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BAĞLANMA Q-SETİ VERSİYON 3 (ATTACHMENT Q-SET)

Dito isto, cumpre analisar uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul133 que reconheceu a aplicação do CDC em decorrência de danos morais configurados a partir da explosão de um botijão de gás. Frente a uma falha do produto, o botijão de gás explodiu, causando um incêndio no imóvel dos autores da ação, além de diversos danos materiais e morais. Assim, face a comprovação da ocorrência de tais danos e sua óbvia relação direta com o produto, dispensou-se a perícia e determinou-se que responde o fornecedor de produtos, independentemente de culpa, pela reparação dos danos causados advindos de defeitos do produto, disponibilizado no mercado de consumo. Dessa forma, é aplicável o art. 12 do CDC ao considerar-se o ocorrido como uma violação ao dever de segurança do consumidor.

Reflete-se, por aproximação, sobre um processo de deslocamento e substituição como estratégia de análise por analogia. Assim, desloca-se o botijão de gás e introduz-se a impressora 3D. Ambos são considerados como objetos ou produtos dispostos a uso do consumidor. Se o consumidor adquire uma impressora 3D junto a uma dada empresa, há de falar-se em relação de consumo? Sim, evidente – o consumidor, conforme conceito definido pelo CDC, é aquele que adquire um produto (ou serviço) - neste caso, uma impressora 3D. O

131 MARQUES, Claudia Lima; BENJAMIN, Antônio Herman V.; MIRAGEM, Bruno. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p. 432. In: MIRAGEM, Bruno. Curso

de direito do consumidor. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p. 260.

132“Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos”.

133 TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL. TJRS. 3ª Turma Recursal Cível, Apelação Cível

nº 71005630785/RS, rel. Des. Luís Francisco Franco, julgado em 10 dez. 2015. Disponível em:

fornecedor é a empresa que vendeu o produto, disponibilizando-o no mercado, sem garantir a segurança do consumidor. Se a impressora explode, ainda que tenha sido utilizada da forma correta, atestada por perícia, não há dúvida quanto a responsabilidade pelos danos advindos da empresa fornecedora que vendeu a impressora 3D.

Ressalta-se ainda, conforme assinalado pelo juiz, que o consumidor é parte hipossuficiente na relação de consumo, o que legitima um tratamento diferenciado, como por exemplo, a previsão da inversão do ônus da prova134. Caberá, neste caso hipotético, a empresa

provar que a falha na máquina resultou de seu mau uso, ou uso incorreto pelo consumidor, ou ainda devido a qualquer outra razão para desincumbir-se da responsabilidade. Este esforço, no entanto, será da empresa e não do consumidor.

Portanto, nesta hipótese de compra e venda de uma impressora 3D que vem a causar danos ao consumidor, não há grandes dificuldades em vislumbrar-se a aplicação do CDC e a imposição do ônus à empresa, parte que se encontra em melhores condições de suportar prejuízo sofrido pelo consumidor em decorrência de defeito de fabricação da máquina. No entanto, conforme aludido no Capítulo 4 deste estudo, em casos como estes, apesar da aplicabilidade do CDC, provavelmente será necessária uma perícia de forma a atestar se o defeito tenha sido de fato da máquina ou se o consumidor, ao utilizá-la sem o conhecimento necessário, causou o mau funcionamento da máquina. O que não necessariamente leva a inferir-se que a aplicação do CDC seria afastada, nem mesmo que tais fatos deveriam ser imputados ao consumidor.

É possível concluir então que há uma relação tradicional de consumo – compra e venda – entre um consumidor e a empresa que lhe fornece o equipamento 3D. Quando tais demandas começarem a surgir, é bem provável que estas serão resolvidas em juizados especiais cíveis, por meio da aplicação de regras consumeristas. O envolvimento da tecnologia em nada parece alterar a análise final que será feita pelo juiz do caso.

Das possíveis problemáticas que poderão surgir envolvendo os elementos da impressão tridimensional e o consumidor, o argumentado acima é um dos menos complexos a serem solucionados. Entretanto, cumpre investigar ainda outras duas situações que, por envolverem mais atores, resultam ser mais complexas de resolver-se.

Como reiterado neste estudo, a impressão 3D, devido às suas características, é uma ferramenta que propaga a inovação, a inventividade, a criação e por isso, atrai o consumidor-

134“Art. 6º São direitos básicos do consumidor: [...] VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências”.

produtor/criador de forma que o instigue à utilização da tecnologia para inventar algo135, para realizar-se como inventor. Paralelamente a comercialização da máquina da impressora 3D, inicia-se também o desenvolvimento de empresas que se lançam como verdadeiras intermediárias, conectando consumidores-produtores/criadores com outras partes no Mercado, pessoas físicas ou jurídicas, que se propõem a realizar o serviço de impressão requisitado.

Este setor intermediário é uma boa solução para uso da tecnologia 3D. No entanto, não se pode deixar de considerar as problemáticas que poderão emergir desse segmento do mercado. A exemplo, um consumidor contrata os serviços oferecidos por uma empresa intermediária, para que esta faça a ponte entre ele e um terceiro disposto a imprimir a sua criação. Visualiza-se, neste cenário, evidente relação de consumo, uma vez que é possível caracterizar a empresa intermediária como prestadora de serviço e o terceiro que efetivamente imprime como fabricante. A quem deverá o consumidor recorrer quando, ao receber a sua criação em casa, verificar que esta veio maculada por um vício? Ou ainda, que desta prática resultou dano por defeito ao consumidor? Deverá responder a empresa ponte que oferece o serviço através de terceiros, ou somente aquele que efetivamente imprimiu o objeto, ou ainda, ambos?

É importante destacar que desta situação resultam dois possíveis desdobramentos, quais sejam: i) O consumidor, ao entrar em contato com a empresa intermediária, possivelmente notificando-a do ocorrido, a empresa informa que nada pode fazer uma vez que não é a responsável pela criação/produção do produto final. Ou seja, sua obrigação é apenas de meio, não sendo presumida sua culpabilidade, conforme entendimento pacífico da doutrina e da jurisprudência atual. Mas, informa ao consumidor os dados necessários referentes ao terceiro que efetivamente imprimiu o objeto para que então seja possível responsabilizá-lo por vício do produto; ii) o segundo desdobramento é similar, no entanto, a empresa intermediária recusa-se a fornecer os dados quanto ao terceiro ou apenas não os reteve e, por tal, é impossível fornecê-los. Desse modo, o consumidor vê-se desamparado uma vez que não é possível identificar e chegar àquele que realmente causou-lhe dano e prejuízo.

Paralelamente, é interessante pensar na decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal136, onde determinou-se a reparação de danos morais e materiais e reconheceu-

se a responsabilidade solidária de todas as empresas envolvidas na prestação do serviço. Tal

135 BERKOWITZ, op. cit., p. 04.

136 TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS. TJDFT. 1ª Turma Recursal dos Juizados Especiais/DF, Apelação Cível nº 20140710296698, rel. Des. Luís Gustavo B. de Oliveira, julgado em 02 fev. 2016. Disponível em: <http://www.tjdft.jus.br/>. Acesso em: 20 mai. 2016.

determinação foi feita tendo como base os arts.7, §único e 25, §1º do CDC. Os dispositivos mencionados estabelecem, de forma clara, a responsabilidade solidária de todos os fornecedores da cadeia de consumo pelos prejuízos causados ao consumidor.

No caso em referência da decisão acima, as empresas aéreas que operam conjuntamente respondem, conforme mencionado acima, solidariamente pelos danos causados referente a quebra de contrato de transporte aéreo. Os autores da ação de reparação de dano compraram passagens aéreas de ida e volta em site de programa de milhagens. Dessa forma, na relação de consumo estavam presentes os autores da ação e duas empresas aéreas que operam em parceria compartilhando voos, o que amplia sua participação no mercado. No entanto, no momento de retornar ao Brasil, aos passageiros foi negado o embarque sem que esta negação tivesse fundamento legal ou contratual. A volta ao Brasil só foi possível quatros dias depois. Assim, decidiu-se pela caracterização de dano moral e pelo dever de reparação tendo em vista a falha na prestação do serviço contratado. Ressalta-se ainda que eventual discussão da responsabilidade na falha da prestação de serviço deverá ser dirimida em futura ação de regresso por quem suportou o pagamento da indenização.

Depreende-se que toda a cadeia de fornecedores é responsável pelo provimento seguro e de qualidade do produto, protegendo o consumidor. Ao aplicar esta decisão à tecnologia 3D, tanto aquele que concebe o projeto, quanto o produtor da impressora, como também quem imprime o objeto, encontram-se dentro de uma cadeia de fornecedores e por tal podem ser responsabilizados. Em suma: Se um produto é comercializado com defeito, todos envolvidos na cadeia de produção são responsáveis, conforme o CDC. Questiona-se, entretanto, se esse conceito de cadeia de produção é útil e válido na hipótese de produção, compartilhamento e prestação de serviço que se dão na internet. É útil no sentido de proteção. Se essas responsabilidades não incorrem a todas as partes, nenhuma será responsável, afetando de forma negativa o consumidor. Essa economia de compartilhamento, sharing economy, inclui outros elementos, como o intermediário e a possibilidade de compartilhamento irrestrito. Dessa forma, não se pode desconsiderar completamente o conceito anterior de cadeia de produção como previsto pelo CDC.

Dadas essas considerações, retornando ao primeiro desdobramento do caso hipotético, há de considerar-se o posicionamento da empresa intermediária. Se a empresa define em seus termos de uso que não será responsável por quaisquer danos, contudo, ao ser notificada ou apenas contatada pelo consumidor, fornece os dados necessários para que o consumidor lesado consiga chegar ao terceiro, real causador do dano, não há de considerar sua

responsabilidade. Essa forma de pensar vem emprestada do que prevê o Marco Civil da Internet137 , onde provedoras de serviço e de conteúdo não serão automaticamente responsáveis por danos advindos de seus usuários, carecendo para tanto, uma ordem judicial138. No entanto, é preciso reconhecer que tal regra não seria totalmente correspondente a situação ora explorada. Caso a empresa intermediária forneça os dados e o consumidor consiga chegar ao terceiro, de acordo com o entendimento exposto, a ação seria apenas contra este terceiro. O CDC deixa claro que todos os fornecedores de produtos de consumo respondem solidariamente e disso infere-se que a empresa intermediária também deva responder, não por ser uma fornecedora de produto, leia-se, objeto impresso em 3D, mas por ser a fornecedora do serviço por meio do qual se obtém a impressão do produto. Não há uma resposta fácil de como resolver essa problemática, mas ambos os posicionamentos apresentados e institutos mencionados (CDC e MCI) devem ser considerados para resolução de futuros casos que envolvam a tecnologia 3D e empresas intermediárias.

No que concerne ao segundo desdobramento, uma vez a empresa não tendo qualquer meio de fornecer os dados necessários ao consumidor, não há como eximir-se de responsabilidade pelo dano ocorrido. Se o consumidor notifica a empresa contratada, mas ela simplesmente informa que não se responsabiliza em nenhum grau, e ao mesmo tempo recusa- se a fornecer dados necessários, depara-se com uma situação em que o consumidor, não tem nenhum meio possível de chegar ao terceiro. Impossível por tal, a empresa argumentar que, apenas por ser uma intermediária, não responderá. Assim, neste cenário, levando em conta a posição do consumidor face a uma empresa e um terceiro desconhecido, caberá uma ação contra ambos – empresa e terceiro – que responderão de forma solidária, conforme prevê o CDC139, sendo possível que, posteriormente, a empresa entre com uma ação de regresso contra o terceiro que efetivamente imprimiu o objeto defeituoso. Dessa forma, o consumidor vê-se amparado e protegido legalmente.

Por fim, considera-se aqui uma última e mais complexa problemática que poderá surgir conjuntamente com a impressão 3D. Conforme reiterado, com o advento da tecnologia 3D, há diversas formas com que o consumidor-usuário e o consumidor-produtor/criador poderá ter acesso a designs e formas para imprimi-los. Assim, popularizaram-se plataformas online, mencionadas anteriormente. Sendo as mais conhecidas a Thingiverse e Shapeways,

137 Código de Defesa do Consumidor, Lei n° 12.965/2014.

138 PEREIRA DE SOUZA, Carlos Affonso; VIOLA, Mario; LEMOS, Ronaldo. Understanding Brazil’s internet

bill of rights. 1. ed. ITS – Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio, Rio de Janeiro, 2015, p. 47-48.

mas não obviamente as únicas. Ao ter acesso as essas plataformas, o consumidor-usuário vê- se diante de inúmeras criações, dos mais diversos designs todos compartilhados em forma de arquivos por outros usuários da plataforma ou mesmo, como ocorre na Shapeways, de objetos e produtos já impressos em 3D e disponíveis para compra no próprio site.

São três as possibilidades140 de uso que valem ser identificadas, a saber: i) plataformas

online como a Shapeways, que se identifica como provedora de serviço e disponibiliza produtos impressos para venda ao consumidor; ii) outra opção seria os usuários de plataformas online que vendem suas criações aos consumidores interessados. E ainda, iii) o consumidor tem a opção de comprar ou fazer o download gratuito de arquivos CAD disponibilizados por designers, usuários da plataforma e posteriormente imprimi-los em suas próprias impressoras 3D. Esta última situação reflete de forma mais fiel o que ocorre na plataforma Thingiverse e, possivelmente, revela uma situação complexa e de difícil solução no caso de eventual dano e prejuízo suportado pelo consumidor.

Em situação hipotética o consumidor acessa a plataforma Shapeways, seleciona o produto desejado, lá disponibilizado por terceiro. No entanto, ao recebê-lo, o consumidor vem a sofrer certo dano decorrente deste produto. Questiona-se que tipo de responsabilidade seria aplicável, ou melhor, a quem caberia tal responsabilidade – à plataforma? Ao designer? À empresa que fabricou a impressora utilizada pelo consumidor?

A plataforma Shapeways trata-se de o que se convencionou chamar de uma provedora de serviço, uma vez que tanto imprime, como vende produtos disponibilizados por terceiros

designers. O entendimento majoritário e que prevalece atualmente é no sentido de que não

cabe responsabilizar o provedor de serviço por atos praticados por seus usuários, assim previsto pelo Marco Civil. As provedoras de serviço seriam isentas de qualquer responsabilidade no que concerne ao conteúdo que nelas circulam141. De acordo com este instituto legal, intermediários só respondem caso deixem de cumprir com uma ordem judicial que determine a retirada de certo conteúdo. Esse posicionamento gerou várias controvérsias e críticas142. Esta regra confere maior importância ao direito de liberdade de expressão, não

sendo possível restringir todo e qualquer conteúdo compartilhado na internet. Isso remonta a

140 NIELSON, Heidi. Manufacturing consumer protection for 3D printed products. Arizona Law Review, v. 57, n. 2, p. 614-615, 2015. Disponível em: <http://arizonalawreview.org/manufacturing-consumer-protection-for-3- d-printed-products/> Acesso em: 26 mai. 2016.

141 HARTMANN, Ivar A. Let the users be the filter? Crowdsourced filtering to avoid online Intermediary

Liability. FGV Law School, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em:<http://ipp.oii.ox.ac.uk/2014/programme-

2014/track-b-policy/information-law-regulation-and-ethics/ivar-hartmann-let-the-users-be-the> Acesso em: 26 mai. 2016.

outra discussão que envolve as intermediárias – se elas têm o dever de monitorar o conteúdo criado por seus usuários e consumidores, e se isso seria possível. Predomina o entendimento de que essas intermediárias, verdadeiras provedoras de serviço, não têm esse dever, porque, entre outras razões, isso envolveria um custo altíssimo e porque possivelmente infringiria direitos relacionados à privacidade.

Entretanto as grandes discussões que existem são, invariavelmente, decorrentes de casos em que uma provedora de serviço, como o Facebook, é acionada na justiça devido a conteúdo que gera danos morais a terceiros. Argumenta-se no sentido de que o Facebook deveria monitorar o que os usuários compartilham e responder conjuntamente com aquele que causou o dano diretamente. Aplica-se o previsto pelo Marco Civil, isto é, o Facebook só responde caso, após ser notificado judicialmente para retirada do conteúdo ofensivo, ainda assim não o faz. Caso contrário, não se há de falar em sua responsabilidade. Parece, então, ser este tipo de situação resolvido pelo Marco Civil.

No entanto, convém alertar que o caso hipotético suscitado diverge deste cenário. Se este entendimento permanecer, quando o consumidor ingressar com uma ação contra a Shapeways, o primeiro argumento da provedora será no sentido de que ela apenas imprime e/ou vende produtos cujos designs são feitos por terceiros, isto é, trata-se apenas de uma provedora de serviço, esvaindo-se, dessa forma, de responsabilidade. Assim, restará ao consumidor buscar o designer do arquivo compartilhado, devendo este responder. No entanto, esse designer, usuário da plataforma em questão, na maioria das vezes, não é identificável, o que problematiza ainda mais a situação143. Os inúmeros arquivos compartilhados em plataformas como a Shapeways e Thingiverse são gratuitos e abertos, permitindo que qualquer outro consumidor-usuário ou usuário a livremente editá-lo, não sendo possível determinar ou mesmo identificar o designer específico para acioná-lo na justiça. Então, o designer que deveria configurar na relação de consumo como fornecedor, dificilmente será encontrado. Se a plataforma não pode ser responsabilizada por tratar-se de mera provedora de serviços e os usuários e designers não são identificáveis, a quem o consumidor deve recorrer? Ou ainda, por outro viés, se o design em questão pode vir a ser editado por diferentes pessoas físicas, como argumentar pela configuração de uma relação de consumo? O entendimento que prevalece quanto às provedoras de serviço deve, neste contexto, ser repensado, para que cenários como este consigam ser solucionados. Justifica-se essa alteração uma vez que as situações e conflitos aqui suscitados envolvem a ocorrência de um dano que atinge a

integridade física do indivíduo. A solução existente trazida pelo Marco Civil da Internet não abrange casos em que o indivíduo acaba lesado fisicamente. Como é fato, aplica-se o Marco Civil para casos em que o ocorrem danos à imagem, à horna, à privacidade, entre outros.

Neste sentido, é de total relevância a decisão proferida em 2015, pela Corte Europeia, no caso DELFI AS x ESTONIA, ECtHR nº 64569/09144. A empresa intermediária Delfi conta

com um portal virtual, Delfi.ee, renomado veículo de comunicação onde diversas matérias são publicadas diariamente. O portal funciona de forma que ao final de cada matéria, há espaço para que leitores deixem os seus comentários. Esses comentários, no entanto, não passam por um monitoramento prévio antes de serem também disponibilizados. Há, no entanto, um sistema de notice & takedown145 para leitores que se sentirem ofendidos. Foi publicada uma matéria sobre as pontes de gelo, que no inverno, ligam o continente a demais ilhas. Essa matéria gerou um alto número de comentários, entre eles, muitos eram ofensivos e ameaçavam a vida de um indivíduo identificado como L. Foi então requerido que a Delfi removesse as ameaças e também o indenizasse pelo fato de ter hospedado tais ameaças em seu portal. A empresa acatou o pedido de remoção dos comentários, mas recusou-se a indenizar o indivíduo, alegando violação a seu direito de liberdade de expressão. O caso foi levado à Corte de Direitos Humanos, onde decidiu-se de forma unânime que o fato de a empresa ter que indenizar o indivíduo não viola a Convenção Europeia de Direitos Humanos, que protege a liberdade de expressão. Portanto, quando um intermediário é processado por danos na Corte Europeia, ainda que tenha efetuado a remoção do conteúdo após a notificação, este não poderá se esquivar do dever de indenização.

Essa decisão ilustra que a regra de responsabilidade de intermediários não é algo certo e que pode ser relativizada a depender do caso concreto. Isso não significa dizer que

Benzer Belgeler