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2. KAYNAK ÖZETLERİ

2.2. Seyfi Arkan ve Mimarlığı

2.1.2. Arkan Mimarlığının Dönemleri

Sobre os possíveis leitores da produção escrita de João Gumes, acreditamos que a maioria eram leitores locais ou da região próxima a Caetité, tendo em vista que a sua literatura foi praticamente toda editada na tipografia de A Penna, com exceção do romance Os

analphabetos, o único a ser editado em Salvador, na Tipografia Salesiano, que parece não

ter sido uma editora de grande repercussão. Portanto, fica a impressão de que os leitores de Gumes se restringiam à região. Mas isso certamente não impediu que os romances também pudessem circular entre leitores de outros estados do Brasil, haja vista a perspectiva de circulação que obteve o jornal A Penna; editado por Gumes desde o final do século XIX, o jornal possuía assinantes em alguns estados do país, como São Paulo159 e Minas Gerais, entre outros. Possivelmente eram leitores que se encontravam distantes da sua terra natal. O contato com o jornal permitia a esses leitores se informar sobre os acontecimentos e fatos da região, assim como rememorar a vida no espaço ao qual se conservavam ligados pelos laços identitários e afetivos.

159

Segundo dados do livro de Registro de Assinantes do jornal A Penna (1924-1927), somente na cidade de São Paulo havia 34 assinantes do periódico caetiteense, além de outras cidades do interior do estado. Fundo: Acervo da família Gumes, Série: Livro de registro, caixa: 1, maço: 2.

Quando se analisa a produção escrita de João Gumes, percebe-se que ele dedica atenção especial ao leitor, estabelecendo com ele uma interlocução constante. Em alguns romances, Gumes dedica uma página inicial “Ao leitor”. Esse é o local de fala do autor em relação à obra. Nesse espaço ele justifica a iniciativa, indica os objetivos do romance, comenta se conseguiu atingi-los, fazendo esclarecimentos que contribuem para a compreensão do livro. No diálogo que estabelece com o leitor, busca-se uma interação entre ambos, o que torna a prática da leitura mais interessante. É o que evidencia o fragmento a seguir:

Esta narrativa foi remodelada em 1922 e de novo revista agora. É certo que alguns senões ainda nela serão encontrados; mas o leitor inteligente, por isso, não deixará de compreender o seu plano geral (Vida campestre, Ao leitor, 1926, grifos nossos).

O narrador reconhece as limitações da sua obra literária e solicita que o leitor “inteligente” compreenda a proposta geral do romance. Essa atitude revela, na prática, uma preocupação maior do autor em ser compreendido mais do que a necessidade de demonstrar apenas sua erudição. Esses aspectos são comuns às narrativas de autores do final do século XIX. Lajolo e Zilberman (2003, p.36-37) identificam, em algumas produções literárias da época, que a relação entre escritor e leitor às vezes é permeada por certa cumplicidade, pela busca de conivência com o interlocutor; em outros momentos, a cumplicidade é rompida quando o leitor erra ao interpretar o comportamento do personagem.

Julgamentos equivocados são desmentidos apenas pelo narrador que, ao usar e abusar da onisciência, torna o leitor testemunha privilegiada. Privilégio, no entanto, que depende sempre do gesto tutelar do narrador, já que o leitor, deixado a seu próprio critério, toma inevitavelmente o bonde errado; cabe àquele, pois, corrigi-lo, direcionando-o para a conclusão correta. A desigualdade da interlocução vai, assim, se impondo de uma forma sutil, embora ainda coexista com continuadas, mas cada vez menos convincentes, deferências do narrador que sempre se coloca em posição superior, de intérprete indiscutível da história (LAJOLO; ZILBERMAN, 2003, p.36-37).

Esses aspectos quanto à forma de tratamento dispensado pelo narrador ao leitor também são comuns na literatura de João Gumes. Percebe-se que o narrador estabelece um diálogo com o leitor, buscando envolvê-lo na trama da narrativa. Lajolo e Zilberman (2003, p.40-41), analisando a relação entre o leitor e o protagonista do romance Triste fim de Policarpo

Quaresma, de Lima Barreto, destacam que há uma elevação do personagem principal

“quando transforma em ideal o conteúdo de suas leituras”. Identifica também que há uma correlação com o leitor, já que este “se eleva junto, porque se solidariza com o herói e acompanha suas desventuras”. Esses aspectos ficam evidentes no romance Os analphabetos, de João Gumes, quando o protagonista, Zezinho, faz do desejo de ter domínio da leitura e escrita seu ideal de vida. O leitor compartilha os sofrimentos e dificuldades enfrentadas pelo protagonista na busca dos seus objetivos. E, assim, o narrador espera que os leitores saiam da leitura conscientes e alertas para a necessidade de empreender esforços para amenizar o analfabetismo. João Gumes dedicou atenção especial aos seus leitores, já que, nas suas produções literárias, mantinha um diálogo permanente com eles.

Interessa-nos saber como se deu o processo de publicação dos romances de João Gumes, num momento em que a prática da publicação ainda não estava consolidada no país, o que tornava a publicação um processo difícil e caro, principalmente para um escritor sem repercussão nacional, tanto que somente dois romances de Gumes foram editados em forma de livro, alguns permaneceram inéditos em manuscritos, outros foram publicados em forma de folhetim no jornal A Penna. O romance O sampauleiro foi a única produção encontrada em três formas diferentes de circulação: manuscrito, folhetim e livro impresso. Somente o romance Os analphabetos, como já destacamos, foi impresso na capital do estado da Bahia. Lajolo e Zilberman (2003, p.64-76) nos informam sobre a difícil política de publicação no Brasil do século XIX e comentam que não era possível à maioria dos escritores viver de sua literatura. Entre os vários fatores que dificultavam a impressão estavam: o número restrito de tipografias, a presença do trabalho escravo no Brasil, o analfabetismo, o preço dos tributos cobrados sobre os livros, bem como a falta de livreiros, o que obrigava a venda direta dos livros. As autoras destacam que, no difícil caminho da profissionalização da literatura, alguns escritores encontraram no serviço público uma forma de conciliar a atividade de escritor com o trabalho, o que lhes proporcionava um público garantido. Relatam também que outros autores, até conseguirem ser reconhecidos no mercado, buscavam caminhos alternativos, dedicando-se ao exercício do magistério. Comentam ainda sobre a existência de um “sistema que incentivava o compadrio e a colaboração mútua, na base do relacionamento com os famosos que podem abrir facilmente as portas das editoras” (2003, p.72). Para demonstrar a prática da intervenção de personalidades influentes na publicação de livros, as autoras utilizaram-se das correspondências trocadas entre Azeredo, diplomata brasileiro que

viveu no exterior, e o escritor Machado de Assis. Nas missivas, Azeredo reconheceu que “um escritor, ao publicar o seu primeiro trabalho, não deve mirar a nenhum lucro [...]”160

. Em outra missiva Azeredo reconheceu, ainda, que o fato de escrever para o jornal contribui para que o seu nome tenha “certa publicidade aí, o livro será procurado [...]”161

. Acreditamos que essas dificuldades de publicação vigentes no Brasil do século XIX também refletiram na produção de Gumes, tanto que, para conseguir a edição do romance Os analphabetos em uma tipografia em Salvador, teve de recorrer à intermediação de Anísio Teixeira. Possivelmente esperava que o fato de desempenhar a função de jornalista talvez colaborasse para torná-lo conhecido, tendo, assim, os romances um público leitor já assegurado.

Afinal, que tipo de leitor e escritor João Gumes se tornou? Teóricos da sociologia da leitura, como Bourdieu (1983), consideram que as leituras realizadas por um leitor legítimo – são aquelas vinculadas à cultura letrada, e as leituras não legítimas estão relacionadas com as práticas e usos da cultura popular, ou seja, leituras de cunho pragmático e utilitário. Nessa perspectiva, Gumes não era considerado um escritor legítimo. Já autores como Lahire (2002) Galvão (2007 e 2000) tentam relativizar a questão, mostrando que essa relação é mais ampla e complexa, devendo levar em conta outros aspectos que influenciam e interagem neste percurso. Lahire (2002), por exemplo, demonstra que um leitor letrado pode, ao longo da sua vida, assumir, em algum momento da sua trajetória, uma opção diferente de leitura. No caso de João Gumes, considerando algumas condições, como as limitações da localidade em que viveu no século XIX, o fato de ter sido um sujeito proveniente dos meios populares que lia e escrevia com fins utilitários, mas que também lia literatura brasileira e estrangeira, além de ter conhecimento de termos não portugueses, entre outros aspectos, acreditamos ser possível afirmar que, apesar de ser considerado um escritor local, conseguiu, de certa forma, uma inserção na cultura escrita legítima.

Após conhecer os modos de participação que João Gumes desenvolveu na cultura escrita, como o tipo de leitor e escritor que ele se tornou, interessa-nos, agora, identificar como Gumes manifestava a relevância das práticas letradas nos seus escritos: Que ideias ele defendia? Quais as discussões que permeavam a abordagem da leitura e da escrita no jornal

A Penna e no romance Os analphabetos, bem como em outros romances? Esse será o tema a

ser tratado no capítulo a seguir. 160

Lajolo e Zilberman, 2003, p.72. 161Lajolo e Zilberman, 2003, p.73.

CAPÍTULO 3

Benzer Belgeler