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Benî Sâide Örtmesi’ndeki Toplantıdan Sonra Çıkan TartıĢmalar

II. HZ EBÛ BEKĠR DÖNEMĠ SĠYASĠ OLAYLARI

1. Hz Ebû Bekir’in Benî Sâide Örtmesinde Halife Seçilmesi

1.1. Benî Sâide Örtmesi’ndeki Toplantıdan Sonra Çıkan TartıĢmalar

CENTRALIZADORA NAS MINAS E CAPITANIA DE GOIÁS

Este poder político do governador, marcado por limites, mas ao mesmo tempo ameaçador aos olhos das elites locais, também foi alvo de queixas e denúncias durante o governo de Luiz da Cunha Meneses. Empossado em 16 de outubro de 1778, seis dias depois dava ciência à rainha sobre sua entrada no governo e informava a respeito de suas primeiras medidas à frente das Minas e Capitania de Goiás. Na carta, ressaltava o fato de ter dado continuidade às medidas governamentais adotadas pelo ex-governador, seu predecessor, José de Almeida Vasconcelos (D.A.C.G, Cx. 30, D. 1944, 4 CD-ROM), o que pode indicar uma tendência de continuidade e manutenção das ações anteriores em seu governo e, ao mesmo tempo, um prolongamento dos problemas políticos com os quais conviveu seu antecessor.

Se as lacunas existentes na estrutura administrativa do império contribuíram para fragilizar a autoridade metropolitana na colônia, provocando o aumento da incidência de delitos – delitos, evidentemente, também de ordem político-administrativos –, o século XVIII teria testemunhado, como afirma Russel-Wood, uma “[...] atenuação no grau de controle exercido pelo governo central [...]” a respeito das questões e assuntos internos das Capitanias na América portuguesa (1998, p. 246). Seus estudos apontam para a habilidade dos colonos em reconhecer a vulnerabilidade provocada por esta lacuna administrativa, bem como a “[...] quebra na cadeia de autoridade e a indecisão dela resultante” (1998, 246).

De fato, tendo em vista o governo de Luís da Cunha Meneses, imaginamos poder indicar outra conseqüência desta fragilidade administrativa metropolitana: se a existência de

um poder monárquico frágil no interior da Capitania de Goiás, estimulava ou facilitava a participação política por parte das elites locais, por outro lado, liberava de certas imposições e obrigações o próprio capitão-general e governador que, tanto quanto as corporações locais, era favorecido pela distância do centro de decisões e poder do império, pela precariedade dos meios transportes e pela dimensão e diversidade da América portuguesa.

Devemos ter sempre em mente que, se havia interesses marcantes por parte das elites locais, também os havia por parte dos governadores, cujo período de estada nas minas podia, certamente, redefinir sua condição financeira e política no império. Alencastre nos lembra como as riquezas de Goiás, ainda apenas enquanto território paulista, podiam atrair os interesses de capitães-generais, como no caso do governador da Capitania de São Paulo, Luiz de Assis Mascarenhas (1739-48). Segundo aquele autor, este governador teria levado de Goiás verdadeira fortuna, tendo comprado em São Paulo uma fazenda avaliada em duzentos mil cruzados, cem casais de escravos e até o próprio navio em que foi para Lisboa, vindo a ser o conde Dalva e se tornado vice-rei da Índia (1979, p. 71).

Assim, permeado por conflitos e disputas, mas aparentemente caracterizado por intensa presença da autoridade do governador, a permanência de Luiz da Cunha Menezes em Vila Boa parece revelar indícios de uma tendência centralizadora, ao menos no interior das Minas e Capitania de Goiás. Neste período, é recorrente nos discursos dos grupos locais, as denúncias e acusações de absolutismo, autoridade excessiva e até mesmo ódio e desprezo público que dispensava o governador e capitão-general às demais instâncias de poder locais.

Se as reações contra Luiz da Cunha Menezes não chegaram a se diferenciar notavelmente das investidas das autoridades vilaboenses contra seus antecessores, por outro lado, os posicionamentos deste governador parecem desvelar um representante direto do monarca mais autoritário e ávido por investir e ultrapassar os limites das jurisdições impostas ao cargo que ocupava, promovendo freqüentes manifestações de desconforto e insatisfação.

Escrevendo à rainha, em quatro de abril de 1780 (D.A.C.G, Cx. 32, D. 1999, 4 CD- ROM), Luiz da Cunha Menezes revelava – para além das dificuldades e incômodos econômicos e financeiros por que passavam as Minas e Capitania que administrava – suas reações ante a atuação da câmara municipal de Vila Boa de Goiás. Solicitava à rainha,

reforçando pedido do governador que o antecedeu, juízes de Fora no lugar de juízes leigos. Contudo, avançou sua opinião em relação ao antecessor, quando sugeriu a necessidade de um Ministro de Letras para presidir a câmara de Vila Boa e pediu a abolição das propinas pagas aos oficiais camaristas, para que fossem pagos, por meio do orçamento da câmara, militares pertencentes às ordenanças locais – o que se constituirá, no futuro, como veremos, em elemento de sérios descontentamentos por parte dos vereadores e juízes ordinários de Vila Boa de Goiás.

Talvez em resposta às manifestações da câmara e à resistência de seus oficiais às imposições pessoais do governador, nenhuma destas solicitações, aliás altamente comprometedoras e prejudiciais ao poderio e jurisdição de juízes locais e vereadores, foram atendidas pela coroa. Fato que indica a existência de ações estratégicas por parte da câmara que buscavam explorar as fissuras e as fragilidades do sistema político então vigente (RUSSEL-WOOD, 1988, p. 246) capazes de deter até mesmo a ação de um núcleo tão forte e privilegiado de poder como o do governador da Capitania sem, contudo, arriscar uma confrontação direta e aberta em desafio à autoridade da coroa.

Sem dúvida, a persistência de juízes ordinários devia dificultar em muito o relacionamento da câmara com os governadores na Capitania de Goiás, principalmente por serem lideranças ligadas eminentemente aos interesses de grupos locais e, em sua maioria esmagadora, analfabetos e, portanto, desprovidos da cultura letrada da corte. Evidentemente, motivos de ordem técnica também deviam compor o rol de contrariedades provocado pelos grupos locais à atuação do governador, pois administrar as dificuldades da Capitania e, ao mesmo tempo, lidar com as diferenças e limites impostos pela educação pouco formal dos juízes ordinários, sem dívida representava uma barreira quase instransponível para a obtenção dos resultados propostos e esperados.

Apesar de compor o imaginário dos governadores, aparecendo-lhes como solução para problemas de ordem técnica, política, administrativa ou mesmo cultural, a instituição do juiz de fora, em substituição ao juiz ordinário local, podia não trazer o resultado esperado. Era o que acontecia em todo o reino de Portugal, a exemplo da câmara de Viseu, citada por Monteiro, cujos estudos, embora limitados ao século XVII, revelaram a ação e os serviços do juiz de fora sendo paulatinamente integrados ao espírito e aos interesses das instituições locais, contra os abusos cometidos por autoridades metropolitanas (1993, p. 312). Tal

peculiaridade parece ter tido forte ressonância, já no final do século XVIII, quando o ex- vereador e capitão-mor de Vila Boa de Goiás, Antonio de Souza Telles e Menezes, escrevendo à rainha, dizia ser útil que a coroa nomeasse juiz de fora “[...] para fazer respeitar a mesma câmara e livrar estes seus humildes vassalos de tanta opressão e descompostura [...]” (BERTAN, 1996, p. 45), demonstrando que, se o governador imaginava atenuar conflitos na Capitania por meio da nomeação de juizes de fora, o mesmo expediente provocava, simultaneamente, ante os olhos de um líder local, outra expectativa: possibilidade concreta de fortalecimento da própria câmara municipal.

Atendido ou não em suas petições e apelos junto ao governo metropolitano, Luiz da Cunha Menezes exercia o poder de governar as Minas e Capitania de Goiás plenamente consciente das fissuras inerentes ao sistema administrativo, arriscando evoluções que certamente extrapolavam o alcance de suas atribuições. A maior delas foi, sem dúvida, a decomposição da câmara, tornando nulo um processo eleitoral e, posteriormente, fazendo a nomeação pessoal dos juizes e vereadores que atuaram durante o ano de 1783.

A decisão de impor novos membros à câmara de Vila Boa, suprimindo a legitimidade garantida por meio de um processo eleitoral que sempre movimentou trienalmente a população local, parece ser indicativo de uma disputa em que o governador se envolveu e, detendo o controle do poder militar na Capitania, se dispôs a interferir e influenciar, mesmo que fosse levado a atuar além dos limites e das fronteiras de suas jurisdições. De acordo com Silva e Souza, Luiz da Cunha Meneses teria nomeado, em janeiro de 1783, os juízes e vereadores da câmara municipal porque, na ausência do ouvidor-geral e corregedor, ao invés de procederem à eleição, foram reconduzidos para os mesmos cargos os vereadores do ano anterior (1998, p. 99).

De acordo com a carta-denúncia encaminhada à rainha, D. Maria I, os vereadores e juizes ordinários, eleitos para o ano de 1783, foram impedidos de tomar posse de seus respectivos cargos, já que o governador havia indicado outros, de sua livre escolha e preferência. Argumentava a câmara que, mesmo que o governador encontrasse alguma irregularidade no processo de escolha de seus membros, poderia, em última hipótese, determinar, ainda que ilegalmente – já que nunca lhe competiu interferir ou fiscalizar seus atos e procedimentos, responsabilidade exclusiva do corregedor-geral –, a realização de outra eleição, mas em nenhuma condição promover a justiça com suas próprias mãos e a

partir de seu julgamento particular. Mesmo porque, de acordo com os vereadores, o governador teria acompanhado pessoalmente todo o procedimento interno realizado pela câmara, inclusive tendo concordado, inicialmente, com o procedimento adotado, mas manifestando sua discordância apenas posteriormente, com a clara intenção de desmoralizar publicamente a instituição.

A denúncia à rainha incluía outros procedimentos tidos como ilegais por parte do governador, indicando um verdadeiro choque entre sua autoridade e as demais instituições que atuavam em Vila Boa de Goiás. Estaria o governador “perturbando as jurisdições” com seus “despotismos” a ponto de nenhum ministro ou juiz realizar um despacho sequer sem que estivesse de acordo e submetido às suas preferências e vontades particulares. Na justiça, tanto no Cível como no Crime, as jurisdições estariam corrompidas: “[...] por simples despachos seus anulla escripturas publicas, revoga sentenças de juizes, subita processos, concede moratórias [...] sem audiência de partes, prova ou averiguação” (D.A.C.G, Cx. 34, D. 2077, 4 CD-ROM). Além disso, “[...]empata que se tirem as devassas, [...] ficando delitos impunidos, [...] solta os presos da Justiça [...] sendo o fim o ultrajar as corporações, juizes e magistrados [...]” (D.A.C.G, Cx. 34, D. 2077, 4 CD-ROM).

Acusavam ainda o governador de desestabilizar os direitos dos vassalos da rainha, de mandar açoitar indevidamente presos no pelourinho, de conceder e manter privilégios inconcebíveis a oficiais mecânicos, e de manipular de forma irregular os contratos reais. Na cerimônia anual do beija-mãos, Luiz da Cunha Menezes, como representante da rainha na Capitania, teria exigido mais quatro beija-mãos, num ato particular tido por “[...] idolatria sacrílega aos Reais cultos públicos somente devidos a Pessoa de Vossa Majestade como senhora soberana de seus vassalos [...]” (D.A.C.G, Cx. 34, D. 2077, 4 CD-ROM).

Ante a manifestação de tão alargada e expandida autoridade, de interferência no universo das jurisdições das demais corporações, o poder do governador parece ter sido reconhecido, embora contestado quando ameaçava as autonomias corporativas, prejudicando o equilíbrio entre os poderes que constituíam o cenário político de Vila Boa de Goiás. Apesar de aceitar a posição de governador como legítimo representante da coroa, oferecendo a ele todas as honras dispensadas à própria rainha, e mesmo submetendo-se a ele como se o fizessem na presença do poder real, ainda assim, juizes e vereadores o reconheciam na mesma condição de vassalo em que todos se encontram. Ao mesmo tempo em que o

exaltavam, o igualavam. Ao mesmo tempo em que se rebelavam e denunciavam o autoritarismo de Luiz da Cunha Menezes, conscientes de sua presença passageira pelas Minas e Capitania de Goiás, felicitavam a rainha, estimulados pela notícia da nomeação de um outro governador, na esperança do restabelecimento e preservação do equilíbrio entre os poderes locais: que não se injuriassem as corporações, nem se perturbassem as jurisdições “[...] que Vossa Majestade as criou distintas e separadas” (D.A.C.G, Cx. 34, D. 2077, 4 CD- ROM).

Evidentemente, neste espaço marcado por alteridades, nem sempre o discurso das corporações insatisfeitas explicitavam toda a complexidade das disputas e dos interesses em jogo. Certamente, dos conflitos permanentes dependia o equilíbrio das forças e dos poderes que moldavam as redes de inter-relações e dependências recíprocas no conjunto do jogo social. Parece óbvio o interesse do governador em assenhorar-se da câmara, tendo em vista os poderes institucionais que apenas ela detinha. O que revela, uma vez mais, sua importância no contexto político e administrativo das Minas e Capitania de Goiás.

Desvendando a natureza desta crise que opunha os interesses do governador aos da câmara municipal, Palacin aponta para uma possível ambigüidade da situação da câmara: um poder político de decisão diminuto, mas ampla disponibilidade econômica (1983, p. 57). Embora as demonstrações de poder político da câmara tenham oscilado de acordo com as circunstâncias, ao longo da segunda metade do século XVIII – o que não nos permite concordar com a primeira afirmação do autor –, não se pode negar a situação privilegiada da câmara quanto ao aspecto econômico-financeiro, mesmo quando comparado aos privilégios régios concedidos ao próprio governador e capitão-general da Capitania de Goiás.

Realmente, a estrutura administrativa de toda a Capitania, baseada na multiplicação de minivilas em todo o seu território, com sistema de arrecadação próprio, centralizava totalmente o controle da receita de todos os arraiais, tornando a situação da câmara municipal – única nas Minas de Goiás – excepcionalmente vantajosa: metade dos recursos de todos os núcleos urbanos eram administrados por juizes e vereadores, estrategicamente posicionados em Vila Boa de Goiás (PALACIN, 1983, p. 56). Ausente nos discursos dos oficiais da câmara municipal – provavelmente com a intenção de não atrair para o centro da discussão matéria de essencial interesse para a corporação – a idéia de ser a receita da câmara maior que suas despesas esteve sempre presente entre os argumentos apontados por

Luiz da Cunha Menezes, e, diga-se de passagem, nos de seus antecessores, que procuravam incessantemente justificar suas ações e investidas contra a câmara municipal de Vila Boa de Goiás e mesmo suas tentativas, eivadas de êxito, de se apropriar de seus recursos e aplicá-los da forma que melhor lhes conviesse.

Talvez, por isso mesmo, o silêncio da coroa na condição de terceira parte envolvida: se no final do século XVIII apertou-se o cerco metropolitano sobre o poder da câmara municipal – como parecem demonstrar as ações extremamente invasivas que caracterizaram o governo de Luiz da Cunha Menezes –, a dimensão fundamental deste controle recaiu sobre sua capacidade e atribuições financeiras, conduzindo a um certo cerceamento de seu poder político no interior das relações e da dinâmica dos poderes locais.

Benzer Belgeler