2. BÖLÜM
3.2 KONYA ARKEOLOJİ MÜZESİ, BURDUR ARKEOLOJİ MÜZESİ VE
3.2.1 TANRI VE TANRIÇA BETİMLEMELERİ
3.2.1.4 Artemis:
Por detrás dos véus da exclusão, pode-se recolher o dado singular de cada história, o modo como a droga se insere na economia psíquica dos sujeitos e alivia o sofrimento para o qual é
remédio e não causa – o abandono, a exclusão, a violência e suas marcas.
Em um dos casos, nota-se, de modo muito claro, o sentido dado pelos gregos ao phármakon (remédio/veneno) e revela-se que a droga que a apazigua e trata sua devastação não é aquela que se supõe e que, de fato, circula naquele território, o crack, mas uma das produzidas pela ciência e da qual ela faz uso não medicamentoso. A droga de eleição é o Diazepam, e para consegui-lo, ela se desdobra: prostitui-se, troca crack por Diazepam, trabalha como olheira.O Diazepam é um benzodiazepínico, com efeito ansiolítico,e foi criado em 1954.
A devastação, à qual responde o Diazepam, gira em torno de um mesmo ponto: o divórcio com a mãe. Chega à cidade após o fim do casamento e diz que, ao se separar do marido, “terminei com minha mãe também, foi um rompimento com minha mãe”.
A aproximação é tensa e a presença precisa ser regrada, nem ausência, nem excesso. E, acima de tudo, atenta para intervir com precisão e leveza nas situações de urgência, mantendo o laço e permitindo a dilatação do tempo do encontro e a continuidade do cuidado.
O encontro com a mãe e um dos irmãos – construído por ela em parceria com a rede:
CERSAM,28 Consultório de Rua e Centro de Saúde– teve a duração do instante de acontecer e
não os engatou a ponto de ir além deste, construindo um devir que os envolva. Rememoraram – assim como ela – o passado e não foram além do instante de ver. E seguem separados: ela aqui, eles noutro estado.
O Consultório de Rua foi batizado por essa usuária de remédio ambulante. O que nos parece uma boa definição para o dispositivo, pois põe em destaque a transferência e seu efeito calmante, evidenciando que nem todo remédio é química, ao mesmo tempo em que apreende o sentido que o constitui, qual seja: dispositivo em condições de alcançar sujeitos, como ela, tão errantes e desamparados. Enlaçando-se para em seguida se desenlaçar, essa usuária mantém com a rede um laço afetivo, que ora é amoroso, ora hostil. E segue, ainda que de modo precário, acompanhada.
Enlace e desenlace são destacados por Fabián Naparstek (2012) como traços característicos das psicoses ordinárias. E Miller (2012) as associa ao que Lacan (1998, p. 565) definiu em “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose” como “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”,problematizando o que seria essa desordem a partir de uma externalidade tripla: social, corporal e subjetiva.
Na externalidade social, o sujeito se desengancha do Outro; na corporal, ele busca modos de
atar-se ao corpo; e na subjetiva, ocorre uma fixidez na identificação que se torna real. “O
sujeito pode se transformar num rebotalho, negligenciando a si mesmo ao ponto mais extremo. Digo que é uma identificação real, pois o sujeito vai na direção de realizar o dejeto
sobre sua pessoa.” (MILLER, 2012, p. 415).
28 CERSAM – Centro de Referência em Saúde Mental – é a sigla mineira (Lei Estadual nº 11.802/95) equivalente ao serviço nacionalmente nomeado como CAPS – Centro de Atenção Psicossocial.
O desamparo, condição que Freud (1930) esclarece como causa do mal-estar, provém do
corpo, da natureza e do outro – nosso semelhante – mas também do Outro da linguagem. A
ciência, a sublimação e a intoxicação se constituem como medidas paliativas de tratamento do mal-estar, sendo a intoxicação a mais grosseira e a mais eficaz. E Freud nos alerta de que não
há uma “regra de ouro” igual para todos. Cada um deve encontrar/inventar o meio de se
salvar.
A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. [...] existem talvez três medidas deste tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. [...] a atividade científica constitui também um derivativo dessa espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental. As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e alteram sua química (FREUD, 1930, p. 83).
O Outro – tanto o da linguagem quanto o semelhante–,como fonte de ameaças ao sujeito, foi
traduzido por um adolescente, com a seguinte frase: “Eu sou menino pequeno, tenho medo
dos meninos grandes”. Totalmente solitário e encontrado junto a excrementos num canto escuro da cracolândia, ele expressava sua percepção sobre seu corpo:sua idade óssea não correspondia à sua idade cronológica, aos dezesseis anos tinha o corpo de um garoto de onze e traduzia a dinâmica de guerra presente naquele território. Na guerra, cabe lembrar, retorna-se,
em certa medida, ao estado da natureza e os mais fortes são “autorizados” a eliminar os mais
fracos.
Sua história – dos fragmentos que a rede pôde recolher – repete dados presentes em outras:
ruptura do laço familiar, abandono à própria sorte e o peso de uma nomeação, perigoso e suas consequências. Expulso de sua casa foi mandado à cidade grande à procura da mãe,de quem recebeu a periculosidade como herança. Os dois se desencontram, mais uma vez, e ele foi
para a cracolândia onde não se incluiu completamente – temia os meninos grandes. Desse
espaço pouco se afasta, apesar de ser o local em que sua vida sofre ameaças. Escapa a uma e sucumbe, após um ano, a outra e de forma absolutamente cruel.
O consumo de drogas não se destacou nesse caso e seu laço com a cena de uso pareceu ter sido dado pelo encontro com alguma possibilidade de inserção. Esse caso evidencia que, para alguns e, especialmente, entre adolescentes, a droga não é só objeto de uso ou veículo que conduz ao prazer, mas um modo de trabalho e possibilidade de inserção no mundo.
Em contextos de guerra – e as cenas de uso são palco de uma guerra –, mulheres, crianças e idosos devem ser priorizados, sempre. O caso ensina e confirma, na dor da perda, o valor dessa máxima, convidando a saúde a ser inventada, e acima de tudo, a cidade a inventar abrigos que acolham a singularidade desses casos, mantendo abertas todas as suas portas para acolher e proteger os sujeitos vindos de territórios deflagrados. Oferecer hospitalidade ao
estrangeiro – o inimicus – e dissidente da moral, permitindo-o alojar-se, ajeitar-se com a
oferta do Outro para acomodar algo de sua inquietação, do seu medo e do seu mal, reduz o dano da guerra. Ou seja, salva e protege vidas.
Com as mulheres, melhor dizendo, com as adolescentes, o que aparece e chama a atenção são as sucessivas gestações seguidas de repetidas perda dos filhos ao nascerem. Uma clara e violenta estratégia biopolítica tem sido realizada em várias cidades brasileiras. Belo Horizonte não só não foge à regra, como a formaliza.
Duas recomendações do Ministério Público da Infância e Adolescência orientam profissionais das maternidades públicas e/ou conveniadas ao Sistema Único de Saúde a informarem quais gestantes em tratamento na unidade são usuárias de drogas abrindo-se, assim, o processo de destituição do poder familiar, em nome da proteção da criança.
A travessia da mulher à mãe – que Freud considerava como um dos modos de solução do
enigma feminino – longe está de ser natural e molda-se ao tempo histórico. Na
contemporaneidade, não há como pensar esse acontecimento sem levar em conta todas as transformações pelas quais passou e passa a sociedade e os efeitos que estas imprimem a essa experiência. Ser mãe, no século XXI, já não é consequência, apenas, do ato sexual. Os
contraceptivos operam como analisadores do desejo de ter um filho. E “as procriações
assistidas, elevadas à segunda potência, separaram a possibilidade da obtenção da criança do desejo sexual. É possível obter a criança de modo mecânico, técnico, qualquer que seja o desejo em jogo”. (LAURENT, 2004, p. 36).
Contudo, quando procriação e ato sexual já não se misturam – foram disjuntos pela
intervenção da ciência –,o que se recolhe das cenas de uso não é o uso do corpo e a decisão de
ser mãe ou não feita pelas mulheres, mas pelo Estado. Uma face da biopolítica que não esconde o traço eugenista e a tentativa de produzir uma sociedade saudável.
A intervenção de separação – autoritária e violenta – não permite a elaboração e mantém na
simbolizar esse acontecimento em termos além do luto, mantendo-se na alienação que conduz à repetição de gestações perdas.
Se a separação entre o bebê e sua mãe é uma operação necessária à constituição do sujeito, resta claro, contudo, que não é a essa forma de separação a que aqui nos referimos. Nessa operação de separação, perde-se a genealogia, a origem e a história. E a inserção do bebê em uma instituição, visando a proteção da sua vida, não assegura o encontro com um Outro capaz de inseri-lo em uma família e em uma genealogia. E mais grave: nem sempre a promessa da proteção mostra-se real, e a morte de algumas dessas crianças sob cuidados do poder público confirma o engano. É preciso ainda destacar que muitas dessas mulheres foram meninas abrigadas, retiradas de suas mães e famílias.
A cidade, com esse gesto, dá testemunho de sua biopolítica que conduz, entre outras consequências, à repetição e, nesses casos, à transmissão do abandono como herança simbólica. E o fato que motivou e legitimou para os detentores do poder a separação, o consumo de drogas, em parte dos casos, foi retomado e de modo intenso, após essa intervenção, promovendo uma fixação dos sujeitos ao lugar e à cena.