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KÂR DAĞITIM TABLOSU

A peça La vida es sueño mescla personagens nobres, como o rei da Polônia, Basílio e o príncipe Segismundo, englobando os criados do reino e seus ajudantes, como Clarín e Rosaura. Clarín, apesar de não pertencer à nobreza, desempenha grande representatividade com muitos diálogos na obra. Assim, percebemos que o drama de Calderón de la Barca já

possui características bem demarcadas pelo El arte nuevo de hacer comedias en este tiempo, de Lope de Vega, pois mescla, em sentenças trágicas, personagens trágicas com personagens cômicas.

Ademais, este hábito de demarcar e caracterizar os diálogos das personagens serve para enfatizar os papeis que desempenham os nobres e os populares em uma sociedade monárquica. Assim, como a obra está situada na esfera do drama burguês e aristocrata, é notório que o autor manteve como personagens centrais do seu drama trágico um rei e um príncipe.

Na peça La vida es sueño constatamos que a organização social se vê muito bem demarcada pelos valores sociais e religiosos e pela separação das personagens em classes sociais. Como enfatizado no segundo capítulo dessa dissertação, a peça foi escrita em um período de glória da literatura e da dramaturgia espanholas, mas em meio a uma crise social, política, religiosa e econômica na Espanha. Mesmo que a peça em análise possua uma carga filosófica acentuada, ela revela aspectos referentes à época na qual foi escrita. Um exemplo desta divisão de classes sociais é o fato de que somente as personagens de origem nobre são chamadas pelo nome:

(CRIADO) 2º. ¡Qué melancólico está! (CRIADO) 1º. ¿Pues a quién le sucediera

eso, que no lo estuviera?

CLARÍN. A mí.

(CRIADO) 2º. Llega a hablarle ya. (CRIADO) 1º. ¿Volverán a cantar?

SEGISM. No,

no quiero que canten más. (CRIADO) 2º. Como tan suspenso estás,

quise divertirte.

SEGISM. Yo

no tendo de divertir con sus voces mis pesares; las músicas militares sólo he gustado de oír. CLOTALDO. Vuestra Alteza, gran señor,

me dé su mano a besar, que el primero le ha de dar esta obediencia mi honor. (LA BARCA, 2011, p. 126)40

40“CRIADO 2º - Quanta melancolia! CRIADO 1º - Quem não estaria melancólico no seu caso? CLARIM – Eu.

CRIADO 2º - Basta de conversa! CRIADO 1º - Devem continuar a cantar? SEGISMUNDO – Não, não quero que cantem mais. CRIADO 2º - Pretendíamos alegrar-te, visto que estás tão absorto. SEGISMUNDO – Eu não preciso distrair-me com as suas vozes. Só gostei de ouvir as músicas marciais. CLOTALDO – Dê-me,

Na citação em epígrafe é possível observar essa demarcação das classes sociais e, ao mesmo tempo em que a obra mescla as personagens cômicas com as trágicas, até mesmo atribuindo diálogos às personagens Rosaura (lembrando que a personagem omite sua ascendência nobre ao longo da peça) e Clarín, ela delimita hierarquicamente os papéis sociais. Logo, no que se refere à distinção da linguagem e de comportamento das personagens, podemos observar o seguinte diálogo entre Segismundo, Clarín e o Soldado 2 na terceira cena do terceiro ato:

SEGISM. ¿Quién nombra aquí a Segismundo? CLARÍN. ¿Más que soy príncepe huero? (SOLDADO) 2º. ¿Quién es Segismundo?

SEGISM. Yo.

(SOLDADO) 2º. ¿Pues cómo, atrevido y necio, tú te hacías Segismundo? CLARÍN. ¿Yo Segismundo? Eso niego.

Vosotros fuisteis los que me segismundasteis: luego vuestra ha sido solamente necedad y atravimiento. (LA BARCA, 2011, p. 166)41

Na citação acima observamos o caráter cômico de Clarín, como também é possível observar a distinção do emprego das palavras pelas personagens. Segundo Aristóteles (1991), a tragédia é uma ação elevada e, por conseguinte, é uma ação de nobres. Assim, a linguagem das personagens em uma tragédia deve ser ornada. De acordo com Lope de Vega (2002), a tragicomédia é definida como um gênero que mescla o trágico e o cômico, tanto na composição temática, como na composição estrutural da poesia dramática. Lope de Vega aconselha aos poetas a não separarem as personagens trágicas das personagens cômicas, opondo-se à separação normativa dos gêneros literários propostas pelas Poéticas clássicas. Neste sentido, o que verificamos em La vida es sueño são personagens trágicas mescladas com personagens cômicas, no entanto observamos uma nítida separação e demarcação dessas classes sociais. Ciriaco Morón (2011), na edição crítica de La vida es sueño, comenta:

Las intervenciones del gracioso en la comedia española clásica deben aceptarse como un elemento de la teoría dramática del tiempo. No tiene sentido quejarnos hoy porque a nosotros nos gustaría más eliminar sus chistes

41“SEGISMUNDO – Quem chama aqui por Segismundo? CLARÍM – Sou um príncipe gorado. SOLDADO 2º

Quem é Segismundo? SEGISMUNDO – Eu. SOLDADO 2º - Ó tolo atrevido! Querias fazer-te passar por Segismundo? CLARIM – Eu, Segismundo? Nego isso. Foram vocês que me segismundaram”. (LA BARCA, 2011, p.75-76)

y dejar un teatro serio. Clarín es criado, conformista; por eso puede ser traidor a cualquiera de sus amos; tiene un horizonte muy limitado: comer y servir sin comprometerse. Todo eso son rasgos generales del criado en la literatura clásica. Sólo Sancho Panza tiene más complejidad. Pero los graciosos del Calderón ofrecen con frecuencia un paralelismo cómico a la situación trágica del protagonista (léase Luis Pérez el gallego) o un paralelo trágico con respecto a la comedia de de los señores. Éste es el papel de Clarín en La vida es sueño. (MORÓN42, 2011, p. 33)43

Observamos que em meio a situações intensas, Calderón, em La vida es sueño, alivia a cena com diálogos cômicos. Calderón faz isto na tentativa de amenizar o caráter acentuadamente trágico da peça. Muitos autores modernos, assim como Shakespeare, introduzem fragmentos cômicos nas sentenças trágicas para aliviar a tensão própria do desenvolvimento da tragédia, como também para popularizar a peça, tonando-a mais atrativa. Podemos dizer que este é um recurso utilizado por diversos dramaturgos, objetivando entreter e proporcionar divertimento para os espectadores e leitores.

Ademais, outra característica da divisão hierárquica na obra é a prisão do soldado que incitou a revolta contra o rei Basílio no último ato da peça. Ciriaco Morón também comenta sobre essa questão:

Los leales vienen a pedir mercedes, y los enemigos, por boca de Clotaldo, a recibir su castigo. Y entonces ocurre otra paradoja y otra manifestación de la profunda sabiduría del príncipe. Se reconcilia con su padre y con sus primos, abraza a Clotaldo agradeciéndole como a un padre la educación que de él recibió, y manda preso a la torre al soldado que levantó el ejército en nombre de su justicia. Ese final no había suscitado dudas hasta que ha surgido un tipo de crítica olvidada de la historia y del contexto. Para esa crítica tenemos un perfecto paralelismo entre la injusticia inicial de la torre y la injusticia final frente al soldado rebelde. (MORÓN44, 2011, p. 35)45

42 Ciriaco MORÓN. Edição crítica de La vida es sueño. 2011.

43

“As intervenções do gracioso na comédia espanhola clássica devem ser aceitas como um elemento da teoria

dramática do tempo. Não faz sentido reclamar hoje porque gostaríamos mais eliminar suas piadas e deixar um teatro sério. Clarín é servo, conformista; por isso, pode ser um traidor a qualquer um dos seus amos, tem um horizonte muito limitado: comer e servir, sem se comprometer. Tudo isso são características gerais do criados na literatura clássica. Somente Sancho tem mais complexidade. Mas os graciosos de Calderón oferecem, frequentemente, um paralelismo cômico a situação trágica do protagonista (leia Luis Pérez, o galego) ou um paralelismo trágico com relação a comédia dos senhores. Este é o papel de Clarín em A vida é sonho”. (MORÓN, 2011, p 33. Tradução livre nossa)

44 Ciriaco MORÓN. Edição crítica de La vida es sueño. 2011. 45

“Os leais vem pedir favores, e os inimigos, através da boca de Clotaldo, para receber seu castigo. E então

ocorre outra manifestação da profunda sabedoria do príncipe. Se reconcilia com seu pai e com seus primos, abraça Clotaldo agradecendo-lhe como um pai a educação que dele recebeu, e manda prender na torre prisão o soldado levantou o exército em nome da justiça. Esse final não havia sunscitado dúvida até que surgiu um tipo de crítica esquecida da história e do contexto. Ara essa crítica temos um perfeito paralelimo entre a justiça inicial da torre e a injustiça final diante do soldado rebelde”. (MORÓN, 2011, p. 35. Tradução livre nossa)

Pode-se verificar através desta citação que Calderón critica os ideais de justiça dos nobres. Segismundo foi capaz de perdoar Basílio e Clotaldo, no entanto, não foi capaz de perdoar o soldado que, proclamando justiça, o libertou da torre. Calderón em La vida es sueño, ao mesclar personagens baixas com personagens nobres, enfatiza ainda mais as disparidades sociais próprias de uma sociedade monárquica, questionando sobre os poderes inerentes à mesma.