• Sonuç bulunamadı

Como já descrito no item anterior, a sala de aula é o ambiente por excelência onde o trabalho docente se realiza, onde se materializam as dificuldades, as experiências profissionais do docente, a constituição de suas teorias e as expectativas em relação aos alunos. Assim, em nossas observações, pudemos, no cotidiano da sala de aula, identificar as dificuldades vivenciadas pelos professores na realização do seu saber-fazer pedagógico.

Em se tratando das condições de trabalho, muitos problemas relacionados com as suas necessidades pessoais e profissionais foram evidenciados no percurso das análises e relatados abaixo:

As condições de trabalho são muito ruins, o tempo é curto, o fato de trabalhar com duas ou três disciplinas me aflige, tem a falta do material que você muitas vezes não dispõe, os recursos tecnológicos são poucos, a escola não oferece essas coisas, é você que assume essa responsabilidade, mesmo com o tempo pequeno, termina buscando, procurando. Mas a gente acha também que precisaria mais um pouco de apoio pedagógico dos coordenadores, da família, o desinteresse dos alunos pelos próprios estudos. Os alunos estão chegando ao Ensino Médio com uma qualidade de conhecimento que diria indesejável, de leitura, de interpretação e, sobretudo, política. (Professor Petrônio, entrevista n. 3, realizada em 09/03/09).

A escola não tem recursos que ajude no trabalho da disciplina. Se o professor quiser passar um filme, ele tem que ir a uma locadora alugar ou pedir emprestado. O material pedagógico nessa disciplina é muito pouco, quase nem tem esse material certo. A gente procura de um jeito e de outro, esse ano chegou um livro de Introdução à Sociologia, inclusive já peguei o livro, estou lendo, analisando e vai me ajudar bastante, vai enriquecer mais meus conteúdos, mas falta um data-show. Não tem livros para os alunos, é só para o professor, se tivesse para os alunos, o trabalho seria outro. Além de todos esses problemas, ainda existe a própria desvalorização da disciplina pela escola. (Professor Daniel, entrevista n. 6, realizada em 27/03/09). As necessidades são várias, por exemplo, com relação a montar o plano de curso, tudo é mais difícil para você conseguir conteúdos até na internet. Outro problema é que na escola não tem coordenador dentro da área, só a coordenação geral, essa é uma das grandes dificuldades. Eu como já tenho muitos anos de experiência, fica mais fácil pra me virar. Não existem livros didáticos, não me refiro ao livro-texto, mas um livro pra ir ajudando, o que existe na escola são um quadro, um apagador e a boa vontade do professor. O salário do professor é muito baixo em relação à formação e às suas necessidades. Para chegar até a escola, você precisa de tudo. (Professor Marcos, entrevista n. 5, realizada em 14/03/09).

As necessidades pessoais, como eu já expliquei, é com o livro. Eu tenho um grande sonho de ver meus alunos de Sociologia com um livro. A minha maior necessidade é essa, depois outra necessidade é o próprio acolhimento do aluno, isso também é muito relativo, muitos acolhem, outros fazem com que a disciplina seja um faz de conta, não dão valor. Então é assim, as minhas necessidades são justamente essas. (Professor Valter, entrevista n. 4, realizada em 10/03/09).

No que se refere ao material didático, eu acho muito carente. Quando fizemos a outra entrevista, não tinha chegado à escola ainda o livro didático, mas agora chegou, tem um livro, mas é um muito complicado. Trabalhar com Sociologia sem ter material didático é complicado. Dificilmente eu trabalho uma aula sem texto, mas sou eu quem levo para os alunos, a escola não dispõe desses recursos, aí fica difícil porque o professor ganha o que ganha, mal , e todo o material sou eu que levo. (Professora Rosa, entrevista n. 2, realizada em 06/03/09).

Nesses depoimentos, os professores ressaltaram como necessidades pessoais e profissionais as condições desfavoráveis de trabalho, quais sejam: a escassez e a precariedade do material didático e tecnológico, que ajudaria a trabalhar a disciplina de forma mais atrativa; a carência de pesquisas e publicações; a sobrecarga de trabalho; a desvalorização que vêm sofrendo a disciplina e seus profissionais ao longo dos anos; a falta de apoio de uma coordenação pedagógica na área das Ciências Sociais; a ausência de um livro didático de Sociologia para os alunos; e os baixos salários.

Em se tratando dos recursos materiais, Nóvoa (1999, p. 106) considera que “o aumento das responsabilidades dos professores não se fizeram acompanhar de uma melhoria efectiva dos recursos materiais e das condições de trabalho em que se exerce a docência”.

Corroborando a visão de Nóvoa, Esteve (1999) acrescenta que a falta de recursos materiais nas escolas tem aparecido em estudos como um dos fatores que trazem constrangimentos para o professor.

A falta de recursos generalizada aparece, em diferentes trabalhos de investigação, como um dos fatores que fomentam o mal-estar docente. De facto, os professores que encaram a renovação pedagógica do seu trabalho veem-se, frequentemente, limitados pela falta de material didáctico necessário e de recursos para adquiri-lo. Muitos professores denunciam a inexistência dos meios necessários ao desenvolvimento da renovação metodológica que a sociedade e as autoridades educativas exigem. A médio prazo, esta situação provoca a inibição do professor. (ESTEVE, 1999, p. 106).

O cotidiano escolar é um espaço onde se materializa o processo de ensino- aprendizagem. Consequentemente, nas escolas onde pesquisamos, os recursos materiais didáticos e tecnológicos que poderiam auxiliar o professor na inovação das aulas de Sociologia, tornando-as mais atrativas e estimulando a compreensão dos alunos, são visivelmente escassos e se constituem em uma das dificuldades apontadas pelos professores nos seus depoimentos.

Outras dificuldades foram apontadas nos depoimentos, entre elas a falta de apoio pedagógico de coordenadores na área das Ciências Sociais, o baixo nível de conhecimento dos alunos e os baixos salários dos professores. Nesse sentido, Mendonça (2003, p. 355 apud OLIVEIRA, 2007, p. 34) acrescenta:

[...] as Ciências Sociais têm um grande desafio a enfrentar no trabalho de (re)significação das relações sociais no interior da escola e dos seus conteúdos curriculares, buscando recuperar o distanciamento histórico e teórico das últimas décadas, em especial a Sociologia, que pouco se dedicou à educação, trazendo sérios prejuízos à escola e à pesquisa científica.

A ausência de coordenadores na área das Ciências Sociais foi citada por Petrônio e Marcos como uma das dificuldades que o professor de Sociologia tem enfrentado no processo de ensino-aprendizagem no interior da escola. Traços de uma identidade solitária fizeram-se

presentes no que concerne ao seu saber-fazer, explicitados ainda por Daniel e Valter, quando reclamam da desvalorização da disciplina pela escola e da falta de acolhimento do aluno.

A ausência do livro didático de Sociologia para o aluno aparece nos depoimentos como uma das principais reivindicações dos professores, chegando a ser um sonho para os professores Valter e Daniel. O professor Marcos também sente falta do livro didático, não de um livro-texto para o aluno, mas de “um livro para ir ajudando” o professor. A professora Rosa considera complicado trabalhar sem material didático, dentre eles o livro.

A questão do uso do livro didático de Sociologia específico para o Ensino Médio tem gerado muitas discussões entre os especialistas da área. Uns concordam e outros chegam a considerar complicado adotar um livro didático. Segundo Paiva (2002, p. 46), para os profissionais da educação que se baseiam em definições e conceitos, alguns livros parecem ter conteúdos bem compreensíveis, mas não atingem uma probabilidade de conhecimento significativo que absorva a essência dos objetivos. Nesse caso, o ideal é adquirir textos científicos e adaptá-los à linguagem do aluno do nível médio de ensino.

De um modo geral, percebemos que cada professor enfrenta as dificuldades com os meios que possui. O material disponibilizado pelas escolas investigadas se restringe a um quadro de acrílico ou de giz, marcador de quadro branco, apagador e giz. Os professores trabalham com outros recursos materiais como filmes, revistas, textos de jornais e outros meios mostrados anteriormente, mas são eles quem procuram e criam estratégias até mesmo para despertar o interesse dos alunos, tendo em vista a pouca receptividade e interesse pela disciplina.

Por fim, ao olharmos os achados da pesquisa à medida que prosseguíamos com as análises, fomos verificando que as necessidades pessoais e profissionais dos professores são diversas e estão relacionadas com um conjunto de fatores que, na sua maioria, são alheios a eles. Isto é, são exteriores, independem de sua ação. Tais fatores advêm do próprio sistema de ensino, que se agrava com a falta de investimento na educação em âmbito federal, estadual e municipal, bem como de uma dinâmica social que se altera a todo momento, principalmente frente às inovações tecnológicas, que propiciam uma visão pragmática da educação. Apesar disso, com todas as suas necessidades pessoais e profissionais já mencionadas, são capazes de potencializar positivamente as dificuldades e buscar meios alternativos para realizarem seu saber-fazer com criatividade e responsabilidade. Como diz Giesta (2005, p. 124): “Cada educador ‘enfrenta’ sua turma com as armas que possui, adquiridas em sua experiência

profissional, em seus cursos com sua intuição”. Assim, resta ao professor de Sociologia do Ensino Médio mostrar a importância da disciplina e desenvolver nos alunos o prazer pela análise criteriosa dos fatos e a capacidade de compreensão dos problemas sociais.

Benzer Belgeler