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Os cosmos identificados neste estudo nos colocam no centro da controvérsia: a fragmentação existente na formação dos licenciandos coloca suas identidades profissionais em disputa pelos diversos atores e seus respectivos interesses. Como vimos ao longo deste trabalho, ainda que estejam em um curso que forma professores, os licenciados convivem, em suas vivências formativas, com vários atores que os desviam da docência.

Mas, quais seriam as contribuições deste trabalho para melhorar esta situação? Ao utilizarmos a ANT como uma metodologia para o mapeamento de situações complexas, nós argumentamos que cartografia de controvérsias pode ser uma ferramenta bastante útil para o delineamento dos cosmos e a proposição de estados possíveis de mundo, ajudando-nos a pensar em políticas púbicas, em reformas para os cursos de licenciaturas e na valorização destes cursos nas universidades.

No momento em que escrevo este texto, por exemplo, várias disputas no campo das políticas públicas que envolvem os professores e sua formação estão sendo travadas no Brasil. Está em discussão um polêmico documento que apresenta uma proposta nacional para o mote ―Pátria Educadora‖, lema do atual governo, reeleito em 2014, que prevê uma ampla reforma educacional. Associações de professores e universidades, discordantes deste documento, tem se mobilizado, buscando fortalecer os nós da rede de valorização da profissão de professor. Há também as implicações da recente homologação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial e continuada de professores, que incidirão diretamente na concepção e formatação dos cursos de licenciatura. O mapeamento que realizamos, então, está situado em um contexto bem mais amplo e mais complexo, cujo detalhamento não foi nosso propósito nesta tese. A rede continua se expandindo, se modificando....

O mapeamento dos cosmos pode ajudar a compreender esse cenário mais complexo, na medida em que, retomando Venturini et al. (2015), indo de cosmos a cosmos é que se pode

ter a dimensão total da controvérsia. Acompanhando as disputas e embates em torno das identidades docentes, vemos as transformações destas redes. Mas não basta acompanharmos este debate ―de longe‖. Ao trazer a tona e sistematizar os pontos de vista divergentes em um atlas, a cartografia de controvérsias faz mais do que apenas descrever um estado de coisas; ela contribui no sentido de articular os debates e organizar os seus públicos. Como afirmam os autores:

Se os cartógrafos querem que seus mapas sejam politicamente relevantes, não podem se furtar da responsabilidade de transformar os territórios que mapeiam. Projetar mapas relevantes para os públicos e projetar públicos relevantes para os mapas são, na realidade, um mesmo movimento (VENTURINI et al, 2015, p.16).

Os públicos se engajam em questões nas quais possuem interesse. Trazendo novamente a discussão sobre as identidades, as pessoas se engajam em grupos de afinidade. Resgatando também a ontologia política de Mol (2002), são as nossas práticas que podem

performar novas realidades. Isto é, se buscamos, por meio de nossas pesquisas, ―transformar

os territórios mapeados‖, é preciso engajar os interessados no debate sobre a profissão docente, estendendo este debate a um público mais amplo. Isto se pode fazer com mapas simples, como são as inscrições que aqui propomos. Segundo Venturini et al. (2015), desenhar mapas muito detalhados e complexos é menos importante que interagir com seus usuários.

Concordamos com os autores supracitados ao afirmarem que, para o entendimento da construção do fenômeno social não é suficiente observar os atores isolados ou redes já estabilizadas. O que deve ser observado são os atores-rede, isto é, as configurações efêmeras nas quais os atores renegociam os nós de antigas redes e a emergência de novas redes que redefinem a identidade dos atores.

Usando o magma como metáfora, os autores afirmam que a vida coletiva é forjada em seu estado magmático. Assim como no vulcão em erupção, o social, nas controvérsias, é líquido e sólido ao mesmo tempo. No magma, os estados líquido e sólido existem em uma transformação mútua e incessante: enquanto às margens da lava há algumas partes que resfriam e cristalizam, outras rochas já solidificadas, quando tocadas pela lava quente, derretem e tornam-se parte da corrente de lava. A mesma flutuação entre diferentes estados de solidificação pode ser observada nas controvérsias. ―É através desta dinâmica que o social é construído, desconstruído e reconstruído. Este é o social ―em ação‖ e é por isso que não há

Para um mergulho ainda mais profundo nas controvérsias que envolvem a identidade docente, um bom exercício seria pensar, em termos de mapeamento de actantes e seus respectivos interesses no debate: Como este e outros cursos de licenciatura podem tirar proveito das experiências vividas no PIBID, no sentido de estendê-las a todos os licenciandos? Que estados possíveis de mundo podem ser construídos pelo curso, a partir do que os licenciandos apontam como positivo no PIBID? Como construir espaçostempos que superem as dicotomias formativas apontadas como fragilidades para a construção de identidades docentes?

Ressaltamos também que nosso recorte se deu na formação inicial dos licenciandos. No entanto, outros atores envolvidos no PIBID também podem ser foco de análise. Será que os egressos da licenciatura em Biologia que tiveram a vivência do PIBID, são atualmente professores? Em caso positivo, onde atuam? Como avaliam seu processo de formação? Qual o significado do PIBID para a inserção profissional destes egressos? A realidade identificada junto aos licenciandos estudados é semelhante à de outros estudantes de cursos de licenciatura? Como os coordenadores da área de Biologia e os professores supervisores avaliam o processo de formação no Programa? E as outras abelhas da colmeia? Como tem se dado as vivências formativas dos licenciandos em outros programas e projetos?

Para não colocar um ponto final, deixamos estas questões em aberto para que outros

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