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AraĢtırmaya Katılanların Demografik ve Temel Özellikleri

Belgede YÜKSEK LĠSANS TEZĠ (sayfa 110-0)

1. BÖLÜM

3.4. AraĢtırma Sonuçlarının Yorumlanması

3.3.1. AraĢtırmaya Katılanların Demografik ve Temel Özellikleri

Tendo delineado a formação social no Brasil, destacam-se seus elementos mais importantes para a construção de uma concepção do desenvolvimento das forças produtivas, da estrutura política fincada em práticas do privilégio, e do favor. Atenta-se ao fato de que o Brasil é uma das colônias das quais Portugal drena as riquezas, um desenvolvimento econômico, social e político que visa atender aos interesses, ora da Coroa, ora dos grandes latifundiários aqui instalados.

Tais particularidades reverberam na formação da cultura jurídica no Brasil, para legitimar e legalizar práticas de interesse da Coroa e dos grandes proprietários de terras, os sujeitos históricos que procuram manter seus privilégios, senhores de engenho, fazendeiros de café, negociantes, coronéis, o núcleo autocrata brasileiro. A história apresenta-se como uma cadeia singular de particularidades que se ligam

dinamicamente aos fatores que associam povos distintos através de padrões de civilização comuns, outorgados pela universalidade do capitalismo.

Importante situar que o esboço histórico do Direito no Brasil é apenas de ordem explicativa e que visa marcar e articular ao processo histórico até aqui explanado. Certamente tal tarefa é demasiado difícil, pois se trata de uma assistente social, percorrendo a trajetória da história do Direito, mas de extrema relevância para posterior compreensão do contexto no qual o Serviço Social se estabelece no judiciário, o qual apresenta ranços passados que são desafios cotidianos a uma intervenção alinhada ao Projeto Ético-político do Serviço Social.

Marca-se esta rota de estudo baseando-se, primordialmente, em Antonio Carlos Wolkmer e Dalmo de Abreu Dallari, juristas alinhados a uma perspectiva crítica, e em Silvia Alapanian que já enveredara, como a presente pesquisadora, pelas linhas da pesquisa do Serviço Social e o Poder Judiciário.

Ainda que a formação social do Brasil tenha tido influência de três matrizes étnicas, a negra, a indígena e a Portuguesa, somente a última constitui a base para formação da cultura jurídica no país e sua predominância quanto "à origem do Direito Nacional, pois os nativos não conseguem impor seus "mores" e suas leis, participando na humilde condição de objeto do direito real" (WOLKMER, 2014, p. 50). A forma do Direito sendo a forma do capitalismo, parece muito elementar que as outras duas matrizes étnicas não tinham tido participação profícua na constituição de um Direito nacional, haja vista o objetivo maior de assegurar as terras brasileiras e a posse dos negros como interesses primordiais da Coroa Portuguesa.

Tendo como norte a constituição de um Direito que vise garantir os interesses da Coroa, que letigime o liberal-escravismo-paternalista e articulando com a construção histórica da formação social no Brasil, esboçada no item anterior do presente estudo, é possível inferir que a formação de uma cultura jurídica no Brasil equipara-se a formação de uma intelectualidade e de uma literatura. No dizer de Roberto Schwarz (2012, p.53): "Eis o nosso problema que torna: importávamos um molde, cujo efeito involuntário é de dar às ideias estatuto e horizonte - timbre, energia, crise - em desacordo com o que a vida brasileira lhes conferia".

Assim como se fez na literatura, nos costumes da vida social, na política, fez- se na formação das instituições jurídicas, na cultura jurídica e no próprio Direito brasileiro, a importação de um Direito lusitano como "expressão maior do avanço legislativo da Península Ibérica", que é por sua vez, a expressão do que de mais

avançado se produz na cultura jurídica na Europa Ocidental, ao longo dos séculos XVII e XVIII. É a necessidade do desenvolvimento econômico capitalista, a defesa de interesses liberais e do Estado centralizado que permitem o desenvolvimento de uma legislação, a formação do Direito à partir da vida organizada, enquanto manifestação de um dado modo de produção e das relações sociais oriundas deste, ou seja, provinha de necessidades humanas, "assim é um direito mais vivo e real" (WOLKMER, 2014, 29).

É um Direito que assim como o Estado, serve a interesses da classe burguesa, legitima o privilégio, um modo de produção que, concomitantemente, produz riqueza e pobreza, que tem como cerne a desigualdade. Assim, é um Direito que como o Estado, depende da manutenção da desigualdade. Regula as relações entre os desiguais, assumindo uma postura "universal" - a lei é para todos - como nos aponta Florestam Fernandes: "A ordem legal e política de uma sociedade de classes, para ter validade e para possuir alguma utilidade instrumental (mesmo que para as classes burguesas ou somente para as classes dominantes), precisar ser universal" (2005, p.402).

Vê-se, então, em terras brasileiras, a transplantação de um Direito que corresponde ao que existe de mais elaborado para época, e que responde bem ao modo de vida social, ao ser social europeu. Seu desenvolvimento, no Brasil, é permeado de uma forma no dizer de Wolkmer - alienígena - mas que, assim como o capitalismo, se amoldará aos interesses dos colonizadores e da aristocracia brasileira, fazendo muito bem uso de nossas particularidades histórico-políticas, tais como o patrimonialismo, o clientelismo, o paternalismo, a tradição conservadora mascarada pela ideologia liberal, a ideologia do favor e a burocracia, raízes da legalidade brasileira, tanto na cultura, quanto nas instituições jurídicas:

[...] o Direito positivo europeu - o econômico (modo de produção), o social (formação dos atores), o ideológico (representação justificadora de mundo) e o político (estrutura de poder unitário) que constituem momentos organicamente interligados entre si, não podendo ser apreciados separadamente enquanto totalidades completas. Assim, as raízes e a evolução das instituições jurídicas só poderão ser realmente compreendidas na dinâmica das contradições e do processo de relações recíprocas quer sob o reflexo de um passado colonial, patrimonialista, escravocrata, quer sob o impacto presente da dominação social de uma elite agrária, de hegemonia ideológica de um liberalismo conservador e da submissão econômica aos Estados centrais do capitalismo avançado (WOLKMER, 2014, p. 49).

A importação de modelos para as instituições de valores sociais no Brasil, representam, em alguns aspectos, benefícios da acumulação prévia de experiência, por exemplo, a expansão do comércio sob a influência inglesa. Contudo, em vários outros setores da vida social, via de regra não atende às necessidades reais do processo de desenvolvimento da colônia e favorece o poder das classes dominantes o que no dizer de Florestam Fernandes:

[...] em outras, os modelos importados ficaram sujeitos a redefinições e a adaptações mais ou menos precárias e deformadoras (foi o que aconteceu, por exemplo, com as instituições jurídicas e políticas, que deveriam moldar uma ordem legal democrática, mas se converteram, basicamente, em instrumentos da burocratização da dominação patrimonialista no nível estamental [...] (2005, p.87).

Um marco importante, no que se refere à instrumentação da lei na Colônia, é marcado por Wolkmer em relação às Capitanias Hereditárias, que indicam a chefia exercida por um capitão e a governança do tipo hereditária, somente podendo ser transmitida por sucessão, herança no padrão burguês de transmissão, ou seja, filho legitimo, primogênito, do sexo masculino. Trata-se, sobretudo, de preservação e transmissão dos privilégios de classe. Tal período tem sua base "legal" nas Cartas de Doação e pelos Forais.

[...] De fato o Direito vigente no Brasil Colônia foi transferência da legislação portuguesa contida nas compilações de leis e costumes conhecidos como Ordenações Reais, que englobavam as Ordenações Afonsinas (1446), as Ordenações Manuelitas (1521), e as Ordenações Filipinas (1603). Em geral, a legislação privada comum, fundada nessas Ordenações do Reino, era aplicada sem qualquer alteração em todo o território nacional (2014, p.50).

É possível inferir, pelo marco histórico acima mencionado, que o Direito engendrado na Colônia não visa atender a maior parte da população, às necessidades do povo que em terras brasileiras se forma. O contexto, até aqui descrito, é de uma sociedade latifundiária e escravista que, por meio de modos de ser e pensar alienígenas vão dando forma a uma estrutura jurídica, cujo sentido de existir e também de se desenvolver, refere-se a proteção dos interesses da Coroa, e manutenção do poder dos fazendeiros proprietários de terras.

Na verdade, para além desse Direito Oficial, importa destacar a existência de uma cultura legal, "baseada no Direito consuetudinário, porém, que tinha pouco a ver com a estrutura jurídica formal do governo. Reconhece-se,

ademais, em toda esta situação, uma espécie de tradição jurídica de cunho pluralista, ou seja, a par do modelo jurídico vigente e colonizador, a tolerância deste e sua convivência com certas práticas locais flexíveis, paralelas e casuísticas. Ora, está prevalência de direitos particulares independente do Direito Oficial português propiciava o desenvolvimento de um "Direito próprio colonial" esporadicamente distinto ou mesmo antagônico ao Direito e à Justiça estadista da Metrópole. Defende-se a existência de um "Direito Colonial brasileiro", ou seja, a "autonomia de um direito (que) não decorria principalmente da existência de leis próprias, mas muito mais, da capacidade local de preencher os espaços jurídicos de abertura ou indeterminação existentes na própria estrutura do direito comum (WOLKMER, 2014, p.51).

As particularidades da legalidade no Brasil amoldam-se a uma sociabilidade que, no que se refere à cultura jurídica é permeada por um processo normativo de base lusitana, desconsiderando as práticas nativas, tanto de índios quanto dos negros, marginalizando-as, mas permitindo as práticas do que se denominou “jeitinho brasileiro”, tais como a política dos privilégios dos compadrios, do favor, a lei dos coronéis e grandes proprietários de terra, ou seja, uma pluralidade de práticas jurídicas que se contrapõem a um direito formal e a um direito informal. Trata-se, sobremaneira, de um pluralismo jurídico comunitário "localizado e propagado através das ações legais associativas no interior dos antigos "quilombos" de negros e nas reduções indígenas sob orientação jesuítica" (WOLKMER, 2014, p.55). Há uma legalidade oficial imposta pelos colonizadores e uma legalidade dos povos originários, como resultado de uma cultura aceita e praticada por todos os habitantes. Na mesma direção das demais contradições, tão características de nossa formação, o Direito Estatal Brasileiro é uma de suas mais expressivas determinações.

Este Direito Estatal Brasileiro, que se forma a partir dos interesses da colônia e da classe dominante, vem respaldado por legalidade que, entre outras coisas, legitima a escravidão, os violentos castigos infringidos tanto aos negros, quanto aos índios, numa intencionalidade que visa à coerção, à subordinação desses povos ao trabalho forçado, à discriminação de sua cultura, à imposição de uma cultura religiosa, moral e cristã para a institucionalização do controle. Mas, em todo o projeto de dominação há rebeldia.

Ainda que durante o século XVII, alguns dados históricos (Darcy Ribeiro - O povo brasileiro) contabilizam em média quarenta mil negros africanos, por ano adentrando, o Brasil, com vidas frágeis diante de condições desumanas de trabalho e moradia, o negro é substituído pelo tráfico negreiro, como qualquer mercadoria,

em ritmo acelerado e de produção. Sua forma de rebeldia é fugir para as comunidades formadas por negros rebeldes e resistentes a tal estado de coisas, as comunidades quilombolas são a única possibilidade real de liberdade. Mesmo após a abolição, as condições de trabalho assalariado são péssimas, normalmente fundamentadas nas relações de favor, vivendo apenas para sua subsistência, sempre de forma marginal. Sua condição de dependência muito perdura na história do Brasil, e o Direito no Brasil só começa a se ocupar desta população nos últimos 20 anos do século XVII (WOLKMER, 2014, p.61).

As instâncias jurisdicionais e a administração da Justiça vão, paulatinamente, desenvolvendo um aparato de normas e jurisdições que responde às demandas da Coroa e aos grandes proprietários de terra. Pode-se apontar como uma primeira jurisdição as Capitanias Hereditárias, cujos donatários - proprietários de terras tinham o poder de nomear tabeliães, escrivães, assumindo, concomitantemente, as funções de administrador, chefe militar e juiz.

Wolkmer (2014) aponta que os cargos de governador-geral, ouvidor-geral e de provedor-mor da fazenda são os mais importantes no Brasil Colônia. A criação de uma justiça colonial e a normatização via Cartas de Doação, diminui, em parte, os poderes dos donatários das capitanias, dá mais independência à administração política e ao modo de se "fazer justiça", criando uma pequena burocracia e possibilitando a formação de um grupo de agentes profissionais.

A estrutura jurídica que vai, necessariamente, sendo formada no Brasil, principalmente pela expansão dos centros urbanos, segue as mesmas determinações e estruturas da justiça portuguesa, assim como os representantes ou os profissionais que atuam especificamente nas jurisdições são, em sua grande maioria, portugueses, ou interessados diretamente num alinhamento das normas aos interesses particulares. Vale lembrar que "vinte e nove vírgula quatro por cento dos magistrados eram nascidos no Brasil, com predomínio casual ou não da região mais "nova" a do sudoeste minerador. Na Bahia, entre 1609 e 1759, dos 168 desembargadores apenas 9 eram brasileiros" (WOLKMER, 2014, p.61).

Deste modo, a estrutura jurídica assim se organiza:

Estrutura Jurídica Brasil Colônia - O crescimento das cidades e da população aumentou os conflitos determinando o alargamento do quadro de funcionários e autoridades da justiça. A organização judiciária, reproduzindo na verdade a estrutura portuguesa, apresentava uma primeira instância, formada por juízes singulares que eram distribuídos nas categorias de

ouvidores, juízes ordinários (leigos, eleitos pelo povo e pela Câmara Municipal, sendo o processo oral e sumaríssimo) e juízes especiais. Por sua vez, estes se desdobravam em juízes de vintena, juízes de fora, juízes de orfãos, juízes de sesmarias, etc. A segunda instância composta de tribunais colegiados, agrupava os chamados Tribunais de Relação (inclui-se também Desembargo do Paço, Conselho da Fazenda, Mesa da Consciência e Ordem), que apreciavam os recursos ou embargos. Seus membros designavam-se desembargadores e suas decisões, acórdãos. Já o Tribunal de Justiça Superior, de terceira instância, com sede na Metrópole, era representado pela Casa da Suplicação, uma espécie de tribunal de apelação (WOLKMER, 2014, p.63).

Resumidamente, tem-se uma administração jurídica que segue os preceitos do mandonismo rural, pois sua razão de ser é fazer valer as formas comerciais, cíveis, criminais que corroborem a forma de pensar dos grandes proprietários de terras e da Coroa. É uma justiça privatista, morosa, cuja principal característica dos funcionários é a sua venalidade, sem eficácia nem amplidão aos contemplados pela justiça mas, sim, centralização política e de interesses, "assim como método, atribui- se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio, etc." (Schwarz, 2012, p.19). E que, sobretudo,

Em consequência, a ordem legal perdia sua eficácia onde ou quando colidisse com os interesses gerais dos estamentos senhoriais e sua importância para a integração jurídico-política da sociedade nacional passou a depender do modo pelo qual aqueles interesses filtravam ou correspondiam às formas de poder político instituídas legalmente (FERNANDES, 2005, p.64).

A partir da Independência do Brasil que a formação da cultura jurídica nacional entra em efervescência e exacerbam-se suas contradições. Parte-se, primeiramente, do fato histórico de um processo para a Independência que visava atender os interesses da burguesia e o qual o povo não teve participação. Sua principal contradição é preconizar as ideias do liberalismo europeu, enquanto movimento de derrubada do estado de coisas, onde um poder absoluto central legitima suas arbitrariedades, é preciso um Estado laico, de política secular, menor interferência do Estado nos interesses dos indivíduos, etc. Contudo, o liberalismo à brasileira é delineado para garantir os interesses das oligarquias, dos grandes proprietários de terra e vincula o clientelismo à Monarquia Imperial.

A tentativa é de conciliar o inconciliável, a prática do favor, do clientelismo e a cooptação, o patrimonialismo e o liberalismo, a escravidão que constitui a principal força de produção na época. Como ser um país "liberal", sendo de fato uma

sociedade de privilégios, e sem formar uma sociedade de competição efetiva. É nesta complexidade que se "introduz uma cultura jurídico-institucional marcadamente formalista, retórica e ornamental de traço "jurisdicista"” (WOLKMER, 2014, p. 82).

Tem-se o "estatuto colonial condenado e superado como estado jurídico- político" (FERNANDES, 2005, p.51) cuja principal característica em nossa cultura jurídica é o bacharelismo liberal, como resultado de um individualismo político e de um formalismo legalista moldado ideologicamente.

Neste sentido, Wolkmer (2014, p.84) circunscreve dois fatores preponderantes para a formação de uma cultura jurídica no Brasil:

De fato a vertente juridicista do liberalismo brasileiro seria determinante na construção da ordem político-jurídico nacional. Numa análise mais acurada constata-se que dois fatores foram responsáveis pela edificação da cultura jurídica nacional ao longo de século XIX. Primeiramente, a criação dos cursos jurídicos e a consequente formação de uma elite jurídica própria, integralmente adequada à realidade do Brasil independente. em segundo a elaboração de um notável arcabouço jurídico no Império: uma constituição, vários códigos e leis, etc.

O bacharelismo liberal, enquanto principal característica da cultura jurídica no Brasil, torna-se a principal mediação entre os interesses privados e os interesses públicos, articulador e possibilitador de alianças para a sustentação da administração política entre o Judiciário e o Legislativo. As origens desse bacharelismo, há que se esclarecer, é de um grupo de bacharéis oriundos da estrutura agrário-escravista, filhos, agregados, protegidos dos grandes fazendeiros. Este grupo de profissionais liberais passa a ser o representante, tanto de oposições, quanto do poder público.

Sendo os bacharéis oriundos dessa camada da sociedade, a burguesia não pode ser de outro modo que não a impregnação em nossas instituições político- jurídicas, por meio dos operadores do Direito, um dos segmentos privilegiados da sociedade, onde a nossa herança conservadora com uma roupagem liberal se faz- se estruturar. Novamente, há a determinação marcante de nossa formação histórica: a conciliação de uma tradição patrimonialista sociopolítica autoritária (de inspiração lusitana) com uma cultura jurídico liberal-burguesa (de inspiração francesa, inglesa e norte-americana).

Sendo, ainda na contemporaneidade, o bacharel um dos mais importantes profissionais do Poder Judiciário no Brasil, há que se compreender o perfil destes profissionais, que se mantém no século XXI:

Além disso, há de se fazer menção ao perfil dos bacharéis de Direito mediante alguns traços particulares e inconfundíveis. Ninguém melhor do que eles para usar e abusar do uso incontinente do palavreado pomposo, sofisticado e ritualístico. Não se pode deixar de chamar a atenção para o divórcio entre os reclamos mais imediatos das camadas populares do campo e das cidades e o proselitismo acrítico dos profissionais da lei que, valendo-se de um intelectualismo alienígeno, inspirado em princípios advindos da cultura inglesa, francesa ou alemã, ocultavam, sob o manto da neutralidade e da moderação política, a institucionalidade de um espaço marcado por privilégios econômicos e profundas desigualdades sociais. Na verdade o perfil do bacharel juridicista se constroi numa tradição pontilhada pela adesão ao conhecimento ornamental e ao cultivo da erudição linguistica. Essa postura, treinada no mais acabado formalismo retórico, soube reproduzir a primazia da segurança, da ordem e das liberdade individuais sobre qualquer outro principio (WOLKMER, 2014, p. 105).

Neste breve contexto histórico, faz-se um perfil da advocacia no Brasil, cujas raízes estão firmes e fortes. A principal característica continua sendo a defesa dos interesses individuais ou públicos, pois se trata de um grupo de profissionais que, não raro, têm na venalidade seu principal traço constituinte. Acessam a justiça de modo mais rápido, eficiente e têm os seus interesses garantidos, aqueles que podem pagar bons e caros advogados. A ritualística da advocacia no Brasil denota uma tradição ou um modo de ser "advogado" que se distancia das necessidades da vida cotidiana, que não consegue fazer, na maioria das vezes, que as engrenagens do sistema judiciário girem na mesma velocidade das transformações sociais.

Importante ressaltar, traçando uma relação direta com a dinâmica social tão viva no Brasil, a dominação e a subalternização têm uso do termo "doutor" como exigência nos espaços onde se pretende fazer justiça neste país. Remete-se a um artigo da jornalista Eliane Brum (2012): “Doutor advogado e doutor médico até

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