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BÖLÜM 5. ARAŞTIRMA BULGULARI

5.1. Ballıkayalar Vadisi Tabiat Parkı Konumu ve Yeri

O processo de criação de Um dia na vida tem início com a gravação ininterrupta de dezenove horas de programação da TV aberta brasileira – carioca, mais especificamente, já que há trechos de programas de veiculação local. Assim, a seleção de conteúdos do filme – a “curadoria” da programação televisiva a que nos referimos no início deste capítulo como manifestação fundamental da autoria – inicia-se já no momento da seleção de qual das emissoras terá sua transmissão gravada a cada momento, o que é já é um procedimento de montagem. Porém, como explicou Eduardo Coutinho em palestra apresentada após a sessão de Um dia na

vida realizada no CINUSP Paulo Emílio no dia 26 de abril de 2012, em nenhum momento a

gravação da transmissão televisiva esteve concentrada exclusivamente na programação de uma única emissora. Empregando uma aparelhagem que permitia às transmissões das oito emissoras ser acompanhada ao mesmo tempo e que mais de uma delas fosse gravada simultaneamente, o método de captação de material para o filme deu-se de tal forma que, a cada instante, houvesse sempre pelo menos dois canais sendo gravados, justamente para que existisse a posterior

possibilidade de corte entre programações exibidas de forma concomitante. Mas o próprio Coutinho, no mesmo depoimento, revelou também que não há no corte final do filme qualquer situação em que uma imagem seja apresentada na sequência de outra que estivesse sendo transmitida “ao mesmo tempo”, assegurando que a simulação da cronologia da transmissão é fidedigna. Coutinho toma como regra para a enunciação dos seu discurso o respeito ao fundamento

A priori, como também lembrado por Coutinho naquele depoimento, a captação de

material excluiu toda a programação de uma emissora – a TV educativa – sob o pretexto de que os canais educativos pertencem ao poder público e têm alcance local, variando de programação conforme a região do país em que são recebidos. Mas não é absurdo imaginar que a verdadeira razão para essa exclusão resida no fato de que a programação de emissoras desse tipo não ofereceria muito material do tipo que Coutinho pretendia compilar e comentar, já que elas não são orientadas pela mesma lógica de mercado e audiência que rege a programação dos canais “comerciais”. O mesmo raciocínio explicaria o motivo que leva a programação da TV Brasil, também de perfil estritamente cultural e não comercial, a aparecer tão pouco representada no corte final do filme, apenas logo no começo, com material extraído de transmissão realizada antes das sete da manhã. A programação da TV Brasil surge no início do filme até mesmo como contraponto a tudo o que será visto em seguida, como exemplo da promoção pela televisão de valores estritamente defensáveis: a acessibilidade de informação e entretenimento para deficientes, a transparência do dinheiro público, a educação – ainda que essa seja oferecida de maneira bastante superficial e que o fato de ser voltada à difusão de língua estrangeira e contar com um ator brasileiro falando português com suposto sotaque de anglófono sejam também comentários sobre o caráter submisso e matuto de nosso intercâmbio cultural.

Assim como exclui, quase totalmente, os “bons exemplos” da programação da TV, deixando de fora por princípio quase todo o conteúdo educativo e todos os filmes, Coutinho também evita em sua seleção os programas internacionais. Além de Tom e Jerry, único exemplo no filme de conteúdo gerado nos Estados Unidos – cuja presença na programação televisiva do Brasil é bem maior do que sua representatividade nesse “dia na vida” pode fazer supor –, a “curadoria” de Coutinho inclui apenas um spot comercial e outros dois programas produzidos fora do país, ambos mexicanos: o seriado Chaves, que é de fato uma “instituição” da TV

brasileira, e Amanhã é para sempre – uma telenovela latino-americana, outra programação típica de determinadas emissoras brasileiras, designada popularmente justamente pelo termo “novela mexicana”. Pode-se argumentar que, com essa postura, Coutinho privilegie precisamente não apenas o que é transmitido pela televisão brasileira, mas principalmente o que é também produzido por ela. Em todo caso, a seleção revela uma intenção de apresentar apenas aquilo que seria “típico” da TV brasileira, os formatos e os conteúdos que têm “a cara” dessa programação. No mesmo sentido, a programação da MTV, que ainda hoje reproduz muito dos formatos de suas afiliadas internacionais, também aparece pouco representada na seleção final, entrando apenas em um momento isolado e de pouca conexão com as sequências entre as quais é interposto, quase como um interlúdio cômico, uma pausa no discurso – não por acaso, um momento de humor e música, no qual se apresenta a banda Massacration, um pastiche-paródia do típico heavy metal melódico dos anos 1980. Coutinho, naquele mesmo depoimento apresentado no CINUSP, justificou a modesta inclusão da transmissão da MTV alegando que a programação da emissora daquele dia específico foi dominada por sketches e reprises relacionados exclusivamente ao prêmio anual da emissora, que seria entregue em cerimônia televisionada naquela noite, da qual tirou o único momento exibido de um programa do canal. Parece mais provável que a pouca presença da emissora musical esteja relacionada mesmo à sua atipicidade, ao fato de não veicular o mesmo conteúdo tipicamente brasileiro das demais.

A seleção de conteúdo do filme, portanto, pauta-se principalmente pelo que cada emissora, naquele dia específico de programação, tinha a oferecer a Coutinho para a criação de seu discurso sobre a televisão brasileira. Essa apropriação, por mais que o autor busque negar, foi motivada por intenções narrativas e ideológicas. Intencionalmente ou não, sejam esses temas intrínsecos à televisão brasileira ou não, Coutinho privilegiou um conjunto bem específico de assuntos em sua seleção. Assim como da seleção de imagens de filmes feitos em São Paulo realizada por Jean-Claude Bernardet emergem certos temas recorrentes desses filmes, da seleção realizada por Coutinho emergem determinados temas em torno dos quais o seu filme se concentra. Mesmo as inclusões de conteúdo mais aparentemente neutro, de verdadeiros interlúdios que poderiam ser tomados como “quebras” no discurso, “fugas do assunto” (o desenho animado, os momentos românticos de telenovelas, a MTV), trazem implícitas, quase sempre, um subtexto ideológico, que pode ser relativo à ganância e à exploração (como no caso da cena de Chaves) ou à ética do trabalho (como na cena da telenovela Alma gêmea). E essas

cenas “excêntricas” em relação ao conteúdo discursivo do filme quase sempre se somam, pelo menos como reforços, ao comentário crítico geral do filme sobre a qualidade da programação televisiva brasileira, seja como atestado de seus baixos valores de produção (os infomerciais toscamente realizados) seja como exemplo de futilidade (o Programa Amaury Jr., Ana Maria Braga). Elas têm ainda, por fim, a função de pontuar os diferentes momentos do dia em que se divide a programação televisiva a partir de seu público-alvo e de seus índices de audiência: o desenho animado, por exemplo, indica a parte da programação direcionada às crianças, o que serve para contextualizar os anúncios de produtos infantis vistos em seguida.

Há um subtexto ideológico que permeia todo o filme como crítica à mercantilização excessiva da vida humana, da fé ao sexo, da infância à violência. Na sociedade mediática, lembra-nos Coutinho com seu discurso, tudo é um show, e o objetivo do show é sempre movimentar a máquina capitalista. Há até mesmo comentários implícitos que discretamente se dirigem à situação política e social do país, como a justaposição do discurso ufanista do presidente Lula, em matéria do Jornal da Globo sobre a campanha brasileira para eleger o Rio de Janeiro como cidade-sede das Olimpíadas, que se encerra com sua paráfrase do famoso “yes, we can” do presidente Obama, à qual se segue, imediatamente, a imagem de Amaury Jr. entrevistando socialites que oferecem festa em homenagem ao presidente do Banco Central ou editam livro sobre etiqueta. Se o discurso oficial tenta aproximar-nos do primeiro mundo, a realidade cotidiana ainda é plena de exemplos de nosso provincianismo e da promiscuidade entre o público e o privado tipicamente brasileira. Um comentário que é expresso também pela inclusão da matéria de telejornal, vista integralmente, sobre o caso de deputado acusado de forjar assassinatos reais para veiculação em sua própria rede de televisão. Evidentemente, Coutinho não poderia deixar de fora de sua montagem uma cena em que se revalam, ao mesmo tempo,informações tão contundentes sobre a atrocidade da programação televisiva, sobre o abuso de poder, sobre as relações entre mídia e governo.

Esse mesmo discurso sociológico e político motiva ainda a inclusão integral de dois spots de propaganda político-partidária. O primeiro é do Partido Popular Socialista e apresenta seu presidente, Roberto Freire, anunciando a realização do Congresso Nacional da legenda. O seu discurso não explicita essa informação, mas as imagens exibidas deixam claro que seu partido acaba de firmar acordo para apoiar a candidatura à Presidência da Republica de José Serra, do

PSDB. O segundo é do Partido Comunista Brasileiro. Já em sua vinheta, em que se vê a bandeira vermelha, a foice e o martelo, a propaganda do partido parece deslocada naquele contexto. Quando Ivan Pinheiro passa a discorrer sobre as mazelas do capitalismo, proferindo frases como “o rico fica mais rico e o pobre fica mais pobre” e “o trabalhador tem que se unir”, a sua inserção no fluxo das imagens televisivas chega às raias do absurdo. A inclusão de ambas propagandas políticas em sua integralidade, em momentos próximos da narrativa, serve como comentário explícito ao anacronismo das ideologias políticas, ao esfacelamento das identidades partidárias. Mas todo esse conteúdo sociológico e político é verdadeiramente secundário, subtextual, em relação ao conteúdo primário do discurso do filme, que é mesmo sobre a televisão – e sobre como ela manifesta essas questões mais gerais relativas ao Brasil.

A seleção de cada segmento que entra no corte final de Coutinho é, sim, pautada pela necessidade de compor um determinado discurso sobre a TV. Um discurso no qual se reafirme, por sua recorrência, determinados assuntos e métodos que orientam, na visão de Coutinho, a programação da televisão brasileira. Dentre esses assuntos, são particularmente enfatizados por Coutinho a coisificação do corpo feminino e a mercantilização geral da vida humana, mas particularmente da fé. Dentre aqueles métodos, a exposição de Coutinho enfatiza a repetição de clichês ancestrais, a coincidência de abordagens entre diferentes emissoras e diferentes e o caráter autorreferente do discurso televisivo. É o que corrobora Eduardo Valente ao apontar para o fato de que “se isso tudo está na tela da nossa TV todos os dias, está particularmente ressaltado em

Um dia na vida, que não é apenas um dia qualquer na TV, embora o seja. É um dia qualquer na

TV, segundo visto e registrado por Eduardo Coutinho.”174

6.7. A metacrítica da televisão em Um dia na vida: mercantilização do corpo, da fé e do