İŞLETMELERİN FİNANSAL BAŞARISIZLIK TAHMİNİ
4.5. Araştırmaya Uygun Model Seçimi
Neste subcapítulo, serão investigadas as iniciativas políticas e culturais que antecederam e abriram espaço para a consolidação do Ministério da Cultura, em 1959, levando-se em conta o pioneirismo da França em relação a ações de preservação e o papel da Unesco no âmbito do patrimônio histórico.
Para estudar o significado e a trajetória da política cultural francesa, é preciso compreender primeiramente a noção de «exceção cultural», tão cara aos franceses, pois norteia as relações entre Estado e cultura.
Segundo Serge Regoud78, a noção de exceção cultural veio à tona em 1986, durante as negociações do Uruguay Round, como oposição à GATT (General Agreement on Tarifs and Trade: Acordo geral sobre tarifas duaneiras e comércio). O GATT é um tratado sobre a organização do comércio internacional, que determina um princípio de liberalismo internacional de trocas comerciais em relação a determinadas categorias de produção e de mercadorias, incluídas aí o que Regoud chama de oeuvres d’esprit, isto é: produtos culturais, principalmente obras cinematográficas e audiovisuais. Porém, a noção de exceção cultural do Estado francês surgiu mesmo no debate público em 1993, ao mesmo tempo em que a organização internacional GATT conquistava notoriedade na mídia e era descoberta por profissionais da cultura e administradores públicos. Assim, para escapar à aplicação desse mecanismo de livre-troca às obras representativas de uma identidade cultural – e que, portanto, não devem ser definidas como mercadorias – a França, no núcleo da Comunidade Européia, esboçou a ideia de exceção cultural. Desde então, tal noção se tornou slogan e ganhou notoriedade, sobretudo graças à promoção que François Mitterrand fez dela, constituindo um fundamento político sobre a qual a França, e a Europa de uma forma ampla, construíram e mantiveram seus sistemas jurídicos de organização e de proteção do setor audiovisual, conforme comenta Regoud:
L’idée – devenue slogan, grâce au prestige de certains de ses promoteurs comme François Mitterrand ou Jacques Delors, alors président de la Comission Européenne – selon laquelle “l’audiovisuel n’est pas une merchandise comme les autres” a constitué le fondament politique sur la base duquel a été dégagée la notion d’exception culturelle, permettant à la France, et à l’Europe, de maintenir leurs systèmes juridiques d’organisation et de protection du secteur cinématographique et audiovisuel, en échappant aux principes libre-échangistes du GATT.79
78 REGOURD, L’exception culturelle. 2002:11. 79
Porém, se a noção de exceção cultural surgiu nesse contexto de negociação internacional (que, por sua vez, depois resultou na criação da OMC), Regoud afirma que suas premissas são bem anteriores e datam do período posterior à Segunda Guerra Mundial. À época, os acordos franco-americanos Blum-Byrnes, favoráveis às importações de filmes americanos na França, suscitaram protestos unânimes dos profissionais de cinema.
Assim, a exceção cultural francesa busca assegurar a manutenção dos princípios de organização e de financiamento da produção cultural do país, a fim de beneficiar e proteger o produto nacional, se opondo fortemente aos mecanismos de livre-troca transnacional. O conceito vem ganhando mais importância na medida em que, não apenas cinema e televisão ganham notoriedade, mas outros sistemas midiáticos entram em cena, como a internet e a TV a cabo. A pressão exercia pela globalização e pelas indústrias culturais é grande e ameaça o sistema governamental de regulação do audiovisual80.
Pode-se afirmar que a noção de exceção cultural se popularizou e, embora corresponda essencialmente ao cinema e ao audiovisual, geralmente é associada à produção cultural francesa em seu conjunto, sendo vista como uma característica do Estado cultural francês e, conseqüentemente, emblema e fundamento sobre o qual a política cultural foi construída. Por isso que, para estudar a política cultural francesa, é preciso compreender as ideias que nela estão embutidas, mesmo que anteriores à sua criação oficial em 1959, mas representativas de um locus, uma cultura, uma sociedade francesas.
Aliás, mais do que uma ideia ou um conceito, a exceção cultural é um desafio no atual contexto de globalização dos mercados culturais e, de acordo com Philippe Poirrier, “sua existência garante a sobrevivência do setor audiovisual e, por extensão, a identidade da cultura européia”81.
Os teóricos Philippe Urfalino, na obra L´invention de la politique culturelle (2004); Philippe Poirrier, no ensaio “O Estado e a política cultural” (2001); e Augustin Girard, em “1959, la naissance de une politique publique de la culture” (1999), são unânimes em afirmar que o surgimento de uma autêntica política pública da cultura na França tem lugar somente em 1959, com a criação do Ministério da Cultura. Urfalino define a ideia de política cultural como um conjunto de práticas e normas, referenciadas pelo Estado, relativas aos bens culturais de uma nação. Deve-se observar que, antes da administração política de Malraux, a nação francesa já contava com uma herança teórica e legislativa no âmbito da cultura, sobretudo em relação a monumentos históricos; porém, tais ações eram isoladas e não
80 REGOURD, 2002:06. 81
constituíam um repertório coeso e organizado, ficando a critério de cada governo sua aplicação.
De acordo com Poirrier, os cinco regimes que se sucedem na França, de 1815 a 1875, expõem instabilidade política; mas, em contrapartida, demonstram um caráter de continuidade na política acerca das artes e da cultura. Conforme o historiador ressalta, as artes e, sobretudo, o patrimônio, são elementos de coesão nacional. Não à toa, os monumentos despertam especial atenção quanto à existência de uma política de proteção e conservação. Afinal, os símbolos nacionais são utilizados pelo Estado para enfatizar as características da nação e alinhá-las a um projeto coletivo, conforme já colocado por Françoise Choay. Memória e patrimônio são termos conectados ao processo de construção de identidades nacionais; e, no caso da França, se apresentam como elementos constitutivos de uma nação que sempre operou com o próprio discurso histórico como monumento. Sendo assim, apesar da freqüente instabilidade política, a cultura e as artes sempre contaram com o apoio do poder público.
Nos séculos XVII e XVIII, o Estado já se fazia presente na criação cultural, através da fundação de Academias relacionadas às artes, e também das manufaturas reais. Eram comuns as práticas do mecenato real, da censura, e as coleções eram, de maneira geral, restritas à nobreza e ao clero, tradicionais proprietários de bens artísticos de valor, como pinturas, tapeçarias, jóias, livros, mobiliário. As Academias constituíam novos “lugares e bases de cultura”, como as chamava Bacon, destinados à pesquisa, ao estudo e à discussão de ideias, “cujos recursos eram necessários para projetos de larga escala e equipamentos caros”82. Destaca-se, nesse período, a criação da Académie Royale des Sciences (1666), o Observatoire de Paris (1667) e a Académie Française (1635), fundadas sob a égide de Luís XIV. Somadas aos salões informais patrocinados por senhoras intelectuais da aristocracia, esses lugares de cultura, direta ou indiretamente relacionados ao Estado monárquico “forneciam oportunidades para inovação – novas ideias, novas abordagens, novos tópicos – e para os inovadores, fossem ou não academicamente respeitáveis”83. Dominique Poulot se refere ao século XVII como a era da erudição, na qual os domínios da história e da crítica se aproximam, e gerando maior preocupação com fontes, documentos, monumentos e leituras eruditas, a fim de reinterpretarem o passado: “Uma vez estabelecido o valor e a
82 BURKE, Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. 2003:44. 83
confiabilidade desses monumentos de quaisquer espécies, visando uma ressurreição do passado, a definição contemporânea do patrimônio pode ser construída”84.
Com a Revolução Francesa, a relação entre nação e patrimônio se estreita, conforme já tratado anteriormente. Porém, neste momento, se por um lado a noção moderna de museu e de patrimônio histórico se consolida, por outro há também o surgimento do conflito entre as ações de proteção e de vandalismo, conforme assinalam Poirrier e Choay. A destruição de monumentos e obras de arte leva à invenção de uma política de patrimônio nacional, alicerçada na vontade de uma regeneração da nação e de construção de uma memória feita de símbolos e de representações expressivas, signos propagados em conjunto com os ideais Repúblicanos e que se tornam elementos característicos da civilização francesa. O historiador André Chastel também aponta como sendo deste período o surgimento da noção de um inventário geral dos bens culturais – ideia, aliás, que perdurou e foi retomada por André Malraux, quando Ministro. Segundo Chastel:
Sob a acção das academias de província, por volta de 1770/80, foram elaboradas perspectivas gerais, por vezes publicadas sob o título ingrato de “estatística”; nelas se fazia menção, ao lado dos recursos agrícolas, econômicos, etc., às obras históricas interessantes e até mesmo a algumas belezas naturais. Pode ser ínfimo, mas representava uma inovação, na medida em que não é costume na antiga França atribuir aos edifícios e obras de arte uma importância mais do que anedótica.85
A época revolucionária trouxe dilemas e confrontos quanto aos bens culturais, e foi necessário um amadurecimento rápido no que diz respeito às ações em relação ao patrimônio. Ao mesmo tempo em que havia a destruição dos símbolos do despotismo, existia também o interesse em preservar obras de arte e monumentos históricos. Esse interesse, face às ações de vandalismo, trouxe um sentimento de urgência sobre as providências a serem tomadas em relação à proteção, ao ordenamento e ao registro dos bens que restavam. Foi assim que a ideia do Inventário acabou se impondo:
Como é que a ideia do Inventário geral atravessou tudo isto? Ela avançou pela força das coisas. Os tesouros dos conventos e dos bens confiscados aos emigrados amontoaram-se em armazéns. Uma transferência geral precedeu o Inventário geral que foi, em primeiro lugar, uma espécie de “inventário postmortem” das duas ordens desaparecidas. Nas listas que foi possível encontrar e até nos catálogos sumários dos museus que se formaram, as notícias estão longe de ser satisfatórias, mas os espíritos começavam a aproximar-se do problema e a compreendê-lo na generalidade.86
84
POULOT, 2003: 37.
85 CHASTEL, André. “A invenção do inventário”. Revue de l´Art. Paris: CNRS, n.87, 1990, disponível no endereço www.cidadeimaginaria.org/pc/ChastelInventaire.pdf
86 CHASTEL, André. “A invenção do inventário”. Revue de l´Art. Paris: CNRS, n.87, 1990, disponível no endereço www.cidadeimaginaria.org/pc/ChastelInventaire.pdf
No entanto, essa experiência ficou adormecida até o final do séc. XIX, quando Chennevières, após 1871, relança alguns volumes. Posteriormente, o projeto do Inventário é retomado por Malraux, com importante participação do próprio André Chastel, fatos que serão tratados mais adiante.
Durante o Império Napoleônico, a cultura é colocada sob a autoridade de Napoleão I e os pressupostos culturais da revolução sofrem alterações. De 1830 a 1848, a Monarquia de Julho reinterpreta a política de patrimônio, centralizando-a na gestão de monumentos históricos e caracterizando um período de forte interferência do Estado na questão cultural, com objetivos não democráticos, mas que buscam consolidar uma cultura da nação. A concepção de monumento histórico como elemento de forte poder simbólico ligado aos valores e à memória da nação ganha espaço durante o período, sobretudo quando François Guizot – notável historiador e autor de Essais sur l´histoire de France - instaura, em 1830, o Serviço dos Monumentos históricos, criando o primeiro cargo de inspetor-geral de Monumentos Históricos87. Quatro anos mais tarde, o escritor Prosper Marimée é nomeado para o cargo e, em seguida, é redigida a primeira lista de monumentos protegidos. Mérimée é auxiliado pela Comissão dos Monumentos Históricos, com uma equipe da qual fazia parte nomes como Victor Hugo, Montalembert, Victor Cousin e o Barão Taylor, com um trabalho entusiástico88. Assim, o sistema de proteção e registro é controlado e financiado pelo Estado. Segundo Choay: “O número de tombamentos passa de 934 a 3.000 entre 1840 e 1849. As regras de sua seleção não são ditadas por critérios de erudição, mas pelos imperativos pragmáticos e econômicos de uma política de conservação e proteção”89.
Os processos de restauração relativos a esses bens ficam a cargo de arquitetos renomados, como Eugène Viollet-le-Duc. Ainda segundo Vincent, “O Serviço Francês dos Monumentos Históricos, um dos primeiros no mundo, nasceu e, a partir daí, irá ampliar a sua área de atuação”90. Porém, somente no final do século, em 1887, é promulgada a lei relativa às esferas de ação do Serviço dos Monumentos Históricos.
Em suma, pode-se afirmar que, no processo de debate e de reconhecimento dos bens patrimoniais, a França é considerada precursora. Mesmo antes da criação de instituições oficialmente destinadas à consolidação de procedimentos e de referências para proteção do patrimônio, o país já se dedicava ao tema. Segundo Alexander Lobrano, são marcos desse
87 VINCENT, Jean-Marie. Conservação e valorização do patrimônio, 2002. Disponível no endereço: http://www.ambafrance.org.br/abr/imagesdelafrance/conservpatrim.htm
88 CHOAY, 2006:146. 89 CHOAY, 2006:146.
90 VINCENT, Jean-Marie, 2002. Disponível no endereço:
processo a elaboração da lista de monumentos históricos, criada em 1837, e a restauração da Catedral de Notre Dame, em 1844; ações que deram continuidade, portanto, à discussão surgida com a Revolução quanto ao conceito e o destino dos patrimônios de uma nação:
A lista nacional de monumentos históricos foi criada em 1837 e a emocionante restauração de Notre Dame pelo arquiteto Eugène Emmanuel Violet-le-Duc, entre 1844 e 1864, despertou o país inteiro para a importância de proteger e preservar sua vasta herança cultural, ou Patrimoine. A França tem tido um importante papel na Unesco desde sua criação e tem tido uma abordagem pró-ativa na preservação histórica mundial.91
Além disso, importante comentar a realização de grandes eventos, ocorridos em fins do XIX, que buscam propagar a França como modelo de práticas artísticas e culturais: Paris sedia as Exposições Universais de 1855, 1867, 1878, 1889 e 1900, que têm grande repercussão internacional, sobretudo a última. No entanto, Choay destaca que iniciativas como a de Guizot em relação aos bens culturais eram raras, mesmo entre os historiadores, que não costumavam olhar com interesse os monumentos históricos: “No século XIX, os historiadores que queriam e sabiam olhar os monumentos antigos eram exceções e continuaram sendo por muito tempo”92.
Segundo Poirrier, a III República, em 1914, põe em cena uma abordagem liberal e o retraimento do papel do Estado na cultura e nas artes. Dessa forma, o mercado de arte se afirma como legitimador da produção artística, enquanto a proteção ao patrimônio continua sob a tutela governamental. Nesse período, é promulgada a lei sobre os monumentos históricos (31 de dezembro de 1913), que vigora até a atualidade, e dispõe de duas esferas de proteção ao patrimônio histórico: tombamento e inscrição no Inventário Suplementar de Monumentos Históricos.
Para Choay, o advento da industrialização teve grande influência na consagração do monumento como referência histórica93. O movimento de culto ao passado começa a existir em paralelo ao culto à modernidade, configurando a dualidade que persiste até os dias de hoje no que se refere à reflexão e à proteção do patrimônio: o duplo movimento em relação ao passado e ao presente/futuro. Essa conscientização quanto aos valores de referência do patrimônio leva a uma progressiva retomada no Estado na esfera de gestão cultural, cuja participação havia encolhido após a I Guerra Mundial. Segundo Poirrier, a Frente Popular (1936-1938) e o Partido Comunista Francês colaboram nessa tendência, cobrando do Estado mais intervenção pública. Como resultado, em 1941 é criada a lei sobre as escavações
91 LOBRANO, A Unesco na França, In Revista FranceGuide. 2007:18. 92 CHOAY, 2006:129.
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arqueológicas, fato que legitima a ação do Estado em relação ao controle dos vestígios do passado que encontram-se sob a território francês. E, em 1943, é lançada lei complementar a de 1913, que trata da proteção de monumentos históricos, demarcando áreas de proteção (500m) no entorno do monumento tombado. Assim, quaisquer intervenções nessas zonas estão sob a tutela e a autorização do Estado.
Deve-se destacar também o papel de alguns organismos internacionais no estabelecimento de uma ação efetiva no que se refere a políticas sobre bens patrimoniais. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi criada a Sociedade das Nações Unidas e, em 1922, teve lugar o Comitê Internacional de Cooperação Intelectual (CICI), tendo Henri Bergson à frente de sua presidência. Em 1945 foi estabelecida a Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição à Sociedade das Nações e, logo após, é instituída a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Criada em 1945, a Unesco foi fundamental na criação e na consolidação de normas e de documentos para proteção do patrimônio. A Unesco, ao funcionar como organismo autor de programas de referência, traz à tona a reflexão sobre o conceito de patrimônio mundial, pondo em cena a ideia de que o patrimônio cultural extrapola fronteiras geográficas e nacionais, e configura um bem pertencente a toda a humanidade. Vale lembrar que a própria Unesco se caracteriza como um organismo supranacional. O objetivo da instituição era, e ainda é, “acompanhar o desenvolvimento mundial e, ao mesmo tempo, auxiliar os Estados Membros na busca de soluções para os problemas que desafiam nossas sociedades”94, em diversos campos de atuação, tais como educação, ciências sociais, comunicação e cultura. Deve-se observar a dificuldade em precisar quando surgiu o termo patrimônio cultural e histórico, distanciando-se do sentido original de bem essencialmente material, vinculado à ideia de herança e de paternidade. Os dois primeiros documentos de referência no âmbito do patrimônio, a Carta de Atenas (1933) e a Carta de Veneza (1964), trabalham com a ideia de patrimônio histórico e cultural fazendo uso do termo monumento histórico, embora a Carta de Atenas faça rápida menção, num subtítulo, à expressão “patrimônio histórico das cidades”95. A Recomendação de Nova Delhi, de 1956, utiliza o termo patrimônio arqueológico96. A Recomendação de Paris de 1964, relativa às normas de exportação e importação ilícitas de bens culturais, parece avançar na aproximação dos termos, fazendo menção à expressão “o
94 Citação retirada da página virtual da Unesco, no endereço:
http://www.unesco.org.br/unesco/organizaçãoMundo/UNESCOMundo/mostra_documento 95 CURY [Org.], Cartas Patrimoniais. 2004:52.
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patrimônio constituído pelos bens culturais”97. A Declaração da Unesco, de 1966, relativa aos princípios de cooperação cultural internacional abre o campo para ideia de patrimônio mundial, que seria desenvolvida e difundida na Convenção de 1972, ao afirmar que todas as culturas fazem parte do patrimônio da humanidade98. Certo é que a ideia de patrimônio sofreu gradativamente uma metamorfose através dos tempos, incorporando novas noções e novas abordagens da relação entre bem, cultura e memória, daí a dificuldade em determinar uma data que especifique sua origem. Lembro que, conforme Michel Melot aponta, a ampla difusão do termo patrimônio cultural teve lugar no século XX, a partir da criação do conceito de patrimônio mundial pela Unesco, em 1972 e do l´Année du patrimoine, em 198099. A contribuição da Unesco pode ser lida como uma forma de institucionalização do patrimônio cultural no âmbito do Estado, na medida em que o monumento passa a ser pensado de maneira global e coletiva, não mais isoladamente, ainda que esteja sob a responsabilidade de uma nação específica.
O sucesso da recepção que o termo encontra se deve, segundo o pesquisador, à ausência de referências na sociedade atual, em que as fronteiras geográficas e sociais, assim como o sentido e a importância de representações coletivas, como a família e a nação, se mostram indefinidas e geram angústia:
Sem dúvida esse sucesso se deve à busca de vínculos em um mundo no qual as fronteiras da camadas da comunidade se confundem, do clã à humanidade; e, ainda, as coletividades contratuais se multiplicam, pondo em confronto seus caracteres e seus interesses divergentes.100
Atualmente, a França possui cerca de 30 Patrimônios Mundiais classificados pela Unesco, cuja sede é em Paris, datando as primeiras classificações de 1979.
Assim, se a intervenção do Estado nas práticas coletivas culturais se inscreve na história francesa bem antes de 1959, é também inegável que a criação de um Ministério da Cultura marca a ruptura não apenas com o poderoso setor de Educação, mas também com iniciativas isoladas e pouco consistentes de intervenção pública na cultura. No subcapítulo seguinte será discutido o papel da cultura da memória como mediadora da relação entre sociedade e patrimônio. E, para finalizar o primeiro capítulo deste trabalho, no subcapítulo 1.6 serão apresentadas as ações de André Malraux à frente do Ministério, dando início a um processo