Este vetor procura saber se a escola promove ou não capacitação gerencial, como é a forma que assumem estes cargos e se estes docentes possuem conhecimento de ciências administrativas e buscam imprimir estilo gerencial participativo (LAMPERT, 2002).
A partir dos depoimentos, colocar-se-á a discussão em três pontos: capacitação para assumir cargos gerenciais; atribuições exigidas atualmente para estes cargos; e participação dos docentes e discentes na tomada de decisões.
O primeiro ponto trata da capacitação para assumirem cargos gerenciais. Os relatos trazem o despreparo dos docentes ao assumir o cargo e ao longo do trajeto gerencial:
O que eu vejo dentro da Universidade, uma realidade triste é o fato que você entra tão despreparado para o cargo tão importante. O cargo de coordenador de curso, ele é um cargo extremamente importante para a formação do aluno, para manter as políticas da universidade. (...) É um encargo bastante estressante, deveria ser realizado por pessoas que tem bastante capacidade, que já conhecem a máquina e o que acontece? Sempre é passado para os docentes mais novos (Docente “H”). O coordenador ele tem que ter um interesse, tem que ter disponibilidade para ter uma boa coordenação, acho que ele deveria ter mais tempo para isso e a capacitação também muito importante. Apesar que a gente aprende fazendo né, aprende fazendo. Mas se tivesse uma capacitação para formação mais direta de uma coordenação de uma universidade, coordenação de um curso seria muito mais fácil (Docente “J”).
Nota-se, por estes relatos, que a escola não prioriza a formação dos docentes que assumem cargos administrativos. O aprendizado acontece numa prática de erros e acertos, o que dificulta ou atrasa processos administrativos e pedagógicos.
Para os cargos gerenciais não há uma política institucional que valoriza e reconhece este cargo, não oferece cursos e/ou consultorias para seus gestores e não proporciona a participação ativa e a responsabilização dos segmentos docente, discente e técnico- administrativo nas decisões, processos, resultados e avaliações institucionais (LAMPERT et al, 2009a).
Parece também que há uma desvalorização destas atividades administrativas, visto que a prioridade é pela inserção de professores novos nestes cargos, muitos destes com pouca ou nenhuma experiência neste tipo de atividade. Não é interesse deste corpo docente, por exemplo, mesclar docentes com e sem experiência, como uma forma de valorização e continuidade das experiências já aprendidas por docentes mais antigos.
Uma das explicações para a não motivação do professor mais antigo para assumir este cargo, é dado por este docente:
É um encargo extremamente desgastante, ter uma carga horária enorme para dar conta das ações. Eu cheguei a ficar praticamente em seis reuniões semanais, só fica em reunião, entrava numa reunião, saía para outra reunião. Assim, não dá, é inviável para o tanto de coisas que a gente tem que fazer além das atribuições de coordenação e é muito importante (Docente “H”).
Este discurso revela também uma atividade gerencial que opera sobre a organização do trabalho a partir de um conjunto de procedimentos-atividades visando os fins e não o próprio processo de trabalho numa construção coletiva (MERHY, 1995). Pressupõe a possibilidade de um diagnóstico objetivo da realidade e de seus problemas. O resultado desta forma de gestão deixa de levar em conta a visão dos distintos atores, o espaço político no qual o plano irá se desenvolver, os obstáculos e enfrentamentos que irá encontrar, assim como as oportunidades favoráveis que poderiam auxiliar sua execução (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, 2008).
Neste processo gerencial falou-se sobre a participação dos outros docentes e dos discentes na tomada de decisões:
Você acha que tem que mudar, (...) só que existe a dificuldade de lidar com certos docentes, de não aceitar porque é cômodo estar do jeito que ele está. Não sei se é por medo da mudança, não sei se é pelo diferente, é falta de tempo dos docentes né. Então você encaminha algumas coisas e você não tem resposta, demora para ter resposta. Em reuniões, sempre são os mesmos que participam. Os outros não participam e aí existem determinadas decisões e aí que as reclamações aparecem (Docente “J”).
O coordenador apenas responde pelo grupo, ele representa um grupo. Mas ele tem que levar o que o grupo pensa, ele tem que respeitar essas opiniões, levar esses conhecimentos, para levar a opinião de um grupo. Então quando você trabalha com um grupo que não se compromete, é complicado ou que olha só para o seu lado. Ele vê o lado dele, o que é importante para ele. Quando ele não vê o lado do grupo ou do aluno aí eu acho que é complicado (Docente “J”).
Parece que os próprios professores são desorganizados a ponto de não pautarem a continuidade. Eles assumem um cargo, fazem tudo diferente do que o outro fez, aí depois saem, pegam outro cargo e por aí vai. Eu aluno chego aqui e fico sem saber o que fazer. Por que a coordenação do curso não apresenta o que a universidade tem? Por que não se junta com o Centro Acadêmico para fazer essa apresentação? A gente não vê integração nenhuma entre os professores e os alunos e dos alunos com os próprios alunos de fisioterapia (Discente 4º ano).
Pensar em gestão no campo departamental de um curso, por exemplo, requer pensar que os problemas não são estruturados e que não aceitam explicações deterministas. É
necessário que haja planejamento numa perspectiva estratégica que considere visões múltiplas e diversificadas (MERHY, 1995).
Para Matus (1993) a gestão está em saber distribuir bem os problemas pela organização de modo que todos os níveis estejam sempre lidando de forma criativa com problemas de alto valor relativo. A necessidade e importância da participação dos diferentes atores no processo de gestão descentralizada residem no fato de que estes estão sempre em situação realizando recortes interessados da realidade e que esta é sempre um produto permanente de um processo de disputa entre sujeitos que agem intencional e reflexivamente.
Um ponto de coesão foram as decisões compartilhadas entre os docentes coordenadores do curso e chefe de departamento:
A gente sempre tenta quando são assuntos de interesse da coordenação de curso e da chefia do departamento, a gente sempre procura fazer reuniões no sentido de definir algumas coisas (Docente “F”).
Apesar de não promover capacitação gerencial, alguns docentes reconhecem a importância do cargo e da qualificação que tem que estar presente ao assumi-la. Alguns buscam, através de ações isoladas, maior participação do corpo docente, posição esta que não é clara quanto aos discentes e ao segmento técnico-administrativo.
Nas reuniões da qual participei, os discentes tem sua participação garantida com representação nas reuniões da comissão de reestruturação curricular e departamentais, porém, sua presença é esporádica e sua participação na discussão é predominantemente de ouvinte. Em relação aos técnico-administrativos não houve participação.
No curso estudado, parece que cada ator realiza gestões individuais de acordo com o que julga coerente e com o seu papel definido culturalmente pelos próprios atores. Ou seja, os professores gerenciam suas atividades de ensino-pesquisa-extensão em que estão alocados e os discentes tem a função de reclamar de alguma situação pontual que está com problemas.
Esta falta de coesão entre os atores causa esse ‘estranhamento’ corroborado pelas falas como descontinuidade nos cargos gerenciais, descompromisso com os problemas e soluções e a falta de gestão compartilhada, aspectos que considero essenciais para um processo formativo de qualidade.