Uma ideia bastante comum em mortes violentas, como a sofrida por Daniella Perez, concentra-se no fato de os sobreviventes expressarem sua dor em relação ao significado dessa morte para a sociedade, na medida em que buscam compreender e criar relações dessa dor particular com a de outros sujeitos que sofrem com situações semelhantes. Como demonstrado em Matéria do Globo Repórter, apresentada anteriormente, percebe-se que o sofrimento de Daniella encontra no mundo social possibilidade de arranjos e comunicação com sofrimento de outras mulheres que são vítimas da ação de homens que se valem de sua maior força física para violentá-las. Estas são atitudes classificadas como covardes, nas quais a vítima não tem chance de defesa. Ademais, outro ponto importante do caso
de Daniella Perez foi o profundo questionamento do exercício na justiça no Brasil, expressado em entrevista de Glória Perez logo após o julgamento de Guilherme de Pádua.
Glória Perez acha resultado satisfatório
Novelista quer leis mais rigorosas para assassinatos
A novelista Glória Perez deixou o prédio do 1° Tribunal do Júri com o jeito de quem sai de uma batalha. Carregando um broche com a foto da filha e aparentando cansaço, ela classificou o veredicto como satisfatório, dentro do possível. "É o que prevê a Justiça brasileira. Infelizmente, não existem leis para punir o assassinato no Brasil", disse.
- O que a senhora achou da sentença recebida por Guilherme de Pádua? - Ela foi sábia, porque evita um novo julgamento para este assassino. Se não, essa confusão não iria acabar nunca. Nós também temos a possibilidade de recorrer da sentença, mas eu ainda vou conversar sobre este assunto com o advogado. A nossa decisão só deve sair daqui a uns dois dias.
- O veredito foi justo?
- Dentro do possível, foi. Por outro lado revelou que não existem leis para punir o crime de assassinato no Brasil. Eu agora estou lutando pela reformulação do Código Penal Brasileiro. Eles (Guilherme e Paula) deveriam pegar a prisão perpétua, até para não matarem mais ninguém, não fazerem mais nenhuma vítima. A lei brasileira, no entanto, não prevê isso.
(GLÓRIA..., 1997).
Apesar do reconhecimento de que a sentença foi justa, na medida do possível, Glória Perez abre uma discussão que foi a tônica de sua ação em prol de
mudanças na legislação brasileira. Para ela, ―não existem leis para punir o crime de
assassinato no Brasil‖. Apoiada na ideia de que os criminosos estariam em liberdade dentro de poucos anos, ela buscou nessa evidência uma forma para constranger o judiciário e expor um discurso pautado na reinvindicação de que é preciso tomar providências que ultrapassem os limites hoje impostos pela própria lei para punição de criminosos como o assassino de sua filha.
Além da luta pela punição dos culpados, a morte de Daniella Perez se tornou emblemática na história da justiça brasileira pela participação de sua mãe, amigos e parentes em uma campanha que visava colher assinaturas para mover
uma ação popular para mudança na lei dos crimes hediondos53. Esta foi, para Glória
Perez, a maneira de tentar fazer justiça à memória de sua filha e evitar que outros
53 Para Pinto (2008), essa mobilização protagonizada por Glória Perez foi um movimento marcado
pelo sensacionalismo midiático em torno de um crime de ampla repercussão nacional, favorecendo as exigências de uma política de recrudescimento penal baseada no compromisso com a repressão criminal.
assassinos pudessem gozar dos direitos resguardados na própria lei. Segundo relato de Glória Perez,
Sabendo que a Constituição oferecia ao cidadão a oportunidade de fazer passar uma lei, desde que reunindo um número de assinaturas proporcional à população do país, eu e Jocélia saímos em campo, conscientes de que nenhuma possível conquista poderia ser aplicada aos assassinos de nossas filhas, uma vez que a lei não retroage para punir. (Depoimento disponível em no Blog de Glória Perez: gloriafperez.blogspot.com).
Inicialmente motivadas para a criação de uma nova lei, Glória Perez,
juntamente com Jocélia Brandão54, foi orientada por Antônio Carlos Biscaia, então
Procurador Geral de Justiça do Rio de Janeiro, para, em vez de criar uma nova lei, buscar propor a inclusão dos homicídios qualificados na lei dos crimes hediondos. A
mobilização para isso ficou conhecida como Campanha das Assinaturas55. A
iniciativa da Campanha das Assinaturas visava a inclusão dos homicídios qualificados nas leis dos crimes hediondos. A iniciativa foi reconhecida como uma das poucas ações populares para criação ou mudança de uma lei brasileira. Este fato evidenciou o distanciamento da sociedade brasileira de suas instituições e despertou a atenção de instâncias de produção que repercutiram a iniciativa de Glória Perez ainda muito tempo depois do seu momento de maior efervescência. Em 2008, A Folha de São Paulo destacou que apenas 0,5% dos projetos de lei apresentados ao Congresso Nacional até aquele ano eram resultados de iniciativa popular. O Jornal apresenta a necessidade de mais de um milhão de assinaturas para que um projeto de lei possa ser apreciado no âmbito parlamentar como problema para iniciativa popular. Cita a iniciativa de Glória Perez como uma das poucas (ao todo quatro, apenas) que conseguiram superar a exigência, destacando a seguinte fala da autora: "foi uma coisa muito bonita [a campanha por assinaturas]
porque na época não havia Internet, e eu não tive apoio da grande mídia‖
(GUIMARÃES, 2008).
54 Jocélia Brandão se tornou nacionalmente conhecida após o sequestro de sua filha Miriam, de
apenas cinco anos. No mesmo mês em que morreu Daniella Perez, dezembro de 1992, Miriam foi assassinada e teve seu corpo queimado pelos sequestradores.
55 A referência ao nome é utilizada pela própria Glória Perez em seu blog pessoal, no tópico em que
narra a participação de Antônio Carlos Biscaia em sua ação: Biscaia e a campanha das assinaturas (2007).
É importante destacar que uma mobilização desse porte seja possível sem uma conexão intersubjetiva muito forte entre pessoas que se identificam e se reconhecem aliadas em prol de algo que acreditam.
No caso apresentado, o sofrimento causado pela morte de um ente querido devido à ação violenta de outro é uma força social fundadora de alianças e mobilizações que causaram profundas discussões a respeito de como o Estado, através do sistema judiciário, pode oferecer respostas convincentes aos anseios de segmentos sociais determinados. Não obstante, juristas chamaram atenção para os riscos de se discutir uma questão, como a lei dos crimes hediondos, em cenários de forte comoção social.
O conselheiro [Carlos Weis] cita o trabalho do jurista César Barros Leal como forma de demonstrar a reação primeira da sociedade a essa lei: "mergulhada no espiral da violência e manipulada pelos meios de comunicação social e pelos movimentos de lei e ordem (law and order), a sociedade, atemorizada, em pânico, sem saber o que fazer, é induzida a não pensar nas raízes do problema, na possibilidade de enfrentá-lo em suas origens e simplesmente demandar mais repressão, novos tipos penais, mais prisão." (MILANI, 2007).
Contudo, os discursos de juristas também passaram a ser alvo de críticas, pois foram ressaltados como distantes do cenário social brasileiro marcado, fortemente, por crimes brutais, como o que afetou Daniella. A sensação de impunidade também foi outro problema apresentado como resultado não apenas das penas, mas da possibilidade de os autores de crimes poderem conquistar sua liberdade com apenas um terço da pena cumprida. A progressão de regime foi um dos elementos atacados por movimentos sociais interessados no endurecimento da lei dos crimes hediondos. Não obstante, em 2006, o Plenário do supremo Tribunal Federal reconheceu a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do artigo 2º da Lei 8.072/90 (Lei dos Crimes Hediondos), que determinava, em caso de crime hediondo, ao réu condenado, ter que cumprir integralmente em regime fechado. A Lei nº 11.464/2007 estabeleceu a progressão de regime aos condenados por crimes hediondos a partir de dois quintos da pena para réus primários e três quintos para reincidentes. Independente dos seus efeitos jurisdicionais, a movimentação em torno da questão gerou um debate significativo sobre as formas como o Estado legisla e aplica suas leis em relação aos acontecimentos que afetam os cidadãos de uma sociedade.
Figura 6 – Capa da Revista Manchete: Glória Perez pede Justiça.
Fonte: Disponível em: <http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-210434500-manchete93Daniella- perezsennaedson-cordeirocyberpunks1-_JM>. Acesso em: 03 abr. 2010.
Na capa da Revista Manchete, é possível observar a frase ―Glória Perez
pede justiça‖. Este enunciado serviu de mote para a produção de conteúdos da imprensa nacional a respeito da luta da autora por mudanças efetivas nas leis penais, pois as mesmas não cumpriam, do seu ponto de vista, a sua função de reparar os danos causados na vida de outras pessoas por condenados por crimes como o sofrido pela sua filha. Posto isto, a legitimidade da pena passou a ser o alvo das discussões a respeito de crimes de homicídio, com enfoque na questão do sofrimento causado por assassinos não apenas à vítima, mas a toda a sociedade, que se solidariza com o sofrimento da pessoa morta e dos sobreviventes. Apesar de um forte apelo emocional retratado pelos meios de comunicação de massas, as reinvindicações de Glória Perez não deixaram de encontrar resistências em virtude do seu enfoque em uma política de recrudescimento penal que visava manter por mais tempo em regime fechado os condenados por crimes de homicídio. A autora de novelas não mediu esforços para a coleta de assinaturas que pudesse gerar um projeto de lei que implicasse em uma mudança efetiva na lei dos crimes hediondos.
Ainda a respeito das discussões geradas pelo projeto de lei que visava incluir os homicídios qualificados nas leis dos crimes hediondos, destacam-se dois aspectos. Em primeiro lugar, a ideia de que a mudança proposta estaria fundamentada em um forte apelo emocional e, justamente por isso, implica em uma ameaça à objetividade do trabalho da justiça. Sem dúvida, a exposição do sofrimento da mãe de Daniella e de outras vítimas de violência é um fato que marca esse acontecimento. Ademais, a partir da profusão do drama de amigos e parentes nos meios de comunicação, criam-se riscos de que o sofrimento de uns se transforme em combustível para leis que ferem princípios básicos de uma sociedade democrática de direito. Esta visão coloca em questão as prerrogativas das leis penais se fundamentarem em processos racionais, elaboradas por pessoas capazes de pensá-las e executá-las sem intromissão de apelos emocionais. Nesta perspectiva, as emoções são pensadas como formas sociais impuras, capazes de contaminar a pureza do pensamento positivo e lógico que deve estar presente na constituição de leis. Estas, em vez de serem pensadas como correspondentes dos desejos sociais, são tratadas como objeto de grupos seletos, capazes de pensá-las
livres de qualquer apelo emocional56.
A segunda questão importante, conectada diretamente à primeira, é o êxito da Campanha das Assinaturas ter sido atribuído à manipulação dos meios de comunicação (PINTO, 2008). Como visto na matéria da Folha apresentada anteriormente, em suas declarações públicas, Glória Perez buscou desvincular a campanha da mídia, associando a sua própria participação nessa ação a um movimento mais amplo que expressava anseios sociais decorrentes de inúmeros crimes violentos, como o sofrido por sua filha. Ela se esforçou em declarar que a campanha pelas assinaturas não contava com nenhum apoio de grandes empresas do ramo de comunicação, sendo a principal característica do movimento a iniciativa popular em prol de leis que pudessem cumprir sua função social de ―fazer justiça‖ às
56 Essa discussão remete à crítica dos modelos de justiça inspirados em certo formalismo jurídico que
remete a discussões presentes na Teoria Pura do Direito. Bobbio (2008, p. 23) destaca que a Teoria Pura do Direito ―sempre combateu em duas trincheiras: de um lado, contra o Direito Natural; de outro, contra a Sociologia‖. Fundada na intenção de ser uma ciência dotada de objetividade não explicativa de fatos, mas de normas, a Teoria Pura do Direito considera o Direito Natural o campo de todas as ideologias que exprimem valores subjetivos e até irracionais, enquanto a Sociologia é tratada como uma ciência dos fenômenos sociais que cuida das coisas do ser, distintamente do Direito, que deve cuidar das coisas do dever ser (BOBBIO, 2008). A relação do Direito com outras formas de conhecimento social é o pano de fundo das discussões que envolvem as tensões geradas pela intenção de iniciativas populares tentarem intervir no campo de produção de normas sociais.
vítimas e sobreviventes. Contudo, foi marcante, em toda campanha, a participação de atores de novelas e a cobertura da imprensa nacional, preocupada em demonstrar como essa ação angariava êxito em conclamar para si personalidades de grande reconhecimento social em suas áreas de atuação.
O próprio protagonismo de Glória Perez foi móbil do interesse público pela campanha, tendo em vista que a sua imagem está inevitavelmente ligada ao seu reconhecimento público decorrente do seu trabalho como autora de novelas, sendo isto parte constitutiva do seu capital simbólico acumulado. Sua participação
foi fundamental para mobilizar e agenciar forças e sujeitos57 que seriam muito
difíceis de acessar caso ela não estivesse envolvida no movimento. Embora sejam questionáveis os valores defendidos pela campanha, o sofrimento mobilizador da ação se fundamentou e conquistou reconhecimento social na medida em que agregou pensamentos que não eram apenas uma invenção espetacular da mídia, mas resultados de múltiplas leituras de uma realidade social marcada pela violência e que, sem dúvida, os meios de comunicação ajudaram a alimentar.
Figura 7 – Celebridades apoiam Movimento por mudanças na lei penal.
Fonte: Imagem disponível em: <http://daniellafperez.blogspot.com/>. Acesso: em 06 abr. 2010.
57 A participação de dezenas de outras celebridades públicas, inclusive dos segmentos espirituais,
como o médium Chico Xavier e o cardeal Dom Evaristo, foi um fato marcante da Campanha e da repercussão que isso teve nas mais diversas esferas da sociedade brasileira.
Figura 8 – Entrega do Projeto de Lei com mais de 1,3 milhão de assinaturas.
Fonte: Imagem disponível em: <http://daniellafperez.blogspot.com/>. Acesso em: 06 abr. 2010. Nas imagens, é possível observar a valorização de certas pessoas publicas como instrumento de legitimação da reivindicação da proposta presente na campanha pela inclusão do homicídio qualificado na lei dos crimes hediondos. A apresentação pública das mais de 1.300.000 assinaturas marcou uma consagração dessas reivindicações no cenário nacional e nas disputas referentes aos pedidos de mudanças nas leis penais brasileiras.
Esse momento apareceu como mais um dos desdobramentos da morte de Daniella Perez, representando a força dos investimentos simbólicos feitos pelos meios de comunicação em sua intenção de criar efeitos de realidade que tenham desdobramentos políticos efetivos. Nesta perspectiva, a morte de Daniella transporta efeitos da ordem ficcional para a realidade, provocando a reflexão sobre as interfaces dessas duas esferas fenomenológicas em uma estrutura cultural flexível e socialmente construída. Sobre a questão de como as novelas podem repercutir na vida real, pareceu emblemática a entrevista de Glória Perez à Revista Veja, na qual responde sobre essa conexão entre ficção e realidade ao tratar da questão da violência.
―De corpo e Alma‖ não é violenta. Qual a violência da novela? Acho uma coisa completamente absurda querer resolver, a nível ficcional, os problemas do mundo concreto. Não se pode admitir, por exemplo, que no século XIX Marx, em vez de se dedicar a fazer a revolução, fosse atirar contra Balzac porque ele pintou o capitalismo nas obras dele. Me interessa o mundo concreto. A morte da minha filha é concreta (DIAS..., 1993). Intitulada Dias de ira e dor, a entrevista percorre a visão da autora sobre o crime e o processo, ressaltando em sua manchete os sentimentos que compõem e dão sentido às ações e motivações de Glória Perez em relação à sua intenção de ver a justiça ser feita e cumprida não em favor de seus anseios, mas daquilo que ela julgar ser a vontade de toda sociedade. As nuances dessa ideia da morte da filha ser seu elemento concreto, pelo qual ela atua em prol de justiça, torna a sua experiência concreta uma motivação da ordem dos afetos, negando, assim, dimensões estruturais que remetem a problemas que, na sua concepção, seriam de ordem abstrata. ―Essa mulher é uma fortaleza‖ é a frase de abertura da matéria da Veja, ressaltando a determinação da autora frente aos desafios abertos pela dor da perda
da filha. Nesta perspectiva, a motivação de Glória em ―fazer justiça‖ é retratada não
apenas como uma ação egoísta em prol da condenação dos acusados, mas como ação altruísta que objetiva dar conta ―da dor maior que pode existir: a da mãe cuja
filha morre inesperadamente‖. Essa dor não é apenas de Glória, mas de ―todas as
mães‖ e pessoas que podem entender seu sofrimento e se solidarizar com sua luta por justiça.
Experiência mais solitária da existência, a dor - intransferível, incompartilhável - costuma jogar as pessoas em mais solidão. No abatimento, na prostração. Mas não para Glória Perez. Ela abraçou o cadáver de Daniella. Levantou-se e olhou ao redor. "Foi ali que eu comecei", diz a autora de De Corpo e Alma. "Depois do desespero, me deu uma lucidez incrível, e pensei: quero saber quem fez isso." Saber quem foram os autores do crime, para entender o que se passou com sua filha. Saber para exigir punição, vingança. A vingança, a ira tomaram conta de Glória Perez. Sentimentos feios, é certo, mas humanos e nobres quando expressos pela mãe cuja filha foi dilacerada pelas fúrias (DIAS..., 1993).
Na matéria da Veja, os sentimentos de Glória são transformados em conteúdos que buscam transmitir ao leitor a dimensão da sua dor, do seu desespero, da sua angústia e da sua necessidade de vingança. Todos esses sentimentos compõem, na matéria, a essência da ideia de humano na qual a Revista busca sustentar sua argumentação, criando elos emocionais capazes de serem traduzidos pelos seus leitores e, consequentemente, produzir como efeito de
realidade uma compreensão mais densa do que a experiência da morte de uma filha representa para a sociedade. A matéria segue ressaltando que a morte de um filho não é uma experiência natural, pois, conforme as expectativas sociais compreendidas pelo meio de comunicação, espera-se que ela só ocorra depois da
morte de seus pais, tornando essa experiência difícil de ser compartilhada58.
Conforme a ideia que os meios de comunicação buscam transmitir para a sociedade, é possível observar a criação de uma representação da morte de Daniella Perez como a morte de uma filha jovem, repleta de sonhos e projetos em andamento que são interrompidos violentamente, afetando não apenas a sua mãe, mas toda sociedade, que é mobilizada para sofrer junto com ela. Ora, dirão alguns: ―outras garotas, naquele mesmo ano, também morreram, tão novas quanto Daniella e ninguém deu atenção‖. Assim como a igualdade entre os homens é um mito da modernidade, a ideia de que toda a morte é igual também é uma fantasia, pois não apenas os jornais selecionam as mortes que valem a pena ser destacadas como as pessoas escolhem ao que irão ou não dar atenção. Possivelmente, os moradores de uma grande cidade não têm tempo, nem disposição para chorar por todas as pessoas que morrem todos os dias em sua cidade. Isto não significa que eles não percebam e sejam afetados por certos casos. Muitos desses casos são pré- selecionados pela imprensa, como foi o caso de Daniella. A imprensa o selecionou em detrimento de outras pessoas que morreram naquele dia e, para isso, usou técnicas ensinadas não apenas nas empresas, mas nas Universidades de comunicação social e jornalismo.
Algo importante de se ter em mente é o fato de que a imprensa não matou Daniella, mas teve um papel decisivo na construção social do sofrimento, ao criar uma estética do acontecimento, reproduzindo imagens, canções e depoimentos sobre a vida da vítima. Esta se tornou mais conhecida de muitas pessoas depois de