• Sonuç bulunamadı

A partir do final dos anos sessenta, aumentam e surgem diversos modelos de investigação de campo da ciência. Os estudos de caso caracterizam a maioria desses trabalhos. Também denominados de “modelos construtivos”, esses se propõem a uma espécie de microsociologia da ciência. A etnografia é utilizada como um dos principais métodos nessa orientação. O trabalho marco nesse campo foi realizado pelos antropólogos Bruno Latour e Stevem Woolgar e publicado em 1979, na controvertida obra “A vida de Laboratório: a construção dos fatos científicos”.

Nesse trabalho, Latour e Woolgar (1997) realizam uma investigação etnográfica em um conceituado laboratório de neuroendocrinologia americano e argumentam que os fatos científicos não são algo descoberto, no sentido de desvelamento da natureza. São construções extremamente complexas permeadas pelo contexto social em que estão envolvidas as forças sociais dos sujeitos e das instituições.

Os estudos nessa linha são realizados como qualquer outra investigação etnográfica. O antropólogo desenvolve seu trabalho no local onde a pesquisa é realizada – no laboratório. Insere-se dessa forma no espaço do fazer científico e o objetivo é analisar o caráter artesanal da ciência, como essa é construída na prática. Busca-se, com isso, desmistificar o trabalho do cientista como diferente do trabalho de não-cientistas. De acordo com Sanchez (2003) neste caso:

A etnografia compara, então, os estudos feitos no laboratório – com a participação de um observador-, com aqueles feitos do laboratório, ou seja, com o conteúdo dos informes formais. As conclusões distanciam-se muito do caráter especial da ciência e certificam que trata-se de um processo social; que os fatos se constroem, e não se descobrem.”(p.38)

Dessa forma, a ciência deixa ser vista como algo inacessível e passa a ser concebida como um fenômeno que estabelece condições capazes de unir os processos que a constrói. O

laboratório seria onde a força dos sujeitos e das instituições interage para tornar a ciência algo possível. Assim, o cientista busca criar ordem a partir do caos, mas é uma ordem fabricada. Latour e Woolgar (1979) alegam que, ao contrário do que muitos pensam, essa perspectiva não tem como função menosprezar e nem desmerecer o trabalho científico. Apenas pretende demonstrar que a ciência funciona como um tipo de “ficção” e que isso não significa que a ciência seja uma farsa nem muito menos sem valor ou sem conseqüências práticas importantes para a sociedade. De acordo com Sanchez (2003), nessa concepção:

A ciência é vista como outra manifestação cultural da atividade humana e seus produtos não deveriam desfrutar de privilégios que a assinalem como uma “atividade especial”; pelo contrário, deve ser considerada como prática onde os componentes sociais e culturais tenham a mesma importância que os limites que impõe a ordem do discurso. (p.42)

Em uma linha de pensamento próxima a de Latour e Woolgar (1997), cita-se o trabalho de Knorr-Cetina (1981), autora que também busca uma espécie de microanálise da atividade científica. Ou seja, investiga como o conhecimento científico é produzido no seu local de produção. É nesse sentido que seu modelo também é denominado construtivo, já que o local de construção científica é concebido como um ambiente de pré-construção artesanal da ciência. (Job, 2006).

Knorr-Cetina (1981) também argumenta que é preciso notar que há um tipo de lógica oportunista da investigação científica. Lógica essa que está baseada em regras que estabelecem oportunidades, distribuição do poder e chances. Job (2006), ao analisar o funcionamento dessa regras no trabalho de Knorr-Cetina, esclarece que, nessa concepção, o “(...) cientista deve se adaptar ao ambiente e às regras, utilizar os recursos disponíveis, negociar e assim terá possibilidade de ampliar seu espaço e ser reconhecido.”(p.41)

A concepção de que a atividade científica depende das especificidades de onde está sendo produzida é vinculada à economia de mercado. Premissa essa que aproxima Knorr- Cetina também das formulações de Boudieu. (Hochman, 1994)

Com isso, para Knorr-cetina (1981), a imagem da comunidade científica representa algo menos coerente e cooperativa do que competitiva, funcionando com base na economia de mercado. Termos como: investimento, riscos, capital, dentre outros, podem, segundo ela, serem utilizados para compreender a competição constante na comunidade científica.

A idéia central de seu trabalho é que a atividade científica estaria situada em uma arena onde o trabalho do cientista e sua organização econômica estaria relacionada a outras diversas instituições e pessoas. Isso levaria a diversas disputas constantes entre várias pessoas, grupos e instituições científicas e não-científicas. O que acarretaria relações e decisões que não poderiam ser denominadas de científicas e não-científicas.

Nesse cenário, estariam presentes agências de financiamento, coordenadores e diretores de instituições científicas, além de outros elementos e atores que supostamente não fazem parte da comunidade científica. Para a autora supracitada, o próprio cientista desempenharia diversos papéis, nesse contexto. Administrador, agenciador, contador e consumidor seriam alguns deles. Desempenhar essas funções teria como objetivo negociar com outras pessoas e instituições intrinsecamente vinculados à ciência. Esse tipo de relação envolvendo diversos atores e contextos diversos estabeleceria aquilo que ela denomina de arena transepistêmica. As diversas decisões que um cientista deve tomar, inclusive decisões de ordem científicas (métodos, instrumentos, teorias, análises de dados) seriam influenciadas por essa arena. Com isso, conclui-se que as decisões de um cientista ou uma comunidade científica não são determinadas apenas por critérios supostamente científicos. A comunidade científica deixaria de ser vista e analisada como o único foco e/ou principal unidade para construção e

produção do conhecimento. Hochman (1994), ao analisar esse ponto no trabalho de Knorr- Cetina, elucida que:

As arenas transepistêmicas são constituídas, dissolvidas e reconstituídas cotidianamente na atividade científica contextualizada, implicando jogos interativos entre vários agentes que dela participam. (p.226)

Portanto, para investigar o funcionamento da comunidade científica, é preciso considerar os diversos elementos que perpassam o trabalho do cientista. Na arena transêpistemica há muito mais do que os problemas internos da pesquisa científica.

Essa sucinta apresentação dos primórdios da sociologia da ciência e de alguns modelos de interpretação da ciência teve como função apenas contextualizar o surgimento do campo e explicitar algumas possibilidades de interpretação. Além disso, a descrição desses modelos pode ser vista de forma complementar ao invés de serem vistos como totalmente incompatíveis. Kuhn busca compreender o funcionamento comunitário da ciência, Bourdieu indica uma espécie de mercado que controla a ciência, Latour e Woolgar apontam para o cotidiano da ciência e Knorr-cetina investiga como a ciência e perpassa por questões externas a própria comunidade científica.

Em seguida, será apresentada uma breve definição de comunicação científica, e o papel de seu principal veículo de informação, o periódico científico. Também será descrita uma breve discussão acerca da informalidade que perpassa a comunicação científica e suas funções, e por último será apresentado uma discussão sobre a avaliação da ciência no contexto da psicologia brasileira e seus possíveis efeitos no direcionamento da produção do conhecimento.

Benzer Belgeler