“A intoxicação pelo uso de drogas vem como uma maneira eficaz de lidar com o mal-estar
nas vicissitudes da vida.”
(Freud)
Em meio a uma intensa e acirrada discussão sobre o crack, uma localização geográfica vem nomear e circunscrever o mal que aflige a sociedade, tornando possível à insegurança difusa ancorar-se em um ponto determinado e, desse modo, trazer de volta a paz ao manter à
distância – imaginária, sem dúvida – os portadores da nova peste. A descoberta dessa ilha
desconhecida, ao contrário da metáfora de Saramago, não conduz ao amor e a melhores dias, mas ao inferno a céu aberto. Ali se encontram os zumbis que tanto pavor evocam nos políticos, nas famílias, nas igrejas; e eles são, todos, craqueiros. Ali é a terra do crack, a cracolândia.
Esse signo tomou as páginas dos noticiários e proliferou pelo país. Ou melhor, produziu, ao
congelar e reificar a imagem de uma cena de uso – a cracolândia paulista –, uma associação
entre consumo de crack e cracolândia, que não se revelou real como constatou a pesquisa da FIOCRUZ. Como observa Taniele Rui a esse respeito, o termo cracolândia revela um
simulacro mais que perfeito que mimetiza corpo e espaço. [...] Estranhamente, então, crack e “cracolândia” parecem cada vez mais se tornar sinônimos: onde há usuários de crack, brotam “cracolândias – o que parece denotar a construção de um espaço-sede imaginário, edificado a partir daquilo que se fala sobre ela; trata-se, pois, de um lugar social e também de um lugar discursivo (RUI, 2014, p. 224/229).
Em Belo Horizonte a descoberta da terra do crack colocou em evidência um território esquecido da cidade, a Pedreira Prado Lopes. As manchetes do jornal Estado de Minas, citadas no capítulo I e II, são elucidativas a esse respeito e a inscrevem, no imaginário social,
como fonte de grandes perigos e cenário de repetidas intervenções da polícia e das igrejas, sempre exibidas pela mídia.
Em sua origem, a Vila [atualmente Pedreira Prado Lopes] está ligada à família Prado Lopes. No início das obras de Belo Horizonte, o então engenheiro Antônio Prado Lopes Pereira, de 1ª classe da comissão construtora da capital, 3ª divisão, já explorava o local para dali retirar pedras e usá-las na edificação de casas da cidade. A transformação em favela veio aos poucos, com a urbanização. Aqueles que não tinham um lugar no traçado urbanístico da cidade planejada fizeram do silêncio nascer a resistência e a morada. A palavra “pedreira” refere-se à extração de pedras, mas formula uma outra ideia: a capacidade de se fazer em cima das pedras o lar, de fazer o duro ganhar flexibilidade e o bruto ser lapidado por vida (RIBEIRO,2001,p. 60).
A evocação dos signos da marginalidade cumpre um propósito, quase óbvio. Em nome da cracolândia a sociedade se autoriza a agir como um exército em dias de batalha. Lá, na cracolândia, a exceção é permitida, o Estado de Direito é suspenso e a violência é justificada.
[...] Nesse ponto equidistante, porém cravado no corpo da cidade, a sociedade busca conjurar e expiar todo o mal, toda ameaça, demarcando a fronteira do inimigo a ser combatido. A população desse território, seus moradores e os usuários de crack vivem na mesma condição: à margem de quase todos os direitos sociais(SILVA, 2011/2012, p.207).
No caso paulistano – como apontado por Taniele Rui (2014) –, a cracolândia funciona ainda
como álibi para políticas de gentrificação, com ações que buscam solucionar problemas sociais com políticas de reforma urbana, através da
criação de residências para classes médias e altas em áreas urbanas centrais em um processo articulado à expulsão de setores das classes populares, com o intuito de produzir mudanças na composição social de um determinado lugar, gerando segregação socioespacial e controle da diversidade (RUI, 2014, p. 227).
As cracolândias e sua estética – lugares sombrios, mal-iluminados, onde homens e mulheres
ora circulam de um ponto a outro, intensamente, ora permanecem inertes, expondo ao olhar da
cidade um gozo solitário e breve alcançado pelo consumo de pequenas pedras de cocaína–
introduzem no espetáculo da sociedade contemporânea a cena inesperada, não prevista e fora do tom. Aquela protagonizada pelos sujeitos residuais produzidos pelo neoliberalismo.
A estetização da existência – marca da subjetividade pós-moderna – não deixa de fora os
excluídos da ordem econômica e social – os consumidores falhos – e assume os contornos e
as cores da exclusão e da miséria. A subjetividade pós-moderna, indica Joel Birman (2014), é marcada pela ruptura com as ideias de tempo e história, e está voltada para o exterior e a teatralidade.
[...] a memória tende ao silêncio pela ênfase atribuída ao presente. Da mesma forma, o horizonte de futuro se estreita, pois, ao se sublinhar a imediatez da presença, o sujeito perde
a dimensão do devir. Pode-se depreender que o fim das utopias, que construíram e fundaram o imaginário da modernidade, teve como efeito uma nova concepção do sujeito centrado na presença e na pontualidade do tempo, no aqui e agora, em que as instâncias do passado se silenciaram relativamente [...] a existência do sujeito se constitui pelo eixo de sua estetização. É a estetização da existência que toma volume como estilo existencial do sujeito. São os enfeites maneiros e clownescos, utilizados pelo sujeito em sua performatividade, que definem seu brilho na cena do social. Com isso, abalam-se bastante as fronteiras entre os espaços público e privado, que pelo menos desde o século XIX eram opostos como domínios separados da existência. Isso porque a estetização da existência, como valor primordial da subjetividade, fornece a trilha entre ambos os registros do social (BIRMAN, 2014, p. 263).
Nas cenas de consumo de drogas, a estetização da existência denuncia o alcance do imperativo da sociedade de consumo, o empuxo ao ato de consumir, e revela, pelo avesso, suas consequências. Os protagonistas dessas cenas incluem-se entre os que levaram a sério esse chamado e, em razão de sua inabilidade e do limite de fichas para pôr no jogo, foram
excluídos deste. O consumo, diz Maria Rita Kehl (2009, p. 104), “é a forma avançada do
poder disciplinar que normaliza a vida social”.
Nessa estetização o que se destaca não são as formas exitosas do consumir, mas seu oposto, o que faz do cenário uma montagem feita de resíduos, entre os quais circulam sujeitos reduzidos a essa condição social. Mal-iluminados, sujos, degradados, os cenários se impõem ao olhar do espectador que perde ou facilmente ignora as singularidades, nomeando a todos como iguais: craqueiros, zumbis e deixando escapar, sob o véu das aparências, o traço único das existências que habitam tais territórios e as múltiplas formas de habitação e ocupação da cidade que ali
convivem. Ou, como aponta Taniele Rui (2014), diferentes modos de “fazer cidade em
condições precárias”. (RUI, 2014, p. 250). Longe de ser um todo homogêneo
[...] A cracolândia não é uma ilha cercada de “centro” por todos os lados. Ao contrário, da mesma forma que nele diversos usos do espaço são possíveis. Ela é tanto um ponto de confluência dos fluxos de pessoas e de dinheiro quanto um balcão de informações e uma “terra de oportunidades”. Local de conflitos, de festejos e, sobretudo, um grande mercado no interior do qual o crack é vendido, comprado, trocado, negociado e, fundamentalmente, explorado. Tudo isso a um só e mesmo tempo (RUI, 2014, p. 261).
Atravessar o patamar do horror coloca a “saúde a ser inventada” frente à singularidade dos casos, ou seja, permite uma tomada de posição que favorece o encontro com a subjetividade da época, e frente à possibilidade e dificuldades de ofertar, pelo encontro, o alívio. Ou uma pausa.
Philippe Lacadèe (2014), ao visitar a cracolândia de Belo Horizonte – um dos campos de
atuação do Consultório de Rua –,27 escreve um testemunho sobre essa experiência que nos
permite captar algo do arranjo urbano e do efeito da presença do Consultório de Rua sobre os sujeitos que circulam.
[...] chegamos em (sic) um local bem estranho, estacionamos na frente de um muro, em uma rua bem precária, em um passeio onde estavam muitas pessoas, umas apoiadas neste muro, algumas conversando e outras isoladas. Todos davam a estranha impressão de uma errância, de estarem bastante perdidos e sozinhos, mesmo se de tempos em tempos uma tentativa de troca parecia acontecer. À beira do passeio havia vários detritos de dejetos, e às vezes, alguns iam até ali para catar restos de objetos que parecia interessá-los.[...] Comecei uma conversa com um adolescente. No início ele estava tímido e reflexivo, parecia pensar antes de me responder, como se para ele as palavras devessem ser levadas à sério. Eu consegui conversar um pouco com ele, falando do fato de que a vida não era fácil e ele respondeu que ele estava bem e que de toda forma escolhíamos nossa vida. Essa fala ressoou em todo meu corpo e humanizou esta entrada bastante traumática, esta porta aberta deste inferno que é uma favela. Foi então que eu vi bem perto desta porta, desta boca aberta sobre este monstro da favela, surgir nossos Anjos de Branco. Esta foi expressão vinda não do céu, mas do meu pensamento confuso, que me fez dizer: essas técnicas são anjos de branco. E eu continuava a olhar meus estranhos anjos de branco falando, descidos não do céu, mas da van comigo, para ir a este inferno, ao encontro de todas essas almas errantes, corpos fatigados, magros, tensos, sujos, com gestos bastante lentos, com bocas desdentadas e traços de violência bastante marcados sobre os rostos e corpos, zumbis, mas com uma intensidade no olhar bastante surpreendente. Olhares que inclusive se animavam desde que os anjos de branco falassem com eles (LACADÈE, 2014, p.1).
A passagem ao bastidor das cenas permite ver e reconhecer que nem tudo se mostra. Mesmo em público, algo de íntimo e privado permanece preservado. Há pudor em gozar diante dos olhos de quem chega e escolhe-se interromper o consumo para fazer uso da palavra: residuozinho humano, que se confunde, mas também conecta o sujeito ao Outro. E faz intervalo. E no bastidor, é possível, ainda, descobrir a reinvenção da casa e da privacidade, estratégias de sobrevivência e distintos modos de inserção e uso do espaço.
Ao descrever uma atividade com uma usuária, uma técnica do Consultório de Rua (artista
plástica) assim define o quarto daquela: “Um colchão na calçada, cheio de cobertas, panos,
acessórios espalhados e um casal de cachorros”. (GARCIA, 2014, p. 22). Nesse quarto de
parede única – o muro – aberto e sem espelho, o canto “no mundo”, a casa, é delimitada pelo
colchão e por objetos que a decoram e singularizam. E nele a usuária realiza o que outras mulheres fazem no espaço da intimidade: se enfeita, se embeleza e, naquele dia especial, se preparou para a sessão de fotos.
27Lacadèe era um dos convidados do 3º Congresso Nacional de Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG setembro/2014) e aceitou o convite para conhecer alguns dispositivos da rede de saúde mental da cidade e realizar supervisões com as equipes do CERSAMi e dos Consultórios de Rua. Após a visita ao campo e a supervisão, no intervalo da madrugada, escreve seu testemunho sobre essa experiência e o intitula “O inferno, os anjos de branco e o idiota”.
Noutro relato, outra equipe de Consultório de Rua nota que alguns usuários reproduziam no
espaço público o desenho de uma casa: “Eles se organizavam de tal modo que era possível
perceber num ponto a sala, noutro a cozinha, o quarto. E o banheiro, ficava atrás da igreja”. E
há também as frágeis casas feitas de papelão e cobertor, que protegem os sujeitos do frio e da invasão do olhar da cidade.
A recorrente associação entre consumo de substâncias ilícitas e criminalidade esconde estratégias de obtenção que confundem o olhar e as referências do espectador desatento ou apressado. É preciso aproximação e vínculo para reconhecer a inventividade.
Uma usuária, por exemplo, assume o personagem de profissional do sexo, mas opera como avião e agencia o acesso ao crack e ao local para consumi-lo para seus clientes que, como ela,
recorrem à rua da prostituição para obter – muitos deles – droga e não sexo. E ela vende droga
e, a depender do cliente, também sexo. O lucro que extrai no processo de negociação da droga e do valor do quarto de hotel destinado à realização do consumo de seus clientes é usado por ela para adquirir sua porção de crack. A venda de sexo é pontual; o trabalho como aviãozinho e “agente” da rede de hotéis do entorno mais frequente. O que aparece à primeira vista não se confirma pela observação mais próxima.