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Apesar de na referência acima haver menção à temática do ensino religioso não confessional,

O prefeito da cidade do Rio de Janeiro enviou à Câmara dos vereadores um projeto de lei sobre ensino religioso confessional facultativo nas escolas públicas do município. A lei aprovada por vinte e oito votos contra cinco, foi sancionada em 2011 e a nova disciplina será implantada a partir de 2012. Serão abertas seiscentas vagas para professores de diferentes denominações religiosas e o município gastará a mais cerca da 16 milhões de reais no orçamento anual destinado à educação para fazer frente a esta mudança. Os candidatos ao magistério confessional devem ser

versados em sua crença, ter licenciatura plena, conhecimentos de história, geografia, filosofia, sociologia e prestarem concurso público. Os professores aprovados no concurso terão que ter os seus conhecimentos religiosos atestados por um representante de sua igreja ou comunidade confessional. Os alunos poderão optar entre aulas das seguintes doutrinas – católica, evangélica/protestante, afro- brasileiras, espírita, religiões orientais, judaica e islâmica. Àqueles que não optarem por nenhuma destas religiões a Secretaria Municipal de Educação oferecerá, nos mesmos horários, aulas de “educação para valores. A nova legislação municipal amplia o ensino religioso a todo o ensino básico do estado do Rio de Janeiro, pois desde 2000 já havia sido sancionada uma lei estadual implantando o ensino

religioso confessional nas escolas de ensino médio, para o qual foram também contratados professores” (grifos meus) (MAGGIE188, 2012, n.p.).

Pautando-nos na Constituição, é indubitável que há relevantes desdobramentos acerca da constitucionalidade dessas iniciativas. “Tanto é assim que o Supremo Tribunal Federal discutirá uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pela Procuradoria Geral da República contra o ensino religioso confessional nos estados do Rio de Janeiro e do Piauí (MAGGIE, 2012, n.p.).

E mais perguntas: como é que um Estado ‘laico’ pode oferecer ensino religioso confessional? Como é que esse mesmo Estado ‘laico’ pode contratar professores para que os seus conhecimentos sejam verificados por representante de sua igreja ou comunidade confessional? Escola não é lugar de proselitismo religioso. Estado ‘laico’ na deve oferecer ensino religioso confessional.

Mais outras polêmicas que só contribuem para suscitar mais confusões e dúvidas frente a esta temática. Diversos espaços públicos possuem crucifixo, tais como o que existe no Plenário do Supremo Tribunal Federal; nos plenários da Câmara e do Senado; na Câmara Municipal de São Paulo, em diversas repartições públicas, em várias salas dos tribunais do país; em várias repartições bancárias; em muitas escolas públicas, inclusive, na sala de espera da clínica odontológica, por onde passam cerca de 1.400 da USP.

Há também a colaboração para esta confusão de vários inúmeras pessoas públicas no exercício de suas atividades que usam o crucifixo. Exemplos disso podem ser citados com o então procurador-geral da República, Claudio Fonteles189 além de vários juízes190 que negam

188 Ivonne Maggie é professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Autora dos livros "Guerra de orixá", editado pela Zahar e "Medo do feitiço", publicado pelo Arquivo Nacional. Coautora dos livros "Raça como retórica" e "Divisões perigosas", ambos pela Civilização Brasileira. Agraciada em 2008 com a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico do Governo do Brasil. Pesquisadora do CNPq e bolsista Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ.

189 O procurador-geral Claudio Fonteles, fundamentalista católico, que costumava usar uma expressiva cruz no peito, arguiu juntamente ao Supremo Tribunal Federal a inconstitucionalidade do artigo 5º da denominada Lei de Biossegurança, tendo sido sugerida pelo Executivo e ratificada pelo Congresso. O artigo na ocasião possibilitava à título de terapia e pesquisa, o emprego de células-tronco oriundas de embriões humanos gerados por meio de fertilização in vitro e que não foram não utilizados. Na ocasião, o procurador-geral expos que seus motivos não

liminar para a retirada de crucifixos em órgãos públicos e outros – tais como o então ministro Carlos Alberto Menezes Direito - que acabam impedindo a ocorrência de importantes decisões de temáticas no âmbito nacional191.

A juíza Maria Lúcia Lencastre Ursaia, da 3ª Vara Cível Federal de São Paulo, indeferiu pedido do Ministério Público Federal (MPF) de retirada de símbolos religiosos de prédios públicos. O Ministério Público fez a denúncia após representação do engenheiro Daniel Sottomaior Pereira, de 37 anos, que se sentiu ofendido com a presença de um crucifixo em um órgão público. A decisão foi anunciada hoje (20). Pereira é presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e participa do movimento Brasil para Todos, uma iniciativa de democratização dos espaços e dos serviços públicos brasileiros. Segundo nota da Justiça Federal, a juíza Maria Lúcia considerou natural, em um país de formação histórico-cultural cristã como o Brasil, a presença de símbolos religiosos em órgãos públicos. "Sem qualquer ofensa à liberdade de crença, garantia constitucional, eis que, para os agnósticos, ou que professam crença diferenciada, aquele símbolo nada representa, assemelhando-se a um quadro ou escultura, adereços decorativos", disse Maria Lúcia. Além disso, o Estado laico não deve ser entendido como uma instituição anti-religiosa ou anticlerical, afirmou a juíza. “O Estado laico foi a primeira organização política que garantiu a liberdade religiosa. A liberdade de crença, de culto e a tolerância religiosa foram aceitas graças ao Estado laico, e não como oposição a ele. Assim sendo, a laicidade não pode se expressar na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos.” Para o MPF, a foto do crucifixo desrespeitava o princípio de que o Estado é laico, ou seja, sem religião. Segundo o texto, era também um desrespeito "à liberdade de crença, à isonomia, bem como ao princípio da impessoalidade da administração pública e ao princípio processual da imparcialidade do Poder Judiciário."Essa não foi a primeira representação feita por Pereira para retirada de crucifixos de prédios públicos: em agosto de 2007. Ele assinou diversas representações pedindo a retirada de símbolos religiosos. Segundo o engenheiro, o processo da denúncia aos ministérios públicos estadual e federal até o primeiro julgamento levou dois anos. "Isso é ilegal e inconstitucional. Ter um símbolo religioso é tão absurdo quanto colocar uma bandeira dos Estados Unidos ou de um time de futebol", afirmou Pereira. Entre as denúncias encaminhadas está uma para o Conselho Nacional de Justiça, pedindo a retirada de crucifixos nos tribunais de Justiça de Minas Gerais, do Ceará, de Santa Catarina e do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (FARIAS, 2009, n.p.).

Indubitavelmente, a temática é bastante complexa e polêmica. Disso não cerceia dúvida alguma. Mas determinadas lembranças históricas se fazem introduzir. O vínculo estabelecido entre o Estado Brasileiro e a Igreja Católica estava estabelecido desde a

tinham a ver com a religião, mas sim, com o direito à vida, e desta forma, estava devidamente protegido pela Constituição.

190 O Juiz Reinaldo Araújo Dantas, titular da 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública, negou em 13 de novembro de 2010 o pedido de liminar elaborado pelo Ministério Público Estadual, para que os órgãos públicos estaduais e do município de Teresina retirem os símbolos religiosos hoje existentes nos prédios onde funcionam repartições públicas além da menção acima da juíza Maria Lúcia Lencastre Ursaia, entre outros juízes.

191 Concebido como sendo um jurista conservador e de formação católica, além de ter sido membro da União dos Juristas Católicos, com muita frequência costumava solicitar vistas em processos importantes, tais como ocorreu na menção acima em que solicitou a declaração de inconstitucionalidade do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas no Brasil, bem como da demarcação das terras indígenas da reserva Raposa Serra do Sol (GALLUCCI, 2008, n.p.).

Constituição de 1824192, ainda no Império, mas foi formalmente abolida com a Constituição de 1891, a primeira da República. Formalmente porque na prática, podemos evidenciar a simbiose que perdura em diversas instâncias nacionais até os dias atuais.

A Constituição de 1988 faz referência ao Brasil ser um Estado laico, isso quer dizer, dentre outras significações que não existe (ou não deve existir) religião oficial do Estado. Nem no âmbito formal nem prático. O Estado não pode se colocar a serviço das comunidades e instituições religiosa sendo laico. Mas não é o que ocorre na prática. E decorrente destas questões, não há como não pairar diversos questionamentos.

Qual é o limite entre o Estado laico e a liberdade religiosa? Seja essa liberdade religiosa sendo professada no âmbito pessoal mas no exercício público das funções de qualquer funcionário público; como nas manifestações explícitas de retardamentos de assuntos nacionais relevantes; nos nossos feriados religiosos (católicos) nacionais; no favorecimento mais caloroso na recepção de determinadas autoridades religiosas (Papa) em detrimento de outras (Dalai Lama); na implementação estatal do ensino religioso confessional, dentre tantas outras práticas que certamente incorporam a confusão na possível compreensão entre o Estado laico e a liberdade religiosa.

Há confusão do público e do privado, ao direito à vida pública e o direito a todas as peculiaridades que decorrem da privacidade. Como também pontuou Fischmann,

(...) esse mesmo direito à liberdade de manifestação no espaço público, individual ou coletivamente, a ninguém autoriza impor sua própria crença aos demais. Nenhuma crença, assim, pode definir e determinar a esfera pública, nem pode tornar obrigatórios os seus valores e determinações para todos da sociedade, nem mesmo para os que sejam seus adeptos, que podem depender, em algum momento, de contar com os instrumentos de garantia de direitos dados a toda a cidadania. Nenhum grupo pode tornar suas leis religiosas parte integrante das leis civis, válidas para todos e isso é o que garante (ou deve garantir) o Estado laico. É que a imposição de um grupo representaria, em si, restrição às demais crenças e pessoas, configurando a tirania de uns sobre outros, ainda que se apresentasse qualquer "bom" argumento para tentar justificar semelhante dominação é que esse argumento já viria imbuído das motivações, conceitos e valores daquele dado grupo, desconsiderando os demais. Daí a relevância insubstituível do caráter laico tanto do Estado quanto da própria esfera pública internacional (grifo meu) (FISCHMANN, 2008, n.p.).

Há vertentes – tais como a do engenheiro Daniel Sottomaior Pereira - que expressam não poder se condicionar as próprias convicções pessoais, aos próprios valores ao que é de interesse de todos. Defender a necessidade – frente o Brasil ser identificado como Estado

192 Na Constituição de 1824, o Estado brasileiro adotou explicitamente o catolicismo como religião oficial. Na ocasião, a Igreja era submetida ao Estado, inclusive com o direito de o Imperador agraciar cargos eclesiásticos na Igreja Católica (padroado). Através do Poder Moderador, o imperador poderia nomear as autoridades eclesiásticas da Igreja oficial católica apostólica romana.

laico – de haver a mais isenta posição para que a mesma possa ser a mais autorizadora de toda e qualquer individualidade, desde que não ofenda a outra pessoa. Para essa vertente, essa deve ser a regra.

Para Pereira, ter um símbolo religioso faz parte do mesmo pensamento que desencadeia a corrupção e o nepotismo: "As pessoas estão tomando o Estado para si mesmas, e ninguém tem o direito de usá-lo para fazer aquilo que acha melhor". Ele informou que continuará a fazer denúncias pedindo a retirada de símbolos religiosos de locais públicos.

Entre eles, citou o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o qual afirmou: "Eu não violei nada. A foto do escritório do presidente com um grande crucifixo está na internet". Segundo ele, as denúncias abrangerão inclusive espaços ocupados por servidores que prestem atendimento ao público. "Se um médico coloca seus símbolos religiosos em um consultório público em que atende pessoas, por exemplo, vamos protestar. Nem ele, nem ninguém tem o direito de usar o Estado para propagandear a sua fé" (FARIAS, 2009, n.p.).

O grande embate e questão é ser o Estado para dar o tom dessas questões, tais como temáticas que envolvem a religião, o aborto, dentre outras. As instâncias não devem ser misturadas. Faz-se necessário que esse debate possa ser devidamente arrazoado, discutido, levantado e aprofundamento com toda a sociedade brasileira. Geralmente, os debates ou são superficiais, ou são dicotômicos.

Mais outro caso: ao ter sido negada a retirada de todos os símbolos religiosos das repartições públicas federais no Estado de São Paulo, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão por meio do Ministério Público Federal recorreu em 31 de janeiro de 2013 da decisão judicial de 1ª instância argumentando que “(...) a ostentação dos símbolos religiosos ofende a laicidade do Estado e atenta contra os princípios constitucionais da liberdade, da igualdade e da impessoalidade" (MACEDO, 2013, n.p.).

O princípio da laicidade do Estado, expressamente adotado pelo Brasil, e a liberdade religiosa impõem ao Poder Público o dever de proteger todas as manifestações religiosas, sem tomar partido de nenhuma delas.

(...) a existência dos símbolos religiosos em prédios públicos "é prejudicial à noção de identidade e ao sentimento de pertencimento nacional aos cidadãos que não professam a religião a que pertencem os símbolos expostos. (...) O que não se pode admitir é que em salas destinadas ao público, como é o caso da sala de audiência ou mesmo do hall de entrada dos edifícios forenses, alguém esteja autorizado a colocar este ou aquele símbolo religioso (MACEDO, 2013, n.p.).

Em contrapartida, a juíza federal Ana Lúcia Jordão Pezarini em novembro de 2012 se posicionou informando que "a existência de símbolos religiosos em prédios públicos não pode

ser tida como violação ao princípio da laicidade ou como indevida postura estatal de privilégio em detrimento das demais religiões, mas apenas como expressão cultural de um país de formação católica, que também deve ser protegida ou respeitada" (MACEDO, 2013, n.p.). No recurso, o procurador regional dos Direitos do Cidadão contestou a defesa apresentada pela juíza, uma vez que

A respeitável decisão acaba por se basear numa suposta superioridade da religião católica em detrimento das demais religiões, o que não se pode admitir sob pena de resultar em discriminação condenável às pessoas que não professam a fé católica. (...) a ação busca a retirada dos símbolos religiosos de toda e qualquer religião, e não apenas dos símbolos pertencentes à Igreja Católica. (...) o princípio da igualdade impede que o Estado demonstre predileção por uns em detrimento dos outros, o que acaba ocorrendo quando ele opta por ostentar o símbolo de uma religião e não o de outra (MACEDO, 2013, n.p.). E enfatiza que "(...) a única maneira de garantir o tratamento isonômico entre os professantes de todas as religiões e, também, dos ateus, é impor à União a obrigação de retirar os símbolos religiosos ostentados em seus prédios, bem como a obrigação de não mais colocá-los (MACEDO, 2013, n.p.). Numa esfera mais ampla, essa ação faz a defesa para que o Estado brasileiro que se intitula como laico, possa efetivamente cumprir a sua obrigação de amparar todas as crenças religiosas, sem no entanto desrespeitar os direitos ateus, agnósticos e tampouco estimular revanchismos ou mesmo disputas entre as mais distintas religiões que são praticadas no Brasil193.

Tirando um pouco o foco da temática dos símbolos religiosos (sejam eles inseridos nos espaços públicos ou utilizados por servidores públicos), destacamos também outro motivo de bastante polêmica – a questão da união civil homoafetiva. Aonde está definido em nossa Constituição de 1988 que o casamento civil tem que ser entre homens e mulheres?

Na nossa Constituição, as únicas menções a respeito são:

Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: (...)

II - justiça de paz, remunerada, composta de cidadãos eleitos pelo voto direto, universal e secreto, com mandato de quatro anos e competência para, na forma da lei, celebrar casamentos, verificar, de ofício ou em face de impugnação apresentada, o processo de habilitação e exercer atribuições conciliatórias, sem caráter jurisdicional, além de outras previstas na legislação.

Capítulo VII - Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso

Benzer Belgeler