Este tópico agrupa os seis primeiros passos propostos por Pasquali (1998), sendo os três primeiros relacionados à teoria; o quarto passo, ainda relacionado com a teoria e também com a construção do instrumento; e o quinto e sexto, passos especificamente voltados para a construção.
• Sistema psicológico ( 1° Passo ): destina-se a estabelecer a teoria sobre o construto ou objeto psicológico, para o qual se quer desenvolver um instrumento de medida. O sistema psicológico representa o objetivo de interesse que, em geral é constituído por múltiplos aspectos. O autor recomenda que este passo pode ser esclarecido a partir de reflexões e interesse do pesquisador pelo construto, devidamente fundamentado em referencial bibliográfico.
• Propriedade ( 2° Passo ): consiste em definir as propriedades ou atributos do objeto de interesse do pesquisador, ou seja, os atributos e propriedades que o caracterizam. Para esta tarefa devem ser utilizados os mesmos métodos do passo anterior.
• Dimensionalidade ( 3° Passo ): refere-se à estrutura interna e semântica do construto que pode ser uni ou multifatorial, ou seja, ele possui dimensão homogênea, ou nele se distinguem vários aspectos? Deve-se obter esta resposta ou na teoria, ou em dados empíricos disponíveis, sobretudo dados de pesquisas que utilizam a análise fatorial.
• Definição ( 4° Passo ): dá-se pela conceituação detalhada do construto com base na literatura específica, na análise de conteúdo feita com a colaboração de peritos e na própria experiência do pesquisador. A definição pode ser
constitutiva, ou seja, é aquela que aparece em dicionários, enciclopédias e tem a finalidade de impor limitações semânticas àquilo que se deve explorar quando o construto estiver sendo medido; enquanto que a definição operacional, como indica o próprio termo, define comportamentos que devem ocorrer e pode ser expressa em uma listagem de categorias que representam o construto. Com este passo procede-se o início da construção do instrumento-piloto.
• Operacionalização ( 5° Passo ): representa a construção dos itens que integrarão o instrumento de medida. A operacionalização do construto constitui-se em três etapas, a saber:
a) Fontes dos itens: estes podem ser encontrados na literatura
(outros testes que medem o construto); podem ser obtidos em levantamento junto à população-alvo, ou nas categorias comportamentais estabelecidas na definição operacional.
b) Regras de construção dos itens: devem ser aplicadas à
construção de cada item, sendo que em alguns tipos de itens algumas destas regras podem não se aplicar. O autor recomenda a aplicação de um conjunto de 12 regras ou critérios, sendo os 10 primeiros para a construção dos itens e os dois últimos para o instrumento todo.
• Critério comportamental: o item deve permitir ação clara e precisa.
• Critério de objetividade ou de desejabilidade: o item deve permitir expressar a preferência, a opinião, os sentimentos e o modo de ser do respondente.
• Critério de simplicidade: o item deve expressar uma única idéia para não confundir o respondente.
• Critério de clareza: o item deve ser inteligível para todos os extratos da população-alvo, utilizando-se frases curtas e positivas, com linguagem clara e típica da população a qual ele se destina.
• Critério da relevância (pertinência, saturação, unidimensionalidade, correspondência): o item deve expressar o construto, ou seja, sua carga fatorial deve representar o fator que ele se propõe medir.
• Critério de precisão: o item deve possuir uma posição definida no construto, permitindo um contínuo estímulo ao respondente em concluir sua avaliação.
• Critério da variedade: deve-se variar a linguagem para evitar monotonia, bem como variar a quantidade de itens favoráveis e desfavoráveis para evitar respostas estereotipadas à esquerda ou à direita.
• Critério da modalidade: preferir expressões de reação modal, isto é, evitar expressões extremadas, como excelente e miserável.
• Critério de tipicidade: utilizar expressões típicas, próprias, inerentes ao tributo.
• Critério de credibilidade: evitar itens ridículos, despropositados, infantis e ofensivos.
• Critérios de amplitude: o conjunto de itens deve cobrir todos os níveis de compreensão da população-alvo, permitindo discriminar entre indivíduos de diferentes níveis.
• Critério de equilíbrio: o conjunto de itens deve permitir uma distribuição assemelhada à da curva normal, contendo a maior parte dificuldade mediana, que progressivamente diminui em direção às caudas com itens fáceis e difíceis em menor número.
c) Quantidade de itens: o autor afirma que grande parte da extensão
semântica de um construto pode ser bem representada com cerca de 20 itens, no entanto, construtos com diversidade maior exigem maior número de itens. Recomenda que para se chegar em um número final de itens em torno de 20, deve-se começar com, pelo menos, o triplo.
• Análise teórica dos itens ( 6° Passo ): deve ser feita com vistas a assegurar garantias de validade. Consiste em solicitar outras opiniões sobre o construto já operacionalizado, por meio de juízes que deverão proceder a dois tipos de análise: a análise semântica dos itens, que tem o objetivo de verificar se todos os itens são compatíveis para todos os membros da população-alvo e a
análise dos juízes, conhecida também por validade de conteúdo, cujo objetivo é verificar a adequação da apresentação comportamental dos atributos. Um número de seis juízes é recomendável para esta tarefa, sendo eles peritos na área. O critério de pertinência do item deve ser de pelo menos 80% de concordância entre os juízes, sendo que os itens que não atingirem esta taxa podem ser descartados do instrumento-piloto.
A validade de conteúdo ou análise dos juízes preocupa-se com a adequação da amostragem da área do conteúdo a ser medida.
Em outro estudo, Pasquali (1997) afirma que “um teste tem validade de conteúdo se ele constitui uma amostra representativa de um universo finito de comportamentos (domínio)”.
Duarte (2001), respaldada pela literatura, diz que a validade de conteúdo “é a determinação da capacidade dos itens, de representar adequadamente as dimensões do conteúdo a que se destina”.
Os autores comentam sobre a inexistência de métodos objetivos que garantam a cobertura adequada do conteúdo de um instrumento; no entanto, dizem que especialistas na área dos conteúdos costumam ser chamados para avaliarem sua adequação.
Kimura (1999), ratifica o exposto dizendo que pode-se determinar a validade de conteúdo de um instrumento, submetendo-se à análise de juízes “solicitados a avaliar a relevância de cada item para o domínio e a julgar se eles representam o conteúdo do domínio em questão”.
Desta forma, com o trabalho dos juízes, estarão encerrados os procedimentos teóricos para a construção de um instrumento de medida.