Imaginário e pós-modernidade, para a professora Maria Thereza Strongoli, têm afinidades. Os termos se apresentam como novo paradigma, destacando-se pela força dada ao “espírito impulsionador de novos hábitos, crenças e posturas, que surge como uma necessidade premente de substituir o positivismo, o marxismo e o freudismo”. Para ela, estes três modelos de existência já estão saturados na práxis de toda uma época, enquanto o imaginário, nesse sentido, surge como a contraposição mais natural para essa renovação. Assim, de acordo com a professora, “pode-se dizer que o trajeto do imaginário, descrito por Durand como a dinamização dos imperativos bio-psico- pulsionais mais as intimações sociais a que se submete o homem, pode ser visto como a antecipação desse novo paradigma”. Ao iniciar a pós-graduação, Maria Thereza conheceu a obra de Lévi-Strauss e aprendeu que não existe cultura inferior ou superior: são apenas diferentes. “Percebi, pela sua experiência, que o homem se relaciona com o mundo pela sensação e esta, enviada ao cérebro, mobiliza as experiências e o raciocínio para dar a essa sensação um nome e classificação.” É dessa dinâmica, na opinião dela, que o indivíduo se configura ao perceber, ao seu modo, o que pode, deve, sabe ou quer ver, classificando esses dados conforme sua experiência de vida. Ao comentar com o professor Douglas Monteiro, da USP, seu interesse pelo exame do conhecimento e sua formação tanto pelo sensível como pelo inteligível ou racional, tomou conhecimento do livro “As estruturas antropológicas do imaginário”, de Gilbert Durand.
Monteiro lhe disse que acabara de trazê-lo da França e que toda a Paris o discutia. Dessa forma, as idéias durandianas fizeram com que Maria Thereza distinguisse e compreendesse que “o homem percebe o mundo e transforma suas sensações em imagens que registra, classifica, denomina, memoriza e narra. Tais atividades constituem a imaginação, que é a faculdade própria de todos os homens”. O
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Mestre e doutora em Didática pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Análise do Discurso e Imaginário na França (Sorbonne - Paris VIII). Professora-titular da PUCSP, desde 1999, onde coordena o Núcleo de Pesquisa Língua, Imaginário e Narratividade (NUPLIN). Pesquisadora do imaginário.
modo como essas faculdades são atualizadas ou exercidas constitui, na opinião da psquisadora, o imaginário, ou seja, a atividade única e particular do indivíduo. Existem, resume ela, dois fatos distintos: a imaginação como atividade comum, sob o ponto de vista de sua materialidade de obra já feita, acabada, reconhecida, e o imaginário como elaboração, visto como processo dinâmico, em constante mobilização interativa de dados pessoais e sociais na busca racionalizante de cada indivíduo em pôr ordem no seu caos interior em confrontação com o mundo. Maria Threza afirma que tem tentado tratar o imaginário profundamente, mas que não se retringe apenas a esse campo. “Durand tem insistido que sua pesquisa se desenvolve no campo da fenomenologia e que se volta mais para a descrição de dados que para a sua regularização.” Essa abordagem, inspirada em Durand, motivou-a a utilizar a teoria durandiana para descrever e comentar o resultado de trabalhos analíticos desenvolvidos ou resultantes da aplicação de teorias que buscam “destrinchar ou definir sentidos”, como, por exemplo, a semiótica greimasiana: busca “o sentido, nada mais que o sentido”. Para Maria Thereza, seria possível, após a estruturação do sentido, comentá-lo sob a perspectiva do imaginário. Exemplifica com o último livro escrito por Greimas, “A imperfeição”. Maria Thereza aposta que essa obra não tem sido muito estudada pelos semioticistas, porque, diz ela, deixaria um pouco de lado a rigidez analítica de seu percurso gerador de sentido e se deteria mais no resultado desse percurso, apelando bastante para a sensibilidade. “Parece-me, ainda, que fazer análises segundo regras bem estabelecidas é mais fácil do que se arriscar a desvendar trajetos, porque a sensibilidade expõe dados do trajeto do imaginário do próprio analista.” A professora afirma que trabalha tanto com semioticistas quanto teóricos do imaginário. Um dos orientandos em mestrado de Maria Thereza procura a união dos dois trajetos, greimasiano e durandiano, orientado pelo professor Cidmar Pais (amigo de Maria Thereza e seu contemporâneo de bolsa na França). Ele é, de acordo com a pesquisadora, o introdutor da semiótica francesa no Brasil, e seria bastante exigente no trato dessa teoria. Logo, seria possível usar a semiótica para compreender o imaginário de um cineasta a partir de um filme? Ou melhor: como se dá a relação entre a visualidade (terreno da semiótica) com o imaginário cinematográfico? Maria Thereza diz que, se fosse ela, faria a análise semiótica e explicaria os resultados dessa análise pelo imaginário. Ela acrescenta exemplificando com o seguinte trecho (parte de uma comunicação que fez em um congresso de semiótica na cidade francesa de Lyon, 2004):
A pesquisa que objetiva articular a semiótica greimasiana com a antropologia do imaginário tem direcionado minha atividade acadêmica há anos e encontrou razões substantivas para seu desenvolvimento na leitura da transcrição do artigo Le débat du 23 mai 1989, debate ocorrido entre Algirdas J. Greimas e Paul Ricoeur39. Nesse debate Ricoeur comenta que as ciências do espírito são da ordem do compreender e as ciências da natureza, da ordem do explicar, o que aponta a distinção: estado de coisas vs. estado de alma. Entretanto, apesar de a explicação ser o caminho mediador para a compreensão, a atividade que Ricoeur considera predominante é a de compreender, destacando que a semiótica, nesse ponto, coloca-se no caminho inverso do seguido pela hermenêutica, pois privilegia a explicação e considera a compreensão como um efeito de superfície. Destaca, ainda, que, se o compreender é essencialmente da ordem dos signos, o explicar é da ordem dos fatos, embora os signos sejam também fatos, ou seja, externalizações da vida psíquica. Nesse caso, a compreensão deve ser vista como a atividade de “desobjetivizar” (Ibid.: 197) os signos e ter como meta encontrar o processo que os engendra, como ocorre na escritura. Julga Ricoeur que, enfatizando o narrativo ou a ação e se delimitando a operações de conjunção e disjunção, a semiótica somente pode avançar no estudo das paixões se considerar as interações que Aristóteles chamava de peripécia, de mythos ou que hoje se chama intriga. Nessa perspectiva, a semiótica seria um modo de reescrever a compreensão cultural por meio de uma “inteligência das intrigas” ou uma “identidade narrativa” que seria a base do contínuo que acompanha a fenomenologia de um agir e de um sentir, constituindo o que se compreende por cultura. A noção do fazer da categoria actante, humano ou não, por exemplo, conclui Ricoeur, resulta dessa “inteligência narrativa” conservada e secularmente difundida pelas “histórias primordiais”. É essa noção aristotélica de “inteligência”, enfatizada por Ricoeur, que interessa ao estudo da antropologia das imagens, posto que Durand vê o imaginário como a matriz do pensamento racionalizado e suas manifestações como o patrimônio cultural que dinamiza as atividades humanas. Ao responder a Ricoeur, Greimas reconhece (Ibid.: 202) que, realmente, “procurar o ser do sentido é mais da ordem da explicação e que procurar o sentido do ser é da compreensão” e complementa afirmando que passar a “ver o que são os estados e não mais o fazer” constitui atualmente o "nosso esforço para tomar agora como ponto de partida os estados de coisas a fim de chegar a compreender os estados de alma, isto é, as paixões de uma alma". Conclui, contudo, que não é simples sobrepor à rede do racional as modulações da massa tímica, pois há algumas situações incontornáveis, visto que atrás das estruturas as mais elementares - articuláveis - da significação (quadrado semiótico), há um horizonte ôntico sobre o qual nós, semioticistas, não podemos falar, porque com os instrumentos semióticos não se é capaz de dizer alguma coisa. Talvez enquanto poeta, enquanto homem voltado para o sentir, eu poderia dizer coisas, mas não enquanto semioticista (Ibid.: 205). Para alcançar esse horizonte é preciso “prever as precondições anteriores ao quadrado e às operações cognitivas” as quais podem possibilitar, continua Greimas (Ibid.: 204), o reconhecimento de um proto-sujeito e a pista de algum valor que poderá se tornar, em seguida, o “objeto valor” da narrativa. O proto-sujeito relaciona-se à estrutura elementar dos actantes e pode ser considerado em suas quatro posições: sujeito, anti-sujeito, não sujeito e não anti-sujeito, ou destinador e antidestinador.
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