2.2. ÖRGÜTSEL BAĞLILIK
2.2.4. Örgütsel Bağlılığın Sonuçları
Em oposição à noção de comunidade científica formulada por Kuhn, o filósofo Pierre Bourdieu formula a noção de “campo científico”. Segundo Boudieu (1983), a idéia de comunidade científica mascararia práticas que vão além de uma concepção herdeira de uma tradição que concebe a ciência como algo ainda à parte da sociedade. De acordo com Job (2006), para Bourdieu, “O que está por trás da ciência não é a ciência e sim a sociedade”.(p.39)
Bourdieu (1983) recorre à economia de mercado para sua interpretação do campo científico, e argumenta que a construção da ciência está permeada e é determinada por uma espécie de distribuição capitalista de mercadorias. Países menos desenvolvidos estariam, dessa forma, necessariamente em desvantagem perante países desenvolvidos, uma luta injusta para aqueles países com menor poder econômico.
Segundo Bourdieu (1983), o campo científico pode ser definido como um sistema no qual é disputado aquilo que ele denomina de “luta concorrencial”. O que é visado, nessa luta, é o monopólio da autoridade científica. Fruto do poder social e da capacidade técnica (competência científica) que significa a autorização para se comunicar e agir de maneira legitimada por um contexto social específico – um campo científico.
Para Bourdieu (1983), conceber o campo científico como um local de disputa é ir além da noção tradicional de que a comunidade científica luta para obtenção de uma verdade mais pura, como se o vencedor dessa disputa fosse aquele que apresentasse uma concepção mais verdadeira sobre determinado fenômeno. Para ele: “(...) o próprio funcionamento do campo científico produz e supõe uma forma específica de interesse (as práticas científicas não aparecendo como “desinteressadas” senão quando referidas a interesses diferentes, produzidos e exigidos por outros campos)”. (Bourdieu, 1983, p.123) Ainda segundo Bourdieu (1983), para discutir a ciência, é preciso evitar as distinções tão comuns. Como a tentativa de separação entre competência científica como uma forma de representação social pura, um poder simbólico e a capacidade técnica como uma razão puramente técnica. Bourdieu (1983) destaca que não há como fazer uma separação entre capacidade e competência, porque a capacidade científica de um estudante e de um cientista sempre estará afetada no decorrer de suas carreiras pela posição que os dois ocupam.
Quando falamos de capacidade científica, estamos necessariamente falando de competência técnica.
Assim, os julgamentos sobre a capacidade científica de um estudante ou de um pesquisador estão sempre contaminados, no transcurso de sua carreira, pelo conhecimento da posição que ele ocupa nas hierarquias instituídas (as Grandes Escolas, na França, ou as Universidades, por exemplo, nos Estados Unidos). (Bourdieu, 1983, p.124)
Isso quer dizer que não é possível uma análise da ciência e de seus conflitos que isole, por exemplo, aspectos políticos de aspectos intelectuais. O campo científico é pensado como um espaço em que diversos compromissos científicos estão em jogo. O que tornaria prejudicial uma distinção entre os determinantes científicos (intelectuais) e os determinantes sociais. Ao mesmo tempo Bourdieu (1983) argumenta que a distinção entre determinantes científicos e determinantes sociais deveria ser entendida como a relação entre interesse intrínseco e extrínseco. Aquilo que é importante para o cientista deve ser interessante para comunidade científica. Desse modo:
O que é percebido como importante e interessante é o que tem chances de ser reconhecido como importante e interessante pelos outros; portanto, aquilo que tem possibilidade de fazer aparecer aquele que o produz como importante e interessante aos olhos dos outros. (Bourdieu, 1983, p.125).
Bourdieu (1983) equipara o funcionamento da ciência ao tipo de investimento que se estabelece e se organiza com indicações de uma antecipação, consciente ou não, das possibilidades de lucro em relação ao capital acumulado. Ou seja, o que leva os pesquisadores a se dedicarem mais a determinados temas, os temas considerados importantes, pode ser explicado pela possibilidade que um acúmulo de conhecimento ou uma descoberta nesse campo faça com que um cientista ou um grupo de cientistas adquira um lucro simbólico mais relevante. Nesse sentido:
É o campo científico, enquanto lugar de luta política pela dominação científica, que designa a cada pesquisador, em função da posição que ele ocupa, seus problemas, indissociavelmente políticos e científicos, e seus métodos, estratégias científicas que, pelo fato de se definirem expressa ou objetivamente pela referência ao sistema de posições políticas e científicas constitutivas do campo científico, são ao mesmo tempo estratégias políticas. Não há “escolha” científica – do campo da pesquisa, dos métodos empregados, do lugar de publicação; ou, ainda, escolha entre uma publicação imediata de resultados parcialmente verificados e uma publicação tardia de resultados plenamente controlados – que não seja uma estratégia política de investimento objetivamente orientada para uma maximização do lucro propriamente científico, isto é, a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes.” (Bourdieu, 1983, p.126-127)
Bourdieu (1983) assinala que as diversas práticas científicas estão, de uma forma ou outra, direcionadas ou orientadas para obtenção de autoridade em um campo da ciência. Essa autoridade seria acompanhada de prestígio, reconhecimento e celebridade, etc. Portanto, aquilo que é denominado de “interesse” por uma prática científica tem diversas funções.
O autor também argumenta que a luta por autoridade científica assemelha-se a um tipo especial de capital social que garante ao cientista converter sua autoridade em outras espécies de capital. A característica distintiva desse capital é que, no caso da ciência, quanto mais autônomo for um campo científico, mais provável que seus clientes sejam seus próprios concorrentes. Isso significa que um cientista de uma área do conhecimento só terá reconhecimento de valor da sua produção a partir do exame realizado pelos praticantes daquela área. Dessa maneira, os produtores de um campo científico avaliam seus “concorrentes”, o que torna essa avaliação mais criteriosa. Isso revela que apenas pesquisadores envolvidos no mesmo campo possuem formas de se apropriar simbolicamente do trabalho científico e de analisar seus méritos.
Outro ponto relevante destacado por Bourdieu (1983) é que, no campo científico, a luta que é estabelecida entre seus agentes é também uma luta de poder para impor uma
visão de ciência (problemas de pesquisa, métodos e teorias) que esteja em consonância e de acordo com interesse do cientista. Dessa forma, a própria definição do que está em jogo na luta científica é parte daquilo que se disputa. Com isso, os dominantes serão aqueles que conseguirem impor uma definição de ciência a partir da qual ser e fazer aquilo que eles são e fazem é o objetivo. Logo, “(...) a eficácia simbólica que sua legitimidade lhe confere permite que ela preencha uma função semelhante ao papel que a noção de opinião pública preenche para a ideologia liberal.” (p.128). Essa situação levaria a um problema inevitável no campo científico, que, de acordo com Bourdieu, é bastante semelhante a problemas envolvidos nas relações de classes. Esse problema seria que:
Tanto no campo científico quanto no campo das relações de classe não existem instâncias que legitimam as instâncias de legitimidade; as reivindicações de legitimidade tiram sua legitimidade da força relativa dos grupos cujos interesses elas exprimem: à medida que a própria definição dos critérios de julgamento e dos princípios de hierarquização estão em jogo na luta, ninguém é bom juiz porque não há juiz que não seja, ao mesmo tempo, juiz e parte interessada. (Bourdieu, 1983, p.130)
Para Bourdieu (1983), esse problema revela o quanto podem ser ingênuos os sistemas de avaliações realizadas por “juízes” de agências de fomento, de revistas científicas, etc. Supor que o fato desses juízes ocuparem uma hierarquia qualquer os exima de adotar determinadas tendências de escolha e de avaliação é adotar a filosofia da objetividade como se esses não compactuassem com determinados pontos de vista.
A partir dessas discussões, Bourdieu (1983) argumenta que a autoridade científica é uma espécie de capital que, como outro qualquer, pode ser acumulado, convertido e, em determinados contextos, revertido em outros tipos de capital. Assim, um estudante desde sua entrada na universidade tem consciência da acumulação de determinadas “experiências” que aumentam sua probabilidade de acesso à pós-graduação e a uma carreira
como pesquisador. Essa acumulação vai de relações interpessoais até trabalhos formais (pesquisas e publicações).
Nessa acumulação de capital, a publicação de trabalhos científicos, como os artigos científicos, desempenha papel fundamental para a distinção de um cientista. O número de publicações, a qualificação e o alcance do periódico em que um artigo é publicado, bem como o tempo decorrente entre as publicações, e a visibilidade do pesquisador de acordo com o número de autores - quanto mais autores, menos visibilidade - são todos fatores que diferenciam um cientista e um determinado campo científico.
A partir dessas questões, Bourdieu (1983) sugere que o campo científico é estabelecido e mantido em detrimento de seus praticantes mais respeitados – os dominantes. Esses buscam a todo custo manter uma concepção de ciência e os rumos da área através da educação científica transmitida aos seus alunos.
Os dominantes consagram-se às estratégias de conservação visando assegurar a perpetuação da ordem científica estabelecida com qual compactuam. Essa ordem não se reduz, conforme comumente se pensa, à ciência oficial, conjunto de recursos científicos herdados do passado que existem no estado objetivado sob forma de instrumentos, obras, instituições etc; (Bourdieu, 1983, p.137)
Por fim, Bourdieu (1983) destaca que as subversões em campo científico só seriam possíveis a partir de grupos e de pessoas que estejam à margem do grupo dominante. Isso porque o sistema de controle incide de forma menos efetiva sobre eles.
Em seguida, é apresentado dois exemplos de modelos construtivos da ciência, esses modelos indicam outra possibilidade de interpretação da ciência que parece complementar os descritos até aqui.