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GRAMINHO e BONOMO (2003) realizaram alguns testes empíricos que refutam o Canal de Empréstimos Bancários (Bank Lending Channel) no Brasil. Para atestar a sua existência, no entanto, os autores tentaram provar duas de suas condições necessárias. Contrariamente ao esperado, eles chegaram à conclusão de que uma política monetária contracionista diminui os impactos sobre o crédito bancário, fomentando-o, uma vez que relaxam as restrições de liquidez das instituições financeiras.
A primeira condição de existência diz que é necessário que existam empresas banco- dependentes, incapazes de substituir empréstimos por outras fontes de financiamento, sem sofrerem custos por esta substituição. GRAMINHO e BONOMO (2002) validam esta primeira condição após a análise de Balanços Patrimoniais de 224 empresas. O objetivo desta primeira análise é calcular a participação percentual dos empréstimos bancários no total de financiamento de terceiros das empresas. Para tanto, os autores calcularam a proporção da Dívida Financeira Total em relação ao Financiamento de Terceiros (Passivo Total menos Patrimônio Líquido) e em relação ao Financiamento Total (Passivo Total). No ano 2000, a Dívida Financeira Total representava, em média, 41% do Financiamento de Terceiros e 22% do Financiamento Total. Confirmando a essencialidade dos recursos bancários, os autores chegaram ao resultado de que 63% do financiamento de terceiros ocorre na forma de dívidas bancárias.
A segunda condição diz que o Banco Central deve ser capaz de alterar a oferta de crédito dos bancos através de sua política monetária. Através de instrumentos de política monetária – com os quais o Banco Central pode retirar reservas do sistema financeiro-, os bancos devem ter reduzida sua capacidade de gerar financiamento a terceiros através de um funding (passivo) sujeito ao recolhimento compulsório (tais como depósitos à vista). Entretanto, podem emitir outros instrumentos de captação que não estejam sujeitos ao recolhimento compulsório, como os Certificados de Depósito (CDs). Caso o teorema de Modigliani-Miller18 não se aplique, é de se esperar que o setor bancário não consiga
18 Novamente, o Teorema de Modigliani-Miller (1958) diz que a estrutura de capital dos bancos não é capaz de influenciar as decisões reais dos agentes. Quando o teorema se aplica, os bancos são indiferentes às formas de financiamento. Assim, a sua não existência permite com que os bancos possuam custos na substituição por fontes alternativas de financiamento.
compensar uma queda de suas reservas através de um ajuste na exposição aos títulos que mantêm em carteira, ou gerando fundos através da emissão de novos títulos.
Dando prosseguimento à prova desta segunda condição de existência, os autores realizam uma série de testes com microdados. São utilizados dados de balancetes mensais de 291 instituições financeiras, entre os meses de 1994 e dezembro de 2001, dividindo-as em “grandes”, “médias” e “pequenas”.
Assim, o tamanho dos bancos é utilizado como proxy de acesso ao crédito. Além disso, utiliza-se um índice de liquidez como variável representativa da posição financeira dos bancos. Portanto, como hipótese, caso exista um Canal de Empréstimos Bancários (Bank Lending Channel), é de se esperar que o impacto da política monetária sobre a oferta de crédito seja maior para os bancos que apresentam balanços menos líquidos “vis-à-vis” os mais líquidos. Por esta razão, é de se esperar que os pequenos bancos – que, geralmente, possuem balanços menos líquidos - possuam uma restrição de liquidez mais ativa do que os grandes bancos e, portanto, seus empréstimos devam reagir mais a choques de política monetária.
Os autores realizaram um tratamento empírico em dois estágios. O primeiro estágio é realizado através de uma cross-section, que envolve o volume de empréstimos concedidos (Lit) como variável dependente e uma variável independente defasada representativa da liquidez dos bancos (Bit-1).
∆ ln Lit = ρ + Σ αij ∆ ln Lit-j + tBit-1 + εit (2.4)
Supõe-se, assim, que os bancos com maior B19 seriam os mais capacitados a amortecer os impactos dos choques de financiamento externo, através da venda de seus estoques de ativos líquidos.
19 A variável B é construída através da razão entre o somatório da conta Títulos e Valores Mobiliários e Aplicações Interfinanceiras de Liquidez subtraída a conta de Revendas a Liquidar – Posição Financiada, no numerador e, Total Geral do Ativo subtraídas as contas Compensação e Revendas a Liquidar – Posição Financiada, no denominador.
A regressão acima foi calculada para cada segmento da amostra: bancos grandes, médios e pequenos. Desta forma, encontrou-se um t para cada um dos segmentos e para cada um dos meses analisados, constituindo-se em uma série temporal para cada uma das sub- amostras. Este coeficiente t representa a sensibilidade do volume de empréstimos à estrutura financeira do banco.
Em um segundo estágio, avaliou-se o impacto da política monetária - representado pela variação da taxa de juros- sobre a sensibilidade dos empréstimos à estrutura dos bancos, com uma regressão temporal do tipo:
t = + ΣΦj∆ rt-j + +ut (2.5)
Assim, se existe um canal de empréstimos bancários, o impacto da variação da taxa de juros (r) sobre a sensibilidade do crédito bancário ( t), em relação à estrutura do seu balanço patrimonial (representado pelos coeficientes Φ’s) deve ser positivo e significativo. Esta suposição se vale da hipótese de que o prêmio de financiamento externo aumenta para bancos que possuem um menor acesso aos mercados de capitais (bancos menores). Assim, se os bancos grandes têm meios de substituir suas fontes de financiamento, a validade empírica das hipóteses ocorre quando a soma dos coeficientes Φ é estatisticamente não significativa.
Para se captar a existência de outros fatores, como choques de capital, realiza-se uma segunda versão da regressão com o ingresso do produto industrial nominal e real, desazonalizados.
t = + ΣΦj∆ rt-j + Σ j∆produtot-j+ut (2.6)
GRAMINHO e BONOMO (2002) chegaram à resultados que não corroboram a existência de um Canal de Empréstimos Bancários no Brasil. As estimações mostram que um choque positivo na taxa de juros exerce um impacto negativo sobre os coeficientes t dos bancos (que mostra a sensibilidade da variação do volume de empréstimos em relação ao índice de liquidez). Estes resultados indicam que um aumento de taxa de juros reduz a
sensibilidade do crédito à estes choques, o que sugere que as restrições de liquidez ficam menos severas.
A soma dos coeficientes Φ’s estimados é dada pela tabela abaixo. Abaixo dos valores Φ, são dados os respectivos valores p.
TABELA 5 – Teste realizado por Graminho e Bonomo (2002)
Versão Univariada(Juros) Versão Multivariada
(Juros e PIB)
Nominal Real Nominal Real
-0.0027 -0.0933 -0.0023 -0.1052 Total (0.0134) (0.0165) (0.0610) (0.0159) 0.0021 0.0117 0.0016 -0.0001 Grandes (0.0330) (0.7508) (0.1560) (0.9985) -0.0009 0.0057 -0.0021 -0.0346 Médios (0.5850) (0.9229) (0.2594) (0.5936) -0.0032 -0.1261 -0.0025 -0.1270 Pequenos (0.0256) (0.0142) (0.1383) (0.0288)
Fonte: Graminho e Bonomo (2002)
Para análise do canal do crédito, utiliza-se em um segundo momento como variável, os chamados “créditos livres”. Para uma possível aproximação, os autores criaram uma variável de crédito restrito que consiste no crédito total menos alguns tipos de financiamentos rurais, habitacionais e de desenvolvimento. A estimação com esta variável construída não possui, no entanto, resultados significativamente distintos aos anteriores.
Por último, os autores realizam ainda um teste empírico relacionando os lucros dos bancos com os seus lucros defasados e com taxas de juros reais enfrentadas por bancos grandes, médios e pequenos, além do total de bancos. Este teste mostra a existência de uma relação positiva entre variações na taxa de juros e lucros bancários.
Os autores chegam à conclusão de que elevações nas taxas de juros relaxam as restrições de liquidez dos bancos. Isto porque estes aumentos das taxas de juros provocam um incremento de seus lucros, o que gera um aumento de seu financiamento interno. Desta forma, este movimento deve provocar uma menor dependência de depósitos bancários para financiamento de empréstimos, uma vez que ao demonstrar maior financiamento
interno, diminuem-se os custos de agência para captação de recursos externos, o que os permite compor seus passivos bancários de forma mais fácil.