de represálias ou de se deparar novamente, em outro momento da vida profissional, com aquele professor.

Entretanto, veio relatar os problemas, buscando uma solução que visasse ao melhor aprendizado e dias menos desgastantes em meio a já tantas atividades a cumprir. Um exemplo foi um grupo de estudantes do Ciclo Ambulatorial que buscou orientação sobre como proceder diante de grosserias do professor com os alunos e pacientes e a impossibilidade do diálogo. Citaram situações em que o professor rasgou o material que o aluno iria apresentar ao grupo dizendo que aquilo não valia nada e outras situações de humilhação aos alunos com caráter sexual.

As queixas são encaminhadas aos departamentos, pela via do colegiado, na maioria das vezes sem relatar os nomes dos alunos, a pedido deles. Acredita-se que o diálogo do departamento com o professor e a recorrência insistente possa auxiliar na tomada de atitudes institucionais, embora não haja a formalização do aluno.

Entretanto, há situações, sobretudo de assédio, em que o aluno, por medo, solicita que o caso não seja encaminhado e busca soluções como trocá-lo de turma ou trancar a matrícula na disciplina:

“Senti-me totalmente desrespeitada pelo professor „X‟, que me chamou de ignorante, quando não soube responder a uma de suas perguntas, e nos fez perguntas relacionadas à nossas vidas sexuais, que foram seguidas de deboche quando me recusei a responder.” (aluna do Ciclo Ambulatorial)

Ou como o desabafo da aluna do Ciclo Básico que solicitou mudança de turma em uma disciplina justificando:

“Estou impedida de dar opiniões na aula, pois tudo que falo é ironizado pelo professor.”

Nogueira-Martins e Nogueira-Martins (2012) afirmam que um dos fatores potencialmente estressante no curso médico seria o sentimento de desamparo do aluno em relação ao professor quando esse faz uso arbitrário do poder. Tempski e Martins (2012) se referem a insultos advindos de professores e colegas como violência que precisa ser combatida sob o risco de prejuízo à saúde física e mental.

Como lembra Bellodi (2012b), na escola médica também se encontrará a violência, já que essa está em cada ser humano. Contudo, as relações de violência simbólica e traumática ocorridas no ambiente de ensino-aprendizagem não podem ser desprezadas ou consideradas eventos isolados ou ainda com responsabilização da vítima pelo ocorrido. O silêncio agrava e intensifica a marca deixada pelas situações de abuso podendo gerar sérias consequências psicopatológicas, afirma a autora.

Percebe-se também como uma necessidade o posicionamento institucional diante de fatos de negligência administrativa. Um exemplo é quando a nota do aluno não é lançada no histórico escolar e infindáveis tentativas de contato com o professor são fracassadas. Não há diálogo possível entre professor e aluno:

“Já enviei diversos e-mails ao professor, já liguei e tive como resposta que não o aborrecesse mais, só que estou precisando da nota lançada para concorrer a projeto em que meu RSG33 será avaliado.” (fala de aluna) “Não é possível que essa história vá continuar se repetindo em todos os semestres: sempre tem alguém reclamando sobre a falta de lançamento da

nota nessa disciplina e a instituição não toma uma providência!” (fala de

aluna)

Queixas relacionadas aos locais de prática e ao desinteresse de preceptores por ensinar os alunos não são incomuns:

“O professor não aparece nos plantões. Na UPA que estamos não há interesse dos plantonistas em ensinar. Estamos sentindo que o módulo está perdido. Já queixamos com o coordenador, por e-mail, mas ele reencaminhou o e-mail para o serviço.” (grupo de alunos de estágio

obrigatório)

“O médico perguntou o que estávamos fazendo lá. Disse que não precisava de nós, podíamos ir pra casa dormir.” (fala de aluna em estágio optativo)

Contudo, algumas queixas indicam também um não reconhecimento de dificuldades pessoais, imputando o problema para terceiros, como uma fala de aluno do Ciclo Ambulatorial que trouxe a demanda de mudança de turma:

“Além do professor que não se interessa em ensinar, atende sozinho e tem atitudes não éticas, no Centro de Saúde X, a maioria dos pacientes querem conversar, queixas psicológicas, não tenho paciência para isso, fico perdendo tempo. No Bias Fortes34 temos oportunidade de ver mais doenças, pacientes doentes de verdade”.

Questão que remete à ponderação de Ansermet (2003) a respeito do desamparo sentido pela equipe médica ao deparar-se com a sexualidade e os fenômenos psicossomáticos, que revelam, às vezes de maneira crua, os impasses dos destinos da pulsão na sexualidade. Encontro com um real impossível de suportar, algo do indizível que ocorre nessa relação.

Poucos estudos são encontrados a respeito da relação professor-aluno na graduação. O que é mais prevalente está em acordo com o que foi observado nesta pesquisa sobre uma necessidade de maior valorização e diálogos sobre esse relacionamento interpessoal que é de onde se originam as futuras relações terapêuticas. Um tema que merece novas pesquisas para aprofundar a função

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pedagógica dessa relação e subsidiar intervenções no ambiente do ensino médico evitando a perpetuação de uma pedagogia do medo em que a submissão e o sofrimento acometem alunos e pacientes. Pedagogia essa capaz também de perpetuar comportamentos especulares de violência e autoritarismo entre os alunos, e por que não dizer, entre a sociedade.

O professor ocupa um lugar de modelo pedagógico e, de acordo com Freud (1996a)35, possui a capacidade de barrar ou abrir caminhos para o aprendizado. Argumento que também se encontra em outros autores que preconizam que um bom relacionamento, um bom vínculo entre professor e aluno é capaz de fazer nascer e evoluir o processo de ensino-aprendizagem, sendo o professor um exemplo fundamental para consolidar o perfil do estudante.

O trabalho de Ribeiro et al (2013) enfatiza a questão, identificando a dificuldade na relação com professores como um tema muito recorrente entre os alunos entrevistados dessa faculdade.

Considerando toda complexidade do lugar ocupado pelo professor, Benfatti (2012) alerta para necessidade de mudanças nos currículos que contemplem o cultivo de novas mentalidades que possam beneficiar o convívio. Mas as relações são demasiadamente delicadas e perpassam por valores individuais, ética, história pregressa e tantas outras condições singulares que parecem necessitar de constantes momentos de reflexão, treinamentos, diálogos institucionais, experiências compartilhadas para que possam ir se moldando ao ideal buscado. O aprimoramento da relação entre estudantes e professores é defendido por Tempski e Martins (2012) como fundamental para melhora da qualidade de vida dos estudantes.

Nos atendimentos aos alunos e no diálogo com alguns professores, pôde-se observar que há condições de adoecimento também nos professores. Situações importantes que necessitam de cuidado e que são negligenciadas. Não parece haver condições de um professor adoecido poder manter uma boa relação com seu aluno, com seu paciente. Se o professor não se cuida, não cuida de seus pares, como poderia cuidar dos estudantes?

É acertada a ponderação de Castro Filho (2012) de que os problemas da falta do cuidado com o outro estão em toda a sociedade. A questão remete ao compromisso de todos com a responsabilidade em envidar esforços para que as relações sejam melhores e assim, consequentemente, a qualidade de vida, a formação.

Relacionamento com os colegas

Já as queixas referentes a colegas têm surgido por meio de alunos que apontam comportamentos inusitados e inadequados na convivência diária, inclusive, na opinião dos alunos, atrapalhando o aprendizado do grupo. Diversos diálogos, envolvendo professores, familiares e direção da instituição têm sido realizados em busca de encaminhamentos pertinentes. Há também situação em que o aluno está passando por momentos pessoais difíceis, precisando de ajuda, e percebe na relação com o colega uma contingência estimuladora de sua fragilidade:

“Não gostaria de continuar no próximo semestre na mesma turma que ela. Ela está muito deprimida e fica me sugando, não consigo dizer não, mas não estou bem para lidar com isso...” (aluno vivendo processo de luto)

Excepcionalmente surgem ocorrências inadmissíveis de discriminação e deboche relacionadas à sexualidade ou nível socioeconômico que são passíveis de intervenções institucionais. Oportunidade de ouvir os envolvidos, dialogar sobre conceitos a respeito dos fatos, sobre a violência e o preconceito presentes no ato e sobre o posicionamento contrário da instituição quanto a tais atitudes, que não podem e não devem ser interpretadas como brincadeira.

“É insustentável continuar na turma porque estou sendo vítima de piadinhas e humilhação por parte dos colegas.” (aluno)

É preciso encontrar alternativas de romper com as situações de violência. A instituição não pode se omitir nessa tarefa. De acordo com Bellodi (2012b), os espaços de escuta para o aluno, mas também todos os envolvidos no processo educacional, podem colaborar reconhecendo o efeito nocivo e traumático da

violência e permitindo a passagem do silêncio para o testemunho. O que não se deve é banalizar ou ficar esperando infinitamente uma solução, para não correr o risco de vivenciar o que ocorre na analogia de Freud (1996c)36 com relação à decisão sobre os métodos de se evitar a guerra e a lentidão do funcionamento do moinho.

Benzer Belgeler