O estudo comparativo entre os institutos venire contra factum proprium e estoppel se faz importante na medida em que ambos voltam-se à proteção de um mesmo interesse social, qual seja, a valoração ético-jurídica do comportamento contraditório. Nas palavras de Judith Martins-Costa (2004, p.113), “embora não se possa eliminar da condição humana a contradição, pode o Direito regrá-la,
sancionando, em certas hipóteses, os seus efeitos danosos na esfera jurídica alheia.”
O vocábulo estoppel pode ser etimologicamente definido como obstáculo, impedimento, barreira. Sua origem remonta à jurisprudência do Direito anglo-saxão, o qual admitia este instituto em suas diversas configurações. As circunstâncias históricas quanto ao seu surgimento, contudo, são divergentes, havendo quem defenda a sua construção teórica como exclusiva do sistema anglo-americano, dentre eles Oscar Rabasa e Phano Eder (apud SOUZA, 2008).
A doutrina não é uníssona no tocante a delimitação do estoppel. Para uma parte, a contradição proibida seria aquela detectada exclusivamente no curso do processo, limitando-se a uma questão processual. Para outra corrente, defendida por Alejandro Borda (2000, p.26), a doutrina do estoppel permite “sancionar toda conducta incoerente, incluso las realizadas fuera del pleito.
Para os adeptos de Ponce de Léon, o estoppel seria elemento que integraria as regras da prova, consistindo na impossibilidade de o sujeito, no curso de um processo, fazer uma alegação, ainda que verdadeira, se esta contradiz objetivamente uma declaração ou conduta anterior. Oscar Rabasa (apud SOUZA, 2008), por sua vez, entende que o estoppel seria uma espécie de presunção absoluta, que obsta à parte a sustentação ou negação de um fato especificado, que confronte conduta processual ou assertiva anterior.
No dizer de Griffith (apud SOUZA, 2008, p.47-48):
Seria o estoppel uma doutrina dirigida a impedir alguém que com sua maneira de agir, mediante palavras ou atos, tenha produzido em outrem a crença racional de que determinados fatos seriam certos, de sustentar a falsidade da situação aparente que tenha representado através de sua conduta.
Wagner Mota Alves de Souza (2008, p.48) extrai do seu minucioso estudo sobre as definições doutrinárias acerca do estoppel uma linha em comum dentre as definições na doutrina: a finalidade atribuída a este instituto jurídico de evitar “o dizer que desconstrua uma situação fictícia ou aparente.” Em outras palavras, o mesmo autor delimita este tronco em comum encontrado em todas as espécies de estoppel:
Veda-se a afirmação ou negação sobre determinado fato por aquele que, contraditoriamente, em momento anterior, tenha atuado de
forma a construir uma dada situação aparente com base na qual outrem tenha atuado, causando um prejuízo a este ou ao seu patrimônio.
Partindo desta delimitação conceitual, Judith Martins-Costa (2004, p.113) conclui que o venire se assemelha ao estoppel, especificamente ao estoppel by conduct, no que toca à sua eficácia jurídica em relação a algumas funções “desempenhadas pelo venire do Direito Continental.” Sustenta a autora que o estoppel tem aplicação vinculada ao direito processual, especificamente ao instituto das provas, funcionando como uma impossibilidade, diante de uma presunção absoluta (iure et de iure), de o litigante que afirmou ou negou determinado fato, posteriormente, na mesma relação processual, contrariar o que já foi dito, atuando em sentido oposto à afirmação inicial. Diante desta funcionalidade, teria o estoppel finalidade defensiva à contraparte.
O estoppel tem, em verdade, eficácia exclusivamente processual, pois efetivamente se apresenta como um meio de defesa no curso do processo, seja pelo autor, seja pelo réu, quando pretenda demonstrar que determinado fato alegado naquela ação é inteiramente contraditório com outro alegado ou praticado pela mesma parte, dentro ou fora da relação jurídica processual em curso, preservando uma situação jurídica de aparência.
Apesar das semelhanças apontadas entre o venire contra factum proprium e o estoppel – ambos possuem como característica primordial a contradição e fundamentam-se na boa-fé objetiva –, estes são institutos diferentes. Aponta Alejandro Borda (2000, p.32) que, embora muito semelhantes e próximas, as figuras do estoppel e do venire tem traços distintivos. Além da maior abrangência do segundo, as características exclusivas do primeiro: a “aparência jurídica” e o “mecanismo de defesa”.
Efetivamente, considerando-se a vertente ampliativa do Estoppel, pautada em Oscar Rabasa (apud BORDA, 2000, p.25), segundo a qual ninguém pode contradizer o que disse ou fez, de modo aparente ou explícito, se um terceiro, confiando nessa aparência, contrai uma obrigação ou sofre um prejuízo, o traço diferencial com o venire é muito sutil. Este consiste em o estoppel ser utilizado exclusivamente como um mecanismo de defesa, em sentido amplo, e não apenas exceção em sentido estrito, que teria por objetivo proibir alguém (autor ou réu) de, no curso do processo, fazer uma afirmação contrária a algum ato ou declaração
ocorridas na própria relação jurídica processual ou, como afirma Alejandro Borda (2000, p.26) “fuera del pleito”.
O venire, por sua vez, permite outras formas de tutela da confiança, como a inibitória e a reparatória, possibilitando que a contradição não produza efeitos, ou que o agente do ilícito repare o prejuízo quando o dano não pôde ser evitado.
O estoppel costuma ser classificado em diferentes categorias, tais como a proposta de Wagner Mota Alves de Souza (2008, p. 54-62):
a) Estoppel by Record – assemelha-se ao eficácia material da coisa
julgada. Assim, nesta subespécie, seria impedido à parte rediscutir as questões decididas em definitivo pela sentença.
b) Estoppel by Deed – por esta espécie de estoppel, a parte que firmou determinada declaração em documento público estaria impedida de infirmá-la.
c) Estoppel by Fact in Pais ou Estoppel by conduct – seu sentido
atual consiste na impossibilidade de negação ou afirmação em juízo de determinado fato que fora declarado, anteriormente, de forma contrária à nova afirmação.
d) Estoppel by Representation – o fundamento desta categoria “repousa na ideia de que, independente da real intenção do sujeito, se ele cria uma situação de aparência ou faz outrem acreditar no sentido objetivo de sua conduta, acaba vinculando-se a tais fatos, em razão de um dever de diligência social que impõe a responsabilidade pelas representações criadas em terceiros”.
e) Estoppel by Acquiescende e Laches – sua finalidade primordial é não permitir “uma lesão provocada a partir de uma omissão ou comportamento condescendente cuja realização implique violação à boa-fé.”
Importa ressaltar, por fim, a diferença quanto ao preenchimento de requisitos. Para que seja configurado o venire contra factum proprio é necessário a identidade dos sujeitos, ou seja, que aquele a quem o sujeito vinculou o seu comportamento inicial seja o mesmo a sofrer as consequências do seu comportamento contraditório. Refere-se, portanto, à quebra de uma expectativa legítima. O estoppel, por seu turno, caracteriza-se por contradições em afirmações ou atos no curso de um processo, e não necessariamente vinculadas ao mesmo sujeito confiante.
3.6.2 O venire contra factum proprium como exercício tardio de um direito -