Quanto ao nosso ordenamento constitucional, já foi anteriormente mencionado, mas somente para relembrar, ela
(...) refere-se à liberdade individual de manifestação do pensamento174, mas também à “plena liberdade de informação jornalística175”. Registre-se que a única ocasião em que aparece a expressão “liberdade de imprensa” no texto Constitucional é em relação às medidas que podem ser tomadas pelo Presidente da República na vigência do Estado de Sítio176. Não é, curiosamente, no Capítulo da Comunicação Social
(grifos meus) (LIMA, 2010, p. 25).
A terceira forma sugerida por Venício Lima para poder diferenciar ambas as liberdades, referem-se às condições materiais que elas estão inseridas. À medida que a primeira é concebida com o indivíduo (a de expressão), a segunda liberdade, para que possa existir, depende não somente da acessibilidade material em si177, mas também, da necessidade que se faz de haver um público leitor em que os indivíduos tenham condições de ler.
A passagem da cultura oral para a cultura letrada e a formação, o tamanho e a história dos “públicos leitores” nas diferentes sociedades, contam boa parte da história da própria imprensa e, consequentemente, da liberdade da imprensa. É necessário, portanto, que se leve em conta a consolidação da “imprensa” no contexto das enormes transformações que sofreram, ao longo dos últimos cinco séculos, as formas de imprimir e aquilo que é impresso; a importância das estradas de ferro como distribuidoras de informação; a descoberta da eletricidade e de alguns de seus derivados, como o telégrafo. Tudo isso num processo que começa no século XV, passando pela Revolução Industrial do século XIX, pela Revolução Digital do final do século XX, até os nossos dias. Há um longo caminho percorrido desde os volantes avulsos anônimos sem periodicidade, aos livros de notícias (booknews), panfletos e pasquins artesanais, passando às gazetas, folhas (newspapers) e periódicos pessoais – onde o redator, o cronista e o editor eram a mesma pessoa – até os jornais populares de massa e os grandes jornais e revistas de nossos dias (LIMA, 2012, n.p.).
Para o Relator Especial da ONU178 sobre “Liberdade de Expressão e Opinião”,
(...) liberdade de imprensa é parte da liberdade de expressão. É um componente. A liberdade de expressão é muito mais ampla. A liberdade de expressão para mim é um direito que se pode exercer como indivíduo, coletivamente ou como povo. No último caso, o povo se manifesta por meio de sua cultura, seus idiomas, suas tradições e seus valores. E a expressão pública dessas tradições e valores, essa cultura, esse idioma, também é liberdade de expressão, como um direito do povo (No Brasil, Relator da ONU Fala sobre Liberdade de Imprensa, Critica Ação
no STF e Elogia ‘Ley De Médios, 2012, n.p.).
Belisário (2010) traz uma reflexão crítica dos meandros que acabam se emaranhando neste debate. Como ele colocou, “(...) o uso da força pode até levar à eliminação de pessoas,
174 Inciso IV do Artigo 5º. 175 § 1º do Artigo 220. 176 Inciso III do Artigo 139. 177 Papel, impressora e tinta. 178 Frank La Rue.
mas só através do cerceamento da livre possibilidade de expressão se sufocam ideias, no entanto, acreditar acriticamente (...) que a ‘imprensa livre’ é fundamental para a sobrevivência das democracias pode nos levar a ‘fechar os olhos’ para outro lado, não menos importante: ‘a liberdade de expressão’ (BELISÁRIO, 2010, n.p.). Como bem pontuou,
Entendo que “liberdade de expressão” significa não apenas o não cerceamento de qualquer forma de expressão de ideias, mas também e principalmente a garantia de existência de meios através dos quais estas ideias possam ser expressas, de modo a poderem ser acessadas por qualquer cidadão (BELISÁRIO, 2010, n.p.).
O formato de jornais-empresa deixou a sua qualidade de ser um difusor de opiniões. Não que tenha parado de difundir as ideias, no entanto, começou a veicular substancialmente as opiniões de seus associados e proprietários.
Com o término dos pequenos jornais opinativos, uma parcela significativa da sociedade ficou sem meio de comunicação. Essa situação acabou refletindo numa notória concentração dos órgãos de comunicação179, em que pouquíssimos acabaram por dominar a grandíssima maior parte do que se é lido, ouvido ou visto no âmbito nacional. Essa fotografia acaba revelando algumas impressões. A latente fragilidade quando o ‘tom e a nota’ das informações são fornecidas e concentradas por poucos.
Para Belisário,
(...) no período pós-ditadura, temos visto inúmeros jornalistas que (...) cumprem quase um papel meramente técnico (como se fosse possível alguma imparcialidade ideológica em sua ação), acrítico e submisso às ideias de seus “patrões”, possibilitando com seu trabalho manipulações e outras formas de mal-uso das informações. A garantia de real “liberdade de expressão” passa, entre outras coisas, por uma alteração nas formas de concessão de direitos para a veiculação de informações em todas as formas de imprensa (escrita, falada ou televisada) – que seja efetivamente democrática a concessão destas licenças, que não apenas os “grandes empresários” ou “políticos aliados de momento” as obtenham, mas que outros setores da sociedade possam também obtê-las; passa pela necessária responsabilização dos proprietários dos órgãos de imprensa pelo que produzem; pela obrigação de, uma vez assumida com clareza e honestidade sua posição, seja dado o mesmo espaço para que vozes divergentes se manifestem, garantindo o que os juristas e parlamentares adoram citar: “o contraditório” (BELISÁRIO, 2010, n.p.).
A liberdade de imprensa é o direito de praticar uma prática empresarial que afeta substancialmente o direito coletivo do direito à informação e para tanto, é de extrema relevância que haja regulação do Estado para que se possa primar por uma efetiva liberdade de expressão da sociedade e não canalizada e restringida no âmbito da liberdade de imprensa. Como reiterou Belisário,
179 Entendidos não somente pelos jornais impressos, como também as revistas, as emissoras de rádio, as rádios de televisão bem como os portais da Internet.
(...) é preciso que se garanta a absoluta liberdade de expressão, fornecendo-se como condição sine-qua-non para tal, possibilidades concretas de liberdade de veiculação das informações Liberdade de imprensa não é sinônimo de liberdade de expressão e sendo ambas imprescindíveis à democracia, a segunda deve se constituir como base incondicional da primeira. Liberdade de expressão sem liberdade de imprensa é mero discurso teórico, enquanto liberdade de imprensa sem liberdade de expressão pode se constituir em fortíssimo instrumento de tirania (BELISÁRIO, 2010, n.p.).
Consoante à Belisário, Venício A. de Lima também reitera a distinção entre as liberdades de expressão e imprensa, salientando que ambas têm sido empregadas erroneamente como sinônimas, sobretudo pelos meios de comunicação de massa. O autor aponta que se advoga o direito de informar qualquer assunto como se isso pudesse atestar o direito à liberdade de expressão da sociedade brasileira como um todo.
Venício A. Lima salienta que estamos vivendo, um momento de incomensurável ampliação das novas TIC's180, um contexto de revolução tecnológica sejam elas interativas ou fragmentadas frente ao esmorecimento relativo da mídia tradicional181 – concentrada e unidirecional.
Apesar das inúmeras possibilidades – concretas e potenciais – que as TIC's oferecem para que novas vozes sejam ouvidas e participem no debate público, nunca será demais evocar a famosa passagem de Antonio Gramsci em que afirma: “o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece” Gramsci nos relembra que um dos riscos, enquanto a transição não se completa, é esquecer que o velho sobrevive, resiste e permanece ativo na defesa de seus antigos privilégios (LIMA, 2012, n.p.).
Um outro aspecto de suma relevância destacado por Venício Lima diz respeito ao momento em que a imprensa se torna em instituição, melhor dizendo, em empresa capitalista, onde
“(...) sua relação direta com a liberdade de expressão individual deixa de existir. Ela não guarda qualquer relação com o que se pretende por liberdade da imprensa dos grandes conglomerados globais de comunicação e entretenimento no mundo contemporâneo, muitos deles, com orçamentos superiores àqueles da maioria dos Estados membros das Nações Unidas (LIMA, 2012, n.p.).
3.3 - Estado Laico e Liberdade Religiosa
A temática ‘estado laico’ e ‘liberdade religiosa’ é razão para muitas controvérsias, imprecisões e indecisões. Possivelmente, as possíveis contribuições a seguir serão mais na
180 Tecnologias de informação e comunicação.
181 A que Venício A. Lima também qualifica como sendo a ‘velha mídia’, ou seja: os jornais, as revistas, o rádio e a televisão.
ordem de suscitar questionamentos, dúvidas frente a situação atual que nos deparamos do que propriamente possíveis respostas.
A temática do Estado laico no Brasil, no âmbito constitucional, nos remete ao Art. 19, I, conforme inserida abaixo:
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988).
No entanto, o artigo acima não afirma que o Brasil é um Estado laico. Por Estado laico, entende-se a abstenção, a não interferência, a separação do Estado e a Igreja. E sob esta compreensão, pode dar um certo emaranhado quando tentamos nos pautar o que consta no texto da lei com o que presenciamos na prática brasileira. No quesito ‘liberdade religiosa’, destacam-se como principais dispositivos de direitos fundamentais na Constituição de 1988, respectivamente os que seguem abaixo: