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Efetivamente, o título desta seção incomodou, e por isto o mantive. Por quê? Porque o estudo sobre a identidade, sobretudo a étnica, é complexo e sofre, continuamente, reformulações em seus elementos que transitam em dimensões variáveis em nível individual, nacional e global. Ademais, seu estudo deve considerar aspectos envolvidos no fenômeno contemporâneo denominado de pós-modernidade dos séculos XX/XXI (cf. autores como HALL, GIDDENS, CASTELLS, BAUMANN). Não se trata de mais uma questão restrita aos lingüistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos ou filósofos, pois se refere a uma investigação que tem instigado as ciências como um todo. Segundo Hall,

A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, visto até aqui como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (HALL, 1997, p.7)

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Tomando como ponto de partida a clássica definição de F. Barth (1976), identidade implica em processos sociais de exclusão e incorporação, sendo preservadas categorias fundamentais que não são perdidas a despeito do contato e da interdependência entre grupos. Ela se expressa em complexos ritos que marcam as diferenças e as particularidades de cada grupo, sendo, portanto, essencialmente, contrastiva. No momento em que o grupo preserva sua organização em meio a outras organizações sociais, ele existe enquanto grupo étnico e, sobretudo, preserva sua própria identidade. A partir daí, é capaz de atribuir a si próprio e fazer serem atribuídas a ele adscrições reveladoras de diferenças e de sua identidade étnica (cf. CARDOSO, 2000).

Definidos os grupos, Barth (1976) afirmou, ainda, que a continuidade destas unidades étnicas dependeria da preservação de seus limites. Segundo ele, estes limites são sociais e organizam a complexidade das relações sociais e de conduta, mantendo estáveis as culturas, de modo que no momento de íntimo contato interétnico, estas diferenças possam persistir. Ademais, estes limites organizam, também, a identificação de uma pessoa como membro de um determinado grupo, que implica em compartilhar os critérios de valores e juízos deste grupo.

Para o autor, os grupos podem apresentar variações em função, sobretudo, das estratégias ecológicas adotadas para a melhor adaptação ao seu meio. No entanto, fatores como a assimilação de estranhos, migrações e limitações de recursos, são capazes de provocar mudanças nos grupos. Neste sentido, Brandão ponderou sobre as questões de dinâmica, contato, diferença, oposição e poder numa citação:

Como processo (identificação) e produto (identidade) de um trabalho cultural de grupos sociais, que resulta na adscrição de significados de diferenciação social, étnica, etc., identidades podem ser geradas, preservadas, extintas, transformadas, dependendo não tanto de uma voluntária vontade simbólica do grupo, mas das atribuições pelas quais passa na realização cotidiana de sua própria história. (BRANDÃO, 1986, p.111)

Ortiz enfatizou a questão da diferença e introduziu o elemento histórico como um fator integrante da constituição da identidade. Segundo ele, toda identidade se define em

44 relação a algo que lhe é exterior, ela é uma diferença. Contudo, dizer que somos diferentes não basta, é necessário mostrar que nos identificamos (ORTIZ, 1985, p.7). Assim, toda identidade é uma construção simbólica, não existindo uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades, construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos.

Considerando que os grupos humanos estão em constante mudança, elementos centrais e mais estáveis como a língua, cujas alterações se tornam perceptíveis com um lapso de tempo relativamente maior, se tornam um subsídio para tratar a questão da identidade. Neste sentido, para Maher, as estruturas discursivas podem, literalmente, servir de matriz para a reorganização de um grupo étnico durante seus estágios de mudanças

(MAHER, 1998, p.134). Tomando o discurso como um elemento dentro do universo mais amplo da língua, ele se trata de

um construto sócio histórico por natureza, e por isso mesmo, um fenômeno essencialmente político, ideológico e em constante mutação. (...) é, principalmente, no uso da linguagem que as pessoas constroem e projetam suas identidades. É, assim, o discurso, isto é, a linguagem em uso, e não qualquer materialidade lingüística específica (...) que cria e faz circular o sentido de ‘ser índio’. (MAHER, 1988, p.117)

Forjada em um contexto lingüístico e social, a identidade implica em discurso e interlocutores. Estes, por sua vez, se constituem, cada um, como um ser real a partir do momento em que se realizam como ser social ou como elemento do processo social em que se inserem (RAJAGOPALAN, 1998).

A esse processo social que se configura como uma propriedade humana, Mey (1998) sobrepõe a questão da língua como expressão social e expressão humana:

A língua se relaciona com a sociedade porque é a expressão das necessidades humanas de se congregar socialmente, de construir e desenvolver o mundo. A língua não é somente a expressão da ‘alma’ ou do ‘íntimo’, ou do que quer que seja do indivíduo; é acima de tudo, a maneira pela qual a sociedade se expressa como se seus membros fossem a sua boca. (MEY, 1988, p.76).

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A influência do momento histórico sobre os processos sociais são inequívocos, no entanto, Hall (1997) destaca o período histórico atual, a pós-modernidade. Segundo ele, simultaneamente à desintegração das identidades nacionais, devido a uma suposta homogeneização cultural e ao “pós-moderno global”, as identidades locais ou pluralistas estão sendo reforçadas como uma forma de resistência a este processo. O quadro formado revela posições dialéticas que correm em paralelo face à tendência a uma certa homogeneização global, a um crescente fascínio pela diferença e a mercantilização da etnia.

Isto significa que, ao mesmo tempo em que as velhas identidades, nacionais, entraram em declínio, foram substituídas pelas identidades que o autor doravante denominou de híbridas (cf. CANCLINI, 20032). Concretizou-se a diferença e o fortalecimento das identidades locais, bem como o estímulo à produção de novas identidades.

Por definição, as sociedades contemporâneas são sociedades de mudança constante, rápida e permanente (GIDDENS, 1991; HALL, 1997). Esta seria a principal distinção entre as sociedades “tradicionais” e as “pós-modernas”. Giddens argumenta que:

nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes. (GIDDENS, 1991, p.37)

Para Hall (1997), a identidade estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais por eles ocupados, tornando ambos reciprocamente unificados e predizíveis. Considerando a realidade histórica atual, o sujeito assume identidades diferentes, de acordo com o momento, pois não são identidades unificadas ao redor de um “eu” coerente. E, sem perder de vista o grupo estudado, há que se considerar que a

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CANCLINI, Néstor G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 2ed. São Paulo: EDUSP, 2003.

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identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (HALL, 1997, p.22).

Neste sentido, Hall (1997) sugere que deveríamos usar identificação e ver a questão da identidade, efetivamente, como um processo, uma vez que se trata de uma “celebração móvel”, provisória e variável, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Existente no campo das representações, a identidade é sempre incompleta, sendo definida histórica e não biologicamente.

Orlandi, tratando dos sentidos e do outro, aponta para essa mesma perspectiva, a saber, a de que identidade é um movimento, tanto no seu modo de funcionamento (entre o eu e o outro) como em sua historicidade (devir, mas também multiplicidade na

contemporaneidade etc) (ORLANDI, 1990, p.46). Afinal, como podemos situar o indivíduo nesse jogo de identificação: indivisível pelo que a língua o proporciona ou múltiplo pelo que o contexto o remete? Uma sugestão é apresentada pela autora é a de que o sujeito é itinerante: ele perpassa e é perpassado pela diferença; habita e é habitado por muitos

discursos, muitas formações discursivas (ORLANDI, 1995, p.39).

Diante de uma grande variedade de definições e possibilidades, a noção de identidade se serve da diferença e da igualdade para se constituir, assim como os grupos aos quais se refere. Recorre a elementos exteriores para se reconhecer internamente e necessita da troca para que permaneça dinâmica e atualizada a fim de se renovar. O fenômeno ou processo é empreendido por grupos humanos que não são estáticos e nem fixos, realizam trocas, mudanças e alianças. Assim a identidade necessita de aberturas para que possibilite sua permanência. Ao mesmo tempo em que prescinde de um corpo próprio e particular, para que não ceda totalmente aos de fora e às perdas.

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Diante do contexto atual, os sujeitos se viram seduzidos pelas possibilidades de pertencerem a vários grupos identitários organizados diferentes. Cabe aos grupos organizar- se e reorganizar-se a ponto de manter certa flexibilidade e permitir a seus membros o reconhecimento a fim de manter uma estrutura que seja reconhecida e percebida como própria aos seus e diferente pelos de fora. Esta função é destinada aos marcadores, culturais e enunciativos, que através de elementos tais como o discurso, a cultura material, os comportamentos, os valores, as regras, se distinguem e se fazem identificar. É também por eles que o mundo contemporâneo conheceu a mercantilização da etnia. O comércio do exótico, a valorização do estranho e distante. As constantes mudanças deste momento histórico levam estudiosos e grupos étnicos a aplicarem seus conceitos antes fechados no âmbito acadêmico e usar a identidade como estratégia de sobrevivência.

Uma definição possível para estratégia seria aquela que trata dos ajustes e dos processos de adaptação que os grupos adotam cotidianamente. Segundo o conceito de De Certeau, estratégia é

o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos e ameaças. (DE CERTEAU, 1996, p.99)

E, ainda,

As estratégias são portanto ações que, graças ao postulado de um lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares teóricos (Sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. (DE CERTEAU, 1996, p102)

Assim, estratégias representam um tipo específico de saber que determina as possibilidades de se conquistar um espaço e/ou lugar para si próprio.

Em meio a este contexto, à passagem irrefreável da história, decorrentes mudanças sociais e de seus elementos constituintes, a memória apresenta-se como uma estratégia, um elemento essencial na busca da identidade, seja ela individual ou coletiva, indivisível ou

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múltipla. Trata-se de um instrumento e objeto de poder, bem como a melhor forma de se compreender a luta pela dominação da recordação e da tradição que as sociedades cuja memória social é, sobretudo oral: a memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de

forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

(LE GOFF, 1990 p.477).

A memória coletiva permite estruturar os sistemas, colocando os atores sociais em determinadas posições, desempenhando determinados papéis, seguindo uma tradição. De acordo com Ortiz

O produto da rememorização, a sinfonia final, é o resultado das múltiplas ações de cada agente (músico) em particular; no entanto, o músico executa algo que se encontra programado de antemão. A perspectiva enunciada se aproxima da concepção que Goffman possui das dramatizações na vida cotidiana. É na trama da interação social que o teatro da memória coletiva é atualizado. (...) É o grupo que celebra a sua revificação, e o mecanismo de conservação do grupo está estreitamente associado à preservação da memória. A dispersão dos atores tem consequências drásticas e culmina no esquecimento das expressões culturais. Por outro lado, a memória coletiva só pode existir enquanto vivência, isto é, enquanto prática que se manifesta no cotidiano das pessoas. (...) Na verdade, as representações só adquirem significado quando encarnadas no cotidiano dos atores sociais. (ORTIZ, 1985, p.133)

Ao mesmo tempo em que recupera e mantém, a memória como processo garante as condições para transformações e superações, como um campo de possibilidades e garantias para o surgimento do novo. A sua materialidade discursiva é estruturada de forma emaranhada,

a memória discursiva seria aquilo que face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os ‘implícitos’ (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível. (PÊCHEUX, 1999 p.52).

Mais ainda, para Pêcheux,

Uma memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessário um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos.

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E o fato de que exista assim o outro interno em toda memória é, a meu ver, a marca do real histórico como remissão necessária ao outro exterior, quer dizer, ao real histórico como causa do fato de que nenhuma memória pode ser um frasco sem exterior. (PÊCHEUX, 1999 p.56)

Estrategicamente utilizada por muitos grupos, sobretudo aqueles denominados como “minorias étnicas”, a memória tem escapado da esfera acadêmica e cumprido sua função de instrumento de poder. Lançando mão dos recursos que a história oferece tais grupos, entre eles o que estudei nesta tese, utiliza a memória como artefato que efetivamente “salva o passado e serve o futuro” (LE GOFF, 1990). Exemplos destes artefatos são os livros ou textos escritos, que são tratados por Goody (1975) como “comunicação preservada”. Longe de serem tratados como entidades monolíticas, servem como ferramentas mnemônicas capazes de afetar uma organização social. Ou como afirma Andrade: a escrita modifica a nossa maneira de lidar com o conhecimento e com as nossas práticas sociais (ANDRADE, 2006, p.49).

Todo o conteúdo da tradição social, aparte das heranças materiais, é vivenciado na memória. Os aspectos sociais do relembrar têm um efeito criticamente importante para os indivíduos, em sua experiência, fruto de suas relações sociais. Em cada geração, a memória individual é mediada pela memória cultural de forma que são feitos ajustes do antigo através de processos de interpretação. Nesse processo, algumas partes perdem sua relevância contemporânea e são eliminadas pelo esquecimento. Assim, a função social da memória, e do esquecimento, pode ser entendida como o de uma “organização homeostática” da tradição cultural, sobretudo em sociedades não letradas. Nos estudos de Goody (1975), mito e a história emergem como elementos de herança cultural que perdem sua relevância contemporânea, tendendo a ser esquecidos ou transformados.

Por força dos processos midiáticos atuais e das ações transformadoras que a sociedade vem sendo passando, tanto a memória, quanto a tradição, o livro e o escrito têm seu lugar deslocado. Em um lapso relativamente curto de tempo, a sociedade contemporânea passou por uma surpreendente desagregação de valores da civilização

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industrial, tendo as instituições perdido seu poder de atração e mobilização. Ideologias e utopias, como formas de agregação, perderam sua antiga fórmula de manter a coesão. Os

mass media e computadores não standardizaram, mas geraram uma multiplicidade de culturas e subculturas, gerando formas inéditas de relacionamento, não apenas entre indivíduos, mas entre grupos sociais, uma vez que outras formas de comunicação foram e vão se implantando cotidianamente. O “mundo real” se tornou cada vez mais inundado pelo imaterial: imagens que proliferam estilos de vida e expressão, com exigências estéticas que ofuscam a razão. O quadro formado é o de uma multiplicidade gerada pela generalização da informação e de visões da realidade (GIDDENS, 1991; IANNI, 1995; COELHO DOS SANTOS, 1996; SANTAELLA, 2003).

É nesse contexto que se desenvolveu essa pesquisa. Assim, como me fixar a uma disciplina e a apenas um discurso teórico diante de tamanha sedução e multiplicidade?

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Benzer Belgeler