Desde seu surgimento, a compreensão do que se entendia por público sofreu profunda alteração. Por muito tempo o Estado teve um papel dominante sobre os meios que se definiam públicos. Era seu papel possuir o controle total da gestão que deveria, em teoria, garantir o suprimento das necessidades da sociedade. Esta característica, arraigada aos interesses políticos e dominantes, contribuiu para uma dificuldade de transição e até mesmo uma confusão por parte da sociedade do que seja uma televisão pública voltada para a modernização e democratização do meio onde esteja inserida, com ampla participação e representação social.
A natureza do caráter público foi mudando. Associado, durante muito tempo, ao caráter oficial, designava um território extremamente fechado, determinado pelas definições estatais: orientação central, subordinação absoluta aos orçamentos estatais, administração dominada pelos interesses políticos e estruturas fortemente burocráticas, eram parte do seu perfil. A iniciativa dos diferentes setores sociais era bastante limitada, e o controle sobre as áreas de intervenção era exercido pelo governo ou pelas instituições legislativas. O modelo foi entrando em crise, em vários sentidos. Para alguns, o caráter público começa a se enfraquecer diante do avanço dos mercados, das políticas de ajuste e das reestruturações dos Estados: enquanto estes não podiam, supostamente, se encarregar de muitas áreas da vida social, açoitados por graves déficits fiscais, os mercados exigiam mudanças que permitissem achar melhores condições de desenvolvimento dos projetos privados em expansão. (BELTRÁN, 2002, p. 89)
Neste momento, o que se busca, além da consolidação e expansão de um modelo de televisão pública, é definir o novo perfil do que se considera público, almejando uma mudança de postura quando a participação do Estado juntos aos órgãos de comunicação públicos, pois, mesmo com a mudança de modelo, ainda hoje é comum a presença de forte influência e domínio de gestão e de linha editorial por parte de gestores e legisladores com cargos políticos ligados ao Estado. O que se pretende é que a comunicação pública deixe de ser um simples “sistema estatal de rádios e TVs com
dificuldades de manutenção, desvirtuado de suas finalidades educativas e culturais, e submetido aos desmandos de governantes que utilizam sua estrutura como instrumento de propaganda política.” (I FÓRUM, 2007).
Uma televisão pública deve atender aos interesses sociais e não partidários ou pessoais. Deve sim possuir ampla participação e representatividade dos diversos setores da sociedade, inclusive como membro atuante na equipe gestora de forma autônoma, pois “sem independência, sobretudo independência ante o governo, não há TV pública de verdade.” (BUCCI, 2008). De acordo com Bucci (2008), para uma comunicação ser pública ela deve atender a requisitos claros quanto a forma de gestão editorial e administrativa que cabe à sociedade e não ao governo; não ter finalidades comerciais; garantir a universalidade de acesso e o compromisso de possuir programação com os valores da democracia e dos direitos humanos. Valente (2008) define a televisão pública como um aparelho de Estado com uma “ossatura material própria” com uma diferença fundamental entre as emissoras públicas e as comerciais “as primeiras têm sua atuação definida no âmbito da política, enquanto as segundas estão subordinadas à esfera econômica”. Neste sentido, acredita que o modelo de gestão e controle destas estruturas passa a assumir papel central.
Em síntese entre esses referenciais, Valente (2008) define ainda a televisão pública como “um aparelho de Estado que desempenha uma função de reprodução ideológica por meio do estabelecimento de "consensos" construídos a partir do embate entre as forças que disputam o seu controle e entre estas e as demandas do público a que se dirige.” (VALENTE, 2008, p. 03). Dourado (2010) lembra que a Idade Moderna tem como principal característica a busca por uma separação entre o que define como esfera pública e a sociedade. Mais do que uma separação, o que se busca e se espera para a televisão pública é o diálogo e a atuação do Estado e da sociedade agindo conjuntamente por meio de uma gestão com ampla representação social autônoma e independente, mas com apoio e suporte financeiro amparados pelo Estado, não assumindo a função de comando. Cabe a ele dar o suporte necessário para que o processo democrático aconteça com total liberdade de gestão e participação da sociedade, pois a comunicação pública deve ter uma gestão que seja efetivamente pública, ou seja, “que esteja a cargo de um conselho formado por integrantes capazes de representar a sociedade, investidos de poder de fato e de mandato definido” (BUCCI, 2008).
Aos governos cabe o lugar de fonte de informação – não de mediador da comunicação. Governantes não podem incidir como ordenadores dos processos dos quais resulta, entre outras coisas, a escolha dos próprios governantes. Seria um contra-senso. Quando o governo, seja ele federal ou estadual, não importa, julga-se o sujeito encarregado da mediação, tende a usurpar os meios em favor de um ponto de vista parcial e cai numa prática muito difundida entre as autoridades brasileiras, a do patrimonialismo simbólico. (BUCCI, 2008).
A criação e obrigatoriedade de uma estrutura de gestão autônoma e socializada com conselhos gestores tornam-se uma garantia dos direitos sociais e não de interesses políticos partidários e/ou pessoais independentemente de quem esteja no poder. A televisão pública é um patrimônio da sociedade e deve assim permanecer.
Não só a televisão pública, mas a própria radiodifusão brasileira é caracterizada por políticas públicas que são constantemente colocadas em segundo plano pelo domínio do setor privado, dominado pela exploração comercial de serviços, por concentração econômica que torna inviável uma condição equilibrada de competição por abusos de poder político "no uso das concessões e permissões e pela exacerbação da exploração comercial dos serviços em detrimento de objetivos culturais relevantes, de fins humanizadores e da afirmação da cidadania e da nacionalidade." (I FÓRUM, 2007). Nesta perspectiva é fundamental que a sociedade e seus representantes envolvidos também assumam seus papéis de participação, inclusive editorial e gestora, compreendendo, colaborando e participando ativamente para que a televisão pública nacional consiga assumir e manter um padrão independente, com um olhar e uma lógica distinta da televisão comercial.