O objetivo deste estudo foi compreender de que maneira o professor fazia uso da pesquisa escolar como estratégia de busca e uso de informações e de aprendizagem. Observando o processo, procurou-se entender de que forma o professor motivava os estudantes; como orientava a busca e uso de informações; como sugeria fontes para a pesquisa, bem como a qualidade e quantidade das mesmas; se utilizava a biblioteca e interagia com o bibliotecário.
Quando o professor observado nesse estudo optou por trabalhar com o conteúdo programático do Iluminismo, desenvolvendo-o através da pesquisa escolar, não estava apenas escolhendo uma alternativa às aulas expositivas. Ele fez uma escolha consciente, que ficou evidente em diversos momentos do processo, pois acreditava que aquela era uma estratégia de aprendizagem que privilegiava não só a competência de busca e uso da informação, mas permitia também ao estudante a reconstrução do conteúdo a partir de situações novas que eles mesmos criavam. Assim, o professor não valorizou a “quantidade de informações, mas a capacidade de lidar com elas, através de processos que implicam em sua apropriação e comunicação (BRASIL, PCNEM: ciências humanas e suas tecnologias, p. 26)”. Também levou em consideração a qualidade das fontes de informação, ao disponibilizar livros e revistas e orientar para a checagem de informações extraídas de sites como Wikipédia e Youtube.
Pode-se perceber na entrevista, que o professor acredita que a opção pela metodologia de pesquisa é uma escolha privilegiada, pois permite que os estudantes desenvolvam sua autonomia, olhar investigativo e leitura crítica. Conclui-se que o professor não utilizou a pesquisa escolar como estratégia de busca e uso de informações: a aprendizagem do conteúdo, e não do processo em si, foi o principal foco, sendo o comportamento do aluno o aspecto predominantemente. Pode-se perceber que esse profissional apresenta uma prática alinhada ao seu discurso e postura consciente do que seja o
construtivismo aplicado à educação escolar, atuando de acordo com as orientações presentes nos PCNs e no projeto político pedagógico da escola, promovendo a aprendizagem por meio de metodologias que estimulam o pensamento crítico dos estudantes.
Em relação ao trabalho em parceria com outros profissionais da escola, sejam eles professores, bibliotecários, pedagogos, coordenadores, diretores, constatou-se sua inexistência. Entretanto, em entrevista, ao ser questionado sobre o trabalho em parceria com outros profissionais o professor afirmou não realizá-lo, mas que seria interessante a interdisciplinaridade. Com tal resposta, mostrou que considerava principalmente o trabalho conjunto com outros professores sobre o conteúdo curricular, mas não a orientação compartilhada com o bibliotecário, por exemplo, para se trabalhar metodologias de aprendizagem, como é o caso da pesquisa escolar, por exemplo.
A biblioteca escolar não foi utilizada devido ao fato do professor possuir e disponibilizar o material aos estudantes, acreditando serem fontes confiáveis e que bastariam para impulsionar outras pesquisas por parte dos alunos. A biblioteca foi indicada de forma tímida como local para o desenvolvimento da pesquisa. A falta de infraestrutura e/ou recursos na biblioteca não pode ser apontada, no caso estudado, como um motivo da não procura por aquele ambiente, pois possuía espaço adequado e confortável e uma bibliotecária à disposição dos estudantes, todavia, o espaço permanecia na maior parte do tempo inutilizado.
A motivação para a pesquisa foi a característica preponderante durante todo o processo observado. Colocando-se à disposição dos alunos e permanecendo na escola para ser consultado, o professor teve uma postura condizente com sua proposta de auxiliar os estudantes no que fosse necessário, seja na forma ou no conteúdo do trabalho. Durante as apresentações elogiou os grupos que se apresentavam bem e fez críticas construtivas aos que não se prepararam de forma adequada, o que gerou satisfação em todas as turmas com os debates abertos e feedback imediato do professor. Alguns estudantes demonstraram desapontamento por não terem feito uma boa pesquisa e apresentação, mas ao mesmo tempo, estavam contentes por terem obtido conhecimento através do processo. Embora os estudantes tenham se sentindo
mais preparados e motivados após a orientação, a procura pelo professor foi pequena e realizada em momento inadequado. Acredita-se que o desinteresse pela busca de orientação deve ser destacado e melhor investigado, pois foi um ponto negativo no processo.
Cabe destacar que o professor analisado vive uma realidade diferente da maioria do professorado que trabalha na educação básica: ele possui doutorado e contrato de dedicação exclusiva na escola em que leciona. Tais características indicam que a formação do professor bem como o tempo disponível para permanecer na escola são fatores importantes no que diz respeito à orientação para a pesquisa escolar. Diversos estudos apontados nesse trabalho reivindicam a formação continuada dos professores como uma melhoria necessária à atuação desses profissionais, inclusive no que diz respeito ao conhecimento da metodologia de pesquisa.
A situação observada constitui-se um ambiente atípico da realidade escolar brasileira. Sugere-se, portanto, que estudos complementares repliquem essa pesquisa utilizando a metodologia da pesquisa-ação em que o pesquisador orientaria a atuação do professor, utilizando o modelo ISP buscando promover trabalho colaborativo com o bibliotecário. Assim, poderão ser realizados estudos de caso comparativos que poderão refletir sobre a atuação do professor com e sem a colaboração do bibliotecário utilizando a pesquisa escolar como metodologia de ensino antes e depois de tomar consciência das etapas do processo.
A LDB (1996) sugere o trabalho com metodologias que articulem saberes para uma aprendizagem significativa, por meio de dinâmicas elaboradas a partir de competências. Já os PCNs do Ensino Médio orientam o professor a escolher metodologias que desenvolvam a capacidade de pesquisar (buscar, selecionar e analisar informações) ao invés do mero exercício da memorização (BRASIL, 2000, p. 05). Evidenciou-se que ambas as características estavam presentes na prática do professor observado.
Constatou-se que em sua atuação o professor englobou características relativas à orientação para o ensino de História presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais (em especial o de História) tais como: valorização dos saberes dos alunos, proposição de questionamentos e organização de pesquisas,
seleção de materiais de fontes diversas, exposição do resultado dos estudos para os colegas. Tal documento incita que o professor deve estimular a autonomia dos estudantes, entretanto, o mesmo é quem deve decidir o tema de estudo, “quem aponta as questões a serem investigadas, quem orienta e sugere onde e o que pesquisar, quem propõe questões e aprofundamentos, quem aponta as contradições entre as ideias, as práticas e obras humanas (BRASIL, 1997, p. 76).” Assim, até mesmo ao escolher o tema para a pesquisa e direcionar as discussões em sala de aula, o professor agia de acordo com os PCNs.
Os estágios de pesquisa indicados no modelo ISP que nortearam a observação, parecem ser desconhecidos como metodologia de ensino/aprendizagem. O professor aqui observado, mesmo tendo passado por momentos de investigação e pesquisa em sua vida acadêmica, não privilegiou a escolha do assunto e das fontes, o refinamento das informações encontradas, o uso de anotações, a confecção dos slides, uso ético das fontes, entre outros elementos, embora tenha valorizado os grupos que realizaram seus seminários com algumas dessas características. Como ele mesmo afirmou, o Ensino Médio não é visto como local de pesquisa, que é atribuída somente às universidades. Tal constatação, mesmo que inconscientemente, pode ter afetado a atuação de tal professor, uma vez que ele não trabalhou de forma detalhada a coleta e uso de informações, características essas imprescindíveis à pesquisa acadêmica.
Os PCNs privilegiam a aprendizagem autônoma pela pesquisa embora não especifiquem como essa estratégia é realizada, tal como é feito no modelo de Kuhlthau. Este é um espaço de interlocução entre a Educação e a Ciência da Informação que pode ser melhor explorado em futuros estudos e cujos resultados podem trazer significativas melhorias à educação brasileira.
Pode-se considerar que este estudo alcançou resultados satisfatórios ao contribuir com a visão do professor que orienta o processo sendo observado em ambiente natural de aprendizagem. A escolha da técnica da observação para a coleta de dados realizada em um ambiente que possuía as características que influenciam a pesquisa escolar (apontadas em outros estudos) fez com que esse estudo contribuísse com uma nova perspectiva para a literatura da área de pesquisa escolar, utilizando-se de um olhar menos subjetivo ao observar e não
somente colher depoimentos do que é o processo de pesquisa para o professor que utiliza tal recurso.