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É no governo Sarney que se inicia, de fato, a inflexão das relações Estado‐sociedade no  Brasil.  Contudo,  os  ímpetos  democráticos  e  anseios  da  população  em  prol  de  maior  justiça social e de satisfação de suas demandas que permearam seu início de governo  não foram acompanhados de um ambiente de estabilidade econômica. Ao contrário, a  Nova  República  inicia‐se  em  um  contexto  de  forte  crise,  com  quedas  drásticas  dos  investimentos,  recursos  escassos  e  uma  alta  taxa  inflacionária.  Tornava‐se,  portanto,  bastante laboriosa a tarefa de responder às demandas da população em um ambiente  econômico desfavorável.  

E, a despeito da Constituição Federal ter criado mecanismos institucionais de orientação  nacional‐desenvolvimentista , esse período foi marcado pelo acirramento da crise do  modelo  de  Estado  varguista  iniciada  nos  anos  da  ditadura  militar ,  com  a  redução  drástica  dos  investimentos  estrangeiros  e  pelo  crescimento  significativo  das        

 Sallum  , p.   indica os princípios do nacional‐desenvolvimentismo mantidos na CF : ampliação  das  restrições  ao  capital  estrangeiro,  ampliação  dos  espaços  para  as  atividades  das  empresas  estatais,  maior  controle  do  estado  perante  o  mercado,  e  aumento  da  estabilidade  e  dos  benefícios  para  os  servidores públicos. 

transferências dos recursos nacionais para o exterior, em função dos serviços da dívida.  Ademais, com o processo de democratização e o aumento da participação da sociedade  civil  cresceram  também  a  insatisfação  e  os  protestos  ao  modelo  de  desenvolvimento  adotado, cujo caráter concentrador de renda intensificou as desigualdades regionais e  sociais. 

Nota‐se,  inclusive,  uma  nova  postura  do  empresariado  brasileiro  que,  ao  identificar  o  esgotamento do modelo de intermediação de interesses que predominara no período do  autoritarismo  militar,  passa  a  pleitear  a  redução  do  intervencionismo  estatal  e  exigir  medidas em prol da desregulamentação e abertura do mercado. 

Com o fim do regime militar‐autoritário, pareceu que o corporativismo,  os  aneis  burocráticos   e  os  cartórios   deixaram  de  ser  suficientes  como garantias do controle exercido pelo empresariado pelo Estado  ...   No  correr  da  década  de    foi  tornando‐se  claro  para  o  empresariado  que  a  retomada  do  crescimento  econômico  e  a  redução  das  tensões  sociais já não poderiam depender da presença dominante do Estado no  sistema produtivo  SALLUM JR,  , p.  . 

Assim, a Nova República foi marcada pela adoção de uma série de medidas visando frear  os efeitos drásticos do crescente aumento da inflação. Além da formulação de uma série  de  planos  econômicos,  o  período  representou  também  a  estruturação  de  uma  nova  arena de intermediação de interesses: as câmaras setoriais. 

 As  câmaras  setoriais  atuavam  como  arenas  de  negociação  voltadas  à  estruturação  de  acordos em torno de políticas setoriais, apresentando aspectos do corporativismo social,  por  envolverem  representantes  setoriais,  lideranças  sindicais  e  técnicos  governamentais. Criadas no último ano do governo Sarney, as câmaras setoriais tinham  o  propósito  de  atuar  como  instrumento  de  controle  de  preços,  reunindo‐se  com  a  periodicidade semanal para autorizar seu reajuste.  

Todavia, a institucionalização das câmaras ocorreu somente no segundo ano do governo  Fernando Collor de Mello, por meio da Lei nº  .  de  , de iniciativa do deputado  federal Aloízio Mercadante do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, que estabeleceu  regras sobre preços e salários. Elas são mencionadas no artigo  º da lei, que define a  obrigatoriedade da criação de um fórum tripartite com a responsabilidade de assessorar  o Executivo na tarefa de monitoramento da flexibilização dos preços: 

Art.  .  Serão  constituídas,  no  prazo  de  trinta  dias,  câmaras  setoriais  destinadas a analisar a estrutura de custos e preços em setores e cadeias  produtivas específicas para assessorar o Ministro da Economia, Fazenda  e Planejamento no monitoramento da flexibilização de preços.  ...  §  º  As câmaras serão compostas por membros designados por portaria do  Ministro  da  Economia,  Fazenda  e  Planejamento,  representantes:  a   do  Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento; b  dos empregadores  dos  respectivos  setores  produtivos;  c   dos  trabalhadores  dos  respectivos setores produtivos ou das entidades sindicais nacionais  Lei  nº  .  de  . 

A  partir  da  criação  da  Lei,  as  câmaras  foram  assumindo  novas  funções,  indo  além  da  tarefa de monitoramento de preços e avançando como arenas de decisão voltadas para a  formulação  e  implementação  de  políticas  industriais.  Estas  atuavam  como  um  fórum  permanente  de  negociação,  cujos  membros  se  reuniam  até  se  construir  um  consenso  sobre  a  questão,  e  a  conseqüente  celebração  de  um  acordo  que  seria  avaliado  posteriormente em reuniões com periodicidade determinada. Quanto à sua estrutura de  funcionamento,  as  câmaras  eram  organizadas  em  formas  de  Grupos  de  Trabalho  definidos em torno dos principais temas em discussão, que variavam de assuntos como  comércio  exterior,  tributação,  relações  capital/trabalho,  abordando  também  questões  particulares e pertinentes a cada setor  DINIZ,  , p.  .  

Fato relevante destacado por Diniz   é que o processo de institucionalização das  câmaras não representou um projeto isolado do Executivo, conforme o tradicionalmente  verificado  no  Brasil.  Ao  contrário,  foi  o  resultado  de  um  esforço  conjunto  tanto  de  membros do Legislativo como de técnicos do Executivo, que buscavam desenvolver um  mecanismo capaz de negociar medidas relativas a preços e salários da cadeia produtiva.   A  autora  ressalta,  contudo,  que  a  adesão  da  classe  trabalhadora  a  esse  modelo  de  negociação  tripartite  não  foi  unânime  nem  imediata.  Se  de  um  lado  a  Força  Sindical,  criada em   e liderada por Luís Antonio Medeiros, apoiou imediatamente o modelo,  a  Central  Única  dos  Trabalhadores  CUT   relutou  em  participar  das  arenas  de  negociação,  assinalando  sua  postura  crítica  ao  governo  Sarney.  Todavia,  com  a  institucionalização das câmaras no governo Collor e o acirramento da crise econômica  no  País,  a  CUT  muda de  postura  e  decide  marcar  sua  presença  nas  câmaras setoriais.  Vale relembrar ainda que a legislação das Câmaras Setoriais teve a autoria de Aloízio  Mercadante,  do  Partido  dos  Trabalhadores,  o  que  também  pode  ter  influenciado  a 

mudança  verificada.  Desse  modo,  com  a  adesão  das  duas  principais  representações  sindicais dos trabalhadores, as câmaras setoriais atuaram como importante instrumento  de  política  industrial  até  ,  ano  em  que  deixaram  de  funcionar.  Para  ilustrar  a  importância assumida por este modelo de intermediação de interesses, em   foram  registrados   câmaras setoriais  e   grupos de trabalho em funcionamento  DINIZ, 

, p.  . 

Entre os vários acordos celebrados, o que se consagrou e obteve maior visibilidade foi o  da  indústria  automotiva,  assinado  em  ,  e  que  teve  o  envolvimento  de  entidades  representantes  dos  trabalhadores,  montadoras,  revendedores  de  veículos,  produtores  de autopeças, e membros do governo  DINIZ,  , p.  .  

Diniz   explica que esse modelo de negociação esvaziou‐se  a partir da gestão de  Fernando  Henrique  Cardoso,  em  função  da  postura  da  elite  tecnocrática  contrária  à  abertura de espaços amplos de negociação no aparelho estatal. O próximo capítulo irá,  justamente, discorrer sobre o papel da tecnocracia na gestão de FHC. 

2.5 Algumas considerações 

Este  capítulo  procurou  demonstrar,  ao  retomar  a  dinâmica  das  relações  Estado‐ sociedade entre o período de Vargas até o regime militar de  , o peso institucional  que  a  Constituição  de    exerceu  na  dinâmica  do  processo  decisório  no  Brasil,  representando uma verdadeira inflexão na lógica de participação. 

Observou‐se que nos anos que antecederam a celebração da Carta houve a combinação  das quatro gramáticas políticas  cf. Nunes,   e que o predomínio de uma perante as  demais variavam de acordo com o contexto político do País. Assim, o primeiro governo  de  Vargas  foi  marcado  fortemente  pela  introdução  do  corporativismo  no  processo  de  intermediação  de  interesses  e  pela  manutenção  do  clientelismo,  que  atuava  como  um  mecanismo  essencial  para  controlar  as  oligarquias  políticas.  O  universalismo  de  procedimentos  e  o  insulamento  burocrático  também  foram  introduzidos  no  seu  primeiro governo, todavia, é no segundo governo Vargas e principalmente no governo  de Juscelino Kubitscheck que o insulamento burocrático, por meio da estruturação de  uma  administração  paralela,  adquire  importância.  Nesta  experiência  democrática,  as  relações Estado‐sociedade também foram regidas pelo clientelismo  BRESSER‐PEREIRA, 

, p.  . Já no período militar, o insulamento burocrático  reassumiu seu papel de  destaque  na  teia  destas  relações  e  conviveu  com  o  fortalecimento  das  práticas  corporativas  cf. Diniz,   e O Donnell,   e também dos  aneis burocráticos   cf. 

Cardoso,  . 

A  Constituição  de    busca  romper  com  essa  tradição,  ao  introduzir  novos  e  democráticos  mecanismos  de  participação,  de  modo  a  permitir  que  a  população  participasse da dinâmica decisória de maneira oficial e institucional e, acima de tudo, de  maneira  ampla,  evitando  que  o  acesso  aos  canais  participativos  estivesse  restrito  a  apenas poucos e seletos grupos da elite brasileira. Verifica‐se, também, nos primeiros  governos  democráticos,  a  construção  de  novos  mecanismos  de  intermediação  de  interesses,  semelhantes  às  práticas  neocorporativas,  assinalando,  mais  uma  vez,  uma  ruptura  com  tradição  de  cooptação  e  controle  social  identificados  na  experiência  do  Corporativismo de Estado introduzido com Vargas. 

É  essencial  frisar  que  a  Constituição  de    foi  um  marco  nas  relações  Estado‐ sociedade  por  introduzir  institucionalmente  canais  democráticos  de  participação.  Todavia,  esse  avanço  institucional  não  significa,  necessariamente,  maior  qualidade  democrática  e  a  garantia  de  que  os  direitos  de  participação  serão,  efetivamente,  respeitados.  É  fato  que  houve  avanços  institucionais  com  a  celebração  da  Carta,  mas  ainda  há  desafios  a  serem  enfrentados  para  garantir  a  efetiva  participação  social  e  o  aprimoramento da democracia praticada no Brasil.  

Observamos,  ao  longo  deste  capítulo,  como  a  estratégia  política  de  cada  governo  influencia  a  dinâmica  do  processo  decisório.  O  capítulo  seguinte  será  dedicado,  justamente, a analisar de que maneira as relações Estado‐sociedade foram conduzidas  nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva, e como suas  estratégias de governo se articularam com este novo ambiente institucional. 

 

 

CAPÍTULO 3 – O novo ambiente institucional e os governos FHC e Lula 

    Resumindo: estabilidade macroeconômica assentada na disciplina fiscal  e monetária, com a continuidade do Plano Real; integração da economia  brasileira ao mercado mundial; preponderância da iniciativa privada no  setor  produtivo,  acompanhada  pelo  reforço  dos  instrumentos  de  regulação  do  Estado;  constituição  de  uma  infra‐estrutura  econômica  e  social  moderna  através  de  novas  formas  de  parceria  entre  Estado,  empresa  e  comunidade.  Eis  aí,  no  meu  entender,  os  pontos  fundamentais  da  agenda  de  reformas  que  temos  pela  frente  ...   FERNANDO  HENRIQUE  CARDOSO,  Discurso  de  Despedida  do  Senado, 

.   

 

Para repor o Brasil no caminho do crescimento, que gere os postos de  trabalho  tão  necessários,  carecemos  de  um  autêntico  pacto  social  pela  mudança e de uma aliança que entrelace objetivamente o trabalho e o  capital  produtivo  ... .  Estamos  em  um  momento  particularmente  propício para isso. Um momento raro da vida de um povo. Um momento  em que o Presidente da República tem consigo, ao seu lado, a vontade  nacional. O empresariado, os partidos políticos, as Forças Armadas e os  trabalhadores estão unidos  LULA, Discurso de Posse,  . 

Introdução  Este capítulo será dedicado a analisar de que maneira as gestões presidenciais de FHC e  Lula lidaram com as mudanças institucionais introduzidas pela Constituição de   no  que se refere, principalmente, às relações entre Estado e sociedade.  Observa‐se que as gestões de FHC foram dedicadas a manter e consolidar a estabilidade  econômica advinda com o Plano Real, lançado no governo de Itamar Franco. Entre as  medidas que nortearam esse projeto de governo destacam‐se emendas constitucionais  voltadas a alterar as diretrizes da Carta que resguardavam grande parte do modelo de  orientação nacional‐desenvolvimentista. Assim, seu governo foi marcado pelas reformas  constitucionais  e  pela  adoção  de  medidas  visando  à  manutenção  da  estabilidade  macroeconômica  COUTO  &  ABRUCIO,  .  A  partir  desse  conteúdo  de  governo  assiste‐se  à  adoção  de  uma  nova  governança,  que  influenciou  tanto  as  relações  entre  Estado e sociedade, provocando mudanças na estrutura institucional e na dinâmica do  processo decisório.  

As  relações  Estado‐sociedade  foram  marcadas  tanto  por  meio  de  uma  nova  forma  do  Estado  se  relacionar  com  o  mercado,  buscando  afastar‐se  fortemente  do  modelo  nacional desenvolvimentista, como através da criação de uma nova figura institucional,  o  público  não‐estatal ,  por  meio  do  qual  a  sociedade  civil  assumiria  caráter  preponderante  na  provisão  de  serviços  sociais.  Observa‐se  ainda  que,  durante  os  governos de FHC, a tecnoburocracia econômica foi insulada das interferências externas e  assumiu  papel  de  destaque  nas  principais  decisões  de  governo.  Revistar  as  diretrizes  políticas  e  econômicas  das  duas  gestões  de  FHC  faz‐se  primordial,  portanto,  para  entender de que maneira elas contribuíram para esta nova governança, moldada para  responder às demandas das prioridades de governo. 

Por sua vez, os dois governos de Lula tiveram como marcas principais a ampliação da  participação da sociedade civil no processo decisório e a adoção da questão social como  política prioritária de governo.  

A  questão  social  destaca‐se  na  gestão  Lula  pela  prioridade  conferida  ao  tema,  principalmente  em  função  do  envolvimento  direto  do  presidente  em  sua  adoção.  Em  função  dessa  relevância,  o  tema  ultrapassou  medidas  de  focalização  e  assumiu  um 

caráter  que  perpassou  as  demais  políticas  de  governo  sendo,  pois,  incorporado  nas  demais agendas e políticas públicas. É nesse sentido que políticas visando à melhoria da  qualidade  de  vida  e  aumento  do  poder  de  consumo  da  população  marcaram  seus  governos. Destaca‐se também a formulação de políticas públicas que trouxeram o tema  da inclusão social entre suas diretrizes. Neste sentido, o Programa Nacional de Produção  e Uso do Biodiesel é emblemático. 

Já  a  participação  social  adota  diversas  facetas,  seja  pela  priorização  e  ampliação  de  mecanismos da Constituição – como a realização de conselhos e conferências – , como  também  pela  configuração  de  arranjos  de  negociação,  próximos  ao  modelo  neocorporativo, nos quais os diversos interesses estão representados no momento da  formulação da política pública. De fato, a gestão de Lula diferencia‐se também da de seu  antecessor por ter trazido para o processo decisório atores sociais representantes dos  múltiplos interesses da sociedade brasileira. Esse modelo de governança também esteve  fortemente  presente  na  formulação  do  Programa  Nacional  de  Produção  e  Uso  do  Biodiesel.  

Deve‐se  frisar  que  as  conquistas  estruturais  advindas  das  gestões  de  FHC  como  a  reorganização  da  burocracia  federal  e  das  finanças  dos  Estados  e,  acima  de  tudo,  a  consolidação  da  estabilidade  econômica   criaram  alicerces  que  permitiram  que  Lula  conduzisse  seu  projeto  de  governo.  É  por  tal  razão  que  Hunter  e  Power  ,  ao  comparar  as  duas  gestões,  apontam  que  os  anos  FHC  foram  dedicados  às  reformas  enquanto  que  o  governo  de  Lula  teve  como  principal  marca  a  estruturação  de  programas, em particular, os sociais. Assim, nesta nova gestão presidencial, assiste‐se à  inflexão na governança e no conteúdo de governo, alterando, portanto, a politics. 

 

Benzer Belgeler