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O VA, como o nome indica, é uma região industrial que abriga duas siderúrgicas e uma fábrica de celulose, responsáveis por cerca de 60% dos quase oito milhões de reais do Produto Interno Bruto (PIB) da região provenientes da venda do aço e aço inox50. Recentemente, uma lei autorizou a criação da Região       

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Metropolitana do Vale do Aço, constituída pelas cidades de Coronel Fabriciano, Timóteo, Santana do Paraíso e Ipatinga, que é sua cidade sede51. Ipatinga e Timóteo abrigam as usinas siderúrgicas que empregam pessoas das quatro cidades e de cidades vizinhas, incluindo boa parte dos alunos da faculdade onde leciono e também seus familiares. A empresa produtora de celulose, situada na cidade de Belo Oriente, nas proximidades da microrregião, também emprega graduandos e familiares.

A história dos graduandos pesquisados, assim como a de muitas outras pessoas dessa região é atravessada pela história das siderúrgicas desde as origens: seus familiares não residiam e nem residiriam lá antes das usinas. Os pequenos povoados de Timóteo e Ipatinga, instalados no entorno da Estrada de Ferro Vitória – Minas, sofreram uma explosão demográfica com a construção das siderúrgicas e, para receber e instalar esses novos moradores, dentre eles funcionários das usinas, as indústrias deram início a processos de urbanização e de organização política que culminaram na formação e emancipação dos municípios de Ipatinga e Timóteo, então distritos da cidade de Coronel Fabriciano. A siderurgia é uma imagem constitutiva da identidade dessa região que nasceu em função do aço; que nomeia a região (Vale do Aço) e a projeta no plano nacional. Essa é, então, habitada por pessoas que se mudaram para lá para trabalhar nas siderúrgicas que construíram colégios e hospitais, além de urbanizar os distritos. As indústrias também cuidaram da instrução formal dos trabalhadores. Deste modo, as siderúrgicas ocuparam, naquela época, e ocupam, ainda hoje, lugar de destaque no imaginário das pessoas da região e são representadas em diversos meios: nas bandeiras e hinos dos municípios e difundidas entre grupos sociais, em clubes, escolas, etc. – símbolos institucionais da comunidade.

Entendemos que o discurso das siderúrgicas reverbera no discurso das pessoas dessa região. A origem dessas pessoas se constitui sob a máxima de que sua própria história, a história de sua cidade natal ou cidade que escolhera para viver se confunde com a história da siderurgia ou, com a história das siderúrgicas da região. Essa representação, a da contigüidade das origens, é veiculada em espaços institucionais tais como prefeituras, câmaras legislativas, instituições de ensino em

      

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enunciados como este trecho do texto “A história”, veiculado ao Portal do Cidadão, no web site da Prefeitura Municipal de Ipatinga e que trata das origens da cidade:

A história de Ipatinga está intimamente ligada à história da siderurgia e mais ainda à história da Indústria X [...] Com as notícias de que se instalaria na região uma grande usina siderúrgica, foi grande a chegada de aventureiros, antes mesmo de sua instalação. [...] A INDÚSTRIA X então delimitou suas fronteiras e iniciou o zoneamento urbano. [...] a empresa lança programas de benefício monetários e não monetários (habitação. assistência médica, escola, clubes de lazer e outros), que foram sendo adotados para atrair e fixar a mão de obra qualificada. [...] A cidade é planejada e projetada, reproduzindo o ambiente de trabalho nas suas divisões hierárquicas. Resolveram então, em 1960, criar a Associação Amigos de Ipatinga, um grupo de pioneiros que seriam responsáveis pelo encaminhamento do processo de emancipação de lpatinga, garantidos pelas divisas que a Indústria X gerava (destaque do original, ressalvando a ocultação do nome da indústria)52.

No discurso acima, a cidade de Ipatinga não só tem sua história atrelada à história da Indústria X, mas tem sua origem na/pela siderúrgica construída na cidade. A população, cuja instalação naquele distrito fora orientada pela usina que

delimitou seu território e iniciou o zoneamento urbano, fora atraída pela possibilidade

de trabalho e crescimento profissional e financeiro na indústria. Por fim, as divisas financeiras geradas pela siderúrgica garantiram a emancipação do distrito de Ipatinga da cidade de Coronel Fabriciano. Moraes (2006, p. 101), morador de Ipatinga e filho de um dos pioneiros da região, relata que a emancipação era necessária e inevitável para o crescimento da Indústria X e da cidade, pois o município de Coronel Fabriciano não prestava assistência aos moradores da vila de Ipatinga. Segundo ele, José Carvalho, pioneiro da região, relata que quando recorriam á prefeitura da cidade para algum serviço, como a limpeza das vias públicas, sempre ouviam “que eles [os moradores de Ipatinga] eram feudos da indústria X e a ela deveriam recorrer” (MORAES, 2006, p. 101, destaque do autor, salvo ocultação do nome da indústria). Assim como Ipatinga, Timóteo também tem sua história vinculada à história de uma siderúrgica:

Nos Anos 40, o distrito sofre um surto de desenvolvimento impulsionado pela implantação da empresa INDÚSTRIA Y Isto levou em 1947 a uma tentativa frustrada de emancipação. Em 1948 o município passa a pertencer a Coronel Fabriciano. [...] Em 29 de Abril de 1964 o município é emancipado... Nas décadas seguintes tem-se o crescimento rápido do município acompanhado o crescimento da indústria siderúrgica na região.

      

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Ocorreu no Vale do Aço uma intensa e rápida descaracterização da área rural seguida no mesmo ritmo pela concentração demográfica na área de instalação industrial (BORGES53).

A indústria se sobrepõe à área rural da vila de Timóteo e a re-configura, promovendo o desenvolvimento da cidade e a conduzindo à emancipação. Segundo Silva (2007, p. 47): “o desenvolvimento da cidade sempre esteve articulado à fábrica: a vida da comunidade era determinada pelo ritmo da usina siderúrgica, com técnicas de governo disciplinares”. Nesse sentido, a pesquisadora aponta, com base em documentos da Indústria Y, intervenções na urbanização da cidade:

Inicialmente, os bairros eram rudimentares e abrigavam os operários que erguiam a fábrica. Havia o bairro Vai Quem Quer, o Vai Quem Pode, a Vila dos Caixotes, onde casas foram erguidas com a madeira dos caixotes que embalavam os equipamentos da usina. Com a chegada de médicos para atender aos funcionários, criou-se o bairro Vila Bromélias; os engenheiros moravam na Vila dos Técnicos, construída bem perto da usina; o pessoal administrativo morava na Vila dos Funcionários (SILVA, 2007, p. 47)

Textos institucionais, como os da prefeitura municipal de Timóteo endossam a afirmação: “Foi a INDÚSTRIA Y que de fato iniciou um processo de urbanização mais intenso (...), assumindo a frente da estruturação urbana do município” (PREFEITURA MUNICIPAL DE TIMÓTEO, 1992, p.55). Segundo Silva (2007, p. 48) a Indústria Y ocupava, ainda, outros espaços na comunidade, o de provedor de assistências, lazer, etc., como se pode observar no seguinte excerto:

Ser funcionário da Indústria Y era ser cidadão, sujeito na cidade. O uniforme da usina demarcava um lugar de poder na comunidade. Eles tinham cores diferentes para os chefes, técnicos e operários braçais ou das empreiteiras. As pessoas circulavam com seus uniformes para visitar as namoradas, fazer compras no comércio da cidade. A vestimenta significava poder aquisitivo e idoneidade no pagamento das contas.

A penetração e os atravessamentos da empresa no corpo social alcançavam praticamente todos os campos: o atendimento médico era feito no Hospital da Indústria Y; o time de futebol era o Indústria Y Esporte Clube; para formação de mão-de-obra especializada, a empresa criou o Colégio Técnico de Metalurgia e, até 1969, “a companhia funcionava para a cidade como

Prefeitura e polícia” (destaque da autora, resguardando a ocultação do

nome da indústria)

Não poderíamos desconsiderar que significantes que se originam na/pela siderúrgica, o da migração/mudança da família em busca de trabalho, o da subjetividade construída no limiar entre a família deslocada de sua origem e a origem da siderurgia na região, ressoem nos discursos que pesquisamos e que       

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atravessam, perpassam e componham as representações da LI, do aprendiz de LI e do professor de LI; uma vez que essa região constitui o lugar discursivo dos graduando, sujeitos dessa pesquisa, assim como a cidade, a indústria e seus aglomerados fazem parte das condições de produção de seus dizeres, do discurso da IES em que estudam, dos professores com os quais convivem, enfim, da comunidade local. Esse conjunto de representações revela demandas especialmente ligadas ao sucesso profissional. Segundo Cordié (1996) as demandas constituem expectativas socialmente criadas sobre um determinado ato que o sujeito deva realizar. Essas demandas são emitidas por outros sujeitos que estão ligados ao demandado e refletem ideais ou valores que são importantes na comunidade em que vivem. São demandas como: “Estude, seja bem sucedido!”, “Fale um outro idioma, para ter um bom emprego!”, “Tenha um emprego!”, “Trabalhe e será recompensado!”, “Seja um bom sujeito, seja culto!” “Busque o sucesso!”; vindas de familiares, educadores, das instituições de ensino, das siderúrgicas. Atender a tais demandas significaria ser bem sucedido, ter o respeito dos familiares e amigos, ter condições para suprir financeiramente outras demandas: consumir, ter um carro e viajar, ser aceito pelos amigos, dentre outras. Para atender a tais demandas, muitos vêem a viabilização do sucesso nos estudos, especialmente, em cursos superiores e em cursos de LI. Ao analisar peças publicitárias de EIs, Coracini (2007, p. 232) destaca a “fetichização”54 dos cursos de idiomas como formas de acesso rápido e garantido a uma melhor condição de vida. Nesse sentido, a aprendizagem é transformada pela mídia em mercadoria. Lima (2007)55 destaca a grande procura por cursos de graduação no Brasil como efeito de um discurso bastante popular: a da busca por um diploma de graduação como forma de acesso ao mercado de trabalho.

Estudar seria, então, uma forma de não ser marginalizado ou de não ficar preso à dimensão local, perdendo os benefícios globais; já que ter sucesso, dinheiro, bom emprego são valores amplamente difundidos em nossa cultura (CORDIÉ, 1996, p. 21). Na região do VA, aqueles que não atendiam a tais demandas eram excluídos e deslocados para um lugar próprio:

      

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Falamos em fetichização como a transformação de um objeto comum em um objeto ao qual se atribui poder sobrenatural e se presta culto.

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Com as notícias de que se instalaria na região uma grande usina siderúrgica, foi grande a chegada de aventureiros, antes mesmo de sua instalação. Isso aumentou a necessidade de um planejamento para a cidade. Os empregados da empresa foram instalados em acampamentos improvisados, distribuídos por toda a extensão do distrito. Os aventureiros amontoam seus barracos nas vias públicas e praças. Segundo relatos orais, os operários que não conseguiam se estabelecer na usina iam se aglomerando na rua que recebeu o nome de “Rua do Buraco”56.

Não ser bem sucedido significava, naquele contexto, não ser um funcionário das siderúrgicas e não conseguir se estabelecer na usina. Em conseqüência do não atendimento à demanda da usina e, por conseguinte, simbolizar-se enquanto pessoa bem sucedida, eram excluídos do plano de urbanização da cidade e se aglomeravam na rua que recebeu o nome de “Rua do

Buraco”. A “Rua do Buraco” é diferente de Castelo, nome atribuído ao bairro

planejado pela usina para a moradia de seus altos funcionários e diretores (MORAES, 2006, p. 75)

As demandas mencionadas norteiam também os graduandos em Letras, já que vivem nessa comunidade e são expostos também aos valores relacionados. Nesse sentido, acredito que tais demandas levam os graduandos a estudarem a LI. Incertos de sua escolha profissional, a de ser professor de LI, alguns desses graduandos parecem ver no idioma uma forma de não se mover em direção ao que representa a “Rua do Buraco”, como veremos em excertos do corpus selecionados para análise. Acredito, também, que as demandas do sucesso que circulam na região ainda sejam dinamizadas pelas indústrias, mesmo depois de quatro décadas do furor de sua instalações. Nesta configuração discursiva acredito haver efeitos de sentido que atuem na aprendizagem da LI, pois entendo que todo discurso é articulável, significado, re-significado dado o momento histórico, às ideologias a que nos filiamos, os modos de dizer e as pretensões do enunciador, como nos diz Pêcheux (1997, p. 57):

todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio- históricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço.

      

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Com o crescimento das indústrias era necessário atender às demandas por profissionais especializados, principalmente engenheiros e técnicos em mecânica e eletrônica. É implementada, então, no VA, a primeira IES.

Benzer Belgeler