Conforme Hegel (2010), a poesia dramática é a síntese mais elevada da poesia, pois contém a objetividade da poesia épica e a subjetividade da poesia lírica. Dessa maneira, tanto pela forma, quanto por seu conteúdo, a poesia dramática assume um grau de superioridade. Hegel afirma:
O drama, que, tanto pelo conteúdo como pela forma, constitui a totalidade mais completa, deve ser considerado como a fase mais elevada da poesia e da arte. Com efeito, se em contraste com os outros materiais sensíveis – madeira, pedra, tinta e som – só a linguagem, a palavra e o discurso constituem o elemento digno de servir à expressão do espírito, também a poesia dramática, por sua vez, que reúne a objetividade lírica, é um gênero superior, pois apresenta uma ação circunscrita como sendo uma ação real, cujo resultado deriva tanto do caráter íntimo das personagens que a efetuam como da natureza substancial dos fins e dos conflitos que a acompanham ou que provoca. Porém, esta união do princípio épico com o princípio lírico, mediante a apresentação de um indivíduo que executa uma ação real, não permite que o dramaturgo se detenha a descrever os aspectos exteriores do local, da natureza circundante, ou narrar vários atos e acontecimentos, mas exige, para que a obra de arte ofereça uma aparência verdadeiramente viva, o condicionalismo de uma completa representação cênica. (HEGEL, 2010, p. 555).
Mediante esta citação, podemos observar a superioridade da poesia dramática em relação às formas líricas e épicas. Também se depreende que a linguagem, a palavra e o discurso compõem o conjunto dos elementos mais adequados para servir ao espírito. A poesia dramática, segundo a concepção hegeliana, nasceu da necessidade de vermos as ações da vida humana sendo representadas, como podemos verificar a seguir:
A poesia dramática nasceu da nossa necessidade de ver os atos e as situações da vida humana representados por personagens que relatem os fatos e expressem os intentos mediante breves ou longos discursos. A ação dramática não se limita, porém à calma e simples progressão para um fim determinado; pelo contrário, decorre essencialmente num meio repleto de conflitos e de oposições, porque está sujeita às circunstâncias, paixões e caracteres que se lhe opõem. (HEGEL, 2010, p. 556)
Neste sentido, Hegel, assim como Aristóteles, afirma que a poesia dramática é mimesis de uma práxis. Assim, quando o dramaturgo elege algum recorte da vida e representa-o de forma artística, ele concebe a praxis como um objeto a ser trabalhado, utilizando-se dos meios e dos modos pertinentes à arte dramática para alcançar determinados fins. Neste sentido, o resultado da mimesis de uma práxis é o mythos. Assim, os dramaturgos realizam esta mimesis na ação dramática.
Conforme Hegel, a poesia dramática nasceu no interior de uma sociedade já consolidada. A forma dramática contém o princípio da poesia épica, quando concentra-se em uma ação, e o princípio lírico, posto que essa determinada ação exterior seria oriunda de uma vontade interior. Hegel acredita que o drama configura-se como a representação de uma interioridade em sua realização exterior, motivada por uma ação interior.
constituição da ação. Para Hegel, a ação, por sua vez, emerge dos caracteres individuais das personagens. Assim, as ações das personagens estão condicionadas tanto pela presença como pela ausência da eticidade dos caracteres. No entanto, é somente através das paixões e dos fins perseguidos que os caracteres se revelam. Consoante a teorização de Hegel sobre a poesia dramática, temos:
Se é certo que a natureza íntima do indivíduo constitui o centro da representação dramática, não é menos verdade que esta não pode se contentar com a pintura de situações essencialmente líricas, quer dizer, com simples estados de alma, e descrever tranquilamente os feitos já passados, ou os prazeres, intuições e sentimentos nos quais o homem permanece inativo; no drama, as situações só tem sentido e valor pela ação das personagens, pelos fins que estas personagens perseguem, e pelos caracteres que assim revelam. (HEGEL, 2010, p. 558).
Neste fragmento, observa-se que o centro da representação dramática é a natureza íntima dos indivíduos e, no drama, as situações somente adquirem significado através das personagens em ação. Consoante os posicionamentos de Sandra Luna (2002) sobre Hegel, podemos averiguar que o drama somente adquire significado devido às ações que as personagens objetivam alcançar, pois, somente assim, as personagens revelam seus caracteres. Nesta perspectiva, Sandra Luna comenta sobre os pensamentos hegelianos:
Retomando a tradição que o antecede, Hegel considera que a ação dramática se origina do desejo humano lutando por um objetivo e consciente dos resultados, acrescentando que esse desejo que impulsiona a ação, colidindo com interesses e paixões, é o que molda o conflito principal, determinante ao desenvolvimento da trajetória dramática. Isso porque o universo dramático, embora essencialmente conflituoso, deve também constituir uma unidade. A
“unidade de ação”, é, segundo Hegel, a única lei verdadeiramente inviolável
na poesia dramática. (LUNA, 2002, p. 433)
Acreditamos que é necessário enfatizar que os sujeitos dramáticos lutam por seus ideais objetivando alcançar determinados fins. Para tanto, lutam instigados por seus desejos e, desta mescla, de interesses e paixões, origina-se o conflito trágico. Através desta citação, observamos que Hegel pontua como a única e verdadeira lei inviolável do drama a “unidade de ação”.
Hegel acrescenta que os fins e os conteúdos da ação são dramáticos porque suscitam fins e paixões opostas, como podemos analisar a seguir:
Diremos, além disso, que o fim e o conteúdo de uma ação são dramáticos porque, em virtude da sua precisão ou particularização – que fazem com que o caráter individual não possa apreender senão em circunstâncias e condições determinadas -, provocam e inspiram nos outros indivíduos paixões e fins opostos. (HEGEL, 559, 2010)
Conforme Hegel, o imbróglio que origina a ação pode ser oriundo de forças morais, espirituais, da paixão fraternal, do amor à pátria, entre outras possibilidades, mas, para que estes conteúdos genuínos dos sentimentos adquiram carga dramática, é imprescindível o choque com outros indivíduos que persigam fins opostos.