Em sua maioria, os resultados encontrados estão de acordo com outros resultados encontrados na literatura em outros países, mas lançam nova luz sobre o cenário de crédito no Brasil. Assim como sugerido por KARLAN e ZINMAN (2006), que verificaram que elasticidades de preço e prazo de demanda para crédito ao consumo variavam de acordo com a renda, consistente com as restrições de liquidez das classes sociais mais baixas, a elasticidade de taxa de juros também depende da renda para os públicos analisados neste estudo. O público Premium, por possuir maior renda e menor nível de risco de crédito dispõe de fontes alternativas de produtos de crédito, optando geralmente por aqueles que possuem menores taxas de juros. Clientes deste público que optaram por aceitar ofertas com taxas mais altas possuem maior risco de crédito em comparação com os clientes que contrataram com taxas menores, indicando que não possuem outras opções disponíveis de financiamento. Já aqueles que contrataram com taxas mais baixas, provavelmente comparam entre diversas ofertas recebidas e optam pela mais atrativa, inclusive avaliando outros produtos, como o empréstimo consignado ou com garantias. Sinal disto é que estes clientes possuem maior taxa de resposta e, simultaneamente, menor risco de crédito.
Ao contrário do público Premium, para o Público Internacional estas conclusões não se aplicam. As taxas de juros não influenciaram nem a taxa de resposta nem o perfil de risco dos clientes que contrataram o empréstimo. Do ponto de vista da instituição financeira, ao reduzir a taxa de juros para este público perde-se receita financeira, pois não há incremento na contratação nem melhora do perfil de risco dos clientes. Do ponto de vista dos clientes, por possuírem uma renda mais baixa e maior risco de crédito, acredita-se que este público possui menos alternativas de financiamento, ao contrário do público Premium. Ao necessitar de crédito, acabam optando pelas poucas ofertas disponíveis, não havendo muitas possibilidades de escolha. Além disso, os produtos são restritos, havendo praticamente empréstimos pessoais e linhas de crédito de curto prazo mais caras, como cheque especial e o próprio crédito rotativo no cartão de crédito. Outro fator relevante para este perfil de cliente é que a taxa de juros não aparenta ser um fator crucial na escolha do empréstimo. Outros fatores podem exercer maior influência na decisão de aceitação, como encontrado em nosso modelo: limite do empréstimo, prazo e valor da parcela.
Entendemos este cenário como um início de mudança no contexto de crédito brasileiro. Anteriormente, nenhum tipo de cliente, independente da renda, era muito sensível à
taxa de juros, uma vez que a oferta de crédito era restrita, não havia variedade de produtos e, aqueles que precisassem de algum financiamento, deveriam aceitar as condições das poucas ofertas disponíveis. Ainda é comum acreditar que o público brasileiro tomador de crédito avalia apenas se o valor da prestação é compatível com seu orçamento. Este cenário vem se alterando ao longo dos últimos anos e o público Premium, que anteriormente financiava pequenos volumes, é o primeiro a exigir ofertas melhores. Há uma maior variedade tanto de produtos quanto de ofertas, o crédito é menos restrito e serão aceitas as ofertas que melhor atenderem aos requisitos deste público. As instituições financeiras já perceberam este movimento e esforçam-se para atrair estes clientes, oferecendo diversos planos de financiamentos. Públicos de renda mais baixa ainda não desfrutam deste poder de escolha, mas como vimos, a tendência é cada vez mais de redução dos spreads, avanço no crédito para classes sociais mais baixas, avanço no consumo, no emprego e na renda. É uma questão de tempo para as camadas sociais mais baixas terem mais alternativas de fontes de crédito, assim como ocorre nos países desenvolvidos.
A importância do trabalho foi justamente identificar este comportamento e o início desta profunda modificação no cenário de crédito no Brasil. A análise é restrita, realizada para um tipo específico de empréstimo, em um período específico, mas os resultados encontrados indicam esta mudança tanto no comportamento dos consumidores quanto das instituições financeiras brasileiras.
São possíveis restrições deste estudo o fato de as ofertas analisadas terem sido realizadas apenas durante dois meses (Março e Abril/2009), não verificando se os resultados obtidos são alterados devido à sazonalidade. É comum no mercado de empréstimos pessoais haver uma demanda maior no primeiro trimestre do ano-calendário e uma demanda menor no último trimestre devido a rendas extras, como o 13º salário. Este estudo não captou se o comportamento dos clientes pode ser alterado de acordo com a época do ano. Outra restrição é que não foi verificado se outros fatores combinados com a taxa de juros afetam a taxa de resposta. No experimento realizado, alteramos apenas as taxas de juros, mas não o prazo do empréstimo, por exemplo.
Como análise futura e complementar a este estudo seria plausível verificar se este comportamento também é válido para outros tipos de empréstimos, como empréstimos pessoais “puros” (não vinculados ao cartão de crédito), financiamentos de veículos, crédito imobiliário, consignados, etc. Além disso, este mesmo estudo poderia ser aplicado a outros perfis de clientes, com rendas mais altas e mais baixas, de forma a verificar se as elasticidades
e seleção adversa se acentuam com o decréscimo da renda. Outro fator a ser considerado é se a elasticidade de juros depende da magnitude da taxa de juros ofertada. É sabido que para linhas de crédito de curto prazo com taxas mais altas, como por exemplo, o crédito rotativo do cartão de crédito – que apresentas níveis de taxa de juros próximos a 10% ao mês, a elasticidade de juros é bem mais fraca. Argumenta-se que as pessoas que fazem uso deste produto não o fazem por opção, mas porque geralmente é a alternativa mais conveniente e talvez a única disponível. Neste cenário, mesmo uma forte de redução das taxas de juros não provocaria efeitos consideráveis na taxa de resposta, já que a taxa não é uma variável relevante, ao contrário de um empréstimo pessoal, onde o cliente deve solicitar o empréstimo e, portanto, tem melhores condições de avaliar a oferta.