O sentido de sistema de literatura do qual mais me utilizo na construção deste texto vem do teórico Siegfried Schmidt que, por sua vez, inspirou-se na contribuição de Niklas Luhmann. Seguindo a orientação do teórico da história da literatura, em determinado momento, interrompo a circulação de idéias alemãs e proponho alguns conceitos que estão afinados às perspectivas encontradas na análise dos componentes e na própria configuração do sistema de literatura que toma corpo na pesquisa.
Para uma articulação entre os dois textos das autoras Dulce Mascarenhas e Ívia Alves, e sua estreita ligação com a literatura de jornal ensaiada em O Imparcial, exponho acepções teóricas relacionadas a sistema da literatura. Um desses conceitos é de esteio de sistema: os esteios podem ser mentalidades individuais ou projeções de obra que possibilitem aparecer os mecanismos correspondentes ao
que denomino sistema de literatura. Vital esteio é o próprio crítico Carlos Chiacchio, pensado como um conjunto de texto possível de ser lido, um grupo de projetos passíveis de serem avaliados e, por fim, uma prática capaz de ser acompanhada. Como o nome indica, uma das suas funções é providenciar que o sistema literário possa girar, posto que sua estrutura exige que a gravitação de identificadores, atraídos ou repelidos, doem os contornos do que é o sistema de literatura da Bahia.
A estrutura circular do sistema contribui para uma visão peculiar de tempo, na qual não haveria a necessidade da transição de um início para um fim, mas de uma aproximação ou distanciamento constantes e perceptíveis por meio de uma metodologia. O fim seria a desagregação e reordenação dos esteios em prol de outra configuração sistêmica, talvez pátria (não mais baiana) ou estética (permuta de códigos literários). A abordagem da produção de Chiacchio se dá porque suas funções são chamadas a “credenciar” o sistema e ser aceito por ele. Em outro momento, artefatos diferentes tomariam o lugar mecânico. A obra de Jorge Amado, adaptada pelos meios de comunicação de massa, assumiria matizes de mecanismo. Esse viés imagístico providenciaria a recepção da nacionalidade contemporânea para o sistema de literatura baiana.
A função de esteio de sistema não é auto-suficiente ou imanente. Ela depende de uma infinidade de fatores interligados que devem ser explicitados. Um deles é a contingência das idéias em determinada época, o que significa não haver neutralidade ou superioridade a elas. O esteio é um ator e não uma entidade. Outro aspecto é o uso feito e os benefícios alcançados ou proporcionados dentro dessa temporalidade específica. Ou seja, toma-se partido do poder e dele se beneficia ou, se ao lado das vítimas, quais as experiências sofridas. Dada a complexidade e infinidade de possibilidades, é preciso clara identificação e recortes de corpus do esteio em projetos.
A consagração canônica torna-se um entre os diversos motivos para empresa de projetos de pesquisa. Sabe-se que está superada a tentativa de suplantar o tempo e naturalizar um conjunto de experiências criativas construídas em prol de topos fragilizados como a epistemologia e a ideologia. Nenhum outro lugar de estudo de literatura pode mostrar como são perecíveis os códigos éticos ou estéticos
aparentemente consagrados pelo mesmo suporte que o jornal.
Não há uma necessidade de transformar Chiacchio num herói da narrativa historiográfica, mas de destacar a sua experiência, transformando-a num conjunto de idéias que podem ser atravessadas e apontar um caminho para o aparecimento da literatura de jornal. Nesse sentido, não haveria uma polarização da figura do crítico, outros autores podem aparecer providenciando o mesmo caminho. Sofrer o risco da contingência e estar submetido ao intransigente movimento da atuação ― performance, encenação, leitura ou crítica ― faz com que a produção do polígrafo assuma a feição de acervo que o filósofo alemão Martin Heidegger categoriza de rastro para a cura.40
Uma vez delineado o conceito de esteio de sistema para a contenção do postulado útil (utilidade heideggeriana) de cura, mesmo que retirado do espinhoso glossário do pensador alemão, no quinto capítulo, subseção 5.1 e 5.2, interponho dois formatos de leitura da obra crítica e periódica de Carlos Chiacchio, sempre articulados com os objetivos de estudo da literatura de jornal em O Imparcial. É nessas formas de ler que há a possibilidade de aparecer a referida cura de que se pode denominar a contribuição de Chiacchio, a sua prática de esteio de sistema, para a literatura de jornal e a literatura da Bahia.
Segundo a postulação do filósofo germânico, nunca o ser estará per si (um dado) mas será enquanto ação consciente de pesquisa e reflexão. O fato de estar aí (Da Sein) não significa que o sistema de literatura esteja imune ao assédio do método que o aborda. O ser aí é sempre a verdade, mas não uma verdade dada e sim ordenada. Sendo assim, o ser da literatura de jornal é uma obviedade literária a partir somente de uma prática de projeto ou ordenação (uma fenomenologia). Em se tratando de literatura, as reflexões do autor de Ser e tempo questionam a aparição do grande escritor sem todo o aparato de sistema que o contorna. Em outras palavras, sempre há uma ordenação em caminho para a performance desse ou daquele manifesto do ser ― do ser do sistema da literatura da Bahia.
O impacto das leituras pode fornecer as importantes metodologias
40 Uma abordagem mais detida foi feita anteriormente, na parte 2.3, ‘O jornal como rastro para abertura da cotidianidade’.
responsáveis pelo formato como a literatura circula na Bahia nos seus diversos espaços disponíveis, providenciando um modelo de sistema de literatura para o recurso a estudo de fontes, análises, historiografias, como também a visão que o sistema tem de si mesmo, compreendendo aí os seus criadores e incentivadores. Dulce Mascarenhas é um desses indivíduos influentes. Seu modelo metodológico vem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual o professor baiano Afrânio Coutinho providencia, em dupla jornada, uma série de projetos para a renovação dos estudos literários brasileiros. Sua dicção para a visada da literatura local recebe influxos de um lugar específico que não deve ser desprezado. O fato de saber a origem metodológica do sujeito pesquisador implica uma série de conseqüências para o sistema descrito na pesquisa.
De um lado, Coutinho projeta e realiza mecanismos de pesquisa como livros de ensaios, enciclopédias, dicionários e histórias da literatura que beneficiam a literatura da Bahia. Para quem precisa encontrar uma biografia ou verbete de autor ou movimento, muitas vezes, esses projetos de erudição e obstinação pessoal de pesquisa são os únicos lugares de êxito para nomes tão pouco influentes na cadeia da literatura. O formato de elo interligado e circulando talvez seja a melhor imagem de sistema de literatura: a cadeia a identifica, o movimento é a temporalidade de Heidegger, que confere identificação.
Silviano Santiago encontra uma brecha no tempo para trazer Coutinho ao debate contemporâneo, mesmo que como um tipo de “vilão” da perda do espaço do ensaio literário nas colunas dos jornais.41 Creio que quanto mais se fizer o passeio
pelo bosque dos subterrâneos da literatura, termo de Santiago, mais a contribuição obsessiva de Coutinho ganha contraste. O autor de A tradição afortunada esforça-se para deslocar a atenção dos estudos literários do impressionismo das “folhas sérias” e dos “pasquins” para o cientificismo dos gabinetes universitários, mas não é responsável pela perda do “estilo agradável e escorreito da escrita” desses novos especialistas.
O trabalho da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) e depois Programa
41 SANTIAGO, Silviano. A crítica literária no jornal. In: ______. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004, p. 157-167.
de Pós-Graduação da UFRJ acabam contribuindo com contornos firmes para a descrição do sistema de literatura da Bahia, quando são acessados. Nesse momento, não se pode esquecer a afetividade de Afrânio Coutinho para com os seus pares baianos e vice-versa, como o próprio Chiacchio42
, Eugênio Gomes, Pinto de Carvalho e Adonias Filho. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, membro correspondente da Academia de Letras da Bahia, Coutinho é reconhecido pelo sistema literário como uma espécie de esteio de sistema. Sua atuação nunca abandona uma prática de guarda do ser da literatura porque o sentido de intelectual não está limitado aos obstáculos da incompreensão ou crítica dos seus pares.
O organizador de A literatura no Brasil é capaz de ir além da polêmica, sabendo que, em algum momento, suas defesas seriam contra o mesmo sistema que o acolhe imediatamente. A função de esteio permite que se veja o sistema, mas não necessariamente trabalha pela autorização constante do mesmo. Se assim fosse, arriscaria tomar ciência de somente uma face da ordem da literatura ou somente o lado estético ou ético. Dentro de um ambiente mais corporativista, é melhor convencionar-se o sistema do início para o fim (oculta-se o que não interessa e mostra-se o êxito para o momento, como num novelo de lã), e não descrever sua circularidade sistêmica: aparência de mais faces opostas e conflitantes, ao mesmo tempo.
Por outro lado, o mesmo Coutinho propõe a substituição das práticas de literatura impressionistas nos periódicos, com a chegada do New Criticism. Cobrando uma cientificidade fundamental aos estudos, também modifica sensivelmente o movimento do sistema de literatura que a sua orientanda iria encontrar no acervo do articulista Carlos Chiacchio; além de condicionar o projeto de pesquisa na seção 'Homens e obras' à identificação ou não de um crítico literário (ideal) ou a articulista impressionista (pejorativo), a política de orientação de Coutinho sobre o trabalho de Mascarenhas fornece as fontes da pesquisa. A explicitação das origens da captação institucional dos pesquisadores revela a força e a influência do método na pesquisa de literatura.
42 Na coleção Caminhos do Pensamento Crítico, também organizado por Coutinho, há um capítulo sobre Carlos Chiacchio.
A outra contribuição a respeito da obra de Carlos Chiacchio vem da professora Ívia Alves, no estudo da revista Arco & Flexa. A leitura do texto da especialista será mais crítica porque o formato estabelecido pela pesquisadora prevê um diálogo menos conciliatório. Confiante num método de abordagem da produção de literatura da Bahia, o livro estudado exige um diálogo crítico confrontador e transparente. Ivia Alves rompe o pacto de simpatia com o sistema de literatura da Bahia, emitindo uma série de conclusões salutares, as quais permanecem como contribuições para o amadurecimento do próprio sistema, bastando que o debate sugerido se transforme em ação organizada.
As respostas dadas às provocações e conclusões de Alves são uma tentativa de seguir adiante com seu projeto. As discordâncias com o texto de Arco & Flexa são a necessidade da urgência de outro lugar-parâmetro para a observação do sistema de literatura. Quanto mais ela confia no método de trabalho, mais necessita que esse seja deslocado. Muitas daquelas observações não são mais tão válidas para a sua pesquisa atual. No entanto, em cotejo com outros empreendimentos de pesquisa, como os de Paulo Santos Silva,43 elas indicam que o debate sobre a
cultura intelectual e literária da Bahia ainda considera boa parte dessas emissões críticas. As bases dessa a avaliação optam por uma saída moralista, pela via do atraso e da falta como uma espécie de defeito de caráter estético ou ético da região, do que pela constatação do movimento do sistema.
Distinta da escola teórica de Mascarenhas, Ívia Alves busca o aporte de reflexão para a sua pesquisa na Universidade de São Paulo. Sua iniciativa insere-se na proposta mais ampla do professor José Aderaldo Castello de estudo da escola modernista a partir das revistas literárias. Com esse projeto, o professor objetiva avaliar o periodismo da época de vanguarda brasileira. A partir de seus resultados, poder-se-ia mensurar até onde é aceito o Modernismo de São Paulo ou de outros matizes.44
Não há dúvidas de que são projetos diferentes. As idéias reunidas sobre a
43 SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e construção do discurso histórico na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2000.
44 Um dos problemas que se apresentam nesse diálogo com a contribuição da professora Alves é como realizar a crítica fundamentada sem desviar ou produzir ambigüidade quanto ao caminho seguro da produção da ensaísta para o sistema de literatura da Bahia.
revista coordenada por Hélio Simões e Carlos Chiacchio representam uma das realizações de Ívia Alves dentro do contexto da literatura da Bahia e não pode assumir o caráter da totalidade da sua produção. A situação do sistema em estudo não concebe mais a reflexão da literatura e da cultura a partir da destruição pelo bota abaixo para recomeçar do zero. Se a identidade da cultura da Bahia paira sobre uma complexidade: atributos culturais de épocas diferentes ― correspondendo a escolas estéticas díspares ― e iniciativas aproximadas, então é daí que se parte para a descrição e narração da historiografia do sistema de literatura via a prática da literatura de jornal.
Uma das conclusões possíveis é de que, quanto mais distante dos métodos vencedores de acepção literária nacionalizantes ou de centro, mais marginalizada torna-se a formação desse sistema. A projeção de uma metodologia que tente escapar daquelas limitações, pela confrontação consciente, e esteja comprometido com os departamentos de pesquisas locais, é um contra-discurso viável. O contato do estudo da literatura da Bahia com os diversos métodos de pesquisa não deve cessar, porque somente com a observação constante posso avaliar os ganhos e perdas das gerências dos métodos para a descrição e compreensão mais segura da literatura e dos esteios.
3POSICIONAMENTO HISTÓRICO DE O IMPARCIAL