Já apresentamos o pano de fundo do Sistema Único da Assistência Social (SUAS) em funcionamento em todo o território nacional – os princípios, os objetivos, as diretrizes e os ideais dessa nova política pública – contida na Constituição Federal e desenvolvida na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). Agora utilizaremos o conceito gramsciano de processo de estratégia de hegemonia (PEH) para analisar as práticas e os saberes utilizados nos estabelecimentos encarregados de colocar em prática a instituição Assistência Social (BENELLI; COSTA-ROSA, 2012) como política pública e também os discursos que legitimam essas práticas e saberes. No PEH, as instituições assumem um papel essencial. Segundo Luz (1986), a hegemonia de uma classe social sobre a outra está centrada em instituições. Conceituaremos instituição da perspectiva da análise institucional, apoiando-nos também em algumas contribuições da psicanálise de Freud e Lacan e nas elaborações de Costa-Rosa (1987, 1999, 2000, 2011b, 2011a, 2013a). O último autor considera a instituição como um conjunto de saberes e práticas (formas de intervenção normalizadoras ou ações intercessoras singularizantes) articulados por um discurso lacunar, mas que pretende ser totalizante, sem falhas ou brechas; o discurso sempre diz muito mais do que aquilo que se pretende dizer, pois traz um dizer para além do dito (LACAN, 1999).
A história das instituições é parte da história das civilizações na medida em que são cristalizações de invenções humanas, ocorridas em um determinado tempo histórico. A história produzida e contada pelas instituições é a história do vencedor, ou seja, do mais forte, daquele que detém o poder; portanto, no bojo da luta de classes, é a história do polo social dominante. Essa história contém uma parte recalcada – velada, mas que insiste em se atualizar –, demonstrando que sempre houve resistência e que, se existe a história do vencedor, existe também a história do polo dominado e a história de sua luta e resistência. Muitas atividades humanas são atravessadas por instituições; o contrário também é verdadeiro, o conjunto de instituições forma uma rede que viabiliza a hegemonia, aliás, a dominação de uma classe sobre toda a sociedade.
A formação econômica e social é formada por um precipitado de instituições, um conjunto. De acordo com Baremblitt (2002), a sociedade pode ser considerada como um
tecido de instituições que se atravessam e se articulam na regulação e organização da produção e reprodução das relações humanas, ou seja, são produtoras e reprodutoras de subjetividade.
As instituições são lógicas [...], segundo a forma e o grau de formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão enunciadas de maneira manifesta, podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. [...] Significam a regulação de uma atividade humana, caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela, esclarecendo o que deve ser, o que está prescrito, e o que não deve ser, isto é, o que está proscrito, assim como o que é indiferente. (ibidem, p. 25-26)
Conforme essa conceituação, podemos considerar como instituições: a família, a linguagem, a saúde, a educação, a religião, a justiça, dentre outras, e, seguindo essa mesma lógica, também a Assistência Social, uma vez que historicamente, mesmo antes de se tornar uma política pública, tem produzido modos de ofertar assistência às populações empobrecidas e em desvantagem social.
As instituições são lógicas de organização e de funcionamento, de algo que a sociedade necessita; elas são um recorte da demanda social, podem evoluir a ponto de se materializar em um aparato institucional. Por exemplo: no caso da assistência social, no paradigma do sujeito de direitos, proposto neste trabalho, a organização seria composta pelo SUAS, que é constituído por partes menores, pelos estabelecimentos de assistência social, como o CRAS, CREAS, Centro Pop e outros40; e pelos dispositivos, isto é, os conselhos do
idoso, da assistência social, da criança e do adolescente, da pessoa com deficiência e o tutelar. Tanto nos estabelecimentos quanto nos dispositivos, há um conjunto de práticas, executadas por atores institucionais: os trabalhadores da assistência social e as pessoas que a buscam. Por sua vez, os estabelecimentos são constituídos por (equipamentos) prédios, instalações, carros, mesas, bancos, aparelhos, material de consumo e outros que são utilizados pelos atores institucionais.
Costa-Rosa (1987) conceitua a instituição como conjunto de saberes e práticas articulados por um discurso de conotações ideológicas que se apresenta como competente em relação ao que se enuncia verdadeiro, completo, sem lacunas e absoluto. Esconde suas contradições internas, que são inerentes a todo o discurso, já que todo o discurso tem um enunciado ideológico e lacunar.
40 Dentre esses outros, constam a entidades assistenciais privadas (ONG’s), os abrigos, as casas de acolhida, casas de passagem, repúblicas, secretarias de assistência social (municipal, estadual e federal), centros de convivência e entidades socioeducativas que atendem crianças e adolescentes.
Se é verdade que todas as instituições reproduzem as regras de poder da sociedade, também é verdade que encontramos sempre, sob as mais variadas fisionomias, as formas de contraposição a essas regras. Esta tensão dialética encontra suporte justamente no fato de que as instituições são a cristalização dos modos de poder das formas sociais de produção, ou seja, nelas se atualizam – de formas que variam de claras a até veladas – esses mesmos modos de poder. (ibidem, p. 42)
Ainda de acordo com Costa-Rosa (2013a), podemos pensar a instituição tomando como parâmetros os três momentos lógicos do conceito formulados por Hegel: o discurso como a universalidade, as práticas e os saberes como a particularidade e o confronto entre esses dois como a singularidade, por meio do qual verificaremos as contradições da instituição. A análise das contradições permite avançar na direção e na construção de práticas e saberes alternativos, portanto, os trabalhadores e a sua práxis de trabalho assumem extrema importância na produção de mudanças.
O discurso é a positividade, pois afirma um conjunto de funções tomadas como positivas; as práticas e os saberes podem ser considerados como a negatividade, pois negam o que foi enunciado no discurso. Portanto, podemos considerar e delimitar essas duas funções na Assistência Social. A positiva, enunciada no discurso oficial da instituição, geralmente, como os motivos que justificam sua existência – atender as pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social, apresentar meios de superar essas situações, proteger socialmente as pessoas, garantir acesso aos direitos sociais, resolver problemas, reinserir essas pessoas na família, na comunidade e no mercado de trabalho. A função negativa pode ser subdividida em três modalidades ou subfunções: a (re)produção de excedentes e lucro (mais valia) para serem acumulados às custas da classe trabalhadora, a (re)produção das relações sociais dominantes e a (re)criação de outras formas de relações sociais, alternativas à dominação41 (idem, 2000).
A (re)produção de excedentes e lucro pode ocorrer de forma direta, no caso das empresas privadas, e indireta, nos caso dos estabelecimentos de assistência social públicos, por exemplo: na compra de materiais para manutenção e utilização dentro da instituição (estabelecimentos, equipamentos e dispositivos) e na realização de convênios que as instituições prestadoras de serviços públicos (entidades assistenciais e organizações sociais) fazem com o Estado; de forma mais indireta, também podemos considerar a preparação e a introdução de sua clientela no consumo e no mercado de trabalho, já que a entrada no mercado de trabalho relaciona-se à produção de lucro.
41 Ao nosso ver, a criação ou construção de formas alternativas à dominação nas instituições e em seus estabelecimentos tem muita importância para a nossa análise e proposta de trabalho.
Algumas figuras públicas (secretários de assistência, prefeitos, presidentes, vereadores e outros) podem utilizar os estabelecimentos de assistência social e de garantia de direitos e de proteção social para vinculá-los à sua pessoa pública e, com isso, produzir status político e social. Ou seja, podem utilizar o maquinário do Estado, estabelecimentos, programas, benefícios e projetos, para aumentar sua popularidade e conseguir mais votos, usando a política pública em proveito próprio com a justificativa de atender a população.
Segunda subfunção do negativo da instituição: (re)produzir as relações sociais dominantes, por meio do exercício de relações verticais e hierarquizadas, nas quais um grupo majoritário é subordinado a um pequeno grupo que detém o poder e o saber (por ter os meios de produção). Estando em posse dos meios de produção e do conhecimento sobre a produção, utiliza-se, de cima para baixo, um conjunto de equipamentos de controle e disciplinamento. De certo modo, essa subfunção é a parte responsável por manter a instituição funcionando e se reproduzindo, podendo também ser considerada como a parte instituída e cristalizada da instituição. Essas operações – artimanhas instituídas – mantêm o status estabelecido e produzem subjetividades serializadas ou aprisionadas, bem como capitalistas (GUATTARI; ROLNIK, 1996).
Por fim, a instituição tem uma dimensão (re)produtiva instituinte que favorece a criação e a recriação de outras formas de relações sociais, diferentes das já instituídas e repetitivas, as quais podem ser novas, mas, com o tempo, irão se instituir novamente. Ou seja, podem se encaminhar pelo menos para duas direções diferentes: produzir novas formas de dominação, controle e disciplina diferentes das já instituídas ou produzir relações sociais horizontais e intersubjetivas, produtoras de subjetividade singularizada que pode ser apropriada por todos os envolvidos, principalmente pelo polo subordinado (sujeitos ou população) (COSTA-ROSA, 2000). Esse terceiro modo de produção das instituições leva-nos a pensar na possibilidade de um paradigma emergente e alternativo.
Segundo Luz (1986):
Uma análise histórica e dialética das instituições pode vê-las mais facilmente no seu aspecto de movimento, de luta, na medida mesmo em que as reconhece como parte de uma estratégia de hegemonia, portanto, conjunturalmente mutável. Mutável face à correlação de forças que se alteram historicamente e às respostas do setor socialmente subordinado (ibidem. p. 27).
Considerando essas idéias, estamos propondo uma leitura teórico-técnica e ético- política da instituição Assistência Social e de seus estabelecimentos. Isto é, faremos uma análise conjuntural e estrutural, que desvele as relações de poder no interior dos estabelecimentos institucionais em suas relações com o social (DONZELOT, 2001) ou com a
questão social (CASTEL, 2005, 2009) e com a produção e reprodução de relações sociais. Ou melhor, uma análise que interrogue o papel das instituições na reprodução das relações sociais de dominação e abra espaço para ações que possibilitem resistir e construir novas saídas, pegando carona no curso instituinte aberto pelas concessões táticas e pelas reivindicações por acesso aos direitos sociais.
Nesta análise, pretendemos observar o que não é revelado nas instituições, mas é constitutivo e essencial para o seu funcionamento. Buscamos analisar, além das normas e regras de funcionamento, também sua estrutura e suas relações com o poder hegemônico. Nossa hipótese é de que uma crítica feita do seio dos estabelecimentos possa assumir outra constelação de alternativas e de resistência ao instituído social opressor. O desvelar dessas contradições abre brechas que podem ser preenchidas pelo polo subordinado, com base em estratégias micropolíticas, como a do dispositivo intercessor.
A instituição da Assistência Social pode funcionar como aparelho de estado (AE) ou como AIE, acumulando funções repressivas e ideológicas, mesmo que seus estabelecimentos não sejam criados diretamente com essa finalidade, como o hospital, a fábrica, o escritório e outros que não tenham sido criados diretamente com essas funções, mas as desempenham com destreza e perfeição, podendo ser mais eficazes do que as próprias instituições designadas para isso.
A política de assistência social acompanha outras concessões táticas42 promovidas
pelo Estado, como a das áreas da Saúde e da Previdência social, essas últimas concedidas por força de um processo de lutas políticas e reivindicação dos movimentos sociais, de trabalhadores, de “usuários” e de outras instituições. O que se observa na história das concessões táticas é que elas são concedidas como uma estratégia para acalmar os ânimos da população, muitas vezes não apresentam similaridade qualquer com o que foi reivindicado, e, quando são concedidas pelo Estado (representante do polo dominante), podem ser retiradas em outro momento ou de outro setor.
Este trabalho vai ao encontro de práticas alternativas ao discurso social dominante. A análise corresponde a uma tentativa de refletir sobre a realidade das instituições por outro ângulo, possível; ou melhor, refletir sobre uma construção de alternativas que seguem na
42 A concessão tática escamoteia algo que Castel (2005) denominou como o princípio da satisfação adiada: o que foi pedido é minimamente dado, não do jeito que foi pedido, quem recebeu espera que no futuro receba o restante do que lhe foi prometido. Deste modo “as insatisfações e frustrações são vividas como provisórias. Amanhã será melhor do que hoje” (ibidem, p. 38). No entanto, com a nova configuração estrutural do capital, as chances de isso acontecer têm diminuído a cada geração, aliás, a cada ano. “Uma grande parte da classe operária, privada da possibilidade de dominar o seu futuro voltou a viver o ‘dia a dia’. Até os anos 1970, um operário podia dizer que sua situação iria melhorar e aquilo que ele não poderia obter por si só seus filhos um dia obteriam” (GAULEJAC, 2007, p. 211).
contramão de análises funcionalistas ou fixas que se pretendem tudo conhecer, até que num momento toda a realidade seja conhecida.