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A partir da compreensão da relação entre a sociologia, enquanto a ciência social que temos hoje, e a reificação da consciência a partir da perspectiva positivista trabalhada por August Comte e adotada desde então no pensamento burguês e na práxis ocidental, concluímos juntamente com Adorno (1993, p.214) que:

[...] a consciência reificada é uma consciência que, segundo a medida de um sistema conceptual muito coisificado, isto é, construído em harmonia com o modelo do equipamento funcional, permite que o objeto momentâneo se petrifique ao mesmo tempo em algo sólido.

Ou seja, aquilo que surge e deveria ser pensado, criticado e, se for o caso, ser superado, acaba, por meio dos mecanismos de reificação da industrial cultural e do vazio das consciências acríticas na sociedade administrada do capitalismo industrial tardio, se cristalizando socialmente como determinações essenciais da sociedade. Tal situação contradiz absolutamente tudo o que até agora Adorno tem colocado como o que seria de fato uma sociedade livre e o papel a ser desempenhado pela sociologia dentro do processo histórico de desenvolvimento social, qual seja:

[...] a sociedade, que é um processo vital e funcional, e não um simples conceito descritivo, de todos os homens que vivem num dado momento e que, por isso, só poder ser compreendida historicamente, pois fora da dimensão temporal, nem sequer se manifesta o seu próprio caráter funcional. Mas, em semelhante abstração, o método – poderia dizer-se – falsifica o objeto, porquanto imobiliza no seu estado momentâneo a sociedade, que por força da sua legalidade, é necessariamente móvel. (ADORNO, 1993, p. 214).

À sociologia, enquanto ciência que tem por objeto a sociedade caberia, portanto, o reconhecimento do todo para, a partir daí, procurar deduzir em que circunstâncias ela pode intervir, na tentativa de aperfeiçoamento do todo social para uma sociedade verdadeiramente esclarecida.

Dito de outra forma, a sociologia, uma vez que esteja orientada para o que seja momentâneo, ou ao que se denomina empiria, priva-se na verdade da experiência, justamente porque não satisfaz, a princípio, à dimensão temporal e à dimensão evolutiva da realidade concreta e objetiva. A fragilidade subjetiva da memória que segundo Adorno (1993, p.214), “se relaciona com a categoria da ‘fraqueza do eu’, [...] é um dos traços decisivos da nova heteronomia em formação”, uma vez que:

Toda reificação é um esquecimento, e crítica significa, em rigor, o mesmo que recordação, ou seja, mobilizar nos fenômenos aquilo em virtude do qual eles se tornaram o que são e, assim, apreender a possibilidade [...] de se tornar outra coisa. (ADORNO, 1993, p. 214).

O reconhecimento da história e a elaboração do passado como as têm defendido Adorno, vão exatamente ao sentido de reconhecer o que escapou do conceito através do movimento dialético puramente abstrato e que,

justamente por não ter sido levado em conta na análise social, por se tratar de elementos estranhos, ao desenrolar, à maneira matemática, das análises sociológicas positivistas e idealistas escapa ao controle administrativo das forçar burguesas e se apresenta de forma cíclica e constante nas sociedades, na forma de catástrofes sociais, guerras e acima de tudo, de violência.

À medida que os sujeitos são abarcados pela sociedade administrada; quanto mais determinados eles são pelo sistema, maior a sua incapacidade de reconhecimento do outro na sua singularidade, na sua especificidade. A partir daí, impelidos desde criança por força dos processos formativos das instituições sociais – família, igreja, escola, mídias – aos imperativos do sistema capitalista, se vêem expostos a força coercitiva da sociedade como um todo, sem ter tido sequer a chance de desenvolver a capacidade para discernir o que possa vir a ser o certo e o errado no sentido de dignidade e respeito à vida do outro.

O indivíduo encontra-se atualmente em um devir negativo, segundo Adorno (1993, p.217):

Transformando-se, como todas as ideologias, mais devagar, mais dificilmente, do que as condições econômicas e as forças produtivas; e é justamente através da pertinácia, da inércia dos sujeitos que a sociedade se mantém.

No entanto, desenvolver nos sujeitos sociais a capacidade de escolher livremente, para além das falsas escolhas que se fazem, restritas unicamente as opções previstas pela sociedade administrada, criando meios para que o sujeito perceba que a verdadeira escolha que se faz conscientemente, não está em simplesmente mudar o canal da televisão – posto que, embora a programação mude um pouco, a linguagem mercadológica e reificante da televisão estará sempre presente – mas sim em poder criticar e dizer não a todo um sistema que teima em uniformizar as mentes dos indivíduos numa busca incessante e já sem sentido por lucro.

O desenvolvimento da consciência crítica dos sujeitos, apesar de ser a charneira que perpassa se não toda, mas grande parte da obra de Adorno, no

que tange a sua reflexão sobre a formação do sujeito, não encerra a fecundidade do pensamento deste professor. Há ainda a tentativa do filósofo de Frankfurt de fazer ver que, através da abstração radicalizada no desenvolvimento dialético ao longo de todo o desdobrar da razão ocidental, que começa já na Grécia Antiga com Platão, segue no idealismo alemão e conclui da forma mais sinistra seu amadurecimento no positivismo de Comte precisa, urgentemente, ser superados, sob o risco de voltarmos à barbárie dos campos de concentração.

A maneira mais eficiente e verdadeiramente duradoura que Adorno encontra para a superação consciente da condição de barbárie em que se encontra hoje a sociedade capitalista, em especial as culturas ocidentais, reside na educação. Um modelo educacional que priorize a formação dos indivíduos através da reflexão crítica sobre a totalidade do real partindo da análise do objeto em suas particularidades e respeitando suas diferenças é o que segundo Adorno conduziria os homens a resistência aos imperativos do sistema capitalista tardio, venham eles de onde vierem, posto que a todo instante e travestido das mais diferentes formas – a saber: os meios de comunicação de massa, os vários tipos de religiões de ética capitalista, os meios de lazer e inclusive a arte – levando-os dessa forma a emancipação de fato sem que para isso se prescinda da faculdade crítica de análise da condição humana.

Só uma consciência crítica é capaz de negar, por força da razão esclarecida, uma determinação exterior ao próprio sujeito, travestida de lei, ideologia, ou modismo e somente esta consciência crítica e reflexiva é capaz, também, de negar uma determinação interna do próprio sujeito, venha ela da fraqueza do eu, ou da semi-formação a que foi submetido o indivíduo.

Como dito anteriormente: “a exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação” e é a partir deste ponto que deve se guiar a formação de todo e qualquer indivíduo para que se tenha o quanto antes uma sociedade capaz de reconhecer verdadeiramente no outro a dignidade que almeja para si mesmo (ADORNO, 1995, p.119), evitando sob todas as formas a impessoalidade cruel do positivismo legal do Estados nacionais e os imperativos do capitalismo tardio que sob a égide da indústria cultural e a

partir da lógica excludente da sociedade de classes irmanado à frieza da abstração do modelo dialético clássico tem reduzido a civilização à barbárie.

5 CONCLUSÃO

A promessa de emancipação humana através da razão não foi cumprida. Fato que é que desde as primeiras tentativas de compreensão da realidade pela razão abstraída do objeto concreto e suas contradições que constatamos não ser possível ao homem a efetiva clareza e o pleno exercício de suas potencialidades, no sentido de uma verdadeira realização da liberdade e dignidade humana.

Comprovamos neste trabalho sobre Adorno, no que toque a sua reflexão sobre a formação humana de fato, com o objetivo de libertar o homem dos grilhões da indústria cultural que em tudo falseia a realidade e escraviza as mentes, que desde as primeiras teorias a cerca da condição humana e a realidade que lhe cerca, partindo de Homero, seguindo por Platão, atravessando toda a idade média, passando pelo idealismo alemão – em especial, Kant e Hegel - e se estendendo aos dias do capitalismo industrial tardio, a humanidade tem rodado em círculos, posto que, na tentativa de libertar-se ao se desprender do objeto concreto, nada mas fez do que construir sistemas especulativos fechados e mitologias obscuras, que em nada, ou muito pouco serviram para a realização efetiva de sua liberdade. Digo que talvez tenham servido em parte para a emancipação humana, no sentido em que, mesmo sem intenção, tenham revelado a fragilidade do que se chamou “esclarecimento”: o desvelamento da realidade através da pura e simples razão.

A independência do sujeito com relação ao objeto, ou dito de outra forma: a elevação da razão especulativa abstrata ao absoluto em detrimento do objeto real e concreto é, no pensamento de Adorno, impossível, ou se possível é no mínimo falaciosa.

A razão parte do objeto e mesmo que não deva fiar-se nele indiscriminadamente, necessita dele como uma faísca para acender a chama do pensamento crítico.

É no respeito à contradição dos objetos reais e suas idiossincrasias que reside o esforço racional que transforma a realidade de fato.

Mas, para que se possam transpor os muros dos campos conceituais erigidos pela razão absolutizada ocidental, é necessário, antes de tudo

preocupar-se com a formação da consciência individual. Sim, individual porque segundo Adorno, só através da autonomia de cada um dos sujeitos sociais é que se poderá fazer oposição a sociedade administrada do capitalismo industrial tardio. A autonomia da razão, ou do indivíduo, é fruto do desenvolvimento particular de cada sujeito e assim nos tornamos independentes.

Cada sujeito deve por si só negar, contradizer e criticar o sistema massificante da indústria cultural, de maneira que as determinações exteriores quando recebidas sejam filtradas individualmente sem os controles e esquematismos da cultura de massa.

O equívoco em que incorreu a razão ocidental ao negar o objeto através do método dialético clássico em busca de sínteses casou perfeitamente - ou já foi fruto de tal – com o plano burguês.

De modo simplificado o plano burguês objetiva primordialmente o lucro, que é o produto acabado da máquina capitalista.

A razão ocidental imersa no modelo dialético clássico, de Platão a Hegel, busca acima de tudo o conceito, aqui chamado também de conclusão, síntese, resultado.

Dessa forma, a padronização do ideal burguês e do plano capitalista, justificados pela lógica matematizante do positivismo comteano, surge como síntese histórica e racional do processo de evolução cultural, sócio e econômica, para não dizer humana como um produto da razão universal. Entramos assim, ou jamais saímos do estado de barbárie, que vai do assassinato de crianças deficientes na Esparta de Homero, à fogueira da inquisição católica medieval, perpetuando-se nos campos de concentração nazi-facistas do séc. XX, que trazem todos em comum a síntese máxima da eliminação de todo e qualquer elemento contraditório, ou seja, a eliminação daquilo que não cabe no conceito.

Como antídoto Adorno propõe irmos além do conceito, através do próprio conceito, ou seja, o não fechamento do pensamento dialéitco.

A dialética negativa de Adorno reside justamente nisto: o reconhecimento da insuficiência do conceito diante do real e a partir daí a continuidade do pensamento que vai se desdobrando e avançando historicamente, partindo sempre do objeto e sem a imposição estéril da pura

abstração e o esgotamento pueril da síntese.

Tal empresa do filósofo frankfurtiano só é possível pela formação de consciências críticas, livres e independentes, que através da resistência a sociedade administrada, pelo respeito à diversidade dos objetos reais e concretos é que poderemos pensar de forma verdadeiramente autônoma em emancipação de fato e respeito à vida em toda a sua riqueza de cores e matizes.

Só através da negação é que se efetiva o pensamento. Assimilação é antes de tudo adaptação e não pensamento, pensamento ao contrário é crítica, é resistência.

É através da resistência, do pensamento crítico e da não-adaptação ao sistema vigente, seja ele qual for, partindo do plano individual, que se alcançará a liberdade num sentido universal.

REFERÊNCIAS

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do Los Angeles Times: um estudo sobre superstição secundária/

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COMTE, Auguste. Curso de Filosofia positiva; Discurso sobre o espírito

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Catecismo positivista / Auguste Comte; seleção de textos de José Arthur

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KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é “esclarecimento”?1784. Disponível em: <www.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/b47.pdf.> Acesso em: 02 jun. 2013.

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NIETZSCHE, Friedrich W. (1844-1900). Além do bem e do mal: prelúdio a

uma filosofia do futuro/Friedrich Nietzsche; tradução, notas e posfácio

Benzer Belgeler