Desenvolvemos a nossa investigação sem perder de vista a problemática a que nos propomos tratar: A Intervenção das Forças Armadas na Segurança Interna São-tomense, dando especial ênfase ao quadro legal vigente e a lacuna constitucional, que se materializa na não inclusão da Polícia Nacional e das Forças Armadas, assim como as respetivas missões na Constituição. Esta situação faz com que a Segurança Interna São-tomense seja muito particular e deve ser analisada ao pormenor. Para o efeito, procuramos desde logo, compreender a perceção que se tem sobre o que as leis avulsas preveem sobre a colaboração entre as Forças Armadas e Forças e Serviços de Segurança no âmbito da Segurança Interna durante a normalidade democrática.
Cientes da particularidade da realidade São-tomense quando se fala deste tema, o qual consideramos sensível identificamos os princípios, os domínios e outros aspetos em que esta colaboração deve-se basear de forma a que a mesma tenha uma justificação fundamentada e plausível, uma vez que, a garantia da SI é atribuição originária das FSS.
Na perspetiva de Cravid, as “FA têm a sua missão específica que é a defesa do país contra as ameaças externas” (vide apêndice D). Nestes últimos tempos tem havido no país
situações de “conflitos de competências” na área de SI entre PN e as FA, situação que leva-
nos a crer que a nossa investigação poderá contribuir para pôr fim a eventuais conflitos caso seja este o entendimento dos decisores políticos. Para efeito, a nossa pergunta de partida consubstancia-se em saber se: é legítima a intervenção das Forças Armadas na Segurança Interna São-tomense?
Tendo em vista a resposta à pergunta de partida, recorremos a uma abordagem teórica baseada essencialmente, na revisão bibliográfica ou estado da arte referente a intervenção
57 das FA na SI no Estado de direito democrático em tempo de paz, ou seja, fora do quadro do estado de exceção (estado de sítio e de emergência). Esta análise profunda aliada às entrevistas feitas a profissionais militares e policiais leva-nos a afirmar que si existir um fundamento legal de forma a que não haja violação dos princípios do Estado de direito democrático e esteja em causa uma ameaça em que os meios das FSS sejam insuficientes para a fazer face “a participação das FA na SI pode constituir uma mais-valia para a garantia da segurança, justiça e bem-estar de uma nação [pois] uma união de esforço entre as FA e as FSS, desde que legalmente confinada, pode configurar-se num grande fator de sucesso para
a segurança e defesa de qualquer Estado de direito democrático” (Djata, 2016, p. 55).
Verificamos que os entrevistados foram unânimes no que toca à necessidade de se criar nova legislação sobre a Segurança Interna, a título de exemplo, Paquete50 refere que a lei em vigor necessita de ser revista. Contudo, fica claro que os militares estão consciencializados de que a relação que se deve estabelecer baseia-se na complementaridade e na subsidiariedade e nunca na sobreposição das Forças Armadas face às Forças e Serviços de Segurança no âmbito da Segurança Interna durante tempo de paz.
O ex-Ministro da Administração Interna de Portugal, Rui Pereira, referiu no âmbito
de um congresso que “existe maior necessidade de cooperação entre as Forças de Seguranças
e Forças Armadas, em especial no âmbito da criminalidade transnacional, do terrorismo global e na resposta a grandes catástrofes”51. Neste sentido, Stoy Miller52 aponta que é preciso que se tenha em mente que a Segurança Interna é da competência das Forças e Serviços de Segurança, e que as Forças Armadas só são acionadas em situações em que a Força de Segurança (Polícia Nacional) não consigam pelos seus meios repor a paz e a ordem necessária, sendo que a intervenção basear-se-á na entreajuda e no respeito pelas respetivas competências, ou seja, a título subsidiário. Para efeito, é fundamental que a nível legislativo se criem condições para que a intervenção da FA na SI se faça de forma coordenada, respeitando os princípios do Estado de Direito Democrático.
Estendemos ainda, ser necessário estabelecimento de um “Comando Conjunto” com
vista a uma melhor coordenação e articulação operacional. Pois como refere Kiakiziki, o facto de recair na PN a responsabilidade para garantir a SI não nos leva a ignorar que as FA também concorrem para o bem comum, para a paz social e a tranquilidade púbica53.
50 vide a entrevista ao Coronel Olinto Paquete disponível no apêndice C). 51 Rui Pereira no I Congresso Nacional de Segurança e defesa, Lisboa, 2010. 52 Vide entrevista ao Capitão Stoymiller Pontes disponível no apêndice E.
58 Contudo, atendendo à particularidade da SI são-tomense o papel das FA será essencialmente, de “apoio em termos de materiais e equipamentos logísticos [e meios
humanos para operarem os equipamentos]”54. Pois Cravid elucida-nos que é fundamental
não “misturar-se as águas” reiterando que o que estaria em causa com a intervenção das FA
na SI São-tomense é a manutenção e reposição da ordem e segurança pública associado ao cumprimento das normas policiais estabelecidas. Reforça dizendo que os militares não estão qualificados para atuarem na SI que é uma atividade que colide necessariamente, com os direitos fundamentais dos cidadãos55.
Através da realização de entrevistas semiestruturadas e da análise do seu conteúdo foi possível extrair várias conclusões que julgamos serem pertinentes para a realização do nosso estudo assim como a posição dos entrevistados quanto ao tema em estudo.
Assim, e recorrendo às conclusões apresentadas por Silva (2014), Lino (2014) e Djata (2016), os resultados também apontam para que a intervenção das FA na SI se faça em termos de colaboração estando os militares sob a direção das FSS. Contudo, para que isto se verifique é preciso que haja legislação que preveja esta colaboração. O quadro normativo próprio sobre a intervenção da Forças Armadas na Segurança Interna irá permitir: a legitimação da intervenção militar na Segurança Interna; uma resposta conjunta às ameaças transnacionais; maximização de recursos; maior eficiência e eficácia das respostas adotadas
pelas “forças conjuntas” e por fim, o respeito pelo princípio da legalidade que ao nosso ver
constitui o fundamento de qualquer Estado de direito democrático. Contudo, a intervenção não se deve operar a qualquer custo sob pena de se fundamentar em pressupostos ilegais.
54 Vide entrevista ao Subcomissário Valdir Lisboa disponível no apêndice H. 55 Vide entrevista ao Subcomissário João Cravid disponível no apêndice J.
59