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I. BÖLÜM

2.6. Hizmet Kalitesi

2.6.2. Belediyelerde Hizmet Kalitesi

Comissariado de Alimentação Pública (1918), o Instituto de Defesa Permanente do Café – IBC (1923), o Instituto do Álcool e do Açúcar – IAA (1933), o Instituto Nacional do Mate (1938), o Instituto Nacional do Sal (1940), o Instituto Nacional do Pinho (1941) que tinham a competência exclusiva para acompanhar e regular estas atividades específicas que lhe eram inerentes, ou seja, regular as atividades econômicas relacionadas ao café, álcool, açúcar, mate, sal e pinho.

O Estado brasileiro, buscando adequar-se à globalização (fator externo), promoveu e incentivou uma integração regional que corrigisse as disparidades

criadas ao longo de sua história, decorrentes de uma organização administrativa viciada e deficiente (fator interno), redefinindo, então, seu “novo” papel.

A implantação dessa administração pública gerencial possui como um de seus postulados básicos a redefinição ou requalificação do grau de intervenção do Estado na ordem econômica, traduzida no referido “papel regulador”,e que hoje vem sendo exercido por entidades descentralizadas, a exemplo das “agências reguladoras”110.

Repisando, então, aquele posicionamento ideológico-político, o Estado, a partir da metade da década de noventa, criou entidades autárquicas setoriais de regulação, denominadas de “agências”, com regime jurídico especial111, por serem

dotadas de autonomia e especialização, além de outras características.

Recorremos ao excelente levantamento de dados de Dinorá Adelaide Musetti Grotti (2004) para destacar que no plano federal foram criadas as seguintes agências:

• Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) – Lei nº 9.427, de 26-12-96, alterada pelas Leis nos. 9.648 e 9.649, ambas de 27-05-98, 9.986, de 18-07-00 e 10.438, de 26-04-02; Decreto nº 2.335/97, alterado pelo Decreto nº 4.111/02. Vinculada ao Ministério de Minas e Energia, foi instituída com a finalidade de regular e fiscalizar a produção, a transmissão, a distribuição e a comercialização de energia elétrica em conformidade com as políticas e diretrizes do governo federal;

• Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) – Lei nº 9.472, de 16-07-97, modificada pela Lei nº 9.986, de 18-07-00; Decreto nº 2.338/97, alterado pelos Decretos nº 2.853/98, nº 3.873/01 e nº 4.037/01. Vinculada ao Ministério das Comunicações, com a função de órgão regulador das telecomunicações;

• Agência Nacional do Petróleo (ANP) – Lei nº 9.478, de 06-08-97, alterada pelas Leis nos 9.986, de 18-07-00, 9.990, de 21-07-00, 10.202, de 20-02-01 e 10.453,

110

Passim, ALICE GONZALEZ BORGES (1998).

111 Dinorá Adelaide Musetti Grotti (2004) relembra que “a expressão autarquia especial foi empregada, pela primeira vez, na Lei nº 5.540, de 28-11-68 (art. 15), para ressaltar o fato da universidade pública apresentar um grau de autonomia administrativa superior àquele reconhecido às demais entidades autárquicas”.

de 13-05-02; Decreto nº 2.455/98, alterado pelos Decretos nº 3.388/00 e nº 3.968/01. Vinculada ao Ministério de Minas e Energia, como órgão regulador da indústria do petróleo;

• Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA – dantes denominada ANVS) – Lei nº 9.782, de 26-01-99, alterada pela Lei nº 9.986, de 18-07-00 e pela MP nº 2.190-34, de 23-08-01; Decreto nº 3.029/99, alterado pelo Decreto nº 4.220/02. Vinculada ao Ministério da Saúde, com a finalidade institucional de promover a proteção da saúde da população por intermédio do controle sanitário da produção e da comercialização de produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária;

• Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – Lei nº 9.961, de 28-01-00, alterada pela Lei n.º 9.986, de 18-07-00 e pela MP nº 2.177-44, de 24-08-01; Decreto nº 3.327/00. Vinculada ao Ministério da Saúde, com a finalidade de promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras setoriais, inclusive quanto às suas relações com prestadores e consumidores;

• Agência Nacional de Águas (ANA)– Lei nº 9.984, de 17-07-00, alterada pela MP nº 2.216, de 31-08-01; Decreto nº 3.692/00. Vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, como entidade federal de implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e de coordenação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos;

• Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)– Lei nº 10.233, de 05-06-01, alterada pelas Leis nos 10.470/02 e 10.561, de 13-11-02 e pela MP nº 2.217-03, de 04-09-01; Decreto nº 4.130/02. Vinculada ao Ministério dos Transportes, destinada à regulação do transporte ferroviário de passageiros e carga e exploração da infra-estrutura ferroviária; dos transportes rodoviário interestadual e internacional de passageiros, rodoviário de cargas, multimodal; e do transporte de cargas especiais e perigosas em rodovias e ferrovias;

• Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) – Lei nº 10.233, de 05- 06-01, alterada pelas Leis nos 10.470/02 e 10.561, de 13-11-02 e pela MP nº 2.217-03, de 04-09-01; Decreto nº 4.122/02. Vinculada ao Ministério dos Transportes, com o fim de regular os transportes de: navegação fluvial, travessia, apoio marítimo, apoio portuário, cabotagem e longo curso. Também visa a regular os portos organizados, os terminais portuários privativos, o transporte aquaviário de cargas especiais e perigosas;

• Agência Nacional do Cinema (ANCINE)– MP nº 2.228-1, de 06-09-01, com a redação dada pela Lei nº 10.454/02; Decreto nº 4.121/02, alterado pelo Decreto nº 4.330/02; Decreto nº 4.283/02. Vinculada nos primeiros doze meses, a partir de 05-09-01 à Casa Civil da Presidência da República e a contar daí ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Visa ao fomento, regulação e fiscalização da indústria cinematográfica e videofonográfica.

Há uma autarquia sob regime especial, vinculada ao Ministério da Fazenda, cujas funções são de índole equivalente às das agências reguladoras, mas que não recebeu a denominação de agência. É a Comissão de Valores Mobiliários – Lei nº 10.411, de 26-02-02; Decreto nº 4.300/02, alterado pelo Decreto nº 4.537/02.

Há outras autarquias, que também são denominadas “agências”, mas não se constituem em “autarquias especiais”, quais sejam:

• Agência Espacial Brasileira (AEB) – Lei nº 8.854, de 10-02-94, alterada pela MP nº 2.216-37, de 31-08-01. Decreto nº 3.566/00, alterado pelo Decreto nº 4.140/02. Autarquia federal , com natureza civil, vinculada à Presidência da República, com a finalidade de promover o desenvolvimento das atividades espaciais de interesse nacional. Responde de modo direto ao Presidente da República. É dotada de autonomia administrativa e financeira;

• Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA) – MP nº 2.157-5, de 24-08-01, alterada pela MP nº 2.199, de 24-08-01; Decreto nº 4.125, de 13-02-02. Autarquia vinculada ao Ministério da Integração Nacional, com o objetivo de implementar políticas e viabilizar instrumentos de desenvolvimento da Amazônia;

• Agência de Desenvolvimento do Nordeste(ADENE) – MP nº 2.156-5, de 24-08- 01, alterada pela MP nº 2.199, de 24-08-01; Decreto nº 4.126, de 13-02-02. Autarquia vinculada ao Ministério da Integração Nacional, com o objetivo de implementar políticas e viabilizar instrumentos de desenvolvimento do Nordeste.

Há ainda um órgão, portanto unidade da Administração direta e não uma autarquia, que recebeu o nome de “agência”: a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, criada pela Lei nº 9.883, de 07-12-99; Decreto nº 4.376/02.

Há também uma autarquia, não autarquia especial, cujos conselheiros e procurador geral têm mandato; exerce funções judicantes, cujas decisões não se submetem à revisão hierárquica, mas que não foi instituída como agência, ou seja, o CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica –, criado pela Lei nº 4.137, de 10-09-62, que passou a se constituir em autarquia federal pela Lei nº 8.884, de 11-06-94, vinculada ao Ministério da Justiça.

Nos Estados, surgiram várias agências multisetoriais (sem especialização) para regular as atividades dos concessionários dos respectivos serviços estatais ou para exercer poder delegado pela União na fiscalização de serviços elétricos:

• Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul – AGERGS, criada pela Lei Estadual nº 10.931, de 09-01-97, posteriormente alterada pela Lei nº 11.292, de 23-12-98;

• Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Estado do Ceará – ARCE (Lei Estadual nº 12.786, de 30-12-97);

• Agência Estadual de Serviços Públicos do Estado do Espírito Santo – AGESP (Lei Estadual nº 5.721, de 19-08-98);

• Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Estado de Mato Grosso – AGER/MT (Lei nº 7.101, de 14-01-99);

• Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Minas Gerais – ARSEMG (Lei Estadual nº 12.999, de 31-07-98);

• Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Pará – (Lei Estadual n.º 6.099, de 30-12-97);

• Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos do Estado do Rio de Janeiro – ASEP-RJ (Lei Estadual nº 2.686, de 13-02-97);

• Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado do Rio Grande do Norte – ASEP-RN (Lei estadual nº 7.463, de 02-03-99); Agência Catarinense de Regulação e Controle – SC/ARCO (Lei Estadual nº 11.355, de 18-01-00);

• Agência Reguladora de Serviços Concedidos do Estado de Sergipe – ASES (Lei Estadual nº 3.973/98);

• Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas – ARSAL (Lei Estadual nº 6.267, de 20-09-01);

• Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul – AGEPAN (MS) (Lei Estadual nº 2.363, de 19-12-01);

• Agência Goiana de Regulação, Controle e Fiscalização de Serviços Públicos – AGR (Lei Estadual nº 13.550, de 11-11-99);

• Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos – ARCON (Lei Estadual nº 6.099, de 30-12-97).

Em alguns Estados foram instituídas agências setoriais: Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transporte e Comunicação da Bahia – AGERBA (Lei Estadual nº 7.314, de 19-05-98); Comissão de Serviços Públicos de Energia do Estado de São Paulo – CSPE, criada pela Lei Complementar nº 833, de 17-10-97 e a ARTESP – Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de

Transporte do Estado de São Paulo, criada pela Lei Complementar nº 914, de 14-01- 02.

No âmbito municipal, por exemplo, tem-se conhecimento da criação da Agência Municipal de Regulação dos Serviços de Saneamento de Cachoeiro de Itapemirim – AGERSA –, criada pela Lei Municipal nº 4.798/99.

Ressalte-se o fato de que cada uma dessas agências está relacionada a um determinado setor da atividade econômica, o que justifica a movimentação do Estado de se afastar do papel de executor e assumir sua vocação de fiscalizador e regulador das atividades públicas, exercidas pelo setor público e pelo setor privado, primando pela necessidade do atendimento do interesse público.

Essa intervenção estatal reguladora, segundo Carlos Ari Sundfeld (2000), sugere que o Estado se organize

[...] para fazer mais do que editar uma lei geral para vigorar por tempo indeterminado e depois cuidar dos conflitos individuais. E para isso ele tem de intervir mais. Aqui está a questão. O modelo que conhecemos – a separação de Poderes tradicional e as funções que competiam aos Poderes Judiciário e Legislativo – era perfeitamente coerente com o baixo intervencionismo estatal.[...] É para isso que surgiram as agências reguladoras. Elas nasceram porque a sociedade exigiu que o Estado regulasse certas realidades, fazendo este ‘gerenciamento’ que referi. Não limitar-se à distante edição de normas abstratas capazes de cuidar da sociedade durante 80 anos sem transformação mais profunda (como o Código Civil) [...]; quer dizer: normas que, embora sendo gerais, são muito mais específicas e instáveis do que foram no passado. Regular é, ao mesmo tempo, ser capaz de dirimir os conflitos coletivos ou individualizados. É por isso que surgem as agências reguladoras, porque o Estado tem de regular (CARLOS ARI SUNDFELD, 2000, pp. 28 e 30).

As funções de fiscalização, normativa e sancionatória atribuídas às agências e adotadas pelo modelo de regulação implementado no Brasil, no momento de redefinição do papel do estado na Economia, contudo, devem ser analisadas com parcimônia, uma vez que nos EUA, desde a década de 30, entendeu-se que estas atribuições constituiriam um quarto poder. As agências devem buscar formas práticas de reafirmação dos seus comandos, para gerar e manter sua legitimidade.

A mudança formal do regime regulatório brasileiro ocorreu no momento de arranjo político-institucional que reavaliava o Estado e o mercado.

Os principais aspectos da Reforma do Estado foram a delimitação e a redução do grau de interferência (regulação), a recuperação da governança (efetividade) e o aumento da governabilidade (controle social).

Quanto ao regime regulatório, foram sugeridos cinco princípios básicos: 1) autonomia e independência decisória; 2) ampla publicidade das normas, atos, procedimentos; 3) simplificação e celeridade processual; 4) participação das partes envolvidas (audiências públicas) e 5) limitação da intervenção estatal na prestação de serviços públicos.

Recentemente, no afã de refletir sobre a função reguladora das agências estatais, tecemos alguns comentários (RENATA PORTO ADRI DE ROSA, 2001) sobre a proposta governamental de reestruturação do Estado, os quais gostaríamos de, a seguir, registrá-los neste trabalho.

Reportemo-nos, então, ao Texto Constitucional brasileiro que veicula, por força das Emendas Constitucionais nºs 8 e 9 de 1995, respectivamente, no artigo 21, inciso XI, com o acréscimo do parágrafo 2º e no artigo 177, parágrafo 2o, inciso III, a

existência de um órgão regulador dos serviços de telecomunicações e do monopólio da União na pesquisa, lavra, refinação, importação, exportação do petróleo e seus derivados. As atribuições e especificações desse foram firmadas na Lei nº 9.472/97 que instituiu a ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) e na Lei nº 9.478/97, que criou a ANP (Agência Nacional de Petróleo). Destaquemos, por oportuno, o fato de estarem constitucionalmente previstos, o que já lhes conferem standards suficientes para se concluir que não se trata, apenas, de simples previsão de delegação legislativa, como procuraremos demonstrar a seguir.

A referência constitucional feita apenas a essas duas agências reguladoras, como preferiu a lei denominá-las, não impediu, ao contrário, deu início à criação de outras, nos mesmos moldes: a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica - Lei nº 9.427/96), a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Lei nº 9.782/99), a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar - Lei nº 9.961/2000) e a ANA (Agência Nacional de Águas – Lei nº 9.984/2000)112, o que denota a aparente e irreversível tendência à proliferação dessas “agências reguladoras”, em nosso

112

Recentemente, a Casa Civil da Presidência da República divulgou o anteprojeto de lei que cria a Agência Nacional de Defesa do Consumidor e da Concorrência (www.presidencia.gov.br). Há, também, agências reguladoras no âmbito estadual: ASEP-RJ (Lei Estadual nº 2.686/97) e a AGERRS/RS (Lei Estadual nº 10.931/97).

ordenamento jurídico, cujo avanço de intenções já ensejou a edição de lei dispondo sobre a gestão de seus recursos humanos (Lei nº 9.986, de 18.07.2000).

Os serviços públicos passaram, então, a ser regulados de modo tradicional, a exemplo da intervenção no domínio econômico e de modo específico, por meio de regulação setorial com funções ditadas pela especificidade de cada atividade que tivessem por finalidade o interesse público.

No contexto brasileiro, há quem defenda a gênese americana para as agências reguladoras (como ocorre com a Agência Nacional de Telecomunicações - ANATEL) e quem diga que o modelo inglês teria prevalecido para a constituição de outras (a exemplo, da Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL).

O que se percebe do atual modelo regulatório brasileiro é que a regulação pública possui algumas das características essenciais dos modelos de agências reguladoras estrangeiras, tais como: natureza jurídico-administrativa, independência ou autonomia orgânica e funcional, autonomia gerencial dissociada da gestão política dos governos (como ocorre com os mandatos), instituídas por lei, mas que em algumas hipóteses como em autonomia político-administrativa e no limite e alcance da competência normativa, há pontos de colisão com o ordenamento jurídico vigente.

Nos modelos americano e inglês, verificamos a explícita e dirigida intenção de instituir autoridades reguladoras independentes com plena liberdade e autonomia de gestão, estando adstritas aos diversos interesses envolvidos, bem como limitadas pela lei e controladas pelo Órgão Judicial.

No âmbito da Europa destacam Maria Manuel Leitão Marques et al. (2005) que:

no relatório sobre os Serviços de Interesse Econômico Geral na Europa do CEEP e do CIRIEC (2002: 28-29), o objectivo actual da regulação é sobretudo a criação de uma estrutura de mercado que permita manter a concorrência, ou seja, uma regulação da estrutura. Esta regulação ‘tende a definir um conjunto de regras gerais para o acesso integral e eficaz às redes ou aos mercados, permitindo aos diferentes concorrentes fornecer serviços eficientes em resposta à procura dos utilizadores’. Não se trata de regular comportamentos e escolhas como anteriormente (regulação da gestão), mas de evitar qualquer discriminação entre os fornecedores, os quais deverão dispor dos mesmos direitos de exploração e de acesso às infra- estruturas, no quadro da prestação de serviços públicos na Europa (MARIA MANUEL LEITÃO MARQUES et al., 2005, pp. 189-190).

No Brasil parece que essas definições não estão assim tão delineadas ou, mesmo quando previstas na legislação, dão margem a diversas interpretações, o que não confere a necessária segurança jurídica para todos os envolvidos neste processo113.

Nesse sentido, inclusive, o Colendo Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao Recurso Especial nº 572.070/PR, cuja decisão foi publicada no Diário da Justiça em 14.06.2004 interposto por empresa que presta serviço de telefonia fixa no Estado do Paraná, entre outras localidades. Por meio deste recurso, a operadora buscava a cassação do provimento liminar que havia sido concedido a pedido da Coordenadoria de Proteção e Defesa do Consumidor de Cornélio Procópio – PROCON em sede de ação civil pública.

A cobrança da tarifa interurbana questionada derivava da circunstância de as localidades em questão não estarem situadas na mesma “área local”. Isso porque o Plano Geral de Outorgas de Serviço de Telecomunicações prestado no regime de direito público (aprovado pelo Decreto nº. 2.534/98) estabelece como critério diferenciador entre as modalidades de serviço local e serviço de longa distância justamente a “área local”. Dessa forma, a tarifa local é cobrada entre localidades situadas na mesma “área local” e se duas localidades no País não forem situadas na mesma “área local”, será cobrada a tarifa interurbana.

O Acórdão do Colendo Superior Tribunal de Justiça consignou que “a delimitação da chamada “área local” para fins de configuração do serviço local de telefonia e cobrança da tarifa respectiva leva em conta critérios de natureza preponderantemente técnica, não necessariamente vinculados à divisão político- geográfica do município.” Destacamos a reflexão quanto à necessidade de estabilidade na regulação do setor, a qual seria alcançada dando importância à atuação da agência reguladora.

Ementa:

ADMINISTRATIVO. TELECOMUNICAÇÕES. TELEFONIA FIXA. LEI N. 9.472/97. COBRANÇA DE TARIFA INTERURBANA. SUSPENSÃO. ÁREA LOCAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. 1. A regulamentação do setor de telecomunicações, nos termos da Lei n. 9.472/97 e demais disposições correlatas, visa a favorecer o aprimoramento dos serviços de telefonia, em prol do conjunto da população brasileira. Para o atingimento desse objetivo, é imprescindível que se privilegie a ação das Agências Reguladoras, pautada em regras claras e objetivas, sem o que

113

Utilizamos o vocábulo processo como equivalente ao contexto histórico, político, econômico e administrativo de liberação de algumas atividades estatais antes exercidas em regime de monopólio.

não se cria um ambiente favorável ao desenvolvimento do setor, sobretudo em face da notória e reconhecida incapacidade do Estado em arcar com os eventuais custos inerentes ao processo.

2. A delimitação da chamada "área local" para fins de configuração do serviço local de telefonia e cobrança da tarifa respectiva leva em conta critérios de natureza predominantemente técnica, não necessariamente vinculados à divisão político-geográfica do município. Previamente estipulados, esses critérios têm o efeito de propiciar aos eventuais interessados na prestação do serviço a análise da relação custo-benefício que irá determinar as bases do contrato de concessão.

3. Ao adentrar no mérito das normas e procedimentos regulatórios que inspiraram a atual configuração das "áreas locais" estará o Poder Judiciário invadindo seara alheia na qual não deve se imiscuir.

4. Se a prestadora de serviços deixa de ser devidamente ressarcida dos custos e despesas decorrentes de sua atividade, não há, pelo menos no contexto das economias de mercado, artifício jurídico que faça com que esses serviços permaneçam sendo fornecidos com o mesmo padrão de qualidade. O desequilíbrio, uma vez instaurado, vai refletir, diretamente, na impossibilidade prática de observância do princípio expresso no art. 22, caput, do Código de Defesa do Consumidor, que obriga a concessionária, além da prestação contínua, a fornecer serviços adequados, eficientes e seguros aos usuários.

4. Recurso especial conhecido e provido.”

Voto do Exmo. Sr.Ministro Relator João Otávio de Noronha:

No caso presente, observo que a decisão hostilizada, embora reconhecendo que as chamadas “áreas locais” devam ser fixadas, nos termos da legislação de regência, com base em critérios de natureza predominantemente técnica, acabou por adentrar no mérito das normas e procedimentos regulatórios que inspiraram a atual configuração dessas áreas, invadindo seara alheia na qual deve se imiscuir o Poder Judiciário. Ao intervir na relação jurídica para alterar as regras, estará o judiciário, na melhor das hipóteses, criando embaraços que podem comprometer a qualidade dos serviços prestados pela concessionária.

[...]

Há de se ter em mente que a regulamentação do setor de telecomunicações, nos termos da lei nº. 9.472/97 e demais disposições correlatas, visa a favorecer o aprimoramento dos serviços de telefonia em prol do conjunto da população brasileira. Esse objetivo, entretanto,

somente será atingido com uma política regulatória estável que privilegie a ação das Agências Reguladoras, pautada em regras claras e objetivas, sem o que não se cria um ambiente favorável ao desenvolvimento do setor, sobretudo em face da notória e reconhecida incapacidade do Estado em arcar com os eventuais custos inerentes ao processo (grifos nossos).

Essa redefinição do papel do Estado, que desencadeia o movimento de privatização, publicização, concessão de serviços públicos, parcerias público- privadas são pontos de nossa inquietação, não por discordarmos da necessidade de mudanças, atualização e crescimento, mas pela forma como são implementadas e se estão condizentes com o ordenamento jurídico vigente, pois, se assim o fossem, não estaríamos nos perguntando o porquê de chegarmos à marca de mais de quarenta emendas constitucionais. Será que adequamos os novos institutos ou, em

verdade, estabelecemos pelo poder constituinte derivado uma nova Ordem Constitucional?

Nesse sentido, colhemos o posicionamento de Gilberto Bercovici (2003), no qual comungamos.

A Constituição de 1988 tentou estabelecer as bases de um projeto nacional de desenvolvimento. No entanto, a falta de consenso em torno da própria Constituição é patente: nenhum governo pós-1988 assumiu com o discurso da implementação e da concretização da Constituição, mas todos, sem exceção, praticaram e praticam o discurso das reformas constitucionais. Possuir uma Constituição em constante processo de reforma significa que não conseguimos obter um consenso mínimo para estabelecer, a partir das bases constitucionais, um projeto nacional de desenvolvimento. [...] Este é

Benzer Belgeler