Cuida se os docentes da escola participam dos serviços de assistência; se o pessoal docente e dos serviços tem algum grau de integração; e se há participação da escola no planejamento e avaliação dos serviços de saúde (LAMPERT, 2002).
Neste tema, as falas apontaram a necessidade e a importância dos docentes se inserirem na nova dinâmica de interação e participação nos serviços do SUS. Uma fala que expressa isso é relatado abaixo:
O que eu sinto ainda é que a gente precisa dar uma atenção muito grande pra demanda social que é o SUS. Para mim é uma demanda social (Docente “D”). A atenção primária está sendo a grande ponte na articulação entre os docentes do curso de fisioterapia e a gestão municipal, e as falas trazem esse nível de atuação como recente, desconhecido para muitos e com grandes desafios:
O cenário atual SUS de atenção primária quem está chegando faz ‘hã?’ (Docente “A”).
A fisioterapia no atendimento primário que eu sei é que tá começando a aprender como é que faz isso. Alguns colegas que estão trabalhando nesse sistema que tenho dito estão aprendendo, estão pra ver o que é possível fazer. Eu conheço experiências de outros lugares, não daqui, que já tem uma estrutura um pouco melhor, mais avançada. Eu acho que seria interessante uma troca de experiências para mostrar que existem coisas que já foram vencidas por outros e que algumas pessoas daqui ainda estão tentando entender como é que funciona (Docente “D”).
Um aspecto a ser considerado se refere à redução do SUS à demanda social ou da atenção primária. As falas tiveram uma tendência, ao longo de toda a pesquisa, de que os fisioterapeutas precisam conhecer o SUS como uma parte que atende outra parcela da população brasileira. Esta afirmação não deixa de ser verdadeira, porém corre-se o risco de que sempre se faça associações do SUS à pobreza ou de pessoas que não podem pagar um plano privado de saúde. Uma das grandes características do SUS é a universalidade, o que garante que todo cidadão brasileiro tenha o direito de usufruir dos serviços prestados por este sistema, acima de gênero, raça e classe social. Além disso, o cuidado em saúde inclui, além das relações de encontro, vínculo e responsabilização também o acesso à qualidade dos saberes técnicos, do diagnóstico e da terapêutica. Há que se avançar na generalização da atenção primária como demanda social para uma orientação do cuidado em saúde e uma clínica da integralidade.
Outra característica inerente ao SUS é a regionalização e hierarquização dos serviços, o que revela uma gama de serviços em níveis de complexidade diferenciados e interligados em uma rede de atenção à saúde. Com a verbalização atenção primária = SUS exclui-se todos os outros serviços que fazem parte desta rede e como eles se ‘conversam’. Estes outros serviços podem ser desconhecidos pelos alunos.
É necessário pensar numa cadeia de cuidados em saúde, ou seja, “arranjos que possibilitem articular o acesso aos serviços de diferentes tipos, mantendo vínculo e continuidade do cuidado de acordo com as diferentes situações clínicas” (FEUERWERKER, 2011, no prelo). Pelas necessidades verificadas nos serviços há que se produzir arranjos diversificados de produção do cuidado. O arranjo UBS – ambulatório de especialidades – hospital é pobre para assegurar essa oferta (FEUERWERKER, 2011).
Na fisioterapia, especificamente, é rotineiro que os profissionais fisioterapeutas da rede ou vinculados à ela, sintam-se impotentes e acuados quanto a encaminhamentos e resoluções dos usuários que acompanham pela complexidade das demandas de fatores como os sociais, econômicos, físicos, entre outros. Na atuação e na formação há que se buscar compreender essa cadeia de cuidados, inclusive além do setor e serviços de saúde, como estratégia de ampliação e diversificação das ofertas.
Ao mesmo tempo, algumas falas trazem as experiências vivenciadas, os avanços conseguidos com essa articulação e a contribuição dos docentes para a rede:
Nós começamos em 2009, com as atividades do Pet-Saúde, aí nós fomos para a rede, conhecemos os fisioterapeutas que eram os preceptores, fomos conversando com o pessoal da secretaria identificando os problemas. O maior problema que a gente via era assim: o fisioterapeuta da rede em São Carlos, ele estava assim, cada dia estava num lugar (...). No Programa de Saúde da Família, o mesmo fisioterapeuta tinha que ficar em quatro ou cinco lugares diferentes na mesma semana. E o fisioterapeuta não tinha vínculo com a equipe (...) porque tem poucos fisioterapeutas e tava atuando um pouquinho em cada lugar. Então quando a gente começou a conversar, a identificar isso, aí nós vimos a sensibilidade muito grande da secretaria e dos fisioterapeutas que talvez fosse mais interessante para essa construção a gente ter o fisioterapeuta da rede, preceptor, por pelo menos 12h, com vínculo em uma equipe, com aluno e com um professor da UFSCar parceiro e (...) que a população daquele PSF realmente tivesse a inserção do fisioterapeuta (Docente “B”).
A gente pode melhorar muito o trabalho da equipe de referência, que eu acho que a gente tem um monte de habilidades e um monte de competências que ajuda na resolutividade, tanto na promoção que é o que eles mais enfatizam, prevenção, mas pensando também na assistência (Docente “E”).
Em uma pesquisa sobre as tendências de mudanças em um grupo de escolas médicas brasileiras (LAMPERT et al, 2009a), consideradas tradicionais, essa integração ainda deixa a desejar: falta integração dos serviços com a universidade; poucos professores envolvidos em planejamento; resistência dos docentes a esta atividade.
Em escolas consideradas inovadoras, os docentes participam do sistema de saúde em sua área de influência e têm serviços assistenciais integrados com o sistema de saúde e os médicos dos serviços têm participação na docência: professores do curso e do serviço atuam em todos os níveis do PPP; presença de política e convênio entre escola e município; convênios com o município; reuniões pedagógicas e estágios supervisionados com participação dos médicos de serviço.
O curso estudado passa por um momento de transição em que o velho e o novo convivem de forma não tão harmônica, com conflitos e posições contrárias. Porém, há um movimento interessante de uma parte dos docentes: alguns com posições a favor sobre a necessidade da interação ensino-serviço; outros com ações na prática já demonstrando a possibilidade de que isso pode acontecer. O que se espera é o que o novo e o velho possam conversar, no sentido de trocas e de superação de formas de ensinar e aprender na prática.