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BÖLÜM 3: VERGĐ CEZALARININ ETKĐNLĐK AÇISINDAN

3.3. Araştırmanın Yöntemi

Outra esfera presente nas redações é a literária. Ela está diretamente ligada com a esfera escolar, uma vez que a escola é o lugar previsto, em princípio, para o estudo da literatura. O aluno passa na escola, antes do exame vestibular, em média, 11-12 anos. Nesses anos, o trabalho com a literatura é, embora não suficientemente, presente e se aprofunda no Ensino Médio. Presume-se, então, que o escrevente tenha tido, no decorrer desses anos, algum contato com diferentes gêneros dessa esfera, seja por meio da leitura ou da escrita, ou mesmo por meio de outras esferas correlatas, como a cinematográfica e teatral.

Na escola, circula um discurso que valoriza a literatura, colocando-a como parâmetro para a boa escrita. Esse discurso, que também está presente no senso comum, pode ser considerado, nesse sentido, como um discurso de autoridade. O escrevente sempre ouve: “é preciso ler escritores clássicos para escrever bem”, “deve-se escrever com base na escrita dos grandes escritores”, dentre outros exemplos nesse mesmo tom. Desse modo, o escrevente foi condicionado a ver o

endeusamento da literatura pela escola e pela sociedade. Sabendo que está sendo avaliado, e por meio de sua escrita, ele recorre ao saber autorizado por esses discursos, para validar seu texto. Essa mobilização mostra o tipo de imagem que quer que seu interlocutor depreenda dele: a imagem de alguém que conhece a literatura e a valoriza, traduzindo-a na imagem de um bom leitor.

Em função dessa imagem, quase como uma projeção da enunciação, o escrevente mobiliza um saber literário vinculado principalmente a seu letramento escolar, ao introduzir, por exemplo, no texto, a referência às obras ou aos autores solicitados na bibliografia de leitura para o exame vestibular:

[85]:

Trabalhar é algo necessário, em tese. Conhecemos a personagem "Brás Cubas" de Machado de Assis, por exemplo, que viveu normalmente sem trabalhar, porém sabemos que esta até pode ser a realidade de famílias ricas, pois na maioria da população que é pobre isto é impossível de ocorrer. [...] (R065, grifos meus).

[86]:

Mas, sem dúvida, o trabalho purifica e acrescenta aos homens, porém a vida está repleta de heróis como Macunaíma, que deitam em uma rede a espera de tudo pronto, a eles o que resta é a ignorancia, o secar da sabedoria e com certeza a falta de coragem para lutar e tentar conseguir (R153, grifos meus).

[87]:

O tempo ou o passar do tempo, se encarrega de transformar o trabalho e seus objetivos, intelectual ou braçal, por domínio ou por dinheiro. Se for por dinheiro não pode ser trabalho artístico, [...]. Como recompensar Camões por Os Lusíadas? E como negar que algo tão sublime é trabalho? (R234, grifos meus).

Os exemplos [85 a 87] mostram que o escrevente mobiliza saberes da esfera literária, ao fazer referência, principalmente aos autores ou às obras que supõe conhecidos do interlocutor, tem em vista o que lhe é exigido no exame vestibular: “O candidato deve, portanto, [...] possuir um certo repertório de leituras de textos literários, no nível próprio do concluinte do Ensino Médio” (FUVEST, 2006, Manual do Candidato, p. 42). Em alguns casos, o escrevente, ao construir uma imagem

positiva de si, como alguém que leu efetivamente a obra solicitada, dá detalhes delas:

No que se refere aos textos literários, espera-se o conhecimento das obras representativas dos diferentes períodos das literaturas brasileira e portuguesa. [...]. Esse repertório de leituras inclui [...] Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas), Mário de Andrade ([...], Macunaíma [...]), [...] Camões (Poesia lírica: sonetos; poesia épica: episódios [...] de Os Lusíadas (FUVEST, 2006, Manual do Candidato, p. 42).

Nesse sentido, mobiliza saberes que julga de autoridade e, ao mesmo tempo, saberes valorizados pela instituição escolar e principalmente pela universidade que solicita essas leituras em seu exame. Trata-se de um sujeito que tem a ilusão de, por meio da mobilização de saberes da esfera literária, construir a imagem de um bom leitor, como é exigido pela universidade e de valorizar o que ele supõe que a universidade valoriza.

Há, ainda, a mobilização de saberes da esfera literária, mas não diretamente vinculada à escola básica, pelo menos não necessariamente, como no exemplo [88]:

[88]:

[...] intitulado “A alma do homem sob o Socialismo”, escrita pelo irlandês Oscar Wilde. Nesse, Wilde prevê uma utopia artística, na qual homens serão dispensados de seus empregos para que passam se dedicar a suas habilidades criativas de forma livre de qualquer tirania e tédio. Isso só virá com a melhoria das máquinas, que farão todo o trabalho indesejado e com uma revolução, na qual os excluídos da sociedade atual se levantarão e irão exigir os seus direitos a uma vida mais digna e melhor (R248).

No que se refere à construção do PDVD e a mobilização de saberes da esfera literária, o escrevente assume um PDV correlacionado com outros PDVs, para construir, assim, um PDVD, como no exemplo [89]:

[89]:

O motor da história

1º § As diferentes visões acerca do trabalho [...]. Desse modo, cada cultura cunhou seu próprio conceito de trabalho que se perpetua e se transforma ao longo de sua história. 2º § O conceito de trabalho, tal como o concebemos hoje, [...]. Assim, a sociedade que antes produzia para seu próprio sustento, agora é alvo de exploração, [...]. Adous Huxley, em seu livro “admirável mundo novo”, configura uma situação futurística. [...].

3º § Se por um lado, a previsão de Huxley parece assustadora; por outro, a situação atual não é de grandes perspectivas. Durante a modernidade, [...] avanços técnicos [...], todo esse aparato foi usado contra o trabalhador, o qual passou a concorrer com o trabalho das máquinas e, por vezes, com o sub-emprego.

4º § [...], existe ainda um outro tipo de trabalho que é de natureza artística, [...] do homem de expressar seus sentimentos e de revelar o seu talento [...], como foi o caso de Camões que escreveu a extensa obra “Os Lusíadas” e de Michelangelo que despendeu anos para fabricar uma escultura de mármore.

5º § A execução do trabalho, através dos [...], revelam a natureza das ações do homem, [...] concorrem para o entendimento do trabalho como “o grande motor da história” (R255, grifos meus).

No exemplo [89], como nos demais em que o escrevente dialoga com a mesma ordem dos textos da prova de redação, “As diferentes visões acerca do trabalho” e, na sequência, responde ao enunciador do primeiro fragmento, por meio da relativa, afirmando que o trabalho não vai acabar e se transforma no decorrer da história. Nos segundo e terceiro parágrafos, o escrevente contextualiza o trabalho no diálogo com o segundo fragmento e introduz um enunciador, Aldous Huxley (na redação Adous), que configura o trabalho em uma perspectiva futurística. O PDV desse enunciador corrobora o PDV do segundo fragmento. Mantendo a mesma ordem da coletânea, dialoga com o terceiro fragmento antes de enunciar o parágrafo conclusivo. No quarto parágrafo, é introduzido um enunciador cujo PDV valoriza o trabalho de arte, que pode ser percebido nos trechos: “existe ainda um outro tipo de trabalho que é de natureza artística, [...] do homem de expressar seus sentimentos e de revelar o seu talento”. Para fortalecer esse PDV, entra em cena um enunciador que valoriza o trabalho de arte, por meio da referência à literatura: “como foi o caso de Camões que escreveu a extensa obra ‘Os Lusíadas’” e finaliza com a retomada discursiva do terceiro fragmento, fazendo referência ao trabalho de Michelangelo.

Trata-se de um texto com poucas adjetivações, mas na adjetivação de “Os Lusíadas”, como “extensa obra”, o escrevente constrói uma imagem de si, de conhecedor da literatura solicitada presumidamente pelo corretor, anunciando que detém conhecimentos dessa obra. Nesse sentido, o escrevente dialoga com seu interlocutor para construir o PDV dele. Finaliza o parágrafo conclusivo com a

adjetivação do trabalho, qualificando-o positivamente, com um adjetivo dimensional e anteposto: “o grande motor da história”, o que valoriza ainda mais a qualificação positiva do trabalho. O uso das aspas mostra, apesar de todo esforço do escrevente em construir esse PDV, que esse posicionamento não é o dele, embora o assuma para si.

A mobilização de saberes da esfera literária funciona como estratégia para construir a imagem de um bom leitor, como se exige de todo estudante e, sobretudo, de um candidato que pretende cursar o ensino superior na Universidade de São Paulo. A mobilização desses saberes contribui para a construção do PDVD, no sentido da valorização do trabalho intelectual, por meio de saberes que o escrevente julga ser valorizados por ela. Tem-se, pois, na construção do PDVD, um movimento enunciativo em que vários posicionamentos se marcam no texto. Escrevente e interlocutor se constituem mutuamente, por referência a lugares sociais já existentes: o candidato, que deve provar sua competência para ser aprovado; e o examinador, que deve aprovar o candidato melhor preparado. Nessa construção, têm-se, também, movimentos discursivos que, a partir do imaginário social do escrevente, estabelecem o estatuto do candidato bem preparado e que deve ser aprovado no exame.