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Araştırmaya Katılan Gençlerin Giysi Satın Alma Davranışları

2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE ve İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

4.3. Araştırmaya Katılan Gençlerin Giysi Satın Alma Davranışları

Vários autores apresentam uma diferenciação entre o texto autobiográfico e o romance a partir do critério ficcional. Lima (1986) considera que as dificuldades em se diferenciar

o ficcional do factual não podem apagar suas especificidades. Ele observa que, apesar das fronteiras que separam o gênero ficcional do autobiográfico não serem absolutas, elas não são espécies discursivas indistintas. Elas se separam pelo papel que reservam ao “eu”. Na ficção o “eu” empírico do escritor é um suporte da invenção e na autobiografia é a fonte de experiências que tentará transmitir. O autor postula que a autobiografia não é nem história nem ficção. Só a partir do Renascimento, quando o “eu” adquire destaque, quando ele se faz uma figura de contraste com seu meio, é que o material autobiográfico não poderia se confundir com o puro documento histórico.

Se a autobiografia apresenta suas especificidades, esse “gênero literário” é marcado por contradições e incongruências que o acompanham desde o seu surgimento. Somente no século XX a autobiografia e o romance foram diferenciados. Contudo, a despeito de todos os esforços para diferenciar os vários estilos de “escrituras do eu”, essas escrituras se inter-relacionam e se entrelaçam. O romance autobiográfico, uma mistura entre a realidade e a ficção, se diferenciaria da autobiografia, que se pretende mais realista. Entretanto, a delimitação entre o ficcional e a realidade é bastante tênue para que se possa situar a autobiografia totalmente no campo da realidade e o romance somente no campo da ficção.

Essa vizinhança de discursos entre a historiografia, a ficção e a autobiografia é reconhecida por Lima (1986). O historiador se quer “relativamente isento” do que descreve e analisa. Ele tem e deve ter a pretensão de oferecer “a verdade” sobre seu objeto. Já na ficção, o seu limite não é a verdade, mas as possibilidades de conceber a existência de acordo com o seu imaginário. Entre a ficção e a autobiografia, o “eu” é a barra separadora. “Entre a história e a autobiografia, a barra separadora são suas pretensões diversas à verdade” (LIMA, 1986: 302). Mas esses territórios vizinhos apresentam uma inter-relação e certa zona comum e indistinta. O texto autobiográfico ora se inclina para a história, ora para o ficcional.

Alguns autores, portanto, consideram problemática a separação entre a ficção e a história. Para Philippe Lejeune3, o texto autobiográfico e o texto ficcional obedecem às mesmas leis. A diferença entre eles não está no texto, mas no “paratexto”, no

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Entrevista com Philippe Lejeune. Ipotesi, Revista de Estudos Literários. Juiz de Fora, vol. 6, n. 2. p. 21- 30. (s. d.)

compromisso do autor com o leitor em dizer a verdade sobre si mesmo. Em um polo, o compromisso com a verdade, em outro, o descompromisso, a instauração de um jogo, de um distanciamento. Entre os dois polos há posições intermediárias, comprometimentos, ambiguidades, tudo o que se define pelo termo vago de “autoficção”, segundo Lejeune. O compromisso de dizer a verdade implica a possibilidade de verificação, compromete social e juridicamente seu autor. No plano relacional, Lejeune comenta que o autobiógrafo pede ao leitor reconhecimento, aprovação e amor. E propõe a reciprocidade. Quanto às fronteiras, existe uma série de produções híbridas, autoficções, memórias imaginárias e autobiografias em terceira pessoa.

Os diários íntimos podem ser definidos como gêneros literários? Para Lima (1986), comumente a palavra gênero parece encobrir apenas as manifestações literárias. O autor, no entanto, considera que o termo tem uma extensão maior que o termo literatura. Para ele, “gênero não significa outra coisa senão uma forma historicamente reconhecida de comunicação, seja literária ou não literária, seja escrita ou oral, seja presente em discursos claramente configurados, seja em discursos difusos, como o do cotidiano” (1986: 247). Neste sentido, observa que a categoria gênero deve ser subordinada e associada à ideia de discurso. Os discursos são definidos pelo autor como formas de territorialidade, que estabelecem descontinuidades sobre o contínuo da parole e assim possibilitam que um mesmo enunciado tenha diversas significações, de acordo com o contexto discursivo em que se mostra. Os gêneros se integram a cada discurso, como modalidades de manifestação deste. Assim, de acordo com Lima, podemos identificar o diário como um gênero, não literário, mas de discurso.

O “eu” é a matéria-prima indispensável para a escrita do diário e da autobiografia, “pois tem como seu traço absoluto o intercâmbio de um eu empírico com o mundo” (LIMA, 1986: 255). Os textos autobiográficos (como os diários) supõem um duplo e simultâneo foco: como o eu reage ao mundo e como o mundo experimenta o eu. Sabemos que todo gênero, literário ou não literário, é uma forma de comunicação dotada de regras. O leitor, ao ler uma autobiografia, a reconhece mesmo que formalmente não saiba defini-la. O diário apresenta, portanto, características formais que levam o leitor a reconhecê-lo. Lima (1986) insere o material autobiográfico entre a história e a ficção, não se instalando em um polo nem em outro. Para ele, o relato do autobiógrafo pode constituir

“seu próprio conto mítico”, que não é experimentado pelo autor como ficção, mas como algo em que se crê. Assim, o diário é um texto em que o autor busca construir o seu próprio conto mítico.

Para Lejeune (s.d.), a autobiografia é uma arte difícil, pois difícil é construir uma narrativa que prenda a atenção dos outros. A autobiografia é pouco escrita e muito lida. Já com os diários acontece o oposto. Muitos são escritos e poucos são lidos. O diário não intimida. Todos acham ter o direito de escrever um e se creem capazes de fazê-lo. Mas, para o autor, é uma escrita invisível, quase não é publicada e é frequentemente destruída. Lejeune afirma que antes de 1986 ele não pesquisava diários, pois tinha preconceitos com relação a eles. A partir dessa data tentou estudá-los, inicialmente não como um gênero literário, mas como prática ordinária.

A característica fundamental da escrita autobiográfica, que a difere da escrita ficcional, para Lejeune (1975), é sua identidade entre autor, narrador e personagem. Para o autor, a semelhança deve fundar a identidade. Ele diferencia basicamente três formas de escrita biográfica: o diário, a memória e a autobiografia. Para o autor, a escrita que ele chama de memorialística pode assumir outras denominações, como romances pessoais, diários intimistas, crônicas memoriais e romances autobiográficos, embora todas elas sejam sobreposições da trilogia clássica.

Algumas especificidades do gênero diarístico são destacadas por Lejeune (1975). Segundo o autor, no diário não existe a preocupação com a publicação e o autor se exprime com a maior liberdade possível. Já a correspondência, por exemplo, apesar de tão datada e embebida das delimitações impostas pelo cotidiano quanto o diário, apresenta uma diferença crucial em relação a ele: as cartas possuem um interlocutor explicitamente definido, ao passo que o diário pertence ao diarista, sendo ele, a princípio, seu próprio interlocutor.

Uma outra diferenciação pode ser feita pelo critério temporal. O diário é escrito no tempo presente, mesmo que o seu autor recorra a lembranças do passado para compor o presente, enquanto as autobiografias e memórias recorrem à memória de eventos e fatos situados no passado. O diário é, então, uma narrativa feita na primeira pessoa, datada, que segue uma ordem cronológica e de caráter confessional.

A autobiografia se define como um relato retrospectivo em prosa, que uma pessoa real faz de sua própria existência, dando ênfase à sua vida individual e, em particular, à história de sua personalidade. Lejeune (1975) reconhece os limites dessa definição e propõe uma série de elementos organizados em categorias diferentes: forma de linguagem (narração em prosa), tema (a vida individual, a história de uma personalidade), situação do autor (identidade do autor como pessoa real com o narrador do discurso), posição do narrador (identidade do narrador com a personagem principal, perspectiva retrospectiva do relato). Discutindo essas categorias, o teórico demonstra a falibilidade do critério de pessoa gramatical, uma vez que a primeira pessoa tanto pode ser usada numa autobiografia quanto num romance, e coloca em xeque critérios como a autenticidade da narrativa, ao defender a hipótese de que a ficção pode até encorajar uma confissão mais sincera e menos censurada pelo pudor.

Assim, se a autenticidade da narrativa e a identidade do autor são critérios problemáticos, a questão da identidade colocada em jogo nas autobiografias só pode ser tratada, segundo o autor, através do pacto autobiográfico. O que diferencia basicamente essas formas literárias de outras são as marcas da escritura do eu e os modos de inscrição de si mesmo, que resultam num pacto denominado por Lejeune de pacto autobiográfico (LEJEUNE, 1975). O pacto autobiográfico é selado num acordo tácito de cumplicidade entre quem escreve e quem lê, à medida que o texto avança e que se partilham experiências do mundo privado do escritor. Mas, se a pessoa gramatical não é um fator decisivo na diferenciação das diversas formas de escrita literária, toda a existência do que designamos como autor resumir-se-á ao nome impresso sobre a capa do livro, sobre a página de abertura, acima ou abaixo do título do volume, à qual se atribuirá a responsabilidade da enunciação de todo o texto escrito. Uma pessoa cuja existência é atestada pelo estado civil e verificável.

De acordo com Lejeune, portanto, o nome próprio, “signo da realidade”, faz com que o autor seja um nome de pessoa, assumindo uma “identidade” que se mantém nos diferentes textos publicados. Assim, os escritos autobiográficos, como o diário, são definidos pela identidade de nome próprio entre o autor, narrador e personagem. Fica-se então indicado que o gênero autobiográfico é baseado numa crença em uma identidade entre o personagem e a pessoa real.

O objeto da autobiografia é o nome próprio, que designa um indivíduo, como uma identidade estável. Bourdieu (2005) observa que o nome próprio é um “designador rígido”, que “designa o mesmo objeto em qualquer universo possível” (KRIPKE, citado por BOURDIEU, 2005: 186). Para Bourdieu, por essa forma inteiramente singular de nominação que é o nome próprio, institui-se uma identidade social constante e durável, que permite ao indivíduo biológico ter uma identidade social em todos os campos possíveis onde ele intervém como agente, em todas as suas histórias de vida possíveis. Ele assegura a constância através do tempo e a unidade através dos espaços sociais. A assinatura, signum authenticum, autentica essa identidade, é a condição jurídica das transferências de um campo a outro (BOURDIEU, 2005). O nome próprio é uma instituição que assegura aos indivíduos designados, para além de todas as mudanças e flutuações biológicas e sociais, a constância nominal, a identidade no sentido de identidade consigo mesmo, que a ordem social demanda:

O nome próprio é o atestado visível da identidade do seu portador através dos tempos e dos espaços sociais, o fundamento da unidade de suas sucessivas manifestações e da possibilidade socialmente reconhecida de totalizar essas manifestações em registros oficiais, curriculum vitae, cursus honorum, ficha judicial, necrologia ou biografia, que constituem a vida na totalidade finita, pelo veredicto dado sobre um balanço provisório ou definitivo (BOURDIEU, 2005: 187).

Assim, o relato de vida aproxima-se do modelo oficial da apresentação oficial de si, como a carteira de identidade, o curriculum vitae, entre outros, como sublinha Bourdieu (2005). No entanto, o relato de vida varia tanto em sua forma como em seu conteúdo, de acordo com a “qualidade social” do mercado no qual é oferecido. O autor acrescenta que a apresentação pública de sua vida privada implica um aumento de coações e de censuras específicas. Mas apenas o nome próprio apresenta um estatuto rígido e fixo. Não se deve pretender compreender uma vida como uma série única e organizada em acontecimentos sucessivos. Os acontecimentos biográficos se definem como colocações

e deslocamentos no espaço social, cuja personalidade designada pelo nome próprio nada

mais é do que “o conjunto das posições simultaneamente ocupadas num dado momento por uma individualidade biológica socialmente instituída e que age como suporte de um conjunto de atributos e atribuições que lhe permitem intervir como agente eficiente em diferentes campos” (BOURDIEU, 2005: 190). A discussão sobre o nome próprio será aprofundada adiante, considerando a perspectiva psicanalítica.

A partir das considerações psicanalíticas, sabemos da impossibilidade da existência dessa “identidade” entre o personagem e a pessoa real, já que essa “identidade” é imaginária, da ordem do “eu”. O estatuto de sujeito na psicanálise revela a complexidade que envolve um relato de si.

Freud, em Um estudo autobiográfico (1974 [1924-1925]), ressalta que, ao escrever um estudo autobiográfico, ele deve esforçar-se por construir uma narrativa na qual atitudes subjetivas e objetivas, interesses biográficos e históricos, se combinem em nova proporção. No seu discurso na casa de Goethe, em Frankfurt4, comentando sobre as biografias de Goethe, Freud destaca que mesmo a melhor e a mais integral delas não pode elucidar o enigma do dom miraculoso que faz um artista, e não nos ajuda a compreender melhor o valor e o efeito de suas obras. Assim, mesmo a melhor e a mais completa biografia não é totalmente reveladora. Ele acrescenta que não há dúvida de que uma biografia desse tipo satisfaz uma poderosa necessidade existente em nós. É o desejo de aproximar-mos de tal homem de maneira humana. O biógrafo, por outro lado, deseja também trazer seu herói para mais perto de nós. Ele tenta reduzir a distância que o separa de nós e tende ainda no sentido de uma degradação. Freud destaca a nossa atitude para com os mestres como de ambivalência. “...Nossa reverência por eles via de regra oculta um componente de rebelião hostil” (p.245). A admiração comporta, portanto, a hostilidade. A respeito de Goethe, Freud ressalta que “Goethe, como poeta, não foi apenas um grande revelador de si mesmo, mas também, a despeito da abundância de registros autobiográficos, um cuidadoso ocultador de si mesmo” (p.246). Ainda citando Mefistófeles, Freud conclui: “O melhor do que sabeis não pode, afinal de contas, ser contado a meninos” (1974 [1930]: 246).

Essa reflexão freudiana nos permite fazer uma aproximação da biografia com a escrita do diário. O autor de um diário pretende aproximar-se de seu leitor (mesmo que imaginário), por meio de sua escrita. Toda escrita é, portanto, dirigida a um outro. Quando se escreve para um outro, mesmo imaginário, o sujeito busca, de alguma forma, atender a esse outro, agradá-lo, fazer-se compreender ou construir uma imagem que atenda à suposta demanda do outro. Ao mesmo tempo, a leitura de um diário publicado oferece ao leitor tanto a chance de identificar-se com um “modelo ideal”, como também

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FREUD, Sigmund. O prêmio Goethe (1930). In: O futuro de uma ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos. Vol. XXI. Edição Standard das Obras Completas, Imago, 1974.

com um modelo mais humano, mais próximo, obtendo certa satisfação na “degradação” do outro, que se apresenta como alguém que falha, erra, peca ou sofre. A partir do comentário de Freud sobre Goethe, é possível compreender como toda escrita (poética ou não, autobiográfica ou não) envolve a revelação e a ocultação de si mesmo.

Para Paul de Man5, a autobiografia não é um gênero, mas uma figura da leitura ou da compreensão que ocorre, em algum grau, em todos os textos. Assim, não são tão claros os limites que separam a autobiografia (incluindo o diário) do romance. O lugar do autor/narrador em um texto é sempre móvel, deslocando-se entre os diversos personagens, numa articulação que se constrói em vários planos da narrativa, mostrando a dimensão da ambiguidade entre realidade e ficção. Mesmo no texto autobiográfico há uma divisão entre o sujeito do enunciado e da enunciação, que atesta a cisão do sujeito. Ao escrever um texto sobre si mesmo, o autor constrói um percurso no próprio ato da escrita, tomando um rumo muitas vezes totalmente imprevisto para o próprio autor.

Se a autobiografia supõe um sujeito que diz sobre si, a psicanálise nos adverte que o dizer é que tem por efeito o sujeito, já que o sujeito é um efeito do discurso (LACAN, 1998 [1957]). O sujeito falante inscreve-se na linguagem que o constitui e o institui. O sujeito é escrito e inscrito no texto, onde ele se encena. O sujeito da enunciação está aquém da escritura, que é, no entanto, a sua condição. É o lugar onde se produz o discurso que suporta o autor e do qual sua verdade é um dos efeitos. Assim, é ao dizer- se que o sujeito se constitui como seu produto. A distinção entre historiografia e ficcionalidade, que poderia permitir uma diferenciação entre autobiografia e romance, torna-se, portanto, problemática, a partir dessas considerações psicanalíticas.

Pode-se pensar, portanto, que toda escrita comporta essa ambiguidade, ela é ao mesmo tempo factual e ficcional, e toda escrita ficcional é também autobiográfica. Se o diário, como uma “escrita de si” ou autobiográfica, baseia-se num contrato, numa identidade de nome próprio entre o autor, o narrador e o personagem, sabemos que essa identidade não é senão imaginária. Na narrativa sobre si, constrói-se um sujeito através de uma sucessão de fatos descritos no diário. Mas uma sucessão nunca é senão imaginária. “Não há uma última instância real que legitime as ordens seriais” (MILNER, 1996: 62).

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MAN, Paul de. “Autobiography as de-facement”. In: The rhetoric of Romanticism, p.70. Citado por MIRANDA, José A. Bragança e CASCAIS, Antonio Fernando. A lição de Foucault. In: FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa: Nova Veja, Passagens, 2006, p.13.

Toda história, segundo Lacan, é da ordem da falácia, e “a primeira adulteração reside justamente na homogeneização mínima que supõe a seriação temporal” (p.61). Veremos adiante como todo romance sobre si é fundamentalmente um romance familiar.

Benzer Belgeler