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Após a Proclamação da República, a primeira legislação educacional de Pernambuco foi promulgada no governo de José Alexandre Barbosa Lima. O Regulamento da instrução pública foi baixado em janeiro desse mesmo ano. A instrução primária foi organizada em dois cursos: um curso preliminar, oferecido em todos os municípios do estado e um curso complementar, restrito a algumas cidades. As primeiras cidades beneficiadas foram Goiana, Caruaru e Salgueiro, localizadas, respectivamente, na zona da mata, agreste e sertão do estado.

O Programa de ensino do curso preliminar não se prendia ao ensino da leitura, escrita e operações matemáticas. Buscou a formação integral do aluno pelo estímulo dos sentidos. Oferecendo a matéria Noções usuais de coisas e elementos de agricultura o estímulo visual, da fala e do tato foi muito acentuado porque usou o método oral e concreto de ensino pela presença concreta de objetos. Se estes não estavam presentes, valia a representação deles através de mapas e aparelhos que fossem necessários para explicar o tema da aula.

O sentido da audição estimulado através do ensino da Música. A coordenação motora através de Desenho à mão livre ou com instrumentos de precisão, dos trabalhos de bordado prescrito para as meninas. O estímulo ao raciocínio pelo ensino da Aritmética e Geometria. Também estimulou o gosto pelo belo e o forte, através da ginástica e dos exercícios calistênicos.

Por sua vez o curso complementar, distribuído em três anos de duração, aprofundou esta proposta de ensino. Ofereceu outras matérias de estudo, dentre as quais destaco a proposta do ensino de Noções de higiene pública e privada, assumindo o estatuto de matéria escolar isolada. Ao que parece, este governador também se preocupou com quantidade de escolas. Um exemplo, talvez até, isolado é o depoimento de Ulysses Lins (1967, p.294-295) em suas

memórias ao declarar que “Barbosa Lima fora o primeiro governador a lançar vistas para o sertão mandando construir prédios escolares”. Corria, então, o ano de 1898.

Apesar disto, as escolas continuavam desvalidas de professores e tudo que se referisse à cultura escolar.

4.1.1 Aos vencedores as batatas: quem estudava nas escolas primárias do Sertão.

Mais uma vez, a arte imita a vida e, mais uma vez, o “Bruxo do Cosme Velho” como era chamado Machado de Assis, dá o tom da sua prosa, sardônica, para representar o social. Na prosa machadiana, Rubião, após sepultar Quincas Borba61 comemora o fato de ter sido o beneficiado no testamento do defunto. Levantando os braços ele exclama: “Ao vencedor as batatas”.

Transportando esta metáfora para a História da educação poderíamos pensar na exclusão que o projeto liberal da escola brasileira produziu ao longo desse período.

Isto tudo, porque os alunos do sertão ficaram de fora da escola. Ou muito pouco tiveram acesso a elas. Entre, outras coisas pela falta de professores, conforme excerto do relatório do presidente da província, Antônio Gonçalves Ferreira mostrado abaixo.

Fonte: Mensagem apresentada ao Congresso Estadual por Antônio Gonçalves Ferreira, 1904.

Esta falta de escola levou ao arranjo, à improvisação. Quem conta isto é Ulysses Lins de Albuquerque (1967, p.50-51). No capítulo V intitulado “Professores interinos”. É assim que começa sua narrativa: “Naquele ano de 1899, eu tivera como professores – interinos, nomeados pelo governador do Estado, por falecimento do professor Moreira – o pardo Antão Alves de Santana (mais conhecido por Antão Belchior) e João Neiva”.

Continuando sua prosa, ele falou dos livros didáticos “Doutrina Cristã”. Podemos identificar uma matéria escolar – Ensino religioso. O método: a memorização, fazendo os

meninos “decorar as Orações, bem assim aquele latinório do Intróito da Missa. Quando um menino espirrava, ele mandava que os demais lhe dissessem: << Dominus tecum>>, e ensinava, também ao espirrante como agradecer em latim.”

Reforçando a interinidade dos professores, e mesmo a ausência numérica deles, Albuquerque contou que o professor Antão ensinava “particular... pelas fazendas, algumas gerações”. Lembra, os sofistas que Jaeger (2001, p.523) referiu. Para ele “os sofistas são mestres ambulantes, vindos de fora... É por dinheiro que ministram seus ensinamentos. Estes versam sobre disciplinas ou artes específicas e dirigem-se a um público seleto de filhos de cidadãos abastados”. Ulysses fez parte da elite econômica de Alagoa de Baixo.

Eis a força da literatura autobiográfica para a história da educação (SOUSA, 2000). Desvela o que os documentos oficiais, muitas vezes, omitem. Aí estão as pistas quase imperceptíveis para conseguir se contar uma história.

Por isto, àqueles alunos que chegavam ao fim do ciclo escolar, apesar de todos os percalços, aos vencedores deste processo “as batatas”. E como pensou Rubião “as batatas em suas várias formas” para usufruir “de antemão o banquete da vida”.

As memórias de Ulysses, mostram outros fatos que contribuíram para esta ausência de alunos aprovados e concluindo o curso primário. Para ele, o que se dava era que, simplesmente, não havia realização de exames para avaliá-los. Era uma raridade o inspetor de ensino se apresentar na cidade para aplicar as provas. Assim, os alunos permaneciam cursando a mesma série várias vezes ou deixavam de estudar para trabalhar ajudando aos pais na labuta do campo62. Poucos, pouquíssimos, eram os exames realizados, e, mais raro ainda, o número de alunos aprovados. E isto não foi difícil de averiguar.

A análise dos documentos da instrução pública de Pernambuco (IP-73, 1904) revelou uma lista de alunos que foram submetidos aos exames finais, no ano de 1904, em uma escola de primeira entrância, localizada em Jatobá de Tacaratu, no sertão de Pernambuco.

62 Existe semelhança entre esta narrativa e a de minha mãe. Criança no final da década de 1927 ela freqüentava a

escola pública primária na vila de Gravatá do Jaburu, interior de Pernambuco. Abandonou os estudos porque “não havia prova, a gente ficava estudando a mesma coisa todo ano. Não tinha exames, não tinha... me cansei e saí da escola...fui ajudar meu pai que era pobre...mas eu não parei de estudar...eu ficava tomando conta das cabras, sentada embaixo de uma árvore estudando no livro de Felisberto de Carvalho. Eu me lembro da história do demônio de um dos livros dele. Decorei o nome de todas as tribos de índios. Se me perguntarem ainda me lembro.”

Fonte: IP-73, 1904.

Seria apenas mais um nome, mais um número entre os milhares que se matricularam e freqüentaram a escola primária pública do sertão pernambucano. Seria um dos alunos que teria escapado ao destino de tantos outros, se ele não fosse alguém que estava destinado a compor e ajudar na composição da história de Pernambuco. Quem diria!

Anos, décadas, mais tarde, este mesmo Sérgio, o número “83” foi nomeado interventor do estado de Pernambuco, durante o regime do Estado Novo. Implementou a Liga Social contra o Mocambo. Um projeto de governo que, sob a alegação higienista, conseguiu remover os mocambos do Recife (MONTEIRO, 2005).

Quem caracterizou esta situação foi Tomaz Tadeu da Silva

O resultado é que as crianças e jovens das classes dominantes são bem-sucedidas na escola, o que lhes permite o acesso a graus superiores do sistema educacional. As crianças das classes dominadas, em troca, só podem encarar o fracasso ficando pelo caminho. (Tomaz Tadeu da Silva, 1999, p.35)

Aonde foram parar todos os alunos das escolas e os pobres dos mocambos? No documento em epígrafe está, registrada a aprovação do aluno “Agamenon Sergio de Godoy Magalhães” que, ao que parece, tinha o número de matricula “83”. Nesta época, os alunos faziam matrícula, diretamente com o professor, que ia registrando seus nomes, à medida que se apresentavam para freqüentarem as aulas. Não havia uma ordem alfabética.

Por que eu trouxe estas informações? Porque segundo André Chervel (1990, p.198) a estabilidade de uma disciplina, no programa curricular, se relaciona com o processo histórico quando, então, é possível fazer o arco de sua trajetória, indo da gênese, apogeu ou consolidação e seu ocaso ou mudança e tudo isto se assenta em dois pólos “o objetivo a alcançar e a população de crianças e adolescentes a instruir”.

Neste caso, é de supor que, além dos alunos que ficavam pelo caminho, engrossando as fileiras dos trabalhadores desqualificados, por serem analfabetos ou quase isto, ficavam aqueles que não tinham acesso à escola pela falta de professores63.

A mudança na gestão do estado, com a saída de Barbosa Lima, levou à reorganização do ensino e promulgação, em julho de 1896, de outro Regulamento para a instrução pública do estado de Pernambuco.

A organização do ensino primário em dois cursos permaneceu a mesma. O programa curricular do curso preliminar permaneceu inalterado. Entretanto, o programa do curso complementar sofreu drástica modificação, ficando restrito ao ensino das seguintes matérias: Francês, Português e as Matemáticas. O ensino da Higiene foi suprimido

Vigorou, com modificações sucessivas, até 1903, quando foi promulgado o novo Regulamento para a instrução pública do estado.

Benzer Belgeler