Existem algumas ambivalências no que diz respeito à presença ou ausência de dificuldades na morfologia flexional nas crianças com PEDL. Apesar da existência de alguns estudos citados em Leonard (1998), que demonstraram que as crianças com PEDL apresentam capacidades de flexão semelhantes a crianças com desenvolvimento linguístico normal da mesma idade, um maior número de estudos evidenciou dificuldades a esse nível. Marshall & Van Der Lely (2007) e Leonard (1998) referem estudos realizados com crianças com PEDL, falantes de inglês, que identificaram défices na flexão verbal de duração mais longa em comparação a outros grupos de crianças.
De acordo com os mesmos autores, as crianças com PEDL apresentam percentagens de uso de constituintes morfológicos flexionais inferiores comparativamente às crianças de desenvolvimento linguístico normal, o que se materializa pela produção de bases não flexionadas em contextos onde a flexão verbal é requerida: omissões do sufixo do passado –ed, do sufixo da terceira pessoa do singular –s, omissões do verbo auxiliar be, entre outros. Estas omissões resultam, muitas vezes, na produção de verbos no infinitivo. Rice, Wexler & Cleave (1995) defende que estas omissões podem ser resultado de uma estagnação, por um período de tempo mais longo do que o que seria normal, num estádio de desenvolvimento onde formas verbais flexionadas e formas no infinitivo (ou seja, formas não flexionadas) estão em alternativa na gramática das crianças. Este estádio de
desenvolvimento é designado na literatura como Estádio de Infinitivo Opcional (Opcional
Infinitive Stage) (Wexler, 199455 apud Rice, Wexler & Cleave, 1995).
É defendido que este estádio é vivenciado por todas as crianças. O termo Infinitivo
Opcional remete para essa opcionalidade entre realização da flexão verbal em tempo-modo-
aspeto ou produção dos verbos na forma infinitiva. Rice, Wexler & Cleave (1995) salienta que, neste estádio, apesar de as crianças poderem não realizar esta flexão verbal quando exigida, elas demonstram conhecimento de flexão verbal em pessoa-número.
Rice, Wexler & Cleave (1995) investigou de que forma este estádio é vivenciado pelas crianças com PEDL. Assim, compararam os resultados de flexão verbal (sufixo do passado -ed; o sufixo da terceira pessoa do singular -s e o verbo auxiliar be e o do) de dezoito crianças inglesas de cinco anos, com PEDL, com dois grupos de controlo: um constituído por crianças com desenvolvimento linguístico normal, da mesma faixa etária, e o outro por crianças também com desenvolvimento normal, mas dois anos mais novas. Os procedimentos basearam-se na recolha e análise de discurso espontâneo e de respostas elicitadas.
Verificou-se que as crianças da amostra omitiram uma maior quantidade dos constituintes flexionais referidos, quando comparadas com as crianças com desenvolvimento normal da mesma faixa etária. Esta discrepância de resultados não é tão evidente quando se compara o grupo de PEDL com o grupo de controlo constituído por crianças mais novas. Por conseguinte, os resultados evidenciam um estádio de infinitivo opcional mais longo nas crianças com PEDL, que os autores designam como Estádio de
Infinitivo Opcional Alargado (Extended Optional Infinitive Stage).
Para além das omissões dos constituintes morfológicos flexionais, Leonard (1998) mostra evidências de que crianças com a patologia em questão também realizam flexões verbais inapropriadas: o sufixo da terceira pessoa do singular -s é, ocasionalmente, usado na terceira pessoa do plural; ocorrem sobregeneralizações do sufixo do passado -ed; entre outros. De acordo com Gopnik (1990)56 apud Leonard (1998), estes comportamentos são
indicativos de que estas crianças não possuem conhecimento do papel gramatical destes constituintes morfológicos.
55 Wexler, K. (1994). Optional Infinitives. Em D. Lightfoot & N. Hornstein (Eds.), Verb movement. New
York: Cambridge University Press.
Alguma literatura comprova que os défices flexionais podem abranger a flexão nominal, nomeadamente a flexão em número. Leonard et al (1997)57 apud Castro & Gomes (2000) comparou produções de três grupos de crianças inglesas em idade pré-escolar: o primeiro grupo continha crianças com PEDL, o segundo crianças com desenvolvimento linguístico normal da mesma faixa etária e o terceiro era composto por crianças mais novas. Os autores verificaram que as crianças com PEDL são as que mais omitem o sufixo –s que marca a forma plural. Outros autores, como Bedore & Leonard (2001), realizaram os seus estudos com crianças espanholas com PEDL, também em idade pré-escolar, e verificaram que o uso de formas singulares em contextos em que a forma plural é requerida é mais frequente nestas crianças do que nas crianças da mesma faixa etária com desenvolvimento típico.
Contudo, é dito em Marshall & Van Der Lely (2007) que as dificuldades na construção dos plurais não estão, ainda, bem definidas. De facto, Clahsen & Almazan (2000) cita alguns autores que defendem que a produção das formas plurais regulares e irregulares nas crianças com PEDL se assemelha à produção dessas mesmas formas em crianças com desenvolvimento linguístico normal e, ainda, que a sobregeneralização da utilização do sufixo -s em plurais irregulares é muito rara em crianças inglesas com PEDL. Em contrapartida, Clahsen & Almazan (2000) cita outros estudos que demonstram que as regras morfo-fonológicas necessárias para a formação dos plurais irregulares não estão, totalmente, consolidadas nestas crianças e, portanto, elas vão sobregeneralizar a utilização do sufixo -s em, pelo menos, algumas formas irregulares.
Como os estudos mencionados claramente demonstram, os défices da flexão nominal em número em crianças com PEDL constituem um objeto de controvérsias. Não obstante, a componente derivacional apresenta-se como a grande lacuna na descrição dos défices morfológicos nas crianças com PEDL, pois são muito escassas as investigações realizadas neste âmbito.