As lesões corporais testemunham os conflitos cotidianos. Elas evidenciam os precedentes de rixas, desavenças e animosidades entre os moradores de Montes Claros e região. Tais conflitos poderiam se agravar assumindo proporções mais graves que resultariam em homicídios. Ao analisar os casos de lesões corporais muitos aspectos da sociedade norte-mineira e os padrões de comportamento dos moradores que estiveram diretamente envolvidos com o poder judiciário. Contudo, não é certo afirmar que casos de lesão corporal tenham resultado em homicídios. As lesões corporais assumem uma importância tangencial no conhecimento dos padrões de comportamento dos sertanejos do norte de Minas Gerais.
Este estudo não pretende fazer um estudo sistemático das lesões corporais. Elas figuraram neste capítulo ilustrativamente. Destacamos que as lesões permitem o acompanhamento de alguns casos de homicídio, mas, especialmente, que elas têm um valor em si para a compreensão da atuação do poder judiciário como mediador dos conflitos sociais. Será muito mais neste sentido que as lesões serão aqui discutidas, pois são delitos que ficaram a meio caminho de um desenlace definitivo e último, como é o caso dos homicídios.
O caso de lesão corporal, seguida de morte, ocorrido no ano de 1850 em Coração de Jesus envolvendo a família de José Antonio de Brito, enquadra-se no tipo puro de violência de aniquilação. As testemunhas informaram que José Antonio Brito chegara a casa no dia do crime e
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REIS, Bruno W. P. História e Ciências Sociais: notas sobre o uso da lógica, teorização e crítica. in História quantitativa e serial no Brasil: um balanço. Goiânia: ANPUH-MG, 2001, pp.457-479. Veja também a discussão sobre a ciência proposta por: FREIRE-MAIA, Newton. A ciência por dentro. 5. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
começara a discutir com sua esposa Angélica Soares da Fonseca. No depoimento de “Antonio Soares
da Fonseca pardo, casado, natural e batizado nesta freguesia do Santíssimo Coração de Jesus de idade que disse ter vinte e dois anos pouco mais ou menos, e morador no lugar denominado Boa Vista deste distrito onde vive de sua Roça”, encontra-se uma descrição da cena do crime. O cunhado do réu:
(...) disse que sabe que estando ele em casa de sua mana Clara Soares da Fonseca viu José Antonio Brito ir para a fonte com sua mulher Angélica Soares dizendo que ia lavar o Corpo, e porque a sogra do dito José, Clara Soares já andava desconfiada do dito genro, por ele lha ter dito havia matar sua mulher, ouviu ela Clara uns gritos e acudiu, vinha o dito seu genro, dando na mulher com um cipó, e vendo o dito réu sua sogra disse-lhe se queria ver a sua filha apanhar, ela disse que queria, ele começou a dar-lhe pescoções, pegando a dita sua sogra, nele réu para que não matasse sua filha ele a desobedeceu, acudiu então ele testemunha e apartou, e voltando ele testemunha para ver uns trens, ele réu tornou a investir nele testemunha, e este fastando para trás caiu, foi quando o réu avançou para sua sogra, e deu-lhe cinco facadas, duas, digo, três facadas um sobre o umbigo, outra nas verilhas, e outra na boca do estomago, e no mesmo continenti correu atrás de sua mulher Angélica, e lhe deu duas facadas, uma nas costa, outra em um quarto, e disse mais ele testemunha (...) que o réu lhe disse por vezes que havia de sair daí donde morava e fazer com a saída barulhos. 204
Este depoimento nos transporta à cena de uma crise familiar. A crise estava em seu momento mais crítico, porém percebe-se pelo depoimento que a crise tinha precedentes. A violência doméstica era freqüente na casa de Angélica Soares da Fonseca, pois a testemunha afirma que “a
sogra do dito José, Clara Soares já andava desconfiada do dito genro” porque ele lhe havia dito
mataria “sua mulher”. A violência contra a mulher era rotineira, ela apanhava de cipó, levava pescoções, e nessas ocasiões sempre havia alguém para apartar a briga do casal. O assassinato da esposa e da sogra era o resultado de uma combinação explosiva: bebida alcoólica e humilhações sofridas pelo marido que vivia como agregado na casa da sogra. É o que o depoimento deixa transparecer quando a testemunha diz “que o réu lhe disse por vezes que havia de sair” da casa onde morava, mas que iria “fazer com a saída barulhos”.
Tudo isso indicava uma situação permanente de tensão no seio da família. Dois fatos concorreram para o crime. Um caracteristicamente circunstancial – a embriaguez –, outro, estrutural: a rotinização da violência doméstica. Outros casos semelhantes foram encontrados. Eles desenham uma sociedade rural com relações de parentesco e vizinhança, relações de proximidade espacial e afetiva/emocional muito intensas. Os processos crimes descortinam uma sociedade rural em todas as suas dimensões. No trabalho eram todos agricultores, lavradores, roceiros, plantadores, portanto homens pobres, mas não despossuidos, possuíam o status social de pequenos proprietários. Talvez, até uma ancestralidade comum, pois a maioria das testemunhas eram pardas. Eram com certeza homens acostumados a um ambiente hostil e violento. O processo traz todos os elementos essenciais para a
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compreensão deste tipo penal. Muitos casos de lesão corporal, seguida de morte, ocorreram na região envolvendo as camadas mais pobres da sociedade, nisso os crimes cometidos naquelas localidades se assemelham aos praticados em muitas localidades e províncias do Brasil.
Demarquemos as diferenças das lesões em zonas urbanas e zonas rurais e em centros produtivos prósperos e não tão prósperos, como as regiões mineradoras. O caso de Clara e Angélica enquadra-se nos crimes que eram praticados como resultado de embriaguez e descontrole emocional. Mas, o que teria causado a embriaguez, o descontrole emocional e a prática do ato violento, talvez nunca saibamos exatamente, mas algumas considerações podem ser tecidas acerca da atuação da justiça na região. O subdelegado Gaudêncio Cardoso de Sousa, após ouvir as testemunhas, pronuncia o acusado incurso nos artigos 192 e 193 do Código Criminal e expede mandado de prisão e remete o processo para o juiz municipal e de órfãos, José Fernandes Pereira Correia, que sustenta a pronuncia e mandado de prisão. Mas apesar disso o réu provavelmente não foi preso, pois o processo traz vistas do promotor Antonio Teixeira de Carvalho Junior datadas de 1853 e 1855, e um libelo crime acusatório sem, contudo, fazer nenhuma menção à prisão e sentenciamento final do caso.205
O assassinato de Emiliana Ramos, em novembro de 1872, revela a violência em família, revelam as duras condições em que viviam mulheres e crianças à mercê de uma sociedade em que a violência era rotinizada. Descortina as relações familiares dos grupos sociais pobres livres, em que todos se conheciam, moravam próximos e dividiam as alegrias e tristezas da vida cotidiana. A situação de Emiliana Ramos e tantas outras mulheres, evidencia o quanto a violência impregnava as relações sociais. As surras, xingamentos e humilhações que sofriam poderiam chegar a casos extremos como a morte de Emiliana. Domingos Soares de Oliveira a matou com uma “mão de pilão”, e após cometer o crime confrontou-se com Antonio Cabral e Antonio Ferreira da Paixão, que juntamente com Manoel Ramos – irmão da vítima – o prenderam depois de muita resistência. A narrativa de Antonio Ferreira da Paixão mostra toda a fúria de Domingos Soares, naquela manhã de novembro:
estando ele testemunha trabalhando em sua roça no lugar denominado Buritizinho aí chegou Manoel Ramos chamando a ele testemunha para ir acudir a irmã dele que seu marido Domingos estava acabando-a (...) e chegando ao lugar denominado Passagem da Serrada onde mora o dito Domingos, encontrou a este no terreiro com uma mão de pilão ensangüentada, nas mãos, e sobre uma cama estava sua mulher estendida morta e com a cabeça toda ensangüentada Ao ver ele testemunha Domingos perguntou-lhe se vinha
acabar com ele, ao que ele testemunha respondeu, perguntando-lhe o que ele queria, e
Domingos lhe respondeu que havia morto sua mulher porque era sua e que neste dia já tinha esfaqueado a mais de um e levado um tiro de outro, e por isso fizessem dele o que quisessem, então ele testemunha avançando sobre ele para o prender, ele ameaçou-o com a
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DPDOR/AFC. Processo-crime. n°. 000.038. 19/10/1850. fl. 10v, 12v., 13. O processo não apresenta uma conclusão definitiva. Pede-se a prisão do réu, mas isso não ocorreu, nestas folhas podem ser encontradas as pronuncias e as vistas do promotor.
mão de pilão, que ele testemunha evitou defendendo-se com o cano da espingarda, e nisto Domingos largando a mão de pilão correu por detrás206
Vê-se pelo depoimento que Antonio Ferreira da Paixão saiu de sua roça, no Buritizinho, armado com uma espingarda. Talvez, porque previsse que haveria resistência do agressor. Talvez, tenha sido influenciado pelo irmão da vitima. Talvez, Domingos fosse realmente uma pessoa violenta, dada a agressões com freqüência. Não importa porque razão Antonio da Paixão foi armado, o importante é que ele estava armado e que, esta situação, revelava o grau de tensão social do mundo sertanejo. As testemunhas não sabiam o real motivo do assassinato, pois a mulher de Domingos era conhecida como trabalhadeira. O juiz perguntou à Antonio Paixão se a vitima era “capaz”, ao que ele respondeu que “era muito capaz e que o próprio Domingos reconhecia isto, tanto que sendo ele muito preguiçoso era sustentado por ela que lhe fazia as vezes de mãe”207. Talvez esta fosse uma situação insuportável para Domingos: ser sustentado pela mulher, e às vezes, isso era acintosamente dito por sua esposa e sua sogra. Humilhações recíprocas que resultaram na morte de Emiliana Ramos, conflitos em família.
José Joaquim dos Santos “natural de Coração de Jesus” morador no distrito de Contendas, lavrador, de aproximadamente quarenta anos, vizinho da vitima disse que “quanto à capacidade da falecida, sendo seu vizinho, sabia que era muito honesta como mulher casada, nunca tendo ouvido dizer nada a seu respeito.” Era uma senhora “honesta”, boa esposa, boa vizinha e trabalhadora, então, porque Domingos Soares de Oliveira a matou. Apesar, de todas as pressuposições já feitas, jamais saberemos. As testemunhas afirmavam com toda certeza que havia sido o marido, pois muitas vieram acudir a vitima, embora não conseguissem evitar o assassinato. Estevão Soares Lima retratava a situação de modo um pouco diferente de Antonio Ferreira da Paixão.
em um dos dias de novembro do ano passado, antes do romper do dia, a filha dele testemunha que morava em casa de Domingos Soares, e que chama-se Maria, veio a sua casa, que é vizinha da do réu, chamar a ele testemunha para acudir Emiliana que seu marido estava matando; ele (...) saiu de carreira e vendo desde sua casa o movimento das pancadas (...); e chegando à dita casa, o réu saía conduzindo uma menina nos ombros; então ele testemunha vendo no chão Emiliana e examinando e apalpando a cabeça dela sentiu umedecer a mão e percebeu que era sangue, e estando a dita mulher em hábitos
menores foi chamar sua mulher para vir socorrer a dita Emiliana de fato veio ela e pondo
esta na cama pouco depois a mesma faleceu. 208
A vida dos moradores das comarcas do sertão era exposta abertamente. Aspectos sobre a moral e os costumes vinham a tona nos depoimentos das testemunhas. Eram todos vizinhos, compartilhavam as alegrias e tristezas da vida diária. O depoimento de Estevão Soares
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DPDOR/AFGC. Processo-crime. n° 000.185. 16/01/1874. fls.: 14v., 15. 207
DPDOR/AFGC. Processo-crime. n° 000.185. op. cit. fls.: 15. 208
Lima, assim como o anterior, entravam nos aspectos morais do comportamento da vítima. Soares a havia encontrado já morta “em hábitos menores”.