III. BÖLÜM
3.3. Para Arzı ve Hisse Senedi Fiyatları
François Furet (1975) explica que a história de qualquer país obedece a uma mesma lógica: define as origens e conta as fases de crescimento e de aventura nacional por meio de cortes cronológicos142. A Apresentação da poesia brasileira (1965) é organizada de modo a traçar o percurso da autonomia da profissão de poeta, por isso sua
142 FURET, François. Da história-narrativa à história-problema. In: A oficina da
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vinculação com a constituição de uma poesia nacional é descrita em momentos específicos. Os primeiros esboços, sob a forma da trova popular de fundo religioso, caracterizada pela poesia jesuítica, não demonstram essa preocupação. São as produções dos árcades que iniciam o sentimento nativista que redundará na poesia ufanista e indianista, cujo grande representante é o romântico Gonçalves Dias. Dessa forma, no período que compreende os árcades e os primeiros românticos, há um processo crescente de busca de autonomia, cujos poetas procuram exaltar a nação. No período entre a segunda geração romântica e o que antecede o Modernismo, o processo autonômico continua, mas a inquietação é outra, os escritores têm como foco a subjetividade e a linguagem143.
Os começos das histórias literárias são, conforme David Perkins, sempre arbitrárias, “uma linha desenhada sobre o curso de um rio”144.
Bandeira classifica de “gongóricos” aqueles que inauguram as várias correntes: a poesia religiosa, a poesia nativista, a poesia social. Essa subordinação temática faz com que a seleção dos primeiros poetas não se realize pelo seu valor estético, mas histórico. Cada poeta lembrado introduz um tema ou uma característica. Pode acontecer de obras e autores serem mencionados aparentemente por razões distintas. Bandeira, por exemplo, inicia com José de Anchieta, mas o primeiro título lembrado é Prosopopéia, de Bento Teixeira. Essas opções flexibilizam a exigência estética em prol do critério que procura identificar características formadoras de uma tradição ligada à religião e à nacionalidade.
Nesse momento inicial não há, ainda, uma separação entre sistema artístico/ambiente social. A produção dos poetas está vinculada à catequização dos índios e ao jugo português. Heindrun Olinto (2002) explica que, no modelo sistêmico, o “isolamento da literatura com suas normas e controles próprios é resultado de uma especialização funcional
143 Apesar de Manuel Bandeira fazer suas escolhas a partir de critérios
distintos dos historiadores que o antecederam, a influência de Sílvio Romero e José Veríssimo, nesse período, é bem marcada pela seleção dos poetas.
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da comunicação literária que, assim, adquire o privilégio social de poder administrar a beleza no contexto mais abrangente da arte”145. A autora argumenta que, enquanto isso não ocorre, há uma literatura não diferenciada, ou seja, o sistema social é descrito a partir da integração de elementos funcionais religiosos, políticos e literários. Na Apresentação, o discurso marca nitidamente as fronteiras entre esses subsistemas somente com os parnasianos quando o sistema literário está em função da arte. O historiador, localizado no século XX, olha para o passado e seleciona as obras, tendo como referência o sistema artístico de seu tempo, isso não impede de historiar o que em cada época motivou a produção dos poetas.
A poesia no Brasil tem início com os jesuítas. Anchieta é mencionado como “o mais dotado de sensibilidade poética”, entre eles, mas sua produção não recebe nenhum destaque, por ser colocada em dúvida a autoria. A inclusão do religioso deve-se, meramente, porque ele representa os primeiros padres que introduziram a temática religiosa. Das Noções de história das literaturas (1940) para a Apresentação da poesia brasileira (1965), a recepção do religioso sofre mudanças.
No texto de 1940, é apresentada sua biografia, sua importância para o ensino das letras no nosso país e sua bibliografia produziu autos, escreveu cartas e poesia em latim, português, espanhol e tupi. Nesse sentido, o jesuíta está associado tanto ao sistema educacional como ao sistema literário. Bandeira comenta sobre dois poemas: “em latim é o poema em louvor da ‘Virgem Maria’, composto quando o padre se encontrava em Iperoig como refém nas mãos dos selvagens, e outro em louvor de Mem de Sá”146. Novamente aqui, o historiador mostra a
religião e a literatura, mas destaca, também, o sistema político tanto no enfrentamento como na poesia laudatória. Anchieta usa a poesia para “civilizar” e para legitimar.
No texto de 1965, não são tratadas nem sua vida e nem sua obra.
145 OLINTO, Heidrun. Teorias sistêmicas e estudo de literatura. p. 46. 146 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 271.
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O historiador justifica que “a tardia coleta de nossas ‘primeiras letras’147 fez atribuir quase tudo a José de Anchieta” 148 . Não obstante a desvalorização do poeta, a fonte citada para pesquisar o religioso é a mesma das Noções: a História da Companhia de Jesus no Brasil escrita pelo padre Serafim Leite. Para a Apresentação, Bandeira retira dela seguinte questão: “será possível deslindar, com absoluta certeza, se o conteúdo dos cadernos é exclusivamente seu?” (p. 19). No texto de 1940, o historiador utiliza a mesma fonte para destacar o pioneirismo do jesuíta que escreveu a primeira peça teatral do Brasil, mas não menciona uma palavra que ponha em dúvida a autoria de Anchieta. Bandeira inclusive cita as trovas de “Santa Inês na vinda de sua imagem” ao qual vincula a opinião de Serafim Leite que as considera “a união do pensamento teológico da graça com uma sugestão eucarística do mais puro lirismo”149. No texto de 1965, novamente apresenta as trovas e menciona as suspeitas de Serafim Leite: “figura esse poema nos cadernos de Anchieta, mas o sabor bem português dos versos e a reminiscência do Alentejo na sexta estrofe suscitam ao sábio historiador jesuíta a suspeita de que o verdadeiro autor seja o alentejano Manuel Couto” (p. 20).
A mudança de perspectiva em relação ao jesuíta pode estar relacionada à diferença de foco das duas narrativas. Perkins explica que “é convencional em histórias da literatura descrever-se, num resumo, o estado dos acontecimentos um pouco antes do começo da história a ser contada”150. Na Apresentação, Bandeira afirma: “a poesia no Brasil começa com as produções dos catequistas da Companhia de Jesus, autos e poemas avulsos, todos de intenção edificante” (p. 19). Em Noções, inicia a literatura brasileira tratando da língua portuguesa e dos
147 O grifo é de Bandeira e pode referir-se ao apagamento de um rastro. O
historiador estaria fazendo uma crítica à coleção Primeiras Letras, mencionada nas
Noções de história da literatura, na seguinte passagem: “Na coleção Primeiras Letras
(edição da Academia Brasileira de Letras) vem uma poesia “Ao Santíssimo Sacramento” que dá bem idéia do lirismo de Anchieta.” (p. 271).
148 BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro:
Edições de Ouro: 1965. p. 19. Todas as outras citações serão desta edição.
149 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 272. 150 PERKINS, David. História da literatura e narração. p. 10.
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aspectos físicos, étnicos que formarão o brasileiro, cujos escritores contribuíram com o aprimoramento e autonomia da língua e da cultura. O historiador dá exemplos dos elementos de diferenciação entre o português de Portugal e do Brasil; comenta a contribuição indígena, principalmente pelo tupi, e das contribuições africanas, com as línguas nagô ou ioruba e o quimbundo; apresenta algumas diferenças fonéticas e lexicais e explica a conservação, no Brasil, de formas que se arcaizaram em Portugal.
A intenção inicial em Noções é demonstrar a constituição de uma identidade linguística, objeto com o qual a literatura brasileira se constituirá. Nesse caso, a obra de Anchieta tem um papel importante porque serviu para ensinar aos índios a língua da metrópole, ao mesmo tempo em que incorporou o tupi. Na Apresentação, o intuito de Bandeira é outro, ele quer historiar o que em cada época serviu para a constituição de nossa poética. A poesia jesuítica tinha a função de edificar.
Para Perkins, os historiadores literários não costumam determinar os começos de suas histórias em relação aos meios e aos fins, mas o início escolhido tem um extraordinário impacto sobre o modo como se apresenta o passado literário151. Ao tratar apenas de um gênero e não da literatura, Bandeira modifica seu foco e, consequentemente, os inícios. A função da poesia dentro do sistema social não se modifica, somente a importância de cada poeta. Na Apresentação, Anchieta está relacionado apenas à poesia religiosa; a poesia laudatória, por sua vez, estará ligada ao poema de Bento Teixeira.
A Prosopopéia não possui nenhum valor literário para Bandeira “quer pelo conteúdo, mera sucessão de lisonjas bombásticas ao ‘sublime Jorge’, quer pela forma, canhestro decalque das dicções camonianas” (p. 20). O narrador comenta o poema pelo seu valor histórico e ressalta a relação entre o sistema literário, influenciado por Camões, e seu vínculo com a política, pois tem como herói o governador-geral de Pernambuco, Jorge Albuquerque Coelho. A justificativa do historiador
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para a escolha é que “todo o interesse do poema residia na circunstância de ser tido o autor como o primeiro poeta nascido no Brasil” (p. 20). O pretérito imperfeito do verbo “residir” deixa implícita uma mudança do horizonte de expectativa de Bandeira e assinala como as pesquisas podem alterar a recepção do passado.
O texto sobre Bento Teixeira, de 1965, é basicamente o mesmo do de Noções. Entretanto, neste, Bandeira usa o verbo “residir” no presente, demonstrando que na década de 1940, ainda não havia essa dúvida, pois afirma: “Todo o interesse do poema reside na circunstância de ser tido seu autor o primeiro poeta filho do Brasil”152. Lembra que Rodolfo Garcia assinalou no livro Primeira visitação do Santo Ofício às partes do Brasil um cristão novo, homônimo do poeta, que declarou ser natural do Porto, o que não o impede de afirmar ser o poeta “filho do Brasil”. O historiador explica que, para Rodolfo Garcia, alguém com o mesmo nome e instruído não seria possível, opinião com a qual é reticente, pois argumenta: “A presunção dá que pensar, mas a questão está a pedir alguma prova mais concreta”153.
Na Apresentação, a naturalidade brasileira do escritor é posta em dúvida. Bandeira parece estar convencido, pois retira o trecho em que pedia provas mais concretas. Porém, nessa passagem, fica caracterizada a influência religiosa no sistema pedagógico, ainda incipiente, pois havia a imposição do pensamento cristão no ensino da época. Os filhos e os netos de judeus tinham de converter-se ao cristianismo para poder lecionar.
O nome de Anchieta e Bento Teixeira estão relacionados à memória coletiva e ao cânone de historiadores que o antecederam, como José Veríssimo e Silvio Romero. Esses dois primeiros poetas são significativos porque marcam o presente da leitura de Bandeira. O historiador parece sugerir que os próximos leitores/autores reflitam melhor antes de inseri-los em seus textos, quando escreverem sobre a poesia brasileira. Padre Anchieta, natural de Tenerife, foi incluído por sua “sensibilidade
152 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 273. 153 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 273.
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poética”, mas a dúvida em relação a ser ele o autor dos poemas o desqualifica; Bento Teixeira, por sua vez, ganha destaque pela “naturalidade brasileira”, embora se possa constatar que não é brasileiro154.
Schmidt (1996) explica que histórias literárias constroem modelos da origem e da mudança de processos literários nos sistemas literários em sociedades em um momento particular pela especificação de condições de ação de sistemas de valores, cuja validade é requerida para a ação dos agentes em papéis desenvolvidos pelo respectivo sistema literário155. Bandeira, em 1965, possui mais informações sobre José de Anchieta e Bento Teixeira do que em 1940, mas seleciona-os tanto pelas novas descobertas como pela função que cumprem em sua narrativa: a autoria e a sensibilidade são aspectos fundamentais para a caracterização do poeta, enquanto entidade. Isso não impede a leitura do papel da literatura na sociedade da época. A produção vinculada a valores cristãos, resultado de um sistema educacional, e a questões políticas, dependência da metrópole, consequentemente, cumpre a função de educar e legitimar.
O primeiro poeta brasileiro, Gregório de Matos, é quem rompe com essas funções, pois a sua ação crítica em relação à Colônia é que recebe destaque; contudo, Bandeira considera-o sem sensibilidade poética. Embora tenha escrito poesia religiosa, ganha destaque sua produção satírica, a qual trata da sociedade da época. Ao ser acusado de plagiar Gôngora e Quevedo, o historiador demonstra uma mudança de referência artística, pois os espanhóis tornam-se modelo para a metrópole e para a colônia, mas o narrador esclarece sua preferência pelo modelo anterior quando elogia a poesia do baiano por ter uma vez ou outra escapado a esses vícios de expressão.
Bandeira afirma ter sido Gregório de Matos “a primeira personalidade forte brasileira” (p. 21). Segundo o historiador, “na lírica e na poesia religiosa não foi melhor nem pior que os gongoristas do tempo em Portugal. (...), mas sua importância advém da parte satírica de sua obra”
154 Na Apresentação de 2009, há uma nota com a informação de que o poeta nasceu
no Porto, em 1561, e faleceu em Lisboa, em 1600.
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(p. 23). Justifica tal avaliação pelo fato de que essa parte de sua produção “reflete a sociedade da colônia, com seu mestiçamento, parasitismo português, os desmandos sexuais e outros males” (p. 23). Essa leitura aponta para uma primeira separação entre política, religião e literatura. As poesias de Gregório de Matos satirizam a todos, por isso o governo, a igreja e a sociedade veem-no como inimigo. Por outro lado, aproxima da perspectiva naturalista de Silvio Romero desenvolvida em sua História da literatura brasileira de 1888. Todavia, ao destacar no ensaio as produções satíricas e burlescas, ignorando as obras de tom mais sério, Bandeira molda o escritor ao seu interesse: o primeiro “poeta brasileiro” a refletir a sociedade colonial da época.
Na História da literatura brasileira, de Sílvio Romero, Gregório de Matos é considerado o fundador da literatura nacional, por ter sido o primeiro a abordar, na sua obra satírica, o mestiço, o brasileiro genuíno. A miscigenação é marca de uma leitura naturalista que procurava, no passado, justificar a identidade coletiva. José Veríssimo, por sua vez, mesmo dedicando um capítulo inteiro ao baiano, faz isso no intuito de demonstrar a avaliação equivocada de Romero. Veríssimo não possui uma justificativa sólida para incluir Gregório de Matos em sua história literária, na medida em que para ele “o poeta não se distingue dos demais, nem em qualidade estética nem nos motivos das produções, também não demonstra o sentimento nativista — pelo contrário, ridiculariza a terra e a sociedade a que pertence”, e afirma ser ele “um poeta descuidado, desmazelado, como foi o tipo do homem desleixado”156.
Bandeira parece concordar com José Veríssimo, pois se utiliza dos mesmos juízos sobre o baiano: “sua obra não o distinguia dos gongóricos portugueses” (p. 21), e “sua vida não lhe dava autoridade para verberar os vícios da colônia” (p. 22). Entretanto, esses argumentos não desqualificam o poeta na Apresentação porque o interesse não é julgar se o baiano contribuiu ou não para o
156 VERRÍSSIMO, José. História da literatura brasileira: de Bento Teixeira a
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nacionalismo, e sim apresentar o primeiro poeta nascido no Brasil cuja poesia serviu como forma de protesto.
Perkins (1999) explica que é possível escrever diferentes histórias literárias a partir dos mesmos eventos porque “a narrativa não é a que impusemos ao passado, mas a que extraímos dele” 157. Bandeira demarca a relação e a ruptura entre metrópole e colônia deixando implícito tratar do início da poesia no Brasil, mas não de uma poesia brasileira. Essa separação é explicitada em Noções (1940), pois o capítulo sobre a literatura feita no Brasil começa com a seguinte afirmação: “a história da poesia brasileira pode ser dividida em duas grandes épocas, a colonial e a nacional, tendo como marco de separação o fato de nossa independência política”158.
O critério político é o mesmo utilizado por Veríssimo para historiar nossa literatura, mas o caráter nacional não é um aspecto relevante para o início da Apresentação como era para os naturalistas. O fato de Romero e Veríssimo terem opiniões diferentes em relação a Gregório de Matos não significa que ambos não tenham o mesmo objetivo, ou seja, delimitar uma identidade nacional. Ocorre que partem de distintos princípios: o primeiro avalia com um olhar sociológico, enquanto o segundo, através de critérios estéticos. Bandeira sintetiza as ideias de Romero e Veríssimo, mas, diferentemente desses historiadores, procura conceber um caráter aos poetas na medida em que o tempo e o espaço não os determinam. A ação individual de Gregório tornar-se-ia coletiva com os árcades. Nessa medida, Bandeira atribui a sua história um sentido substancialista e não determinista.
Distante temporalmente do século XIX, o historiador não tem mais a nação como sujeito da história159. Entretanto, o autor da Apresentação estabelece sentido à poesia do baiano tendo como critério a autonomia. No texto de 1940, depois de separar a literatura em época colonial e
157 PERKINS, David. História da literatura e narração. p .8. 158 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 264.
159 Ver ACHUGAR, Hugo. A escrita da história ou a propósito das fundações da
nação. In: MOREIRA, Maria Eunice (org). Histórias da literatura: teorias temas e autores. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003. p. 35-60.
100 nacional, o historiador explica:
não que a autonomia literária resultasse da independência política. Na realidade uma e outra foram consequências de uma diferenciação que se veio processando através dos séculos no homem europeu transplantado ao ambiente físico e social da América e aqui cruzado com o elemento indígena e com o africano 160
Na Apresentação, a simplificação dada a Manuel Botelho de Oliveira demonstra que a preocupação é pelos poetas que se destacam por sua produção, e não pelo critério político. Após Gregório de Matos, Bandeira comenta “ao lado dele mal se pode lembrar o nome de Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), autor de um medíocre poema descritivo intitulado ‘A ilha da Maré’, cujo único mérito está em inaugurar o louvor do país em nossa poesia” (p. 23). Aqui a influência é novamente de José Veríssimo, que, em sua História da literatura brasileira: de Bento Teixeira a Machado de Assis (1981), atribui a Botelho o mérito de precursor do nativismo na poesia nacional e, por consequência, da identidade de nossa poesia:
Este poem a, que pode ainda hoje ser lido com aprazim ento graças ao seu pitoresco, à sua cor local e sim plicidade, inicia na poesia brasileira o seu tocante sestro de cantar a terra natal. (...) Esta em oção, que não é m ais a sim ples im pressão da terra do versejador da Prosopopéia, Botelho de Oliveira foi o prim eiro a exprim i-la. (...) Botelho de Oliveira é, com o a sua “Ilha de Maré”, o m ais frisante exem plo, em nossa prim itiva literatura, ao conceito de gênese do sentim ento brasileiro após os sucessos da prim eira parte do século X VII161.
Na Apresentação, Botelho de Oliveira é reconhecido como o primeiro a cantar a terra com louvor, embora não receba nem o espaço e tampouco os elogios pelas qualidades da “Ilha de Maré”, como fizera Veríssimo. Ocorre que esse, ao tratar do espírito de apego às coisas da terra, característico do poema, vê a cor local como resultante do sentimento nativista, elemento caracterizador dos árcades. Nesse ponto, Bandeira está de acordo com Veríssimo, pois Botelho de Oliveira é o autor que historicamente representa um marco para aquilo que seria o
160 BANDEIRA, Manuel. Noções de histórias da literatura. p. 264. 161 VERÍSSIMO. História da literatura brasileira. p. 74.
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primeiro sentimento coletivo, o nativismo, mas pela falta de qualidades estéticas afirma que seu nome está quase esquecido.
A mestiçagem e a separação política são elementos sobre os quais Bandeira dialoga com os historiadores naturalistas, mas seu critério é o temático e a evolução é produzida pelo Homem/Poeta. Gregório de Matos seria o primeiro a refletir a sociedade da colônia, ou seja, o baiano inicia a poesia social. É esse tipo de escolha que está em funcionamento durante o período anterior ao Arcadismo. Esses primeiros nomes não estão relacionados a grupos nem a estilos. Gregório de Matos é, na verdade, o único gongorizante, inclusive isso é motivo para desqualificá-lo. Quanto a Anchieta, não lhe é garantida a autoria dos textos; Teixeira é apresentado por seu poema de dicção camoniana; e