Para se compreender as necessidades de formação, é primordial entender como as necessidades, de maneira geral, traduzem-se para o homem. Isso porque, para além de haver diferenças de discursos de necessidades e de necessidades de formação, vê-se uma relação de implicação entre elas. Nesse sentido, caberia perguntar se seria possível encontrar uma unicidade no que tange às necessidades de formação. Qual seria a natureza dessas necessidades? E que implicação essa identificação traz para a formação continuada de professores?
A palavra necessidade remete a um conceito amplo que relaciona o tripé que constitui a base da formação dos sujeitos: a natureza biológica, a psicológica e a social. Essa concepção sobre necessidades remete à idéia de algo que se faz imprescindível ou condição sine qua non para a realização e a satisfação de condições para se efetivar algo. Comporta, portanto, a idéia central da perspectiva biológica que se refere à condição de sobrevivência.
Maslow (1979) abordou as necessidades a partir de uma hierarquia piramidal que permite visualizar as necessidades humanas impulsionadas pelo medo e pela coragem. Em uma ou em outra situação, primeiramente as necessidades básicas de sobrevivência,
asseguradas pela fisiologia e pela segurança, são atendidas, sendo que todas as demais, de natureza social e psicológica, o são secundariamente, posto que a prioridade recai sobre a vida biológica do homem.
Figura 1. Hierarquia das necessidades humanas na perspectiva de Abraham Maslow. Fonte: http://tagarelas- batista.blogspot.com/2009/02/blog-post.html
Da perspectiva de Maslow (1979), o desconhecimento causador da necessidade constitui a motivação intrínseca do sujeito pela busca do conhecimento, o que significa dizer que as necessidades cognitivas estão sempre envolvidas nos processos de humanização e na história do sujeito, motivos pelos quais a Educação constitui um bem universal. Por isso, a formação tem hoje importância capital para a vida dos sujeitos e para a sociedade. As relações que se estabelecem com o mundo do trabalho, com a convivência social, com a relação entre a vida pessoal e seus valores, são determinantes e influentes no estabelecimento de necessidades bem como na forma como o sujeito deseja realizar conquistas pessoais em busca da auto-realização.
Nesse contexto, vê-se a existência das necessidades como imprescindíveis também para a melhoria das atividades laborais e ocupacionais dos sujeitos. Por ser corriqueira na linguagem cotidiana, a palavra necessidade reveste-se de uma variedade semântica: falha; desejo; expectativa; anseios; limitações; dificuldades, que a torna sujeita a muitas críticas que recaem sobre sua amplitude e suas variações terminológicas, chegando a ser considerada como um conceito vazio, sem fronteira e sentido preciso (WITKIN, 1984 apud RODRIGUES, 2006). Por ser tão polissêmica e ambígua, sugere-se que seja acompanhada de adjetivo que
melhor a precise: “necessidades básicas, necessidades autênticas, necessidades sentidas, necessidades normativas” (RODRIGUES, 2006, p. 95).
De acordo com Lafon (apud SILVA, 2000a), as necessidades podem ser de diversos tipos, podendo ser classificadas como vegetativas; sensório-motoras; afetivas e sociais; intelectuais e culturais; coletivas; morais e espirituais. Já Erny (1982), apoiado em Malinowsky, parte de uma perspectiva antropológica para compreender as necessidades humanas que são entendidas a partir de sete tipos elementares:
• metabolismo (nutrição; hidratação; respiração; evacuação); • reprodução;
• bem estar corporal; • segurança;
• movimento; • crescimento e • saúde
Tais necessidades de ordem fisiológicas são, da perspectiva do autor, determinantes da vida humana, porém distintas na e a partir da forma como são atendidas, resolvidas, construídas e satisfeitas pelo próprio homem. Ou seja, a experiência e a existência do homem sustentam-no em sua capacidade de responder as necessidades que percebe e cria em relação ao modo como responde às demandas que lhe são imputadas socialmente, das quais se torna dependente, já que a (re)criação da cultura atrela-se a novas necessidades, a necessidades modificadas.
Nas palavras do autor,
Desde o momento em que o homem dá uma primeira resposta a essas necessidades, ele cria uma situação cultural que modifica e regulamenta as tendências instintivas de base. Uma vez que surge a cultura, esta vai impor novas necessidades (“necessidades derivadas” ou imperativos culturais) ligadas à organização social, a instauração da autoridade e à socialização dos membros (MALINOWSKY apud ERNY, 1982, p.132). [grifos meus]
Se as necessidades elementares do homem que podem, por exemplo, até ser puramente de ordem biológica geram necessidades culturais, ou se a busca por suprir as referidas necessidades cede lugar a outras, a novas necessidades, faz sentido afirmar que o inverso também é verdadeiro: as necessidades manifestadas pelos sujeitos dão origem, ou ainda, se entrelaçam ou estabelecem conexões ou redes com outras necessidades elementares de base,
que determinam a atuação e a busca dos sujeitos pela manutenção e/ou pela resolução dessas mesmas necessidades.
Vê-se, portanto, dessa perspectiva, o homem com um papel ativo, construidor e gerador de situações e condições de necessidades, que o influenciam, o (re)orientam, o modificam, o (trans)formam, o (re)criam nas situações em que essas necessidades lhe são conscientes, estabelecendo uma ligação dialética entre o sujeito criador e as necessidades, de natureza relacional e de dependência, não podendo, portanto, existir um sujeito-necessidade sem o outro. Assim, pensamos que tal relação pode ser representada da seguinte forma:
Figura 2. Esquema relacional entre necessidades e sujeito. Fonte: Elaboração minha.
Essa relação, entretanto, não se afirma quando a necessidade é inconsciente ao sujeito. A existência de uma necessidade ou de uma situação de necessidade, quando inconsciente ao sujeito, não faz com que a sua própria existência vislumbre-se para ele. Uma vez desconhecida, não pode ser por ele sentida. Dessa maneira, pode-se dizer que o estado de consciência sobre as necessidades nas suas diversas formas de manifestação é, portanto, o modo com que a relação entre eles se estabelece, sendo ainda fortalecida na medida em que o sujeito busca formas de supri-las.
O conhecimento das tipologias ou classificações de necessidades assume relevo na medida em que for possível estabelecer relações lógicas entre elas, que permitem inferir que há sempre, na percepção de necessidades humanas, o movimento de consciência ou a busca dela, visando encontrar caminhos para a resolução a partir da capacidade de reflexão e motivações disponíveis geradas pelo próprio homem em torno da sua condição atual de necessidade. Definidas por uma condição cultural pré-determinada, determinada ou em modificação, as necessidades humanas manifestam-se e apresentam-se de formas distintas entre os sujeitos, gerando relações igualmente distintas.
Para Barbier e Lesne (1986), precursores na proposição pedagógica e educativa da análise de necessidades, a necessidade traduz-se em uma exigência natural ou social, com conotação objetiva, bem como no sentimento ou consciência dessa exigência por parte do sujeito, tendo, portanto, conotação subjetiva. Assim, pode-se dizer que a necessidade desconhecida, inconsciente, constitui um objeto latente, com existência própria, porém inexistente para o sujeito, impossibilitando ou dificultando o estabelecimento de relações férteis, favoráveis à apreensão dessas necessidades para o sujeito que a desconhece. Como exigência, as necessidades são determinadas por operações rigorosas de identificação. Quando materializam-se como um sentimento de exigência, restringem-se aos sujeitos que as sentem. Tais sentimentos são construídos pela interação dos sujeitos e contextos, perpassados pelos valores dos envolvidos, de seus estados e condições culturais, psicológicas, físicas e emocionais.
O conceito de necessidade ao mesmo tempo em que é amplo é também limitado, uma vez que não é possível falar em necessidades absolutas, pois como lembram Rodrigues e Esteves (1993, apoiadas em MCKILLIP), as necessidades “(...) são sempre relativas aos indivíduos e aos contextos e decorrem de valores, pressupostos e crenças” que estão sempre relacionados. Nas palavras de Estrela et al (1998, p.44), compreendem-se por necessidade “(...) representações construídas mental e socialmente pelos sujeitos num dado contexto, implicando a concepção de estados desejados, geradores de desejos de mudança e de necessidade, como mais adequados que os atuais”.
A partir desses autores, que ampliam e regulam a compreensão de necessidades, conclui-se que elas podem ser entendidas como manifestações objetivas porque são inevitáveis e possuem existência real como também podem ser subjetivas, visto que se trata de manifestações do sujeito, que é único e particular. Dependentes que são dos sistemas, dos grupos e dos sujeitos, as necessidades são necessariamente expressas a partir da vinculação que estabelecem com seus quadros referenciais gerais de valores, que delimitam sua representação e sua dinâmica existencial.
Entendidas como representações da realidade percebida, as necessidades são concebidas pelo sujeito em um contexto determinado, traduzem-se a partir de situações e não a partir de sua natureza, muito embora as situações tenham relação, muitas vezes, com a natureza das necessidades. Nesse sentido, assumindo uma perspectiva de instabilidade e mutabilidade, elas são ainda tendenciosas na orientação dos sujeitos em busca pela sua satisfação, desenhando um contexto motivacional por soluções que atendam às referidas necessidades mediante as condições (des)favorecedoras do meio ou contexto.
No plano individual, as necessidades expressam desejos, anseios, aspirações, expectativas, medos, dilemas, preocupações, dificuldades, problemas, carências, falhas, existindo objetivamente apenas para o sujeito que as sente, podendo ser tomadas, paradoxalmente, como referência para compreender e/ou validar necessidades no/do coletivo, embora não expressem verdadeiramente necessidades coletivas. As percepções do sujeito estabelecem relação de implicação com a situação de necessidade, ou seja, sua manifestação é a expressão da relação existente entre contexto e sujeito. Portanto, é inevitável que, uma vez percebida, a condição geradora permaneça inalterada para o sujeito que sente a necessidade até o momento de sua superação. Assim sendo, toda necessidade consciente apreendida é suscetível de mudança ou alteração, não apenas pela mutabilidade temporal e condicional, mas também pela mutabilidade relacional entre sujeito e a necessidade e vice-versa. É, portanto, possível compreender as necessidades individuais, fundamentais - ou autênticas como preferem Rodrigues e Esteves (1993) – e específicas dos sujeitos, já que são expressas em contextos sociais estabelecidos e conhecidos tal como se vive ou se idealiza. Porém, o contexto que as fizeram emergir configura uma situação de expressão particular que não pode deixar de ser considerado, ao se tratar de análise de necessidades e de análise de necessidades de formação, já que ele apresenta a tendência de reafirmar-se com força igual ou maior sobre a manifestação de necessidades do que da natureza delas.
Essa consideração implica reconhecer que a ordem da resolução de necessidades nem sempre é linear, segundo a proposição de Malinowsky (1979), pois altera-se em função do contexto, influente e decisivo na expressão de necessidades. Tal lógica, a meu ver, permite afirmar que as relações que o homem estabelece com o mundo do trabalho, da convivência social e de vida pessoal são fatores de influência significativa na manifestação e no estabelecimento de necessidades bem como na forma em que se busca a superação delas. Vê- se, portanto, a estreita relação de imbricação entre as necessidades básicas e as necessidades relacionadas às atividades laborais e ocupacionais dos sujeitos. Assim sendo, é possível visualizar o que Rodrigues e Esteves (1993) exprimem como necessidades autênticas e específicas, planos distintos de necessidades, em que as primeiras determinam o curso e o alcance das outras, tendo em vista que desejos, expectativas e preocupações tornam-se secundárias no seio da sobrevivência humana.
Postas as especificidades relacionais entre necessidades e sujeito, vale destacar as distinções entre as necessidades individuais e coletivas como advertem Rodrigues e Esteves (1993), apoiando-se em Barbier e Lesne (1986). Há uma falsa objetividade das necessidades quando expressas ou sentidas por um grupo de sujeitos, requerendo cautela na sua
mensuração quando percebidas ou expressas no coletivo em face da relativa subjetividade de referência ou norma de cada um dos sujeitos do grupo na expressão de suas necessidades.
Os registros escritos sobre análise de necessidades apontam, consensualmente, para o fato de que as necessidades sejam entendidas como um estado discrepante entre a forma como se apresenta a realidade (o que é) e o estado ideal (como deveria ser/estar) (RODRIGUES e ESTEVES, 1993; RODRIGUES, 2006; ESTRELA et al, 1998), sendo prudente que as inferências e interpretações derivadas de situações de análise de necessidades considerem que a distância existente entre os pólos nem sempre é a expressão da verdadeira necessidade.
É
Necessidades:
Dificuldades, problemas preocupações, Desejos, expectativas,
Discrepâncias, lacunas.
Deve ser Figura 3. Necessidades como discrepância. Fonte: Rodrigues, 2006, p.170.
Relacionado a essas questões, encontra-se outro agravante, apontado pelos teóricos (ESTRELA, MADUREIRA e LEITE, 1999), tido como um problema complexo e que diz respeito à definição de referentes, ao que “deve ser”, sob os quais se infere ou se avalia a existência de necessidades no campo profissional, em específico na docência, em que há uma variedade de referentes existentes tais como as concepções de ensino, mutabilidade das necessidades e vinculação das necessidades ao sistema de que fazem parte. Nesse sentido, a leitura que se faz a partir do pólo ideal, daquilo que deve ser, que constitui referencial para as necessidades, é a de que há uma relação de implicação entre a alteração das necessidades e a relevância que é dada ao referencial que constitui norma, valor utilizado para a avaliação de necessidade. Em outras palavras, as necessidades assumem seu potencial em função do vínculo com o referencial e o interesse que esse estabelece com o objeto. Sendo assim, compreende-se porque muitas vezes ocorre a manipulação dos professores nos levantamentos realizados pelos sistemas que se limitam à validação e à legitimação (ESTRELA, MADUREIRA e LEITE, 1999) de seus programas de formação.
Ainda sob a exploração conceitual das necessidades e inserida em uma perspectiva motivacional de seu atendimento, Wilson e Easen (1995) destacam a diferença entre necessidades (needs) e desejos (wants), que podem ser entendidas como ‘algo desejável pelo professor’. De fato, necessidades e desejos apresentam sentidos distintos atrelados à consciência e à percepção do que ‘se precisa’ e do que ‘se quer’. De acordo com esses
autores, é possível que o sujeito deseje o que precisa, deseje o que não precisa, precise do que não deseja, desconhece que precisa e não deseja. Esquematicamente, pode-se representar:
Tipo de
necessidade Desejo (wants) Não desejo
Preciso (needs)
Situação ideal, havendo coincidência entre o querer e o
precisar (necessidade consciente/desejável)
Situação difícil, sugere um conflito de crenças, valores, perspectivas (necessidade (in)consciente e indesejável, porém necessária)
Não preciso
Muito comum, dado que os desejos se situam geralmente no campo do já conhecido e também porque o desejar e o precisar não provém da mesma lógica (necessidade consciente e (in)desejável)
Situação ideal, havendo coincidência diametralmente oposta entre o não querer e o não precisar (necessidade consciente e indesejável) ou inconsciente e indesejável.
Quadro 1. Relações entre ‘necessidade’ e ‘desejo’. Fonte: Wilson e Easen (1995, p.275). [Tradução minha].
A perspectiva exposta no quadro acima vislumbra a fertilidade das necessidades perceptíveis, conscientes ao sujeito, para impulsionar e definir processos de formação e desenvolvimento profissional. Ela aponta também para a ocorrência de situações em que se faz necessário, ainda, promover, ao nível da consciência do formando, suas necessidades inconscientes e não-desejáveis. A importância dessa discussão vai além da percepção das aparentes, das sutis diferenças entre os termos, necessidades e desejos, incidindo, antes e sobretudo, no enfoque subliminar dado às motivações dos sujeitos, inseridas no campo dos desejos em responder ou resolver as próprias necessidades, inquietações, problemas, dificuldades.
De acordo com Wilson e Easen (1995), essa distinção entre wants (desejos) e needs (necessidades) faz-se necessária para compreender a manifestação de necessidades como impulso à aprendizagem, como motivação, assumindo o sentido de uma exigência, uma obrigação, uma pressão, aspectos relacionados diretamente ao envolvimento dos professores em ações de formação. Sendo assim, assume sentido e relevância questionar: O que leva um professor a motivar-se para e em processos de formação? Seriam as formações fruto de seu desejo (wants) ou de sua necessidade (needs)? Desejam o que necessitam? Expressam suas verdadeiras necessidades?
Nessa mesma linha de pensamento, outros (KAUFMAN, 1987; WITKIN, 1984; KAUFMAN e HERMAN, 1991, apud RODRIGUES, 2006) defendem que há, quanto aos
tipos de necessidades, “verdadeiras necessidades”, as discrepâncias relativas aos fins nos resultados alcançados pelas instituições, e “quase necessidades”, discrepância dos meios, manifestada nos objetivos e processos resultantes, desconsiderando os resultados alcançados. A diferença entre elas estaria no nível de envolvimento do professor com a necessidade expressa, bem como com o significado e a importância que elas assumem para o sujeito que a percebe.
2.2 Os modos de determinação de análise de necessidades e de necessidades de formação