1.2. Benlik Kurgusu
1.2.1. AyrıĢma bireyleĢme süreci ve özerklik kazanma
Nesta tese, meios de propagação são definidos como as formas pelas quais a cultura chega à população. Assim, consistem, objetivamente, nas formas pelas quais o público é alcançado pela cultura. Isso não significa reduzi-los a ações de marketing, como este termo pode eventualmente sugerir (CODINA MEJÓN et al., 2004); mas que a propagação se refere à imagem e à identidade projetadas pelos produtos culturais, tratando-se, a rigor, da forma pela qual a cultura é apropriada pela população.
Um primeiro sentido dos meios de propagação da cultura diz respeito ao seu sentido mais evidente, o que a associa a formas de divulgação, conforme o fragmento discursivo (127).
(127) A internet,... rádio,... a TV Cultura e o jornal... mas... fraco, né. Acho que os produtos nesses meios, acho que a internet dá, assim, uma força muito grande pra valorização, agora os outros meios, acho que eles trabalham pouco a cultura... a imprensa teria que valorizar mais essas questões, eu acho que pra gente crescer, pra população crescer intelectualmente. (entrevista 12)
Explicitamente são enunciadas as figuras internet, rádio, TV Cultura, e jornal como meios de propagação. Eles seriam canais de valorização cultural pra população crescer
intelectualmente. O implícito subentendido é que se trata de um povo afastado da cultura, e que por isso precisa tê-la divulgada por diversas formas para com ela crescer. A metáfora biológica do crescimento faz da cultura um elemento do desenvolvimento da população. Metonimicamente faz do crescimento da população um crescimento da cidade.
Os textos (128) e (129), discutidos a seguir, mostram que os meios de propagação da cultura são mais eficazes em alguns segmentos sociais.
(128) Não é levar [a cultura]... A falta de conhecimento das pessoas por que quando você vai à Fundação Carlos Drummond de Andrade, o que que te leva? ... Mas vendo eu que estou vindo das margens, ne, eu vindo das margens, eu vejo que das margens que eu estou vindo não tem ninguém que está lá, é o poder constituinte, ... é uma elite que ela que está la. Por quê? Ela está lá não é porque, é porque para ela foi divulgada, para outra, para essa parte que está nas margens não foi... A periferia também ela percebe e percebendo também que ela não tem um livre acesso, as coisas não vão até ela como forma de convite, então ela também vai ficando arredia... essa informação não vai lá para eles, você está entendendo? Então por isso que eu uso o termo que ela se torna uma coisa elitizada exatamente é, é, é por que não diversifica, ela não leva isso até as pessoas. (entrevista 01)
(129) Os consumidores são os mesmos. Então você vai no teatro... você sabe a cara de quem você vai encontrar... (entrevista 12)
O enunciador do discurso (128) questiona, em primeiro lugar, o que leva as pessoas a frequentarem a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Essa pergunta, que pareceria descabida considerando o fato de se tratar de uma autarquia e também um centro cultural, encerra uma crítica quanto a quem, de fato, acessa o local: a elite. Para essa personagem, a cultura foi divulgada, o que a leva a ter acesso ao que é disponibilizado neste local, ao passo que para essa parte que está nas margens não foi. O implícito subentendido é que o personagem nas margens não usufrui a cultura por sequer saber de sua disponibilidade, o que seria um problema de eficácia nos meios de comunicação. Mas o entrevistado sugere explicitamente que essa ineficácia não é casual e que a periferia, o outro personagem, interdiscursivamente colocado como antagônico à elite, percebe (metonímia) que ela não tem
livre acesso, o que a afasta, conforme a prosopopeia vai ficando arredia. A cultura seria, aos olhos deste enunciador, elitizada por não levar isso (a cultura) até as pessoas.
Um indicativo dessa uniformidade no público das atividades do Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade é a sua frequência. De acordo com o texto (129), as pessoas são as mesmas, pois você sabe a cara de quem você vai encontrar. É revelador o fato de que os cidadãos são explicitamente enunciados como consumidores, pressuponho que de cultura. Essa perspectiva introduz outra questão: a eficácia dos meios de propagação da cultura para a
elite e sua ineficácia para a periferia seria menos uma questão de acesso do que de possibilidade de consumo cultural?
Se esse questionamento é coerente, o que veríamos na cultura de Itabira é uma reprodução, já apontada por autores como Chauí (1989) e Ianni (1994), da cultura da elite (ou para a elite)
versus a cultura do povo (ou para o povo). Tudo devidamente segmentado para dirigir a cada público o produto que efetivamente satisfaria seu consumo, o que pressupõe, de antemão, além da desigualdade social, preconceito cultural, já que não caberia à periferia o que se destina à elite – e isso implicaria ineficácia na divulgação do que acontece no Centro Cultural. O próximo texto confirma esta perspectiva:
(130) Quando eu era sócio do Diário de Itabira, por exemplo, um funcionário que fazia cartoon pra gente, que desenhava, ele nunca tinha entrado na Fundação Cultural, camarada muito simples, né, então tinha vergonha. O mesmo que acontecia com ele, com certeza, acontecia com muitas outras pessoas de ter vergonha de, de repente, entrar num teatro daquele, né. Então, assim, você tem que levar o teatro no... na periferia, você tem que levar o teatro no... em outros pontos, né, você tem que levar os cursos, as oficinas em outros pontos. (entrevista 12)
O prédio que abriga o Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade não é particularmente imponente, como pode ser visto mediante a observação da sua fachada na figura 6. Entretanto, é, sem dúvida, uma das construções mais arrojadas de Itabira e, por isso, pode parecer algo
fora da realidade para um cidadão socialmente desfavorecido. Por não se ver lá, compartilhando do que o lugar tem a oferecer, mesmo sem ter ido o personagem citado sentia
vergonha, e por isso nunca tinha ido ao local.
Um indicativo da centralização das atividades é dada na segunda parte do fragmento discursivo (130), ao afirmar explicitamente que você tem que levar o teatro na periferia, você
tem que levar o teatro em outros pontos, né, você tem que levar os cursos, as oficinas em outros pontos. O implícito subentendido é que se trata de atividades culturais centralizadas no Centro Cultural, o que excluiria, tanto pelos meios de propagação ineficazes quanto pela autoexclusão da população de baixa renda. A difusão da cultura é também tema dos dois próximos discursos.
(131) Em alguns momentos a cultura chega, mas é muito pouco né? Eu acho que o pessoal está fazendo a cultura deles... Eles fazem seu próprio lazer, sua própria cultura, sua própria forma de resistência...Então eu acho que tem ser feito alguma coisa, não é para enquadrá-los e tratá-los como cordeiros não, mas é para que eles extravasem a ira, a indignação que eles têm em coisas positivas. (entrevista 09)
(132) Ela [a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade] tinha que estar cuidando dos interesses, dos acervos e é claro, poderia estar gerindo a cultura da cidade... Por ser uma coisa de elite e tudo, ela não vai lá nos guetos, ver o que os sanfoneiros estão produzindo, ela não vai lá nos becos ver o que outros poetas estão escrevendo, alguma outra pessoa está produzindo. Quer dizer, ela pega aquele superficial e esse superficial fica um pouquinho de alguém que está aparecendo, com alguma coisa que pode ser interessante, mas assim, vai lá e tal, amanhã acabou... (entrevista 01)
Ao explicitamente enunciar que em alguns momentos a cultura chega, mas é muito pouco, o entrevistado 09 registra que há um processo de difusão cultural. Mas o implícito pressuposto da sentença é que, por não cumprir o seu papel de propiciar acesso à cultura, o pessoal, pressuponho aqueles para quem a cultura não chega, constrói suas próprias referências a
cultura deles... Eles fazem seu próprio lazer, sua própria cultura, sua própria forma de resistência.
O enunciador explicita que ficar às margens do sistema, ser por ele deixado de lado, implica assumir referenciais localizados, que se referem às formas de sociabilidade rejeitada por quem se é ignorado e, ao mesmo tempo, a meios de resistência. O uso desse léxico é particularmente rico, porque sugere, de antemão, que o que eu poderia chamar de excluídos não se satisfazem com o processo que sofrem e a ele resistem criando sua própria cultura.
Isso é confirmado pelo restante do fragmento discursivo que explicita que precisa ser feito algo no sentido de aproximar o poder público desta parcela da população. O entrevistado explicita, porém, por meio da seleção lexical não é para enquadrá-los e tratá-los como
cordeiros não, mas é para que eles extravasem a ira, a indignação que eles têm em coisas positivas, que há (ou houve), em algum momento, uma cultura que procurava amansar a periferia (conforme a seleção lexical tratá-los como cordeiros).
Pressuponho que isso se dava na forma de uma cultura pronta, a qual tinham de consumir sob pena de ficar sem nenhuma. Ao dizer que a cultura é meio para que os excluídos extravasem a
ira, a indignação que eles têm em coisas positivas, o silenciado nesse discurso é que se trata de uma visão distorcida, elitizada e funcional de aculturar a população, nos moldes da introdução de tecnologias gerenciais nas empresas brasileiras na década de 1970. Mantendo- os ocupados ao manifestar culturalmente sua ira e indignação, medidas políticas concretas desta parcela da população rumo à emancipação deixam de ser articuladas, já que o acesso à cultura já foi dado. É a dádiva que se baseia na desigualdade política dos sujeitos, que assume que uns podem acessar o que desejarem, ao passo que outros, o que aqueles permitem.
Faz parte de processo, sem sombra de dúvida, a difusão de Drummond como a cultura certa para a comunidade, embora haja poucas ações articuladas nesse sentido.
(133) O acesso à obra [de Drummond] ela [a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade] não faz nenhuma ação específica. O Memorial tem os livros que é que eram da coleção de Drummond também, né, lá tem os livros que... que tão até pra exposição, né, e aí são disponibilizados pra empréstimo. A biblioteca tem livros de Drummond, mas não tem assim nenhuma ação de levar os livros, não. Tem outras ações, levar os Drummonzinhos que falam as poesias de Drummond, é, é tem os espaços culturais da Fundação, né, que é a Casa de Drummond, o Memorial, que tem sempre poesias (entrevista 05)
(134) Drummond seria um grande veículo, sei lá vamos chamar assim, pra divulgação da cidade pra um reconhecimento até econômico do município porque as pessoas, algumas pessoas de fora, percebem isso a própria cidade não vê. (entrevista 02)
Embora no texto (133) a entrevistada não perceba ações que promovam especificamente o acesso à obra de Drummond, principalmente quando enuncia explicitamente a seleção lexical
não tem assim nenhuma ação de levar os livros, a imagem do poeta parece ser o mote de uma possível exploração mercadológica, ainda não efetiva, mas já concebida. A enunciadora do fragmento discursivo (134) vê o poeta como um grande veículo, pressuponho que de propagação da cultura na localidade. O implícito pressuposto da ideia é que a cidade seria mais conhecida e, daí, poderia auferir reconhecimento econômico porque fora de Itabira as pessoas perceberiam algo não percebido pelos nativos. A apropriação de Carlos Drummond de Andrade seria talvez mais radical do que já se presencia na cidade, em que há um
desequilíbrio na oferta de produtos culturais a ele ligados. A rigor, pelo que foi enunciado, diz respeito a quase que gerenciar a marca da cidade que inspirou o poeta, um processo de mercantilização da cultura, que passa necessariamente pelo conteúdo cultural, conforme discutirei em seguida.
5.3.3 Conteúdo da cultura
Conteúdo se refere à essência do produto cultural, a ele em si, ou, nos termos marxistas, ao seu valor de uso. A experiência a que um bem social leva constitui seu conteúdo. Como sustentam Lampel, Lant e Shamsie (2000, p. 268), “[...] seus produtos evocam intensamente experiências particulares, e eles fazem uso de valores e aspirações que não são utilitaristas e nem comerciais”. Nas organizações culturais, não obstante haver um valor de troca para os bens, é seu significado que define o seu consumo e desempenho, mais do que qualquer outro fator a elas associado (LAWRENCE; PHILLIPS, 2002). Na prática, ao consumir o conteúdo de um produto cultural, isso se dá quase instantaneamente a partir do momento em que esse produto é adquirido, não havendo uma relação de sucessão, ou pelo menos não do ponto de vista cronológico. O mais importante, como revela Sahlins (1976) é que é o valor econômico que define a importância e o sucesso de uma indústria cultural.
Sobre esse aspecto da difusão cultural, o discurso (135) toma a legislação municipal como a definidora do conteúdo da cultura local.
(135) [conteúdo da cultura] se você julgar pela, pela Lei Drummond, que eu participo (silêncio) tem se apresentado mais, com mais ênfase os, a produção de CD’s musicais. Só que o valor que tem não dá pra produzir um CD, e a maioria deles fica devendo. E, o que se tem produzido de livro, é... aí tem melhorado... a qualidade do livro, né, a editoria dos livros especificamente... Aí, no que diz a, a... à publicação de livros, melhorou. CD, tenta pra dominar... algum, muita coisa, né. E, e o que se apresenta lá, vou te dizer que metade de baixa qualidade. (entrevista 11)
A legislação municipal de incentivo à cultura, explicitamente enunciada como Lei Drummond tem enfatizado mais a produção de CD’s musicais, e propiciado a melhoria da qualidade da editoria de livros beneficiados. Mas, mesmo assim, o que se apresenta lá... metade de baixa
qualidade. O discurso silencia sobre a particularização da cultura em vigor na cidade. Eu me pergunto se seria realmente esse o conteúdo da cultura de uma cidade como Itabira. Não me